sábado, 12 de janeiro de 2013

Alta Fidelidade, um som da América e do Japão nos anos oitenta

Em finais de 1982, início de 83 interessava-me por sistemas de reprodução de música em alta-fidelidade. Sempre gostei de máquinas electrónicas capazes de me darem um som agradável ao ouvido e as "aparelhagens" que via nas páginas de publicidade das revistas estrangeiras, geralmente americanas faziam-me muitas vezes comprar essas revistas só para mirar os objectos de desejo.
Embora nessa altura, por volta de 1974 o objectivo era conseguir um gravador que fosse capaz de gravar os álbuns ( lp´s) que passavam integralmente nos programas de rádio do RCP ou depois, nas emissoras nacionalizadas que tomaram o nome de Antena 1 a 4 e nesta passavam os discos integralmente, com um mero aviso no início: " hoje dedicamos o programa `Dois Pontos` ao lp dosYes, Relayer", por exemplo. Ou " Vamos passar na íntegra o lp de Leo Kottke, Mudlark" e assim se ouvia o disco até ao fim, sem interrupções.
O mais próximo do que poderia encontrar que me satisfizesse essa necessidade de ouvir e gravar os discos que o rádio passava era este pequeno aparelho publicitado numa revista Pop ( alemã), de 1974:

O aparelho da Phillips ( a Grundig também tinha um) era o máximo em design e portabilidade. Mesmo sendo mono, o som que de lá vinha, nessa altura, como nada tinha de digital, era mais suave e ouvia-se muito bem e com a impressão de ser um som "cheio" de essência musical. E era isso que importava.
De resto, ouvi vezes sem conta o disco dos Van Der Graaf Generator, Godbluff, saído em 1975, num aparelho destes e com uns auscultadores mono e com efeitos sensoriais muito semelhantes aos que hoje experimento com a audição do lp original em condições de qualidade superiores e de verdadeira alta-fidelidade.
Portanto, tal gosto pela pesquisa de emoções sonoras gravadas, associadas à beleza estética dos produtos, vinha de longe, particularmente já de 1974 e começou com as publicidades na revista National Lampoon, humorística mas cujos textos geralmente nem lia porque apenas me interessavam as imagens, da publicidade e dos desenhos e ilustrações. Nessa e noutras revistas americanas, como esta Oui de 1974.


As inglesas dedicadas exclusivamente à alta-fidelidade, só mais tarde, já nos anos oitenta. Hi-Fi News, Hi FI review ou Hi FI Pleasure foram revistas que comprei e li, e muitas guardei, sempre com grande interesse, nos anos oitenta e noventa. Acompanhei desse modo os primeiros lançamentos dos cd´s na época em que essas revistas faziam listas mensais dos lançamentos novos, na música pop e clássica.


 Um dos aparelhos que mais gostava de ter nessa época era este que aparece numa publicidade da Lampoon: um gravador de cassetes, numa configuração  que começava a dar os primeiros sons em alta fidelidade por causa da melhor do sistema de transporte das fitas e do sistema de redução de ruído Dolby. Até fazia as contas ao câmbio do dólar, mas valia pouco uma vez que passado pouco tempo, as dificuldades económicas do pais, traduzidas em falta crónica de divisas estrangeiras tornaram proibitivas as importações deste tipo de material. Só em contrabando, coisa que aliás surgiu logo no final dos anos setenta, em força.
O gravador, esse, era uma pequena maravilha técnica e de design japonês. As colunas que se mostram são americanas JBL e de um modelo que ainda hoje gostaria de ouvir- a L100, uma variação do modelo 4310 ou 4312, com uma grelha em espuma talhada que era uma maravilha estética. Frank Zappa chegou a misturar a música gravada em pelo menos um dos seus lp´s - Ship arriving too late to save a drowning witch, de finais dos setenta- de modo a ser reproduzida nessas colunas, por serem populares entre os apreciadores.


Mas não só as revistas americanas traziam este tipo de publicidade. A francesa Pilote, já em edição mensal, no Verão de 1974 trazia este anúncio a uma aparelhagem Sony que me fazia cair os olhos. Era esteticamente belíssima e o anúncio era o máximo. Além disso incluía tudo o que me interessava: gira-discos e rádio com amplificador.

