quinta-feira, 17 de julho de 2008
A música de José Almada
Os anjos cantam
domingo, 13 de julho de 2008
José Almada, o aristocrata da pobreza sublimada

No Verão de 1970, José Almada, então com 19 anos, publicou o seu primeiro disco em modo de apresentação. Tema: os mendigos.
Os mendigos?- perguntarão os intrigados do costume. Sim, os mendigos. Os pobres dos pobres, incluindo os de espírito e estado de vida social. Os que nada têm de seu e de nada precisam dos outros, a não ser a atenção caridosa que passa e mira de soslaio a condição de desgraça, deixando a esmola para a côdea ou para o alívio instantâneo do espírito recolhido em depressão habitual.
Só esta atitude de atenção a uma condição marginal do indivíduo, suscita a curiosidade do passante de escaparate que mira o disco, com capa a retratar um apartado da vida comum.
Nesse ano, no início da década de setenta, um tema tão obnóxio da corrente comum, suscita a atenção de uma editora recém criada, vinda de um programa de televisão de grande qualidade temática, técnica e de audiência. Um programa como poucos houve na televisão portuguesa. O Zip-Zip, nome do programa, animado pela tripla Carlos Cruz, Fialho Gouveia e Raul Solnado e realizado por Luís Andrade, passou durante todo o ano de 1969, de Maio a Dezembro, em plena esperança de mudança na configuração do regime político português da época. Por lá passaram alguns expoentes da cultura portuguesa da época, como Almada Negreiros que inaugurou o programa, ou Agostinho da Silva que foi entrevistado depois, ou artistas como Manuel Freire, da corrente musical que de repente surgiu com a designação de baladeiros.
O Zip, terminou em Dezembro de 1969, por esgotamento na luta contra a censura marcelista do regime, vinda do salazarismo que teimava em não se renovar social e politicamente, conduzindo, anos mais tarde, directamente à Revolução em 25 de Abril de 74.
Os Mendigos e José Almada, chegaram a ter encontro marcado no programa, frustrando-se o evento pelo fim prematuro do programa que iria marcar o futuro de décadas da tv portuguesa que nunca mais foi a mesma.
Mesmo assim, a gravação do primeiro disco de José Almada que continha o tema e ainda outros, com seis fachas de cada lado, intitulou-se Homenagem, sendo publicado pela editora Zip-Zip, com produção de arranjos, espantosa e sóbria de qualidade rara, de Pedro Osório.
O título tema, retoma uma Homenagem incerta, mas de conteúdo lírico, com peso literário de Fausto José, um escritor e poeta da vida de José Almada, tal como o seria o seu próprio pai, autor de letras cantadas e conteúdo que toca a alma. Uma alma da terra nossa, do nosso povo antigo e de tradições seculares.
Homenagem, toca o lirismo do paralelo entre os ricos e poderosos e os desvalidos que acabam por igual, numa campa. Rasa ou de mausoléu, unem-nos a essência do regresso ao pó e a ligação a essa lição fundamental, de raiz cristã ( memento Homine quia pulvi es...). Homenagem, traduz o espírito do essencial, no percurso do Homem: o destino final, percorrido em rituais diversos, mas de conclusões iguais e sem dissemelhanças.
Os temas restantes, no disco, abordam, todos eles, essa realidade insofismável da existência: somos todos mendigos por algo que não logramos alcançar, num destino comum, em que os animais irracionais, participam, em similitude de destino existencial.
A música de José Almada, original e com referências esparsas à música popular da época, numa economia de meios instrumentais, depurada e por vezes austera, compõe-se em melodias de efeito sonoro perfeito e de riqueza inventiva cativante.
A dicção das palavras cantadas, o estilo de cantoria e a junção da música ao lirismo profundo dos temas, tornam este disco, um dos mais fundamentais e importantes da música popular de sempre.
A potencialidade evocativa dos temas, com cadência marcada em acordes simples, atinge por vezes o sentimento de uma profunda corda interior que suscita a emoção pura de uma lágrima furtiva ou o adejo de uma nostalgia implacável que toca experiências vividas ou sentidas como reais.
A música de José Almada, não se explica em palavras correntes, senão por metáforas nem sempre conseguidas, de definição estilística rebuscada para atingir a simplicidade do óbvio: a qualidade superior da música composta em canção.
José Almada, por outro lado, experimentou a realidade de uma vida singular e que na altura da música de Homenagem, apenas tinha perspectivas de desenvolvimento incerto.
Almada descende de portugueses, enraizados no profundo de um Portugal, fundado em antiguidades que nos moldaram a vida comum, ao longo de séculos.
