domingo, 1 de junho de 2008

José Almada

José Almada ao vivo, em Ovar, num pequeno teatro de aconchego em que o palco, decorado em motivos de gosto rural e antigo e as cadeiras da plateia quase se tocam, numa simbiose entre os artistas e os espectadores, apresentou as suas canções, não cantadas em público desde há mais de trinta anos. Como novidade, ainda cantou algumas inéditas e de idêntica matriz.

Numa plateia conquistada de avanço, pela expectativa de ouvir algo já gravado e reconhecido há muitos anos , José Almada não desiludiu os seus admiradores, no modo de tocar e cantar músicas simples, de poucos acordes, mas de sensibilidade grande e imaginário poderoso, em panorama alargado ao bucolismo, aos campos, animais e sentimentos humanos mais profundos e perceptíveis, na maneira de dizer e cantar.

A ovelha bale bale”, introduziu a dúzia e meia de canções dos dois discos a solo, publicados no início da década de setenta, mais algumas inéditas e recentes, numa tonalidade de voz que recupera as inflexões originais e acrescenta outras, surgidas com o tempo de espera de mais de trinta anos.

As palmas vigorosas que se seguiram e repetiram, permitiram ao cantor ajustar a viola acústica de cordas de nylon e a cantar de pé, como será seu costume, introduzindo o tema seguinte, Hóspede e logo depois, Olha as ovelhas como são, duas das melhores do primeiro disco.

A instrumentação singela, da simples viola acústica, no concerto, apenas acrescenta os contrapontos necessários à música cantada por José Almada, em acordes de acompanhamento que complementam a voz e são os temas, conhecidos, do disco, que trazem à memórias as frases mágicas, como em Homenagem, cantada a seguir a Anda Madraço, esta, numa versão de vivacidade superior à do disco.

Homenagem, é um tema de êxito certo, para uma composição que no disco, vai ao mais fundo do tempo, onde se enterram os mortos e celebram os vivos.

A sublimação musical de um tema orientado à volta de uma cerimónia funérea, adquire cambiantes artísticos no uso das palavras que definem e descrevem a diferença da pompa e circunstância de um enterro nobre e um outro de maltrapilho.

A evocação de um tema deste género, de contexto algo lúgubre, adquire outro contorno, paradoxalmente mais alegre, na tonalidade musical de um ritmo que descreve um andamento fustigado, em tudo contrário ao esperado compasso que o tema sugere.

A música, também sublime, torna este tema o paradigma da obra de José Almada: o uso de palavras raras e esquecidas, com evocação de vivências passadas e antigas, num leit-motiv sempre presente: o das pessoas humildes e despojadas de bens, que não de sentimentos ou humanidade interior e sentida, muitas vezes, em ligação telúrica com o campo e as suas realidades de equilíbrio antigo. Uma ecologia folk, enraizada, do tempo em que nem se falava no assunto.

É esse o tema fundamental da obra de José Almada e que o torna único no panorama da música popular portuguesa, ao saber aliar a extrema musicalidade da sua obra, a letras de grande qualidade literária, de autores consagrados ou de pessoas que lhe foram próximas e escreveram no mesmo tom.

A audição do primeiro disco de José Almada, Homenagem, comprova isso mesmo, porque se torna em pouco tempo, um exercício de repetição prazeirenta de sons agradáveis ao ouvido. É um disco cativante e de efeito aditivo, pela beleza e musicalidade das composições.

Em bónus, nada despiciendo, essas composições, trazem sempre um ângulo ou perspectiva de uma vivência única que no caso do autor, terá sido mesmo experimentada, na vida real dos anos setenta e oitenta. O convívio com pastores, agricultores e a vida rural, em particular, no Douro de Armamar, juntando o bucolismo e o agreste, soma-se ao convívio literário com autores de grande qualidade temática, como é o caso de José Gomes Ferreira.

Na confluência desses elementos particulares, e que criam um clima próprio e único, a música de José Almada atinge por vezes os píncaros do génio da beleza poética e artística.

Ora, foi nesse estado de espírito que esperei o concerto, levando comigo o disco original e ainda uma revista Mundo da Canção, de Dezembro de 1970 que transcreve um tema das suas músicas, precisamente Mendigo, e uma apreciação crítica do disco então saído, da autoria de Tito Lívio, exigente crítico da revista e que considerou essas obras musicais, de José Almada, como “muito positivas”.

No intervalo do concerto, à procura do cantor, encontrei-o nos bastidores e foi uma emoção, manifestar-lhe o quanto me agrada a sua música e os motivos que me levam a apreciá-la.