O Expresso da mesma época publicou também uma publicidade ao mesmo produto, incluindo uma verão com cassete, o que era o máximo. Durante algum tempo esta aparelhagem era a que gostaria de ter tido.

Assim, em 1982, dei comigo a comprar a primeira revista High Fidelity, edição americana. Em Outubro desse ano, a revista trazia reportagens sobre componentes de alta-fidelidade como colunas e o modo de as escolher. As publicidades, essas, eram irresistíveis e havia uma da Pioneer que marcou essa época.

Em Janeiro de 83, faz agora 30 anos, a revista trazia a primeira abordagem crítica do som do cd, entretanto aparecido no mercado, mas ainda raro de ouvir. A conclusão é a mesma de hoje: o vinil acaba por ser preferível.



Em Fevereiro de 1983, quase dez anos depois daqueles anúncios na National Lampoon aparecia esta capa com imagens de gravadores de cassetes, já com um design diferente e sensacional, com os mecanismos de activação de funções em modo de pressão electrónica, em vez de mecânica. A era da engenharia electrónica e informática, aplicados à electrónica de consumo mostrava as suas potencialidades
 

Lá aparece a japonesa Nakamichi que se converteria no aparelho mítico para gravar cassetes, cujo modelo de topo era este, o Dragon, de 1982 nunca ultrapassado pela concorrência nos testes dessas revistas ( nem sequer pelos suíços da Revox ou pela Nagra) :

Os gravadores de cassetes da Nakamichi, para além do design diferente, inovavam frequentemente, como neste caso em que conseguiram melhorar o sistema auto-reverse, num aparelho que rodava as cassetes automaticamente e em 360 graus, logo que terminava um dos lados, para se ouvir o outro sem necessidade de manualmente ir ao aparelho virar a cassete. Este modelo RX- 505 apareceu no mercado por volta de 1983 e nessa altura, em Portugal, só se poderia ver em casas de material de contrabando que aliás não faltavam em Lisboa, Porto ou Coimbra.


A visão destes pequenos aparelhos de reprodução sonora, com um aspecto estético aprimorado em design industrial de qualidade soberba era um must, como acontece neste anúncio a um gravador de cassetes da Onkyo, publicado em Janeiro de 1983 pela High Fidelity:

Ou este, da mesma revista mas de Outubro de 1982, de uma outra pequena maravilha da Sony que em 1982, na sequência da invenção do Walkman logrou introduzir no mercado dos gravadores portáteis um concorrente sério aos Nakamichi, de um luxo superior. Este design da Sony é imbatível de beleza industrial:

O fantástico era ainda descobrir nessa mesma revista, por exemplo um anúncio como esses ou este, da Denon:

E na página anterior  ver este anúncio ao futuro da gravação dos sons, o adaptador PCM da Sony, segundo consta em 16 e admitindo 14 bits, e provavelmente em frequências próximas da do cd actual ( 44.1kHz), embora específicas da banda video associada para gravação ( designadamente os Betamax da Sony). O design, no entanto, seria de causar inveja ao falecido Steve Jobs:

Os anos oitenta foram, por estes motivos e outros, uma época de ouro da alta-fidelidade aliada ao design industrial. Os modelos das marcas mais conhecidas eram simplesmente assombrosos de beleza estética e surpreendiam pela inovação e qualidade.

Nesta época já tinha o meu "combo" Grundig que me satisfazia razoavelmente as necessidades auditivas e musicais, mas olhar para estas pequenas maravilhas da técnica e do design era um prazer acrescido, obtido através das revistas da especialidade. Ao longo dos anos sempre foi assim e ainda hoje leio regularmente a HI FI News que me traz as novidades em audio, agora aplicadas à digitalização em alta resolução ( 24 bits e 192 kHz) impensáveis nessa época mas perfeitamente banais actualmente, audíveis através de DAC´s específicos e que traduzem em som analógico os sinais digitais.
Será este, provavelmente, o futuro da audição desses sons agradáveis ao ouvido. O estudo dos DAC´s já se revela por isso essencial.
As gravações que actualmente faço são nesse registo digital e passando o som dos lp´s para tal registo ( através de um conversor analógico-digital, no caso da Roland, o Quad-Capture) que ocupa por disco mais de 1,5 GB, a sonoridade que se alcança é muito próxima desse som ideal. E com uma conveniência no manuseio que não tem comparação com o que era exigível nos lps. Actualmente, transportam-se facilmente, num cartão de memória flash, vários discos, dependendo apenas da capacidade do cartão, sendo certo que os de 32GB custam menos que um cd e portanto bastante menos que os então LP´s. que se vendiam relativamente caros por serem também obras de arte musical...



