domingo, 20 de janeiro de 2019

CSN&Y, Neil Young, as cordas de aço da guitarra pedaleira e eu


Como é que conheci a música de Neil Young? Seria com Harvest, de 1972? Não,  começou com certeza Teach Your Children, um tema que nem sequer é da sua autoria, muito tempo antes e ouvi essa canção no rádio.
A música trazia um instrumento logo no início que me pareceu novo porque não dava atenção ao country americano: a pedal-steel guitar que ainda não sabia mas era tocada nesse tema por Jerry Garcia que integrava os Grateful Dead, grupo também desconhecido por cá, nessa altura ( e depois).

Foi assim que tomei conhecimento com a música dos Crosby Stills Nash & Young, portanto do álbum Déja Vu de 1970 e o grupo tornou-se motivo de interesse relativamente a todos os músicos que o compunham, particularmente Neil Young e Stephen Stills, mas também Graham Nash e mais tarde David Crosby. Tudo até 1974.

Em meados de 1971 saiu um álbum ao vivo dos CSN&Y, Four way street. Duas composições- Right between the eyes, de Nash e Cowgirl in the sand de Young,  seguidas no disco, ficaram no ouvido e foram seguramente dois temas que me levaram a interessar pelo grupo, nos anos seguintes. Mais ou menos na mesma altura, G. Nash publicou o primeiro disco a solo, Songs for beginners que tinha Chicago que também me lembro de ouvir.

Em 1972 no rádio e no Página Um, passava o disco de Stephen Stills, Manassas e também o disco de Neil Young, Harvest, do mesmo ano.

No ano seguinte, 1973, Graham Nash publicou outro álbum que me encantava; Wild Tales. O motivo era o mesmo de Teach your children, a guitarra pedal-steel. A qual inundava igualmente o álbum de Neil Young.

Em 5 de Julho de 1972, entre as 19:30 e as 21.00 rodava Stephen Stills do disco Manassas e o tema What to do.











A revista Mundo da Canção nº 28 de 20.4.1972 serviu para o apontamento no tempo.


O disco de Neil Young saíra em Fevereiro desse ano e foi um sucesso em todo o lado, um dos discos mais vendidos de 1972, com Heart of Gold em número um, o primeiro de Neil Young. O disco foi gravado em parte num celeiro de um rancho que Young comprara no ano anterior. Anos mais tarde, em 2009, a colectânea Archives Vol. I tem videos de tais gravações e com versões das canções muito interessantes, particularmente as que integram a guitarra eléctrica, gravadas em sessão com os músicos e onde se vê a guitarra de cordas de aço e pedaleira.

Esta imagem tirada do livro que acompanha a referida colectânea, reunida numa caixa, mostra um dos responsáveis pela editora - Mo Ostin- no edifício Tower Records, Hollywood, na altura em que Harvest saiu, Junho de 1972. Ao lado o LP dos America que ainda não tinha Horse with no name, mas que se vendeu por causa disso.  E os Jethro Tull, com Thick as a Brick. Que época! Ainda se nota um pouco mais atrás à direita, caixas de Let It Be, dos Beatles, ou, vendo melhor, o disco simples, uma vez que parece ter a inscrição Let it be na capa, a branco  e a caixa não a tem.



Uncut Março 2009:


Uncut Julho 2009:




E na caixa dos Archives também traz um livro com ilustrações inéditas e este texto do pai de Neil Young, mais ou menos por essa altura do início dos anos setenta:


Página da revista Mojo Classic de data imprecisa e talvez a melhor revista consagrada ao artista. Nos anos setenta nenhuma destas fotos era conhecida publicamente. Esta foi tirada na mesma altura em que a foto que aparece no disco After the gold rush, anterior a Harvest:


Em 2010 saiu um livro que contém igualmente muitas ilustrações:


Página da Guitar World de Outubro de 2009:


Guitar Legends Julho 2011:




A Mundo da Canção do mês seguinte, Maio de 1972 até fez a capa com o artista e publicou todas as letras de Harvest:





Em 1973 devo ter reparado nesta revista Rock&Folk à venda por cá, mas me recordo. A revista trazia apenas uma entrevista com Neil Young.


Os jornais e revistas de música que entretanto apareceram e fui comprando desde finais de 1969 nada traziam de imagens do grupo ou dos seus músicos individuais. Só a Mundo da Canção trazia por vezes letras de algumas músicas e mais nada.

