quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Bob Dylan-as duas versões de Blood on the tracks

Foi agora lançado um disco de Bob Dylan que esteve para ser publicado em finais de 1974 e a alguns dias de o ser foi suspenso e regravado com outros arranjos, sendo substituído pela nova versão que saiu no início de 1975.
A capa do disco agora repescado é feiosa e o lettering lembra o de um disco de Ry Cooder ( Get Rythm, de 1987).


O disco que saiu em 1975 tinha outra beleza estética e esta é a capa original da primeira versão americana, com a cor purpurínea e imagem granulada:


Toda a informação que segue foi extraída da leitura de jornais, revistas e livros que se publicaram sobre Bob Dylan ao longo destes mais de 44 anos e que gosto de lembrar e principalmente reler. Na década de setenta eram escassos e reduzidos à Rock&Folk, Rolling Stone, New Musical Express e pouco mais. Em Portugal a informação reproduzida nos poucos meios de imprensa musical ( Mundo da Canção, Disco, música e moda e depois Música&Som, já nos setentas) era toda feita de releituras daqueles.
O rádio ( alguns, poucos, programas) era a fonte privilegiada de audição dos discos e sem televisão ou internet poucas imagens havia de Dylan ou da sua obra.
Havia um filme- Don´t look back, realizado por um adepto do "cinema-verité", de câmara na mão, D. A Pennebaker, de 1967) e que mostrava imagens do Dylan de 1965 a interpelar repórteres e a desconcertar respostas a perguntas fora de tempo. Desse filme a  preto e branco viam- se por vezes na tv imagens num ou noutro programa dedicado à música popular ( Disco&Daquilo, por exemplo). Era um maná quando tal acontecia.
Por isso a informação disponível era muito escassa o que contribuía para aumentar a curiosidade e o mito.
A publicação, a partir de 1991, da série de discos "bootlegs", quase todos em cd e que já vai no 14º volume, ajudou muitíssimo a conhecer a obra musical de Bob Dylan, anterior aos anos setenta.

A reedição em sacd em 2003 de cerca de 15 discos de Bob Dylan,  contribuiu também muito para o conhecimento de alguns discos fundamentais de Bob Dylan em condições sonoras muitíssimo melhores que as que apareciam nos cds vulgares. O sacd é a expressão máxima do suporte de som depois do vinil. Tenho os discos lp´s originais e alguns sacd.




As revistas e livros sobre Dylan também se multiplicaram ao longo dos anos, mas em 1975 ainda não existia tanta documentação e as revistas traziam um ou outro artigo, para além da recensão dos discos.
Nos anos noventa e dois mil começaram a aparecer números especiais e artigos esparsos sobre a figura, com maior assiduidade e permitiram conhecer o artista retroactivamente.


Tudo isto é posterior aos anos setenta, com excepção do Illustrated Record que a Harmony Books publicou em 1978 e traz toda a discografia do artista até essa data com reproduções das capas dos discos em tamanho e cor naturais.

Entre  Setembro de 1974 e  Outubro de 1975, auge da minha descoberta e interesse pela música do artista, por causa daqueles dois discos- Before the Flood e Blood on the tracks- não encontrei nada de especial nas revistas que lia, particularmente a Rock&Folk; para além da simples recensão ao disco Blood on the tracks, nada de nada. Nem uma foto.

Assim, quando em Novembro de 1975 vi pela primeira vez nos quiosques a revista Rolling Stone de que andava afanosamente à procura desde o Verão, comecei logo com uma imagem icónica do Dylan que ainda não conhecia bem.

Logo no primeiro número apareceu esta foto e notícia sobre Bob Dylan que me fascinou pelo cenário e pelo significado. Era a primeira vez que via o artista no seu ambiente musical.

Em primeiro plano um dos responsáveis pela carreira de Bob Dylan, no começo dos anos sessenta, John Hammond.


A imagem tinha uma força expressiva rara e esse número da revista conferia um ar americano a algo que o era e não estava habituado a ver impresso. A paixão pela revista reforçava-se nos textos, imagens e publicidades, tudo misturado e relativo à música popular e até outros assuntos.

A imagem reporta-se a uma presença de Bob Dylan  num programa especial de tv para homenagear John Hammond e mal eu sabia que décadas depois poderia ver as imagens do programa e dessa fotografia através do You Tube...