sábado, 29 de dezembro de 2012

Time e Newsweek


No início dos anos setenta dei em reparar nas revistas estrangeiras como estas: a Time e a Newsweek. Lembro-me que em 1971 encontrei um número perdido da Newsweek, sem capa,  já maltratado, numa mesa de sala de espera na escola onde então andava e...fiquei com ele. Foi esse o único furto que cometi em toda a minha vida. Acho que até me confessei disso. Ainda tenho esse número da revista.
 Assim, em Novembro de 1973 a capa da Time era uma foto assim, em close-up, de Nixon, às voltas com o escândalo Watergate. Lá dentro, a revista trazia um artigo sobre Portugal intitulado Unpleasant Dreams, a propósito das eleições e do caso das Três Marias. Comprei a revista que é esta:


Em seguida a Newsweek tinha um grafismo ligeiramente diferente da Time mas em Dezembro desse ano tentei-me pelo primeiro número que custou 20$00. A Time custava 17$50. Em Julho de 1975, porém, já custava 27$50.

Não apenas pelo preço mas pelos artigos e capas, ao longo dos anos comprei mais vezes a Time que a Newsweek e cheguei mesmo a assinar a revista nos anos noventa.

Agora que a edição em papel da Newsweek chega ao fim, é tempo de recordar as décadas de Time e Newsweek e alguns números que guardei dos muitos que comprei.


terça-feira, 11 de dezembro de 2012

O admirável mundo dos catálogos de livros

No final dos sessenta e início da década de setenta, as principais livrarias portuguesas publicavam catálogos em que mostravam a mercadoria que tinham para vender, no caso, livros.
Nessa altura fiquei fascinado pelos livros que via na montra das livrarias, particularmente as enciclopédias ou volumes de fascículos. Também as biografias e livros de História me interessavam e era um regalo poder passar tempo a mirar a montra bem ornamentada das livrarias de Braga, da rua do Souto, particularmente. Passava dias ( principalmente noites, antes de adormecer) a pensar nos livros que iria poder ver quando pudesse sair em férias, de Natal ou Páscoa ou mesmo "férias grandes". Antecipava esses dias de final dos sessenta  particularmente a partir de 1969, com gozo imenso em poder ver o último número da Mundo da Canção ou da Flama ou de publicações avulsas e livros nas montras. Os quiosques que havia na parte central da cidade, particularmente um que ainda existe, tal e qual o desse tempo, no final da rua de Sª Margarida eram um lugar mágico, para mim.
Como não podia ter todos os livros que via e me fascinavam, descobri um modo de poder olhar para os mesmos e sonhar em tê-los organizando listas mentalmente e por escrito. Comecei a pedir por escrito às editoras então existentes em Portugal, através de uma lista geral que vi numa revista, os catálogos gerais que tinham. E algumas começaram a mandar regularmente tais catálogos, pensando, se calhar que ali estava um cliente potencialmente interessado em encomendas por grosso...
Agradeço muito aos ingénuos das livrarias e editoras que então satisfizeram esse meu gosto particular e de grande satisfação intelectual.
Aqui ficam algumas imagens de alguns desses catálogos que recolhi nessa altura e que guardava como se de autênticos livros se tratasse.
A ideia, provavelmente ocorreu-me numa feira do livro que se realizou no mês de Junho de 1969 em Maximinos, tinha então 13 anos incompletos.
Um dos primeiros e mais desejados era este da editora católica União Gráfica que aliás editava a Flama. O catálogo de 1970 é este:

Havia outro porém, ainda mais interessante, da editorial Aster que tinha os livros que então me interessavam verdadeiramente:   biografias e segunda guerra mundial.Na feira do livro comprei a biografia de Rommel, general alemão da II Guerra mundial, adversário de Montgomery de quem o meu pai me falava das aventuras no Norte de África. Mais tarde, ao ler os Escorpiões do Deserto, historieta de banda desenhada de Hugo Pratt, publicada no Tintin belga de 1973, lembrava-me disso.

