quarta-feira, 20 de julho de 2011

Manassas - Stephen Stills

Continuando nas memórias da música ouvida pelo rádio, surgiu-me o registo de uma audição da Página Um, anterior à que julgava ter sido a primeira. Apontei numa página da revista Mundo da Canção saída em 20.4.1972 algumas canções que passaram no dia 5.7.1972 no programa. Uma delas é "What do you do" como então escrevi e afinal será What to do, do álbum Manassas de Stephen Stills, saído nesse ano, precisamente em Abril. No apontamento também consta José Jorge Letria com Páre, escute e olhe...e ainda uma canção inexistente de Elton John- Convention- que afinal é Salvation, do LP Honky Chateau, desse ano de 1972.

Nesta imagem abaixo, do livro de Geografia do 5º ano de então e que frequentei entre 1971-1972, aparece o nome de Stephen Stills, o que remete para essa altura o interesse na música de Manassas. E em cima aparece o nome de Tony Joe White...o que se torna ainda mais interessante, para descobrir que música é que ouvia desse músico, nessa altura para me suscitar interesse em escrever o nome.


O disco Manassas é o melhor disco da carreira de Stephen Stills. Na altura, para além de What to do adorava ouvir Colorado e outras mais que só mais tarde descobri com a compra do disco, em 1986. Uma edição espanhola, com os títulos das letras traduzidos. Recentemente arranjei o original em prensagem americana que se destaca pela maior consistência do cartão da capa e melhor apresentação gráfica sem cores desbotadas como na edição espanhola ( à esquerda na imagem). A edição original ainda traz um poster com as figuras dos músicos e as letras integrais e créditos escritos "à mão", à maneira dos discos de Neil Young.
Como se pode ver na imagem acima, foi nessa mesma altura que saiu Harvest, o LP de Neil Young que me fez ficar apanhado pela música do cantor canadiano durante estes anos todos. Recentemente saiu um disco novo com canções antigas, de 1984. O título é Treasure e a versão em blu-ray é uma maravilha.
Manassas no entanto, continua a ser um disco de referência e de audição continuada. Há um dvd com a gravação das canções em estúdio e que é absolutamente fantástico pela qualidade sonora e pelo que revela desse grupo de músicos de excepção, na música popular.

sábado, 16 de julho de 2011

E.L.O.

Este disco dos Electric Light Orchestra é de 1974 e chama-se Eldorado. A música dos ELO entrou nos meus ouvidos algures no início de 1975 e com este disco, editado primeiro nos EUA, no final do Verão e na Inglaterra em finais do ano.

A música que ouvi pela primeira vez no rádio começava com o tema introdutório, uma peça de abertura com voz de banda sonora e som orquestral rápido e pouco usual porque logo a seguir, misturado com a sonoridade de orquestra juntava-se uma secção rítmica de bateria e baixo que nunca tinha ouvido. E então aparecia a voz no tema I can´t get out of my head, de uma melodia inconfundível e que me captou a atenção em modo singular porque nem fazia a mínima ideia de quem se trataria. O grupo, ELO era-me completamente desconhecido e o artista principal Jeff Lynne ainda mais. O tema seguinte, Boy Blue, bem ritmado e em tom pop, alternava em pizzicatos de violoncelo absolutamente inovadores para mim, na música rock. Fiquei logo rendido àquele som, sem saber de quem era e que agradavelmente recendia a Beatles que tresandava ( por exemplo Mr. Kingdom que é um pastiche de Across the Universe), com orquestra misturada em tonalidade própria e inconfundível. Semelhante experiência tive outra já nos anos 2000 com o som de John Prine, um country inesperado que me remetia para um Dylan do início dos anos sessenta.

A primeira vez que terei visto a capa do disco foi numa revista alemã da altura, Pop, de Dezembro de 1974, numa pequena vinheta a preto e branco e numa crítica em língua que não entendia e cujo disco estrela nesse mês, era o Relayer dos Yes.
A Rock & Folk ignorou completamente o disco e talvez por isso nem me tenha apercebido do nome e de uma gravação que para mim se tornou importante ao longo dos anos, a ponto de ser um dos meus discos preferidos. Nos anos seguintes, particularmente em 1977 saiu outro monumento a este tipo de música: Out of the Blue, duplo Lp do mesmo grupo e que merece um postal exclusivo.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Página Um- 1975