Na família alargada de José Almada, encontramos pessoas que conviveram com o fausto da nobreza, a riqueza dos privilégios régios ou o usufruto de heranças antigas e disputadas em lutas fratricidas e de recorte centenário.
A família e genealogia de José Almada convocam logo a curiosidade de um percurso no Portugal antigo e com raízes nos mais altos estratos de uma sociedade de classes ainda medievais e que surtiram pelos últimos séculos do nosso viver comum.
Esse património genético, alguma coisa deveria comportar, em estilo, modo, resquício de comportamento e educação.
A José Almada, tocou-lhe essencialmente, a herança de um património rico em lirismo, antigo, português, profundo e enraizado em poetas e escritores do nosso viver em comunidade organizada, desde o remoto séc XII.
É provável que o próprio nem se dê conta da herança notável, aceite sem declaração notarial e a benefício de património pessoal intangível, mas de riqueza assinalável. Porém, quem quiser pesquisar o acervo que o disco Homenagem denota nos seus temas, referências líricas, estilísticas, musicais e de simplicidade desarmante, encontra-a toda, lá, nos interstícios das suas canções e no estilo do canto que as anima.
O espectáculo que José Almada deu em Viana do Castelo, em 11.7.2008, numa sala para concertos, anexa ao teatro Sá de Miranda, foi reveladora de tudo o que ficou escrito e ainda mais:
Aos 56 anos de idade, os temas de 1970 e 1975, soaram como novidades agradáveis e recentes, a ouvidos neófitos que acorreram para os escutar. A quem já os conhecia de ginjeira,o canto particular de José Almada, soou como a confirmação de um grande artista, de talento suficiente para emocionar uma plateia que esteja disposto a mergulhar no sentimento e evocação poética, garantindo uma viagem em sensações líricas e de melancolia controlada pela beleza simples da poesia da palavra portuguesa.
O alinhamento dos temas, passou pelos dois discos publicados, nessa época- , Homenagem e Não, não me estendas a mão- e ainda alguns inéditos, não gravados.
Partindo de uma apresentação em cantoria a solo, com acompanhamento singelo a guitarra acústica, José Almada tocou e cantou, cerca de 18 canções, num espectáculo com duas partes e contando com os três encores, a pedido de uma assistência entusiástica de amigos, admiradores e espectadores atentos.
O espectáculo, à semelhança do ocorrido em Ovar, na casa Contacto, em finais de Maio passado, foi organizado por amigos e admiradores entusiastas que aprontaram uma belíssima casa de espectáculos em modo de café-concerto, com centena e meia de lugares sentados e grande ambiente sonoro e acústico.
A expectativa, entre os presentes, vindos de vários lados, de Lisboa, Porto, Braga e da terra, era grande, porque a maioria, conhecendo o disco, nunca tinha ouvido José Almada ao vivo e deixaram de ouvir falar do mesmo, há mais de trinta anos, surgindo com a curiosidade de saber como era o José Almada de hoje, comparando-o com o de há mais de trinta anos, na presença e voz, gravada e fisicamente presente.
A apresentação do cantor, ao público do café do teatro Sá de Miranda, ocorreu assim, num ambiente de relativa surpresa. O som vindo do palco, revelou-se perfeito e de qualidade superior, na transposição da voz do cantor, acompanhado pela viola.
José Almada habituou-se a cantar em pé, perante o público que o escuta e nem a banqueta presente, o conduziu ao assento de repouso durante toda a actuação.
Começou por entoar as suas canções saídas de Homenagem e de Não, não me estendas a mão, os dois discos de referência, misturando-as com algumas inéditas. Com pequenos intervalos explicativos sobre a origem da letra e de pequenos apontamentos sobre o significado das canções, foi apresentando a essência da sua mensagem cantada, em tom de baladeiro, sem compromisso político evidente, ao contrário dos émulos que apareceram na mesma época e que fizeram história na música popular portuguesa.
Uma das canções, intitulada Casa Abandonada, composta em parceria com um irmão, aliás presente, e numa altura em que ambos nem contavam vinte anos, conta a história de vida das casas antigas que perderam a alma dos donos.
O que espanta, na música e canções de José Almada , é essa alusão explícita e constante, a perdas de coisas e bens, num despojo total, que paradoxalmente enriquece o espírito e sublima os sentimentos de perdas e a melancolia dos pesares mais profundos, numa poesia de coerência temática que acaba como emblemática do estilo do cantor. A música de José Almada, nesses temas, completa na perfeição, o sentimento poético subjacente aos poemas de autores como José Gomes Ferreira ou Fausto José, este, um autor local, do tempo do Douro.