A par desses surgia uma espécie de folheto ilustrado que vinha com o Almanaque das Selecções de 1970 e que anunciava o livro que me tentava: grandes vidas grandes obras. E um microscópio fascinante. Por causa disse cheguei a comprar um mais pequeno, mas com três lamelas de especimens como asas de insectos. Para ver em cores de arco íris.

E a história da Segunda Guerra Mundial em três volumes muito bem apresentados. E ainda um globo terrestre iluminado. Objectos de culto para mim, na época. Há pouca coisa hoje em dia, época de abundância que me suscitem maior desejo de experimentar do que estas que então havia. Coisas simples e pequenas, mas de fascínio incrível.




Ainda em 1969, ou já em 1970, a Bertrand remeteu-me este, a par de outros nos anos a seguir ( a Bertrand era muito generosa a mandar estas coisas, e todos os meses ou quase mandava cartas, que hoje se poderiam chamar "newsletters" com informações sobre livros novos que saiam.

 Depois seguiram-se outros, como este da Verbo:



Com o anúncio a um livro de Marcelo Caetano que se confunde graficamente com um outro que saiu no início de 1974 chamado Portugal e o Futuro, da autoria de um certo Spínola. O grafismo e lettering da capa são muitíssimo parecidos e nunca vi nada nem ninguém a referir-se-lhe, embora me pareça que não terá sido por acaso...

Outras editoras de "nicho" como esta, Cosmos que se dedicava a livros de luxo também mandavam catálogos.



Uma livraria do Porto, chamada Civilização também mandou este catálogo de 1969


Mas em 1971 a Europa-América encheu-me de satisfação porque o pequeno catálogo que mandaram estava recheado de livros que só me apetecia ter, às dezenas, começando por uma obra em meia dúzia de volumes sobre a Segunda Guerra Mundial.


 A Bertrand, em 1972 mandou este com a figura do Padrinho, a publicitar o livro de Mario Puzzo.

 Na mesma edição aparecia o anúncio ao livro de Jacques Bergier, Despertar dos Mágicos que acabei de comprar à mesma Bertrand, na edição da Folio, por ser mais barata.
 O catálogo de 1973
 E o de 1974



A par de outros como o da Verbo de 72-73, de uma cor mais escura e tonalidade diversa da que aparece aqui, por defeito do scanner ( e da qualidade da cópia).


A Verbo vendia a célebre Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura que me fazia cair os olhos quando a via na estante da biblioteca onde vi pela primeira vez.A imagem da mesma está aqui, depois de quarenta anos. O sítio não é o mesmo, mas os livros são e a Enciclopédia lá está a par de outra que ainda me fascinava mais: a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, encadernada a preto e com rótulos encarnados.
Foi aí que vi pela primeira vez a palavra "vulva" e me impressionou o desenho...

Nessa mesma biblioteca impressionavam-me estes livros de Daniel Rops sobre a história do cristianismo.


A Verbo era por isso um mundo de livros.


 
 Havia ainda outros catálogos de outras editoras, como a Ulisseia


 Da d.quixote

 E até da Le Livre de Poche, distribuidos pela Bertrand.


