terça-feira, 1 de junho de 2010

Os trilhos da imaginação

Há coisas curiosas e uma delas é a imaginação e os truques que nos prega, apadrinhados pela memória.


No início dos anos setenta, costumava ler o Jornal de Notícias, do Porto e que na época publicava várias tiras desenhadas, em sequência diária, com historietas diversas. A maior parte dessas tiras, provinha da agência americana King Features Syndicate, Inc. e uma delas narrava em desenhos as aventuras do agente secreto Corrigan, também conhecido por X-9.

Os desenhos, em 1971, eram da responsabilidade de Al Williamson, embora tal facto, na época me fosse relativamente indiferente, tal como era a circunstância de a série ter já longos anos e o autor original se chamar Alex Raymond. O que a mim interessava mesmo, na altura, era ler a sequência diária e ficar de um dia para o outro à espera do desenvolvimento da história, nem sequer muito elaborada mas de efeito seguro, tal como qualquer filme de série b.
E os desenhos impressionavam-me pela qualidade intrínseca ao traço fino e preciso com que se mostravam carros, máquinas e...mulheres, geralmente modelos de beleza.
Entre 1 de Fevereiro e 1 de Maio de 1971 o Jornal de Noticias publicou as 78 tiras da história do Prisioneiro do Mosteiro e provavelmente a primeira tira da história que vi, foi esta, porque estava de férias de Páscoa, desde 1 de Abril de 1971.

O que me impressionou na imagem foi o desenho do convento budista.

Não sei porquê, nem sequer o motivo pelo qual nunca perdi essa imagem da memória, entre os milhões de coisas e objectos que entretanto passaram pela consciência e inconsciência. No entanto, a nitidez dessa imagem esquemática e quase em esquisso, ao longo do tempo desapareceu, paradoxalmente, para se fixar numa imagem mais nítida e precisa que se associou ao verdadeiro convento budista no Tibete que aparece nesta imagem. Uma imagem falsa, portanto, uma vez que a verdadeira, original, não era sequer do convento do Tibete e apenas uma alusão ficcionada ( o país da historieta é um inexistente Kalipur) e que no entanto se trasmudou por efeito ilusório ao longo dos anos.

E como descobri isto tudo?

No outro dia, no Porto, num alfarrabista, perguntei por aventuras de Corrigan, precisamente por andar à procura desta historieta. O livreiro mencionou um nome- José Matos-Cruz- como grande conhecedor da matéria e que até tinha escrito nos anos oitenta, vários textos a propósito precisamente, da publicação dessas tiras diárias no Jornal de Notícias. E mostrou-me algumas, de suplementos no Jornal de Notícias e Capital ( o relativo a estas imagens, sei-o agora, foi publicado em 26.10.1986 e 5.3.1987, respectivamente).
Uma busca rápida pela Rede apontou-me o nome do autor, como tendo um blog -Imaginário. E um endereço de email que logo utilizei para lhe expor o meu interesse particular nesta coisa pouco comum. E passados dias recebi a resposta amabilíssima não só com a menção à história em causa, como a data em que foi publicada e onde poderia encontrar tal coisa. Da leitura à ebay foram alguns segundos e na Itália havia precisamente para venda um desses volumes em que tal história aparecia.
São desse volume- Eureka Bum, suplemento ao nº 124, de 15 de Maio de 1974- as imagens a preto e branco e com a dimensão das tiras que o JN publicava que aqui ficam.
E obviamente o agradecimento, mais uma vez, ao especialista José Matos-Cruz.

Aditamento em 15.6.2010:

Al Williamson morreu no Domingo, 13 de Junho, com 79 anos, na sua cidade natal, Nova Iorque. Lido aqui.

1 comentário:

zazie disse...

Que coisa deliciosa, estas memórias.