A interpretação das canções antigas, pelo actual José Almada, contempla uma actualização na entoação e algumas delas, ganharam em vicacidade. Por exemplo, a ultra melancólica Vento Irado, do Lp Homenagem, cantada na primeira parte do espectáculo, ganha uma toada mais expedita e menos arrastada que no disco, retirando-lhe alguma carga de tristeza prolongada que na gravação, atinge quase as raias do insuportável, tal a intensidade da letra e música associada, num langor acompanhado pelas cordas e sopros da mais acentuada melancolia.
No disco, segue-se, a essa toada triste, a elegia sobre os Anjos que cantam e não cantam. Uma das mais belas canções do disco Homenagem, com letra de Carlos Oliveira, também foi cantada no espectáculo, em tom um pouco mais corrido, sem os requebros e embalos que emprestam a esse tema uma beleza etérea que apetece repetir e repetir na audição do disco. Na versão do espectáculo, a canção não perde a toada do requebro, ganhando o ritmo, embora desacompanhado do piano, que no disco complementa na perfeição o arranjo musical da canção.
A canção Hóspede, subentendida como Os Mendigos, é outra das grandes canções do disco e cuja interpretação ao vivo, não perde absolutamente nada, porque a riqueza melódica e lírica da canção, suporta completamente a interpretação desacompanhada de arranjos.
Outra das canções apresentadas e já ouvidas em espectáculos anteriores, é Oh Pastor que choras, a versão do poema de José Gomes Ferreira que o cantor Fausto também gravou na mesma época. Esta versão de José Almada, mesmo a apresentada em espectáculo ao vivo, suplanta essa versão de Fausto, na escolha da melodia interpretativa.
Em paralelo com Os Anjos Cantam, a canção Cala os olhos vagabundo, com poema de José Gomes Ferreira, é um primor do primeiro disco e que no espectáculo ao vivo, resulta em pleno como uma grande composição, a lembrar os grandes mitos do vagabundo andante, tentado pelo desconhecido maravilhoso.
O tema inaugural e principal de Homenagem, que lhe dá o título, é prejudicado nos espectáculos ao vivo, pela ausência da instrumentação que no disco lhe confere uma dimensão extraordinária. No entanto, ainda assim, o poema de uma força telúrica e evocativa, remonta a carência de instrumentação, pela força interpretativa.
Uma das novas canções, apresentadas no espectáculo, é uma versão do poema de Augusto Gil, Batem leve, levemente. Outra, a versão musicada do poema de Luíz de Camões, Perdigão perdeu a pena, num tema interessante, como nova composição inédita. Em complemento pessoal e de referência intimista, uma canção intitulada Perdidamente, dedicada especialmente à mulher, presente e com tempo recente e demasiado relacionada para permitir a distância crítica suficiente.
Do segundo LP, cantou As aves choram, Ferreiro velho e cansado ( por lapso de escrita, agora corrigido, não cantou esta) e principalmente Pedro Louco, repetida no final, a pedido da audiência, tal como aconteceu com Hóspede e uma canção de um ep, Anda Madraço, com que terminou o espectáculo.
Em registo sonoro,quase todas as canções deste segundo disco, resultam melhor em palco que no disco, principalmente Pedro Louco ( Ah! Se um dia o Pedro Louco). Nem a orquestração do disco, retira seja o que for à força interpretativa que a canção contém, apresentada em palco.
O espectáculo de Viana, de José Almada, conteve-se em dúzia e meia de canções, apresentadas sobriamente e com uma força interpretativa de empenho notável. A gravação do espectáculo, disponível dentro de pouco tempo, testemunha um grande evento, com um som cheio de musicalidade e palavras certas para os poemas dos discos de José Almada.
No fim, de pé, os presentes pediram-lhe, mais uma vez, Pedro Louco que é louco, é louco, é mouco é. Pediram-lhe ainda a repetição de Hóspede, com a toada dos mendigos e uma que não cantara antes: Anda Madraço.
No entanto, o verdadeiro remate do espectáculo, ocorreu perante uma dúzia de amigos, num pequeno bar da cidade, junto a um rio Lima silencioso e calmo. Perante um porto de mar atento, mas de guindastes já adormecidos, tocou novamente e em privado, a sua Homenagem e outras ainda e ainda uma que não cantou no início do espectáculo, como esperava: Não, não me estendas a mão.
Nem seria preciso. A sensibilidade elevada das suas canções, dispensa a mendicidade de sentimenos genuinos de autenticidade.
(Postal corrigido em 15.7.2008, após audição da gravação.)