Em Novembro de 1973 a revista francesa Best tinha uma crítica ao disco Time fades away que me interessou por ser de Neil Young. Ao lado o disco de Zappa, Overnite sensation que com o tempo se tornou mais interessante que aquele:


Assim o que conhecia do grupo como imagem era essencialmente dos discos que via aqui ou ali. E em 1974 já tinha visto e ouvido o suficiente para que o CSN&Y fosse o meu grupo preferido.

Em Julho desse ano apareceu na Bertrand este exemplar do NME. A capa trazia algo sem interesse especial sobre as escolas inglesas:


Porém, no miolo trazia esta imagem e texto sobre o disco On the Beach de Neil Young, acabado de sair. Um disco que se ouvia no rádio e era do Neil Young que me habituei a apreciar:


O jornal tinha ainda interesse por causa de uma imagem de um espectáculo que nunca tinha visto igual: mulheres nuas em palco, sem a indecência pornográfica que começava a aparecer em todo o lado...em Julho de 74, na sequência da abolição da censura era um must.


E nas últimas páginas do jornal uma lista de discos, com sublinhados dos que gostaria de ter e ouvir, na época que era sem margem para dúvidas, a grande época do rock anglo-saxónico, após o fim dos anos sessenta. Foi a altura em que descobri em tempo real e à medida que apareciam, os discos que ainda hoje são os meus preferidos.


Foi por isso que em Novembro desse ano venci as resistências em gastar dinheiro com a revista Rock&Folk  que via no quiosque e comecei a comprar, por causa desta capa que anunciava um artigo sobre os CSN&Y:


E trazia estas imagens algo longínquas do grupo, tiradas em Londres, num concerto em Wembley. Eram imagens sem música porque os discos de CSN&Y tinham ficado para trás, anos antes e só muito depois voltaram a aparecer, sem o brilho desta época.

Restavam os discos a solo, particularmente de Neil Young, porque também relativamente aos demais componentes do grupo, a produção musical deixou de ter interesse, para mim.

Tudo se tinha definido até 1974, com excepção de Neil Young relativamente ao qual o melhor ainda estava para vir.


Mas a imagem daquelas guitarras acústicas...era demasiado apelativa e só imaginar o som que produziam valia a pena olhar para a foto e sonhar um dia ter uma guitarra igual.
Esse som dos CSN&Y deste período foi publicado muitos anos depois, em 2014, em gravaçóes ao vivo, na América e em Wembley, durante o verão de 1974. Ouvindo-o e fazendo um flash back  não é frustrante porque o disco deveria ter saído na época e seria um êxito certamente. Com a diferença de 40 anos...não foi a mesma coisa.

Em 1975, o NME de 28 de Junho tinha esta capa que não deixei escapar, do tempo do lançamente de Tonight´s the night:


Imagem do livro History:


O disco original, com rótulo a preto e dizeres no interior central do disco "hello waterface" e "goodbye waterface". O cartão da capa é algo rugoso e tende a desfazer a camada de cor preta à superfície, com o tempo.


À frente o disco com "hello waterface e goodbye waterface"; atrás, com vista apenas da contracapa, o que tem apenas "goodbye waterface e soa melhor que todos.

E imagem da Rolling Stone de 23 de Outubro de 1975, a primeira que comprei:



No mês de Abril de 1976 a revista Rock&Folk dava o destaque devido a Neil Young e foi essa a primeira vez que tomei contacto visual com todos os discos do artista, bem como apreciações críticas.




No Outono de 1976 numa incursão Vigo, em Espanha, precisamente para comprar a viola acústica que via nas poucas imagens que apareciam de Neil Young e os CSNY e outros grupos ( NGDB, por exemplo) apareceu esta revista, com um dossier sobre Neil Young e uma imagem  que não conhecia, e que afinal era a capa interior de After the Gold Rush que nunca vira:


Em Dezembro de 1976 a revista Rolling Stone dava conta de um evento que foi depois mostrado em filme, durante o ano de 1978: o concerto de adeus dos The Band.
As imagens desse evento não eram muito explícitas mas o filme que vi depois, naquele ano, num cinema de Coimbra eram bem interessantes.