Assim, quando Blood on the tracks saiu por cá, em importação e nos primeiros meses de 1975 não eram muitas as lojas de discos que o tinham. A cor da capa só a vi um ano depois, num disco trazido de França e por cá ainda não havia prensagem nacional, suponho. Bob Dylan não era assim muito popular, por aqui, em 1975.

A primeira versão do disco tinha uma contra-capa com um texto de Peter Hamil, impresso a preto sobre o bordeaux, pouco legível por isso. A terceira versão, um ano depois,  já tinha o texto em branco e depois desapareceu o texto e ficou uma ilustração. Foi esta versão a primeira que comprei e ouvi, em edição espanhola, como se mostra abaixo. Depois a que tem letras brancas no fundo, com prensagem americana da Terre Haute e de 1976 em 3ª prensagem e por fim a original, a melhor e mais perfeita.


O disco que se chamou Blood on the tracks foi gravado inicialmente em Setembro de 1974, num estúdio de Nova Iorque.
Segundo agora se conta nas revistas da especialidade, o disco estava pronto mas um irmão de Dylan sugeriu novos arranjos num estúdio de Minnesotta, em Minneapolis, o Studio 80 e assim aconteceu durante os últimos dias do mês de Dezembro desse ano.

O disco, segundo esta última versão foi lançado no início de 1975 e por cá o programa de rádio Página Um, animado por Luís Filipe Paixão Martins passou alguns temas ( Idiot Wind, principalmente), a primeira vez em 18 de Fevereiro de 1975, com a colaboração de um correspondente em Londres, Fernando Tenente. Lembro-me porque ouvi essa emissão e apontei a data. Nos dias seguintes era disco que passava sempre e Idiot Wind já chateava de tanto passar. Preferia ouvir Lily Rosemary and the Jack of Hearts.

O disco era um espanto musical e em 1975 estava preparado para ouvir Dylan de novo e essa foi a melhor oportunidade.
No espaço de um ano, entre  Janeiro de 1974 e  Janeiro de 75, Dylan tinha publicado Planet Waves, Before the Flood e Blood on the tracks.
Até ao final de 1976 iria publicar ainda mais: Basement Tapes, duplo e colecção de temas de 1967, gravados artesanalmente com os The Band e que tinham sido antes pirateados em disco , tornando-se objectos de um culto desconhecido por cá. Desire e Hard Rain, este, também ao vivo e  já no final de 1976.  De todos, o que se destaca é Blood on the tracks.

Rock&Folk de Fevereiro de 1975:


Agora, 44 anos depois, Bob Dylan publica a primeira versão gravada em Nova Iorque. O resultado: More Blood, More Tracks. Na versão em lp, o álbum é duplo e contém os temas originais e mais dois inéditos. A versão em cd, multiplicados por seis, contém os temas gravados em Nova Iorque, alguns em Minneapolis e variantes às dezenas, de "takes", tentativas em estúdio de aproximação ao som final do disco.
A gravação em vinil é excelente ( já a tenho) embora as versões, na minha opinião, sejam inferiores às do disco que acabou publicado. Os arranjos dos temas no disco gravado em Minneapolis são verdadeiramente excepcionais. If you see her say hello, por exemplo, é  luxuoso, tal como Lily, rosemary and the jack of hearts ou You´re a big girls now, em tom acústico de guitarras entrelaçadas. A versão nova iorquina é frugal e contida, quase artesanal. Comparada com aquele luxo de arranjos perfeitos é disco de maquete,  embora um ou outro tema seja preferível. É o caso de Idiot Wind que na versão final é saturada e longa enquanto na versão original de Nova Iorque é mais simples e acústica.

Tudo junto,  o disco agora publicado é mais um documento de uma época musical de Bob Dylan. Aliás faz parte da série dos Arquivos "piratas", já no vol. 14.
A versão publicada em 1975 é final, perfeita e um dos melhores discos de Bob Dylan. Ainda bem que o irmão de Dylan o orientou na regravação. E ainda bem que agora se publica o que ficou nos arquivos durante tanto tempo. Uma ou outra versão tinham já aparecido noutros álbuns de recolha de coisas antigas de Bob Dylan e a versão pirata fica muito atrás desta nova versão original e de estúdio em qualidade sonora.

Antes de 1974 o meu conhecimento da obra musical de Bob Dylan era escasso e tenho memória imprecisa. Tirando um ou outro clássico, como Blowin in the wind , Mr. Tambourine man ou outros mais definidos ( Just like a woman, por exemplo) ,  a produção musical de Dylan não justificava muita atenção porque não tinha acesso aos discos e era muito novo para tal, nos anos sessenta.

Então não existia a facilidade do imediatismo de hoje em ouvir virtualmente quase tudo o que se publicou musicalmente, através de alguns cliques no computador.
Nessa época os discos passavam no rádio e quem tinha dinheiro comprava-os nas discotecas quando eram editados por cá ou importados. Passando a onda desapareciam dos escaparates e do mercado porque nem havia lugar de compra de usados como hoje. Quem os tinha adquirido ficava com eles e quem não aproveitou a oportunidade só dali a anos o poderia fazer em eventuais reedições e Dylan era caso disso.  
De resto, a música esquecida ficava para trás. 
Com o aparecimento do cd, em meados dos oitenta e as reedições de discos antigos e algo esquecidos  alterou-se  tal estado de coisas. 

No que se refere a Bob Dylan e aos seus discos anteriores a 74 só em 1976 dei conta das suas capas e ainda assim a preto e branco e apenas os publicados até 1966.  Até aí nunca as tinha visto. Foi na Rock&Folk de Março de 1976 que trazia uma recensão crítica aos discos de Dylan, anteriores e alvo de  importação, em França. 


Antes disso, em Portugal, pouca informação havia sobre Dylan e a que existia provinha dessas revistas estrangeiras. 

Em Março de 1970 a revista Mundo da Canção, no seu nº 4, publicou uma página com uma pequena resenha da obra de Dylan, com citações de americanos ( da Crawdaddy) e franceses ( Rock&Folk).



Em 1970, porém, Bob Dylan para mim era mais um mito do que um autor musical. Nem conhecia ainda a  obra-prima Blonde on Blonde, de 1966 ou a anterior Highway 61 Revisited e muito menos Bringing it all back home.
Todo esse conhecimento é posterior a 74 e nessa altura só ouvia Dylan em imagens por não passar muito no rádio e não ver os seus discos à venda. Além disso havia ainda a música de muitos outros que me pareciam mais interessantes. 

Em 1969 Dylan tinha ido ao festival da ilha de Wight e tinha sido notícia e até uma cantiga francesa, de Michel Delpech, um êxito por cá, o lembrava ( Wight is Wight) e trazia o verso "Wight is Wight Dylan is Dylan" que ficava no ouvido e na memória para o mito.

Aqui na revista Mundo Moderno de 1 de Junho de 1970:


E aqui, no jornal Diário Popular de 6 de Novembro de 1970:


Em  finais de 1971 a publicação do album Greatest Hits Volume II terá sido alvo de atenção no rádio mas não me recordo.  Foi porém nessa altura que saiu um single, acoplado ao album ( vinha no interior, em bónus) , sobre um certo George Jackson, que então escutei como se fosse mostra da modernidade de Dylan, depois das baladas idiossincráticas do começo e que me pareciam algo fastidiosas, se comparadas com os temas da altura, muito mais apelativos, como os dos Rolling Stones de Sticky Fingers, Imagine de John Lennon ou  My Sweet Lord de George Harrison.



Em Janeiro de 1972 saiu o triplo album do concerto para o Bangladesh, organizado por George Harrison, em que Dylan participou e cantou Blowin in the windHard rain is gonna fall e Just like a woman . Suponho ter ouvido esta música nessa altura, tendo-se tornado um dos meus temas preferidos de sempre, todos os géneros confundidos. Essa versão, aliás, é uma das melhores que conheço, muito simples e directa, a que se segue uma versão não menos interessante de Something, de George Harrison.
Em 1973 a banda sonora de Pat Garrett & Billy the kid, um filme anódino, trazia o single Knocking on heavens door, esse sim, muito passado no rádio. 

Por causa disso lembro-me desta capa da revista Rock&Folk de Setembro de 1973, dependurada nos quiosques: 


 Em finais de 1974 a Página Um começou a passar com frequência alguns temas, antigos mas tocados de maneira empolgante por um grupo que então o acompanhou na tournée americana e que ainda nem conhecia: os The Band. Algumas composições aí apresentadas, como Like a Rolling Stone ou outra versão de Just like a woman, ficaram para sempre na memória como os standards dessas músicas do autor. Todo o álbum é um festival de alegria musical contagiosa e que Dylan nunca mais reproduziu com a mesma qualidade ( o seguinte, ao vivo, Hard Rain, de 1976 é uma pálida imitação).
Na falta de informação, mormente sobre o disco, várias vezes voltei a esta publicidade para olhar para a capa, a preto e branco. Só muito mais tarde arranjei o disco na versão original, para a etiqueta Asylum.