Entre todos os programas de rádio que ouvi durante os mais de quarenta anos que me lembro de os ouvir, há um que sobressai pela importância que revestiu na época em que descobria a música popular e numa altura em que todos os meses havia novidades que perduraram no teste do tempo.
O programa Página Um, só com o título dava um programa de discussão temática. Tirado de um nome em inglês- Page One- da autoria de um grupo de rock portuense, Pop Five Music Incorporated que incluía um Miguel Graça Moura que terá sido o autor do tema, o programa começara ainda nos anos sessenta, perdurando durante a primavera marcelista e comecei a ouvi-lo em 1974, salvo erro na altura em que passou Midnight at the oasis, de Maria Muldaur. Este tema lembra-me inapelavelmente o Página Um de 1974.
Com o 25 de Abril e o PREC, o programa alinhou moderadamente na propaganda comunista e de extrema-esquerda, com a passagem de temas musicais de feição abertamente esquerdista, mesmo comunista, da América do Sul ( Victor Jara, assassinado no ano anterior no Chile; Pablo Milanez, cubano; Carachu, chileno; Intillimani, chileno; Claudina e Alberto Gambino; Mercedes Soza; G.C.R. franceses; Quilapaion, Judite Reis; Carlos Andreu, da Expression Spontanée, entre outros, além dos portugueses do costume- GAC, V.L., José Afonso, Sérgio Godinho, etc.).
A par dessa agenda política o programa tinha um alinhamento fantástico que se pode ler neste pequeno apontamento acima transcrito com o programa de 15.1.1975.
Nesse dia começou " com o som reggae de Jimmy Cliff em Don´t let it die, um single" ( tal e qual como o locutor apresentou), depois de ter terminado o tema e após as batidas da bateria e do baixo do indicativo do programa que começava sempre às 7 e meia da tarde. Continuou depois com os Sparks do álbum Propaganda, Never turn your back ( nunca mais ouvi esse tema do mesmo modo que no rádio) e prosseguiu nesse dia com "Supertramp considerado como uma das maiores revelações da música rock e o álbum Crime of the Century".
No fim do tema, publicidade ( não apontei a quê) e logo a seguir um instrumental. O Página Um tinha quase sempre um tema instrumental em todos os programas. Neste caso, não identifiquei, mas podia ser de Deodato, por exemplo. Depois, a música de "intervenção". Eficaz. Depois do rock, a música de mensagem e logo depois um grupo brasileiro, o Quinteto Violado. E assim passava a primeira meia hora. Depois das oito da noite, recomeçava com Michal Murphy, um americano de country-rock e logo depois outro instrumental. Publicidade e "começo da divulgação mais ampla do 3º Lp dos Supertramp". E por aí fora até às 9 da noite.
Um regalo de programa que enchia as medidas de qualquer ouvinte exigente. Um alinhamento perfeito na mistura de géneros e temas e uma locução sóbria e apenas indicativa dos temas, músicos e informação mais pertinente e a propósito. Os locutores foram vários, mas em 75 era Luís Filipe Martins. Antes tinha sido Adelino Gomes ou José Manuel Nunes. E depois, durante o Verão quente de 75 chegou a aparecer Artur Albarran com uma voz um pouco irritante e cretina, mas a música sobrepunha-se a tal efeito .
Evidentemente, às 7 e meia da noite, quase na hora de jantar, o rádio era todo para o programa. Muitas vezes disse à minha mãe o habitual "já vou!", que chamava por mim ( Zé! Está na mesa...) por causa do jantar na mesa em baixo à espera e a arrefecer enquanto ouvia os acordes do órgão dos Sparks em Never turn your back on mother earth...ou o Standing in the rain de Johnny Nash. Ou I´ll play for you, dos Seals and Crofts que adorava ouvir. Ou até Maxime Le Forestier que cantava Mourir pour une nuit de um modo que me ficou no ouvido para os anos seguintes e para a cantar eu mesmo...porque é de um romantismo abissal.

Mais além com...


Em Fevereiro de 1975, na mesma altura em que ouvia Dylan no rádio da Página Um, e outras músicas, lia um livro que me marcou e que desapareceu para lugar esquecido: Mais além com...editado pela Europa-América na época e que recolhia várias entrevistas que a revista francesa L´Express fazia com diversas personalidades e a que dava esse título.
No pequeno apontamento que sarrabisquei na altura, escrevia as razões por que o livro me interessava. Uma delas era a descoberta de Rolan Barthes. Tinha 18 anos. Ao reler, apanho-me com um sorriso porque menciono a...sociologia como algo que me fascinava. A esquerda não andava muito longe...

Bob Dylan- memórias de Blood on the tracks

Se há disco de Bob Dylan que mereça atenção é este, de finais de 1974 e o último que merece a pena ouvir integralmente com o espírito dos anteriores. Depois deste não houve mais e Bob Dylan, para mim acabou aqui, artisticamente. Durante o ano de 1974, em finais, saiu um duplo ao vivo, Before the Flood que me preparou para ouvir este, quando saiu.

O disco começou a passar na Página Um da Rádio Renascença em 18.2.1975 ( apontei a data) e possivelmente com a faixa Idiot Wind, mas também You´re gonna make me lonesome when you go, Lily Rosemary and the jack of hearts e Tangled up in blue. Lembro-me de ser anunciado como novidade vinda de Londres, ( Fernando Tenente?) e era disco esperado.
Não faço ideia porque é que Luís Filipe Martins escolheu essas faixas e não outras, bem mais interessantes, como You´re a big girl now ou a pérola do disco, If you see her say hello. Lembro-me porém que insistia muito em Idiot Wind e Lily Rosemary and...que ainda passou em 1.6.75.
Na altura lia a Rock & Folk e ouvia o disco pela leitura e por passagens avulsas no rádio da época.

O disco, verdadeiramente, só o ouvi integralmente, mais tarde, no Verão de 1976. O meu amigo Zé Gomes foi a França ( tinha lá os irmãos e passava lá temporadas, ao chegar o Verão) e trouxe de lá o LP que passava constantemente no velhinho gira-discos. O LP era a prensagem francesa do disco, semelhante à original americana na contra-capa. Logo que disse a um dono de uma discoteca local que tinha tal disco, o mesmo pediu-lho para apresentar na montra, porque ainda não tinha chegado a Portugal, mais de um ano depois de ter saído.
Este pequeno pormenor mostra até que ponto era difícil conseguir por cá discos originais que fugiam do mainstream comercial e com venda assegurada por causa dos tops.
A par do disco ( e talvez o dos Sparks, Kimono my house) trouxe pela primeira vez a Métal Hurlant, o número 7, embora o que eu pretendia fosse o número 6 com capa de Moebius/Gir. Já não havia nos quiosques...e por isso veio o nº 7 cuja capa viria a fazer furor anos mais tarde quando a etiqueta de roupa Fiorucci se lembrou de imitar o estilo gráfico de Robial, com setinhas a esvoaçar em imagens estilizadas.

Esse LP, provavelmente de prensagem francesa tinha a contra-capa original, ainda com o panegírico de Pete Hamill, um crítico americano e que em edições posteriores desapareceu para dar lugar à ilustração que se pode ver, alargada à capa inteira. Essa contra-capa, li-a vezes sem conta neste mesmo sítio enquanto escutava o disco, tentado dedilhar os acordes em consonância numa velha guitarra acústica desafinada ( só aprendi a afinar em Outubro de 1976, pouco de pois disso).

Nos anos oitenta arranjei a versão espanhola do disco, em "precio redondo", cuja capa pouco tem a ver com a original em termos cromáticos e de textura. Com ele gravei a cassete com temas avulsos. juntos com outros de vários artistas cujos Lp´s fui conseguindo arranjar.
Depois disso, aquando da reedição de alguns discos de Dylan em SACD, em 2003, arranjei o disco cuja edição é bem cuidada e com qualidade sonora apreciável.
No entanto, agora que arranjei o original em prensagem americana, tenho mais uma vez a declarar que o vinil ainda é o meio ideal para reprodução deste tipo de música.


sexta-feira, 1 de julho de 2011

Hi fi 1974


Em 1974 e anos seguintes os anúncios nas revistas americanas acerca de aparelhagens de som eram fantásticos e pouco depois, nos dois anos seguintes já não se encontravam essas pequenas maravilhas da técnica electrónica por causa da crise económica que se abatera sobre Portugal. O contrabando acabou por suprir as carências de alguns interessados e havia nichos dessa actividade nas principais cidades do país. Encontrar um par de colunas JBL, como as acima mostradas, era muito difícil. Tal como as aparelhagens japoneses que nessa época invadiam o mercado de consumo electrónico.
Mas os anúncios permitiam pelo menos ficar a conhecer o que havia no mercado.

Hi fi para pobres

Em 1974 a música que ouvia no rádio ainda era num parecido com este.


Os anúncios de jornal ( aqui, no Expresso) mostravam aparelhagens de alta fidelidade com componentes que incluíam gravadores de cassete. Na altura, o design e a imaginação acerca do som faziam-nas objectos apetecíveis.

Na revista Pilote desse ano de 1974, o anúncio à mesma aparelhagem Sony era mais aperfeiçoado e apelativo. Um must e que fazia sonhar.

Portanto, para juntar a música de rádio que então passava albuns completos e dava a conhecer as novidades do momento que eram e continuam a ser os clássicos do rock, com a possibilidade de os gravar, o melhor seria um combinado assim. Neste caso, da Philips. Havia um que era vendido num clube do livro e do disco, recém formado em Lisboa ( Av. Duque de Ávila) e com sucursal no Porto, na av. da Boavista, perto do Foco. Cheguei a ir até lá para o trazer, mas não tinham para entregar.


E como quem não tem cão caça com gato, arranjei este magnífico felino da tecnologia alemã, pronto para captar as melhores ondas sonoras em FM. E em AM também porque era nessa largura de banda que apanhava o programa de John Peel, Top Gear, na Radio One da BBC. Mais tarde juntei-lhe um pequeno gravador de cassetes da Philips. E durante anos foi assim que gravei a música que fui conhecendo e que agora recupero em LP´s originais.