Em 2002 apareceu uma edição especial em 4 cd´s do concerto e a imagem de Neil Young que acompanhava o libreto era esta:


Ainda em 1976 a Rolling Stone de 9 de Setembro dava conta de uma série de concertos realizados por Neil Young e Stephen Stills, por ocasião da saída do disco da dupla Long May you Run que tem uma grande canção, precisamente a do título que me encantou na época e cuja versão ao vivo, no disco Unplugged, de 1993 é um portento.
Desse disco, na época só esse tema e um outro, Fontainebleau, merecia atenção. Com os anos, porém, há mais temas com interesse, incluindo alguns de Stephen Stills.

Esse ano é também aquele em que os concertos de NeilYoung permitiram gravações que foram reunidas agora reunidas no último disco de Neil Young, Songs for Judy, neste caso acústicas e escolhidas pelo fotógrafo Joel Bernstein, compilador também de iconografia do Archives Vol I.

Se tais canções tivessem sido publicadas oficialmente nesse ano de 1976 que maravilha teria sido! Com quarenta anos em cima, ainda se nota o que era a voz de Neil Young nessa altura e o modo de tocar que é a sua marca de água: composições simples, com poucos acordes e alguns de solmido, mas com uma categoria interpretativa rara.



Rock&Folk de Outubro de 1976



O ano de 1977 não passou sem novidades de Neil Young. E dos outros. Crosby e Nash publicaram no final de 1977 um disco ao vivo que tem uma magnífica versão de Immigration man.

Neil Young publicou um dos seus melhores álbuns- American Stars and Bars.


E a Rolling Stone de 2 de Junho desse ano tinha esta capa:


Por causa deste disco:


 Em Janeiro de 1978  a Rock&Folk anunciava esta colectânea de Neil Young, Decade e recenseava o álbum.





Os temas do disco em dose tripla eram todos de ouvir atentamente, incluindo alguns temas inéditos, como Winterlong, Deep Forbidden Lake ou Campaigner.
Só alguns anos depois arranjei o álbum mas vale a pena, mesmo por causa de algumas versões de canções antigas. Prefiro ouvir nesta colectânea as versões do disco Tonight´s the night, o que é estranho porque não deixa de ser uma reedição. Tired eyes soa-me melhor neste disco do que no original, primeira prensagem americana, o de rótulo preto com os dizeres Hello Waterface [ouvindo outro exemplar, o que tem "goodbye waterface" no lado dois e inscrição na parte "morta" do disco MS 2221 31884 RE-I-12 parece-me que este soa melhor do que qualquer outro que ouvi, apesar da primeira impressão colhida com o exemplar MS 2221 3184 RE-I-6 IT hello waterface. Fica a correcção porque o tempo de apreciação tem mais de um ano de diferença]


Melhor que esta colectânea só a de 2009, Archives Vol I.

Em Abril de 1978 aproveitei uma imagem da Rock&Folk para desenhar...


A camisa de rugby verde e azul tinha inspiração numa publicidade que tinha visto na Crawdaddy de Fevereiro de 1976, o primeiro número que comprei, dessa revista concorrente da  Rolling Stone e ainda mais antiga. Andei anos a tentar encontrar uma camisa dessas e com essas cores. Nunca encontrei a real thing, apenas uns sucedâneos, o último dos quais da Gant, já nos anos 2000.




O ano de 1978 ainda viu a publicação de Comes a Time, durante o Verão. O disco tornou-se o melhor disco do ano na altura, para mim, por vários motivos. Este anúncio da Rolling Stone resumia o aspecto icónico do disco, com a viola acústica Martin D 45.


Em Agosto a Rock&Folk trazia a recensão crítica:


Em Janeiro de 1979 a mesma revista dava a capa a Neil Young desenhado por Tardi:


Nessa altura andava em letargia sonora, o que durou alguns meses e o que me despertou, literalmente, foi uma altura  em que ouvi os primeiros acordes de Pocahontas um tema deste disco que é outro dos mais interessantes de Neil Young, saído em meados desse ano de 1979, aqui numa publicidade do jornal Melody Maker e na recensão crítica da Rock&Folk de Agosto desse ano.