Por causa destas músicas tinha este recorte da revista Pop, alemã, à vista.



E também um recorte com a letra de Like a Rolling Stone  da revista Mundo da Canção de 20 de Maio de 1971, com anotações em função da música que ouvia no Before the Flood ( de 1974).


O disco Blood on the tracks mais o anterior, ao vivo, Before the Flood tinham definido a arte musical de Bob Dylan que gostava de ouvir. Até hoje.
Basement Tapes, publicado em 1975 não me suscitou curiosidade na altura. Só agora, para este escrito o voltei a ouvir. É muito melhor e mais interessante do que me lembrava.  Mesmo na versão em vinil dos anos noventa, série Nice Price. Tem músicas gravadas em 1967,  artesanalmente, com os The Band em parceria. Mesmo com todos os encómios da crítica nunca me convenci na altura a escutar mas deveria tê-lo feito porque é muito superior a...Desire  que saiu no mesmo ano. Tem verdadeiras pérolas da arte de Dylan ( Million dollar bash, tears of rage, too much of nothing, you ain´t going nowhere, nothing was delivered, para citar algumas e que serviram muito bem os Byrds em alguns discos, como o seminal Sweetheart odf the rodeo, um dos primeiros do country rock, em 1968).

Rock&Folk Setembro 1975:


Durante o ano de 1976 houve algumas imagens que apareceram na Crawdaddy  de Março desse ano e que referiam Dylan e uma fantasmática e mítica Rolling Thunder Revue.


Uma foto de Dylan à boleia do líder do grupo The Band, Robbie Robertson, assunto de capa da revista desse mês.



Em Maio a revista mencionava os discos pirata de Dylan, além de outros. Lá aparece o Basement Tapes e o mítico The Grat White Wonder.


O disco ao vivo Hard Rain acabou por ser uma desilusão apesar de alguma boa vontade em escutar novas versões de antigos temas aliás retomados em Before the Flood, sem efeito redibitório. Before the Flood é um clássico. Hard Rain é o começo da decadência de Bob Dylan, para o meu gosto. Na verdade, com o tempo, tornou-se um disco inaudível, mas em 1976 era ainda interessante, porque me lembrava o Before the Flood, dois anos antes. Contudo, a voz e acompanhamento musical pouco tinham a ver com esse.





  Em finais de 1976 ainda houve outro acontecimento que teve Dylan como protagonista: a participação no último concerto dos The Band, realizado no dia 25 de Novembro de 1976 ( Thanksgiving)  em S. Francisco.

A edição de 30 de Dezembro de 1976 da Rolling Stone trazia uma reportagem desenvolvida sobre o evento.
Sobre Bob Dylan dizia que tocou e cantou em 4 temas e tinha recusado aparecer no filme que estava a ser gravado por Martin Scorsese, por causa de outro filme seu, prestes a ser lançado ( Renaldo e Clara que nunca vi).
Seja como for, esse concerto foi gravado em disco que foi lançado em 1978 e em filme também mostrado nesse ano e que vi numa sala de cinema.
O filme só tinha duas canções de Bob Dylan, das quatro que cantou a solo e foi lançado em dvd em 2002 e posteriormente ( 2006)  em blu ray.




Durante o ano de 1977 não vi nada de Dylan nas revistas e jornais que então comprava e guardei( Rolling Stone, Crawdaddy , Rock&Folk, New Musical Express e Melody Maker). 

Foi preciso entrar o ano de 1978 para dar conta de uma notícia acerca de Bob Dylan: uma entrevista longa à mesma Rolling Stone, em 26.1.1978, conduzida pelo intelectual de serviço, Jonathan Cott.

