sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Pilote, Junho 1974

Assim, já no Verão de 1974, quando vi esta revista exposta na mesma montra da Bertrand onde costumava ir ver as novidades, nem hesitei porque era demasiado apelativa. A mão que aparece a desenhar na pedra da calçada poderia muito bem ser de Gir porque o desenho é do mesmo autor. 
E no interior aparecia uma página com imagens alusivas a livros de ficção científica, desenhada por Gir, mas sem assinatura explícita porque poderia muito bem ser Moebius. Curiosamente, a revista nunca mais publicou nenhuma história de Gir/Moebius, para além de ilustrações que aqui se mostram, designadamente no número seguinte, sempre em recensão crítica a obras de ficção científica e em conjunto com Druillet. Para tal seria preciso esperar mais uns meses, até ao início de 1975 para assistir ao aparecimento de Métal Hurlant. Curiosamente, os dois, Jean Giraud/Moebius e Druillet fariam parte do núcleo fundador da revista.
Contudo, a Pilote mensal, com uma arrumação gráfica excelente e  desenhos variados apenas fazia querer esperar pelo número seguinte.  O que aconteceu durante algum tempo.


Pilote e a bd fantástica


Em consequência destas experiências no início de 1974 reparei na revista Pilote em formato inesperado ( maior que uma folha A4) que estava afixada no escaparate da livraria Bertrand. Era a primeira vez que via a revista que já conhecia por causa do Tintin a referir.
O preço era bastante caro para a época- 27$50, quando o Tintin nacional custava  10$00 e o belga 15$00. Em breve, em Abril de 1974, o Tintin belga passaria a custar 22$50 e dali a uns meses, no final do ano de 1974 quando deixei de o comprar,  25$00.
Mesmo assim comprei o nº 745, de 14.2.1974 à espera de ver desenhos diferentes do Tintin e descobri Fred e J.C. Forest ( que já conhecia da Realidade de 71). Além disso, a revista trazia textos e imagens de outros assuntos, com ilustrações de caricaturistas e desenhadores como Gourmelin. Graficamente era mais apelativa e lá fui comprando durante algumas semanas, sempre que podia. Até Junho de 74 comprei meia dúzia de números, incluindo um especificamente devotado à S.F., ficção científica com uma ilustração de Moebius/Gir, a primeira vez que via tal coisa.

Falhei os nºs 746 e 747, mas quando vi esta imagem de Druillet, da historieta Yragael ou la fin des temps, não resisti e voltei a comprar. O que fiz novamente no número seguinte por causa do desenho de Gir/Moebius e assim sucessivamente os quatro números seguintes à espera de ver novamente os desenhos do mestre recentemente desaparecido ( Jean Giraud morreu este ano).


Como não vi depois disso mais nenhum desenho, e a revista era relativamente cara, deixei de comprar no nº 753, sendo certo que a periodicidade semanal terminou com o nº760 de 30 de Maio de 1974.
Com data de 1 de Junho saiu a nova Pilote, renovada, mensal e de formato mais pequeno. O primeiro número desta nova série era uma pequena maravilha, apesar de custar quase o dobro ( 45$00). A suivre, portanto.

Brasil 73 e outras músicas

Em 1973 a música popular brasileira passava no rádio com força de moda. Em Abril desse ano publicou-se o disco dos Secos & Molhados, com o mesmo nome e as músicas do lp passavam no rádio com frequência, destacando-se Rosa de Hiroshima e Patrão nosso de cada dia.


Imagens do Cinéfilo de 7.4.74

A par desse grupo, cujo componente João Ricardo era português de Ponte de Lima, o rádio passava então uma canção fenomenal pelo ritmo compassado de viola acústica e variação simples em contraponto de instrumento de sopro, com uma voz que fazia acompanhar a história contada: Ouro de Tolo, de Raul Seixas.

 Em matéria de audições de música estrangeira,  no rádio, o tema da altura era dos Chicago, com Feeling Stronger everyday, do lp VI e que meses mais tarde se complementaria com o VII. O poster do VI, na imagem, em fundo, tinha saído no jornal  Novo Musicalíssimo de 9.Novembro 1973 ( dirigido por Vítor Direito e com redacção de Bernardo de Brito e Cunha) e reproduz o interior da capa do LP.
Mais que os temas dos Procol Harum, de Grande Hotel, ou de Elton John, de Goodbye yellow brick road. Ou então do single dos Led Zeppelin, Over the hills and far away. 1973, musicalmente foi um ano de transição no gosto sobre a música rock. Um ano de descoberta a que se seguiu o de 1974, verdadeiramente de fascínio.


Porém, um dos temas que mais me ficou no ouvido nessa época nem sequer  o identificara. Só muitos anos mais tarde, ao ouvir o LP Holland dos Beach Boys me dei conta de que se tratava de California Saga.


Ficção fantástica em banda desenhada

A bd de ficção fantástica em Fevereiro de 1972 quando comecei a ler o Tintin na edição portuguesa já era conhecida por outra via. A revista brasileira Realidade, uma espécie de Life com fotos e reportagens variadas sobre os temas mais diversos tinha já mostrado algo que nunca tinha visto antes.
Em Dezembro de 1971 essa revista que então comprei por 15$00,  trazia algumas páginas sobre a banda desenhada americana ( os comics), francesa e até brasileira a propósito de uma reportagem sobre a VII exposição de banda desenhada de Lucca, realizada em Novembro desse ano.