A seguir a este disco o interesse na música de Neil Young esmoreceu e com os anos apenas foi retomado num disco ou outro, como em Hawks and Doves, de 1980,  ainda um disco à antiga de Neil Young. Old Ways ou Freedom já pertencem a outra fase que nunca mais foi igual à dos discos até 1980.
Nas décadas seguintes os artigos em revistas da especialidade, sobre Neil Young, multiplicaram-se e refizeram a história ilustrada que fui acompanhando desde 1972, sem conhecer quase nada mais, além de algumas canções dos discos.
Com o aparecimento do cd, em meados da década de oitenta, os discos de Neil Young tornaram-se mais fáceis de encontrar, mormente os mais antigos, embora alguns fossem publicados em cd apenas décadas depois, como foi o caso de Times Fades away e On the Beach.
Por outro lado Neil Young nunca foi adepto do som do cd, que considerava inferior ao do lp.
Em 2009 foi publicada uma colectânea de vários discos em diversos formatos, com destaque para o blu ray que Neil Young considerava então o máximo na reprodução sonora e dizia-o nas entrevistas publicadas na altura, como se pode ler acima.

Tal colectânea em blu ray compreende 10 discos que incluem o filme inédito nesse formato, Journey Through the past. Intitulada  Archives Vol I, abrangia o período até Harvest e na época Neil Young prometia a continuação para dali a dois anos, uma vez que o trabalho de selecção já se encontrava em andamento.
Enfim, já lá vão quase dez anos e o segundo volume continua sem sair. Ao longo destes anos tem sido publicados, em formatos variados, incluindo agora lp´s com nova prensagem, discos antigos, posteriores a Harvest , todos com a indicação  inscrita na capa, "because sound matters".
Porém, têm sido publicações algo desgarradas e sem a coerência daquele Vol. I  que além do som, em blu ray ,excelente, contém imagens de arquivo e animações das reproduções com mostra de equipamentos, como gira-discos, gravadores de bobines, documentos com as letras, que acompanham em tempo real a reprodução sonora.

A última publicação, do final de 2018 é uma colectânea intitulada Songs for Judy que  recolhe canções acústicas, tocadas ao vivo em 1976 e  coligidas por Joel Bernstein, um fotógrafo e colaborador de Neil Young na organização daquele Vol .I

Nos anos setenta, Neil Young chegou a gravar discos que não foram lançados e seriam certamente grandes sucessos, como Homegrown, cuja história se conta aqui.  Outro disco que foi lançado em 2017, Hitchhiker, reune vários temas que foram publicados anteriormente, com inéditos.

Seja como for, a produção musical de Neil Young a seguir a Harvest daria uma excepcional colectânea Vol. II se fosse lançada e tal parece depender unicamente da vontade do músico, até hoje sempre adiada.

Resta esperar que um dia destes se lembre que está na altura de o publicar.

Para além disso, o sítio Neil Young Archives permite, como sucedâneo, apreciar  as canções do Vol I e os discos quase todos do artista, em resolução sonora muitas vezes próxima do máximo que o blu ray permite. É pena no entanto que fique circunscrita ao formato PCM e não tenha dsd. Não me parece que seja a alternativa ideal ao tão esperado Vol II...

Guitar World, Outubro 2009, mais imagens, uma delas repetida ( a do celeiro em que foram gravados temas de Harvest e aparece no filme Journey through the past, incluindo imagens captadas ao longe, com Neil Young no campo aberto e um som que vem de lá, num efeito estranho):


Os artigos que seguem são da Mojo Classic de 2005:




Imagens das guitarras. Faltam as Martin que serviram para gravar Harvest e sobra a D-28 que aparece indicado como tendo pertencido a Hank Williams.


Em Julho de 2001 tive o privilégio de ver ao vivo Neil Young em Vilar de Mouros e o seu grupo de músicos que o acompanharam em muitos desses discos acima mostrados.  Foi um grande momento em que apreciei em tempo real a execução das canções que já conhecia e observei ao vivo o que tinha já visto em fotografias:  performance dos músicos a tocarem uma música de que sempre gistei, desde a minha adolescência. Daí o privilégio.  Ao contrário de Bob Dylan também presente em 2004, Neil Young mantinha todas as características sonoras e vocais e nesse aspecto foi um espectáculo completo e inesquecível.
Porém, à semelhança de Dylan igualmente prolífico e coleccionador de gravações antigas, o melhor do músico está no que criou nos anos setenta. Daí o interesse pela edição de discos antigos e obras esquecidas ou nunca publicadas.

Em Setembro de 2017 a revista Uncut dedicou-se a  elencar os álbuns de Neil Young que foram ficando para trás, não tendo sido publicados apesar de prontos. Coligiu os seguintes, incluindo os temas que supostamente poderiam fazer parte, muitos deles publicados noutros discos ao longo dos anos. O exercício é interessante: