domingo, 6 de abril de 2008

Van der Graaf Generator


As duas imagens acima, estão separadas por trinta anos, pelo menos. É o tempo, a passar...

Os Van Der Graaf Generator, tinham concerto aprazado em Gouveia(!), neste fim de semana. O mítico grupo de Manchester ( começou na universidade local), foi sempre um dos meus preferidos, no chamado rock progressivo. A par dos Gentle Giant e dos King Crimson.

Mas os Van Der Graaf, além disso, tinham um nome mais apelativo e uma imagem fugidia que os remetia para a categoria de mito.

No início do ano de 1975, a revista francesa Rock & Folk, escrevia artigos curtos, mas de louvor intrigante, citando temas e discos anteriores que nunca ouvira e que apetecia encontrar. Em Abril de 1975, o crítico Jean Marc Bailleux, relatava que tinha ido até Nova York no encalço do primeiro disco do grupo, atrasado seis anos, em França, e publicado apenas nessa altura. Uma crónica destas, impressiona.

Em Junho do mesmo ano, uma outra crónica no jornal inglês New Musical Express, dava conta dos espectáculos do grupo em...Paris. A imagem associada ao artigo do jornal, foi talvez a primeira que me permitiu ver a cara dos músicos.

Em Dezembro de 1975, a revista francesa Best, publicava quatro páginas com letras de músicas antigas dos VDGG e ainda do novo disco, GodBluff. Com imagens que eram as primeiras a cores, que via, dos membros do grupo, como esta que segue.

Ouvi a música dos Van Der Graaf Generator, pela primeira vez, em meados dos anos setenta. Talvez no início de 1975, mas é possível que tenha sido no final. Por uma razão prática: foi nessa altura que saiu o LP, Godbluff. E foi nessa altura que os VDGG dram vários concertos em paris, na sala Wagram. Como documenta esta foto.

Embora o grupo tenha editado discos fundamentais, até essa altura, e que só ouvi anos mais tarde, por não estarem disponíveis no mercado corrente, foi em finais de 1975 que comecei a ouvir os acordes iniciais de Godbluff que recordo como se fosse hoje.

Na rádio desse tempo antigo e memorável, à noite, por vezes, começava a ouvir-se um som de sopro repetido, seguido durante segundos por um de teclados e uma voz que sussurava “here at the glass...”.

Depois de o escutar por várias vezes, apresentado por Jorge Lopes ou Fernando Balsinha, adeptos do progressivo passado em disco integral, no RCP, corria para o gravador para apanhar o máximo. E o máximo que consegui apanhar nesse tempo, foi o que se passava a seguir a “...farce”. Faltava sempre gravar as duas frases anteriores- “Here at the glass-all the usual problems, all the habitual...farce”. Embora a versão do disco seja superior, pode ouvir-se ao vivo no You Tube. Assim, doutro modo, era o Undercover man.

E a seguir, era o nirvana musical até ao fim do disco, com os Sleepwalkers. Esses temas, continuam a ser, ainda hoje, alguns dos que consigo cantar integralmente, com a letra decorada e tudo. Dezenas e dezenas de audições, nunca lhes subtraíram um átomo de maravilha.

Em finais de 1975, começava a aprender as primeiras noções do que era o Direito. Preferia, sem dúvida alguma, passar na montra das discotecas da baixa de Coimbra e mirar o LP. De capa preta e com um carimbo a vermelho, a dizer, “Godbluff”.

Como não tinha gira-discos, ouvia com gravador portátil. E chegava, nesse tempo. E pedi a uma amiga que comprara o disco para me deixar fotocopiar as letras, impressas na capa interior. Uma fotocópia que na altura ainda cheirava a um odor de fotocópia tipo xerox e que ainda guardo.

Poucos meses depois, na Primavera de 1976, porém, saía o melhor Lp do grupo. Still Life, captou a minha atenção, depois de ter lido na revista Best, alguns dos temas de discos anteriores, incluindo Killer e Man-erg, dois monumentos do rock progressivo britânico e que só ouvi alguns depois, já na década de oitenta e um ou outro, na de noventa.


Por esse tempo, os VDGG já tinham conquistado o interesse total, de modo que a visão do LP, no escaparate, foi como uma visão de um quadro modernista, de um pintor do início do século passado: um deslumbre. Nessa época, os LP´s de música de qualidade tinham lugar de culto nas discotecas especializadas e esse foi dos primeiros discos que me apeteceu comprar só para ter o guardar. Acabei por o arranhar, anos depois, em prensagem original.

A audição desse disco, no Outono de 1976, nas noites de auscultadores, suscitou desenhos, sonhos e lembranças sonoras de grande impressão. Os temas são todos de grande qualidade e o final, grandioso, concentra toda a temática das letras de Peter Hammil: a vida e a morte, com o transcendente por perto. A experiência de audição desses temas, nessa altura e nessas circunstâncias, será provavelmente a mais aproximada, ao transe experimentado pelos adeptos dos paraísos artificiais.

O começo, com órgão ondulante parte para um ritmo encantado, em poucos compassos. O tema My Room, apenas com secção rítmica, saxofone e voz, é uma pequena maravilha de concisão temática e de melodia inesquecível. Um tema de grande luxo sonoro, ouvido repetidas vezes, sempre com grande prazer auditivo.

A música dos VDGG, prescinde, na maior parte dos temas, da guitarra do rock, para dar preferência aos teclados de Hugh Banton e principalmente aos instrumentos de sopro de David Jackson, a grande figura do grupo, a par de Peter Hammil, autor das letras.

No mesmo ano de 1976, outro disco. World Record, alguns meses depois de Still Life, numa sucessão produtiva de qualidade impressionante, foi um disco escutado com o interesse redobrado pelas sensações anteriores de transe sonoro.

O tema final, grandioso, era um achado que nesse final de ano de 1976, soava como uma sinfonia ao novo mundo que em Portugal se prometia e que redundaria em fracasso a breve trecho.

No disco seguinte, de 1977, intitulado The Quiet Zone/ The Pleasure Dome, a experiência fantástica dos três discos anteriores, saía frustrada pela introdução da sonoridade de um violino. Apesar da expectativa, não consegui apreciar o disco , como apreciava os anteriores. O violinista, Graham Smith, do grupo String Driven Thing ( que chegou a vir a Portugal, salvo o erro), emprestava ao disco uma sonoridade não apetecida e por isso, espúria.

Os Van Der Graaf acabavam para o meu gosto, nesse disco.

Porém, faltava descobrir os anteriores. E que descobertas! Todos os discos anteriores, merecem a atenção particular do apreciador de música popular progressiva, a começar logo pelo primeiro.

Além disso, o líder Peter Hammil, entre 1971 e 1975, publicara discos a solo, tão ou mais importantes que os discos do grupo.

Em 1977, ouvia Nadir´s Big Chance. Uma descoberta que me satisfazia a sede de Van Der Graaf. Depois, nos anos oitenta e noventa ( o primeiro disco dos VDGG, The Aerosol Grey machine, foi publicado em cd, pela primeira vez, em 1997), foi a descoberta progressiva de toda a discografia anterior dos VDGG, um dos grupos que mais aprecio na música popular.

No mesmo ano de 1977, a revista Rock & Folk, no número de Agosto, publicava esta crónica de um disco sem referência de maior, a não ser o título The Long Hello e a menção a músicos dos Van Der Graaf.

O disco, ouvi-o uma vez, no rádio da época. Fiquei a lembrar-me de um dos temas, todo instrumental, aliás e com recortes jazzísticos.

Anos a fio, percorri discotecas, perguntei por referências, em vários lados do mundo. Graças á Rede e a este sítio de grande aficionado, descobri que o disco que vira a preto e branco na crítica da Rock & Folk, tinha afinal esta belíssima cor e era a versão francesa do disco que tem outras versões.

E este ano, graças ao ebay, comprei-o. Este mesmo, nesta versão e nesta capa. E ouvi-o, outra vez, tal como há mais de trinta anos tinha acontecido. E lembrava-me exactamente das notas do tema, tal como se as tivesse escutado ontem. Fantástico.



4 comentários:

MARIA disse...

Caro José :
O que fez neste post foi uma espécie de aguarela de palavras que encheu de sons extraordinários, do típico mistério do grupo, enfim... tal qual degustar uma maravilhosa história do imaginário das mil e uma noites, colorida de muitas cores e muitos sons.

Extraordinário, este post, como o são em regra, nesta Loja.

Agora, se me permite, vou ali para a lareira que a noite aqui pelo litoral faz-se fresca, escutar os temas que aqui referenciou.

Um beijinho amigo

Maria

Eduardo F. disse...

Grande artigo, amigo.

Apesar de não contarem já com David "Jaxon" (devido à minha ignorância... será por isso que o último álbum dos VdGG, saído há pouco menos de um mês, se chama "Trisector"), era um oportunidade que não podia perder.

E foi uma grande noite, em Gouveia.
Não é por acaso, mas os VdGG são a minha banda preferida de rock dos anos 70!

Abraço

josé disse...

Grande sorte a tua, Eduardo F.

Os VDGG são, também, a minha banda preferida dos 70, de matriz inglesa.

Se bem que vi no outro dia, um video no You Tube, ( ou seria no Old Grey Whistle Test?), com os Gentle Giant.

Um dia destes, sai artigo sobre os irmãos Schulman

Eduardo F. disse...

As reedições de Repertoire, mesmo que não conheçamos os artistas em causa (o que, por acaso, passe a redundância, não é bem o caso), e se formos melómanos, apetece mesmo ter aqueles objectos que tanto prazer nos oferecem.

Aguardamos então por esse artigo.
Cs melhores cumprimentos