domingo, 9 de dezembro de 2012

Jornal do Cuto, 1972

Há 40 anos havia uma revista de banda desenhada que me despertou a curiosidade, para além do Tintin. Tinha duas dúzias de páginas, todas a preto e branco, com excepção da capa e contra-capa, mesmo assim em paleta limitada. Por isso mesmo era mais barata que o Tintin. Custava 5$00 enquanto aquele ficava por 7$50 e as historietas eram de proveniência americana, mesmo do Sul, como era o caso de Cisco Kid, desenhado por Jose Luis Salinas. Tinha ainda histórias desenhadas pelos portugueses Eduardo Teixeira Coelho e Vítor Péon. E uma história de um romance histórico, de Alexandre Dumas- Os mosqueteiros do rei, o homem da máscara de ferro, ilustrada de modo soberbo por Arturo Castillo. Nessa mesma altura lia as aventuras dos três mosqueteiros que afinal eram quatro.
Em Janeiro desse ano decidi-me a comprar o primeiro número quando já ia no 30º com frequência semanal. E tudo por causa de umas páginas sobre um desenhador americano- Alex Raymond-  e que o mostravam em pleno exercício da profissão. O que verdadeiramente me atraiu foi a foto em que se via um estirador, com a tampa basculante. Fascinava-me a possibilidade de ter uma mesa de desenho assim. Nunca tive...



Imagens do Jornal do Cuto nºs 31 e 32 de 2 e 9 de Fevereiro de 1972.

Imagem dos Mosqueteiros do Rei, do Jornal do Cuto nº 33 de 16 de Fevereiro de 1972. O esquema clássico da banda desenhada- "...continua"- acompanhado pela interrogação sobre o que acontecerá a seguir era fatal para a leitura da semana seguinte.
Ainda assim, a revista não passou de meia dúzia de números, nas minhas mãos. O dinheiro não chegava para tudo e em 1972 dei em comprar a revista Vida Mundial. Semanal e dedicada a assuntos da actualidade política e culturais.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

História, em brasileiro, 1973

Em finais de 1973 apareceu no escaparate da livraria Bertrand uma revista brasileira sobre História que já vira anunciada no jornal Diário Popular , de 2. 10.1973.

O anúncio era de tomo e a apresentação não me deixou indiferente porque reunia uma série de artigos todos com interesse, sobre os russos: Estaline, Trotski, Dostoievski.



A revista graficamente não era muito elaborada e o papel, "couché "demasiado pesado,  não dava aquele toque de revista que apetecesse muito folhear. As cores também não eram as de melhor lustro, muito por causa do papel que outras revistas brasileiras não tinham, como por exemplo as Seleções do Reader´s Digest, com papel mais leve e lustroso.
Ainda assim o anúncio prometia um "poster" que com o tempo desapareceu e já nem me lembro o que representava, tendo uma vaga ideia de um mosaico com figuras histórias de grandes brasileiros.
Por outro lado, a revista tinha data de Maio de 1973 mas só aparecera por aqui em Outubro,  em distribuição exclusiva  da livraria Bertrand.


quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Revista Lucky Luke 1974

Em Março de 1974 apareceu na montra da livraria Bertrand uma revista nova, francesa e que suscitou logo a curiosidade pelo título, Lucky Luke. Habituado a ler as aventuras da banda desenhada de Morris na revista Tintin, aliás nessa altura já em fase de desinteresse para mim, tal revista renovou a curiosidade e comprei o primeiro número, aliás muito caro para a época ( 45$00, contra 10$00 do Tintin nacional e 15$00 do original, belga).
Porém, esse número trazia um interesse suplementar e quase motivo obrigatório para a comprar: um poster de Gir, retratando John Wayne numa cena de um filme célebre, salvo o erro Rio Bravo. O desenho de Gir de Março de 74 mostrava já o grande interesse que tinha em conhecer as obras desde desenhador francês e que o Tintin não tinha ocasião de mostrar, para além das aventuras de Blueberry, aliás poucas e já antigas.
Foi precisamente a partir daí e nos meses que se seguiram que descobri o Pilote e a mina de tesouros do desenho. Evidentemente que o Tintin ficou para trás.
 O poster, esse,  ficou algum tempo na porta do quarto, acabando por se estragar. Mas há outro para mostra.




terça-feira, 30 de outubro de 2012

Observador, a revista de 1971


Em 19 de Fevereiro de 1971 saiu em Portugal esta revista que na época se constituiu como uma pedrada no charco da imprensa da época, um pouco conformista com o regime existente mas simultaneamente de oposição redactorial por serem de esquerda quase todos  elementos que então escreviam nos jornais e revistas mais vendidos. Vida Mundial, Flama , Século Ilustrado, etc. eram publicações de onde saíram anos mais tarde os esquerdistas da imprensa revolucionária do PREC de 1974-75.