Foi aí que vi os desenhos de Druillet, na história de Lone Sloane e também de Forest, com Barbarella, de Hugo Pratt e Corto Maltese e os de Burne Hogarth que me marcaram pela perfeição de desenho da sére Tarzan que costumava ler em livrinhos de banda desenhada mais foleiros como o Falcão ou o Condor Popular.



quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Para além do real- a ficção científica


A imagem acima, da autoria de Giger, publicada na revista francesa de cinema Première, de Abril de 1983, em publicidade ao Le Livre de Poche, mostra o fascínio do real ficcionado na banda desenhada, literatura e cinema que começou a atingir-me em 1974 e que tinha raízes provavelmente neste livro: Le Matin des Magiciens, de Louis Pawels e Jacques Bergier, comprado à cobrança, à Bertrand, em 7.12.1973 ( com factura e tudo). O desenho da capa do livro de bolso da Folio é de Gourmelin, também colaborador na Pilote. E como é que em 1973 descobri Bergier? Ainda estou à procura de saber...as referências. A revista Planète de que terei visto uma referência noutro sítio é uma pista,  mas não tenho a certeza. Talvez nos catálogos da própria Bertrand que nessa altura traziam muitas referências a livros de fantástico, com capas pretas e letras douradas, de Robert Charroux e outros. O livro, esse devorei-o, como se costuma dizer porque ia realmente para além do real.


 Giger tinha sido o autor da capa de um disco dos Emerson Lake and Palmer, Brain Salad Surgery, de 1973 e inspirou depois, com as suas ilustrações, cenários de filmes como por exemplo a série Alien, cujo último produto estreou este ano- Prometheus. La boucle bouclée.



A referência ao livro de Louis Pawels e Jacques Bergier , Le Matin des Magiciens, vinha no catálogo dos livros de bolso da Folio da Primavera de 1973.
Porém, antes disso, em 1972, a Bertrand tinha enviado o catálogo desse ano e lá vinha a referência a dois livros daqueles autores, incluindo o Despertar dos Mágicos. Deve ter sido por aqui que decidi comprar o livro, pedindo-o à cobrança.
No entanto permanece por esclarecer na minha memória como é que os nomes e essa obra surgiram como motivo de interesse. Ou foi pela leitura de jornais ou revistas ou pela consulta do livro em português, na própria Bertrand,  que aliás custava mais que a edição francesa da obra, em livro de bolso ( mais de 100 escudos contra 60 da edição francesa).




Tintin- o original e a edição portuguesa

Estas duas imagens idênticas e relativas à aventura de Bernard Prince,  resultam da edição portuguesa de 10.2.1973 e a edição original da revista, publicada em França, em 18.2.1971.

Caricaturas e imagens de bd 73-74

Estas caricaturas de Brigitte Bardot e de Georges Pompidou vi-as pela primeira vez na revista brasileira Realidade,de Junho de 1973,  num artigo consagrado à "Nova arte da caricatura", que a revista apresentava com o retrato de "três novos artistas franceses definem os caminhos do seu novo traço". Os artistas eram Claude Morchoisne, Patrice Ricord e Jean Mulatier, (na altura ambos com 26 anos) e as imagens eram extraordinárias de nuance e detalhe, como se pode ver. A de Pompidou é de 1970, segundo informa o livro Les Grandes Gueules, das edições du Pont Neuf, de 1980 ( cujas reproduções são graficamente inferiores a estas da revista Realidade).

Em 13.4.1974 a revista Tintin iniciava uma nova aventura de Bernard Prince ( a chama verde dos aventureiros) com esta imagem, também ela extraordinária.
Não obstante a grande qualidade desta historieta o Tintin, para mim, estava quase a findar. Durou até ao fim de 1974 e a partir daí só voltei a comprar um ou outro número em 1976 ( por causa de Tintin e os Pícaros, iniciada em 7.4.1976 e Lucky Luke e Psicanálise para os Dalton) e 1977 ( por causa de Bernard Prince e O Porto dos loucos).  O Tintin foi o veículo de introdução para a banda desenhada de ficção científica e aventuras mais adultas, do Pilote que descobri nesse mesmo ano e outras como a Métal Hurlant. !974 e 1975 foram por isso anos fantásticos nessas descobertas da arte da banda desenhada.
Além disso, como vim depois a descobrir também, mesmo com a informação da Realidade de 1972, aqueles caricaturistas trabalhavam para a Pilote e apareciam várias caricaturas dos mesmos em diversos números dessa altura, como por exemplo de Charlot ou Mao Tse Tung.


A imagem da caricatura de Brigitte Bardot publicada em Junho de 1973 pela Realidade foi publicada na capa da revista francesa de banda desenhada alternativa, Mormoil, em Dezembro de 1974.
A revista tinha colaboração regular de Morchoisne e Mulatier, entre outros e a fórmula da revista aparentava-se muito à MAD americana, embora com um conteúdo sexualmente explícito que a tornava "reservé aux majeurs penaux" e de circulação mais restrita, o que aliás se tornou quase moda em 74-75, mesmo entre nós, com a súbita abertura aos costumes mais liberais que se faziam sentir e tinham já dado em filmes como Último Tango em Paris ou mesmo abertamente pornográficos.
A revista francesa Ciné Revue por essa altura e eventualmente por esse motivo, era das mais requisitadas no escaparate da livraria Bertrand. 
Moschoisne desenhava historietas com personagens caricaturadas à moda da MAD, por um Angelo Torres ou o genial Mort Drucker que neste número de Dezembro de 1973 desenha uma paródia de The Summer of ´42.