A sua grande simplicidade no trato e alguma timidez, por temer não estar à altura das expectativas musicais, depois de mais de trinta anos de voluntário afastamento das lides musicais, são apenas o pretexto para lhe solicitar os autógrafos que nunca peço a artista algum e que neste caso me dão um enorme prazer e guardo como preciosidades, porque me trazem de volta o tempo em que descobri estas pequenas maravilhas da sua música.

Na conversa que se seguiu, nesse intervalo e no fim da actuação, houve tempo para perceber os motivos do afastamento, as razões da gravação dos discos e o contexto em que ocorreram e ainda as dificuldades em obter actualmente, uma via para uma publicidade mais consentânea e merecidíssima, com a sua obra de 1970.

Escrever sobre o concerto e a música de José Almada, tem de arrastar consigo a referência obrigatória a estas sensibilidades que a sua música convoca, porque são a essência dela e que lhe dão alma distinta.

A música de José Almada não se descreve. Escuta-se e aprecia-se, sendo redundantes os adjectivos que se lhe possam colar, vindos de quem aprecia. O concerto, relata-se em poucas palavras: excepcional e memorável, mesmo tendo em conta a exiguidade de meios e a singeleza da apresentação.

Os pormenores sobre a sua simpatia, personalidade ou maneira de ser, complementam apenas essa essência de luxo musical, na pele de um Mendigo, um Pastor que chora, um amigo dos lagartos, porcos, ovelhas ou caracóis, em modo musicado.

No artigo de Tito Lívio, na Mundo da Canção, nº 12, de 15.11.1970, sobre o primeiro disco, escrevia-se:

"Questões haveria a pôr: sinceridade, coerência, eficácia, progressismo ou aprogressismo de uma canção como esta, etc...problemas afinal, que outros ( possíveis) discos de José Almada possam vir a esclarecer. Para se poder ver lucidamente. Bem como o porquê daquela forma estranha de pronunciar os esses".

As questões estão respondidas e de modo a contentar os que alguma vez tiveram dúvidas: o concerto de José Almada, em Ovar, deu resposta a algumas delas. A sua vida anterior, responde às demais. O seu regresso, pode acrescentar algo mais à história que ainda não terminou, para bem de todos nós que apreciamos o que ouvimos.


8 comentários:

MARIA disse...

Olá José,
pena que fosse pouco divulgado o evento. Eu adoraria estar presente.
O seu blog mantém-se extraordinário.
Um beijinho amigo.
Maria

jose almada disse...

talvez possa em breve extrear "lágrimas" musica e letra minha
Abraço Zé Almada

jose almada disse...

Vou tocar no dia 31 de Novembro á noite no Furadouro. (Café Concerto)

jose almada disse...

Hoje dia 29 de Novembro é que toquei no Furadouro, desculpem o engano. Até estava a ser bonito as pessoas iam gostando como que ademiradas e deliciadas mas por causa de 2,ou tres individuos tipo expontaneos como nas touradas quiseram participar na festa e tocar e cantar de improviso parei ali e veio a policia fim da festa.
Os meus amigos ficaram com pena queriam mais mas o ambiente desabou todo e ficou a promessa de haver mais em breve.

jose almada disse...

No proximo Sabado dia 6 de Dezembro vou tocar na quinta da Barroca (Armamar,DOURO) se a neve nos deixar chegar lá. Um obrigado á Rádio Cube de Armamar que estão a falar disso.

jose almada disse...

Um pedido de desculpas a todos não foi só pela neve afinal mas adoeci tambem e tivemos que adiar o espectaculo na Barroca. Esqueceu-me e passou-me completamente tambem de avisar a radio clube de Armamar que chegou a aparecer no local para fazerem a gravação do mesmo e á hora que tinhamos combinado Já os informei do que sucedeu, mas foi aborrecido da minha parte não lhes ter telefonado a dizer que não podia ser afinal naquele dia.
A minha desculpa foi que estava com bronquite asmática e fiquei-me por ali a padecer e com forças somente para superar a doença que é horrível e parece que se morre.
Prometo que cantarei em breve com gosto e sentimento para quem goste. Posso dizer que o Eduardo já confirmou no CAR, em Braga,no mês de Janeiro farei lá um espectaculo. Só por ele e pela sua humildade vale a pena vou com o maior gosto, tal como tenho ído aos organizados pela Ana, e José que são formidáveis.
Com gratidão
José Almada.

jose almada disse...

Obrigado Joáo pelo que escrevês-te no meu Perfil. "És sábio e atento!"
O orgulho tápa-nos neste mundo e a simplicidade atenua e clarifica-nos.
Teu amigo e admirador tambem.
Zé Almada.

O que deu muito podia dar mais. Melhor foi o que deu pouco. Deu tudo o que tinha!

jose almada disse...

Estou juntamente com uma editora preparando um novo disco.
Em principio posso dizer que será um CD com 12 musicas, e que se chamará: "Mas o mundo não vê".