O Observador, porém, não tinha essas características e fazia quase uma apologia do regime económico em que nos encontrávamos, com uma distância crítica ao regime político. Hoje seria uma espécie de Jornal de Negócios.
Um dos cronistas da revista era Vitorino Nemésio, hoje muito esquecido. "Se bem me lembro..."

A edição primeira cuja capa é acima mostrada tinha este editorial de Artur Anselmo. Quando lhe perguntaram numa espécie de diálogo socrático " qual a feição política da revista?" respondeu: Apenas a do interesse do povo português.


Noutro editorial do número 4 de 4 a 12 de Março de 1971, escrevia-se assim, como hoje não se escreve: 


sábado, 27 de outubro de 2012

Livros de bolso Verbo- RTP em 1970 e Europa-América em 1971

Esta imagem é um anúncio aos livros RTP, lançados pela editora Verbo em parceria com a estação de televisão em 1970. O anúncio foi publicado na revista Observador de 3 de Dezembro de 1971 e nessa altura os livros já iam nº 56, com A Vida é Sonho de Calderón.

O primeiro volume, Maria Moisés, de Camilo Castelo Branco,  saiu em 6 de Novembro de 1970 e custava 15$00, sendo oferecido o segundo volume. 

Vale a pena saber a história deste lançamento inédito em Portugal, no começo dos anos 70 do século que já passou. Tirada daqui:

Os Livro RTP são actualmente considerados um case study , estudado por muitos especialistas da área, pois os valores de tiragem que foram alcançados e as proporções que o projecto acabou por tomar foram completamente inéditos para a época. 
Esta colecção foi o maior espéctaculo que jamais uma editora nacional proporcionou ao público português! Ainda hoje, passados mais de 30 anos, em todas as feiras de livros usados e alfarrabistas, sem excepção, encontramos Livros RTP . 
Em 1970, em colaboração com a RTP, a Editorial Verbo lança a Biblioteca Básica Verbo – Livros RTP , uma colecção de livros de bolso. A ideia surge de uma experiência idêntica que se havia realizado, com grande sucesso, em espanha, com a televisão espanhola e uma editora madrilena.
 O então Presidente da Direcção da RTP, depois de uma viagem a Espanha, vem muito entusiasmado com a ideia e é dirigido um convite à Verbo para ser a editora portuguesa a participar neste projecto. 
Tratava-se de uma acção completamente inovadora no mercado português, da qual jamais, na altura, se teve noção da dimensão que o empreendimento iria tomar e na qual todos os detalhes foram cuidadosamente trabalhados. Foram estudados incansavelmente cada um dos 100 títulos a incluir; a periodicidade, acabando por se optar pela semanal; o papel a utilizar nos livros; a cartolina das capas; o tipo de letra; o formato do livro; o grafismo das capas (da autoria de Sebastião Rodrigues, o pai do design gráfico português) e a distribuição. 
Também na distribuição este projecto se revelou extremamente inovador. Montou-se uma rede de distribuição inédita, com 3500 pontos de venda (note-se que então o número de livrarias registadas não ultrapassava o 600), para o abastecimento dos quais a Editorial Verbo teve que reforçar a sua frota de transporte com oito novos furgões. O nosso slogan interno foi que tínhamos que ter um ponto de venda, devidamente abastecido, junto de cada televisor existente em Portugal. 
No fundo, o que se fez foi vender livros em locais onde tal nunca tinha acontecido antes, tais como quiosque e tabacarias, muito à semelhança das novas tendências do mercado . 
Também toda a publicidade a fazer na televisão e que era da responsabilidade da RTP, foi connosco discutida, estudada, realizada e programada. A Editorial Verbo previu quase tudo pensado que tinha previsto tudo e imprimiu 50.000 exemplares dos dois primeiros volumes (o segundo livro era oferecido na compra do primeiro). 
O que não previa era que esses 50.000 exemplares se iriam esgotar na própria manhã do dia do lançamento, 6 de Novembro de 1970, e que as pessoas os disputariam a murro nos armazéns da editora, a ponto de impedirem a entrada a um dos administradores da Verbo, porque as centenas de homens e mulheres que formavam fila para serem abastecidos pensaram que ele lhes ia passar à frente e tirar o lugar! 
Dos dois primeiros volumes - a novela Maria Moisés , de Camilo, e 100 Obras –Primas da Pintura Europeia – acabaram por se imprimir, à lufa-lufa, e vender 230.000 exemplares de cada. Em Outubro de 1972, do 100º título, Os Lusíadas , ainda se venderam mais de 100.000 volumes. 
Ao todo, durante aquelas cem semana, foram colocados em casa dos portugueses, ao preço de 15 escudos cada, mais de 15 milhões de livros, num país maioritariamente iletrado. E Bem necessários eles eram!: numa entrevista de rua que precedeu o lançamento, respondeu assim um transeunte ao repórter da televisão «Camilo castelo branco?, conheço, sim senhor; branco e tinto: Camilo Alves... sim senhor, mas eu prefiro Colares!»... 