A primeira indicação dessa entrevista apareceu na Rocj&Folk de Março desse ano, em que se aludia ao tal filme Renaldo e Clara ( uma estopada com várias horas e que nunca teve sucesso...):


A capa da revista só a vi mais tarde. Nesse ano e desde o mês de Julho do ano anterior, não aparecia à venda em Portugal.
E este era um problema porque a procurava avidamente todos os quinze dias, durante a segunda metade de 1977 e o mês de Abril de 1978, altura em que voltei a ver a capa no quiosque ( Tivoli, Coimbra, segundo penso) e recomecei a comprar.
Portanto, em Janeiro de 1978 quando a entrevista saiu ainda não conhecia a capa que era esta, com uma fotografia de Annie Leibowitz.


Esta capa fascinou-me logo que a vi e não foi na revista que ainda não aparecia em Portugal.
Nessa altura a revista Música&Som que se publicava desde finais de 1976 conseguiu um acordo de publicação dos artigos da Roling Stone, para Portugal e no número de 1 de Abril 1978 dava conta da publicação da referida entrevista em dois números seguidos.


Em 22 de Abril de 1978 o NME tinha esta capa e trazia uma entrevista com Dylan, diversa daquela:


Na entrevista Dylan explicava que antes de 1966, altura em que teve um acidente de moto que o imobilizou durante um tempo largo não era muito conhecido e não lhe davam qualquer importância fora do meio jornalístico musical. Depois, tornou-se um mito.


E foi nesse número que apareceu o anúncio do disco ( triplo)  da Última Valsa que tinha sido gravado no final de 1976 no espectáculo no Winterland de S. Francisco.


Um pouco mais tarde conheci a capa da Rolling Stone de um modo improvável. Como recomecei a comprar em Abril a revista dei conta de que nos cupões de anúncio para assinatura, ligeiramente colados e próprios para remessa pelo correio, apareciam de vez em quando as fotos de algumas capas anteriores.

Em 27 de Julho de 1978 aparecia este que tinha a referida capa e que no caso recortei para juntar a outros recortes e colagens. Na altura não tinha qualquer um dos números mostrados.


No mesmo mês de Julho a Rock&Folk aparecia com esta capa. Um desenho de Jean Solé que reproduzia aquela foto...


O artigo de fundo referia-se aos concertos que Dylan nessa altura dava nos EUA:


Em 24 de Agosto de 1978 a Rolling Stone fez a recensão crítica de um novo disco de Bob Dylan, Street Legal. A crítica de Greil Marcus era arrasadora.


O disco, para mim que ainda sentia o fascínio pelo mito, era muito audível mas já não era da mesma categoria de Blood on the tracks. Embora não tenha apreciado o disco de final de 1975, Desire, este também deixava algo a desejar.

Aos poucos fui perdendo interesse na música de Dylan, principalmente quando comparava as novas músicas com toda a produção anterior.


A crítica a esse disco foi de tal forma que o director da publicação, Jann Wenner se viu na obrigação de vir salvar a honra de um convento já sem grande defesa, na edição de 21 de Setembro. Dylan juntava-se aos Rolling Stones nas críticas desfavoráveis e Wenner vinha defender os artistas dos seus próprios críticos rock, aliás dos melhores.


Para mim, a música de Dylan também já não me oferecia o mesmo prazer que a antiga e quando em Novembro a revista publicou a segunda parte da entrevista, tinha já ficado para trás algum do encanto
e fascínio.


A música de Dylan, até 1975, teve o condão de refazer um mito, mas desde então o mito foi desaparecendo aos poucos.  E tudo o que resta é a mesma música, a que ouvi até 1975 e Blood on the tracks.

Por isso comprei o novo lp com as canções originais gravadas em Setembro de 1974. Algumas delas, duas pelo menos, já as conhecia das gravações que entretanto foram saindo ao longo dos anos na série Bootlegs.

A história pregressa de Dylan fui-a lendo ao longo dos anos, à medida em que saíam aqueles números especiais das revistas e alguns livros.

Em 2004 Bob Dylan veio a Vilar de Mouros. Vi-o lá, no palco, refugiado atrás dos teclados e por baixo de um chapéu e óculos escuros. A voz, essa, pareceu-me ridícula.

O mito já há muito que tinha acabado, para mim.

E no entanto, continua...

Em 1978 o interesse musica tinha mudado um pouco. Para aqui, por exemplo, para este disco que era o que mais gostava de ouvir nesse ano:


O top de 1978, no fim do ano foi assim organizado: Street Legal ainda estava em 4º lugar. Hoje, nem isso.
O disco que ficaria em 1º se fosse hoje, seria Before and After Science de Brian Eno. Seguido de  Studio Tan, de Frank Zappa e The man-machine dos Kraftwerk. E depois, Dire Straits.


sábado, 29 de abril de 2017

Música em 1977

Há quarenta anos, nestes meses, recordo-me de ouvir estes discos no rádio.