Passados uns meses, em Abril de 1971 a editora Europa-América editava por sua vez uma colecção de livros de bolso com outro encanto gráfico e de apresentação. Comecei logo a coleccionar...porque tinha falhado aqueles da RTP.



Soft Machine- Bundles no Verão quente de 1975

No Verão de 1975 reparei neste disco dos Soft Machine cuja capa via a preto e branco, na Rock & Folk de Julho desse ano. Conforme anotei na página da revista ouvi o disco Bundles, todo instrumental e saído do jazz-rock, em 30.7.1975, no programa de rádio nocturno, Em Órbita.

O disco valia pela capa e pela música que então descobria por ler acerca da mesma nessa revista. Provavelmente terá sido a primeira vez que ouvi esse grupo de rock progressivo e a curiosidade era grande, tendo ficado no ouvido certa sonoridade desse disco particular. 
No final desse ano começava a ouvir Van Der Graaf Generator, com o lp Godbluff, saído em Outubro e começava então a aventura no rock progressivo apresentado e recenseado nas páginas da Rock & Folk geralmente por Jean Marc Bailleux.

Quanto a Bundles, só muito mais tarde, anos depois, vi a capa desse disco ao vivo e a cores e só agora o ouvi em lp. Por essas razões é um dos meus discos míticos. Já o tinha ouvido em cd mas não é a mesma coisa. Bundles é o título, é o disco é a capa e é a música e a imagem da Rock & Folk. Tudo junto e o ano de 1975, no Verão.


domingo, 21 de outubro de 2012

Don McLean e American Pie

Este é o disco original de Don McLean, American Pie. Lembro-me de ver esta capa com o dedo esticado e a alusão à bandeira americana num escaparate de discoteca, eventualmente durante o ano de 1972. O disco saiu originalmente em finais de 1971 e o single principal foi um sucesso.
Porém, Vincent, também contido no LP é outro smash hit que me lembro de ouvir e transcrever  a letra da música que vinha num número da Mundo da Canção de Maio de 1972.
Essa música, mais que American Pie, marcou o ano de 1972 a par de outras já elencadas por aqui, como por exemplo Rocket man, de Elton John; You´re so vain, de Carly Simon; Song sung blue, de Neil Diamond, A horse with no name e a sua toada afinada em mi menor e Heart of gold ou old man, de Neil Young, a par de Manassas de Stephen Stills. E ainda Son of my father dos Chicory Tip.
Sensivelmente na mesma altura ( Maio de 1972) saiu o disco dos Rolling Stones Exile on mn Street.
Por um achado de ocasião, por eventualmente a empresa Sonolar de Braga ter posters do disco para oferecer, acabou por me vir parar às mãos este pequeno poster ( em formato A3) e que durante alguns anos adornou o lado de dentro da porta do quarto:


Durante algum tempo ficou para ali, acompanhado por outros que apareciam na revista Tintin. Alguns anos depois, foi acompanhado por um poster a sério, em grande formato, aparecido no primeiro número da revista Lucky Luke, de Março de 1974: um desenho de Gir, representando o actor John Wayne, num filme de cowboys.