O primeiro, de Roy Harper, Bullinamingvase, certamente passado por Jaime Fernandes num dos seus programas, viria a tornar-se disco do ano, para a revista Música&Som.
 Roy Harper era passageiro habitual nesses programas com música dos discos anteriores e particularmente de Valentine ou Stormcock ou particularmente HQ, de 1975,  muito escutado.
Quando saiu este disco nos primeiros meses de 1977 o título One of those days in England que passava logo na primeira faixa e depois no segundo lado, inteiro,  com as partes 2-10,  tornou-se um dos meus preferidos de sempre  da música popular.







O disco de Peter Gabriel era o primeiro a solo, depois de sair dos Genesis e apareceu também nesses primeiros meses, notando-se pela sucessão dos temas, com destaque para Solsbury Hill e o final majestoso Here comes the Flood.



A par desses e também através dos programas de rádio de Jaime Fernandes ouvia os Nitty Gritty Dirt Band, do album triplo Dirt, Silver and Gold que conjugava temas dos álbuns publicados até então, incluindo Uncle Charlie e o tema fabuloso Mr. Bojangles que adorava ouvir tal como a sonoridade acústica das guitarras que imaginava serem Martin e me fascinavam pelo design e pelo som.
 Tal sonoridade acústica repetia-se nos discos de Leo Kottke que também passavam assiduamente nesses programas, por exemplo com Pamela Brown.

 Nessa altura comprava a revista Rolling Stone que chegava Portugal com algumas semanas de atraso relativamente à data de capa.

A de 10 de Março desse ano tinha esta capa e o nome de Arlo Guthrie que já me interessava.


Na penúltima página vinha este anúncio que pela primeira vez mostrava alguns discos da NGDB, incluindo o célebre Will the Circle be Unbroken, também passado nos programas de Jaime Fernandes.





 O disco dos Wings era outro que me fascinava então pela capa e pelo conteúdo. Sendo triplo, tinha uma face acústica num dos discos em que Paul McCartney cantava temas antigos que nem conhecia, acompanhados com a Ovation, uma guitarra acústica saída nesse tempo.
 A sequência do lado três, começava com Picasso´s last words e Richar Cory que não conhecia e continuava com Bluebird, I´ve just seen a face, Blackbird e Yesterday. Imbatível. E o disco começava com as peças musicais de Venus and Mars que já conhecia do disco original.

A capa era um luxo gráfico, mesmo mostrada a preto e branco pela Rolling Stone de 27 de Janeiro de 1977



 O disco original mostra toda a beleza das cores subtis da pintura de Richard Manning:


 George Harrison, outro dos Beatles,  nessa altura era apenas uma lembrança do tempo dos Beatles e de My Sweet Lord, ouvido no início de 1971.
Nos primeiros meses de 1977 comecei a ouvir uma sonoridade langorosa de Dear One, do disco 331%3  e ouvindo o disco todo tornou-se um dos preferidos desse ano. Ainda hoje é um disco que se ouve muito bem.


Outro grupo inglês que então me impressionou, passados anos sem ouvir algo de interessante para além de Lola, foram os Kinks. 

Com o disco Sleelwalker, ainda hoje um dos preferidos do grupo, a sonoridade dos primeiros meses de 1977 estava quase completa.


E o anúncio na Rolling Stone de 24 Fevereiro 1977



Para além destes subsiste a memória de um som estranho vindo de algures e que dava pelo nome de L, do músico Steve Hillage que cantava uma canção de Donovan, Hurdy Gurdy Man e ainda outra It´s all too much, dos Beatles.

Provavelmente também já se ouviria a música de Steve Miller e a sua Band, com o disco Fly like an Eagle, muito escutado nesse ano e ainda agora.

E os Eagles de Hotel California, saído no final do ano anterior? Talvez. A New kid in town era um dos temas que passava constantemente na Rádio Popular de Vigo. Tal como The Year of the Cat de Al Stewart, da mesma altura.
E ainda Dave Mason e um disco ao vivo que tinha Take it to the limit daqueles mesmos Eagles.

Tudo sons de há 40 anos por esta altura...