domingo, 18 de setembro de 2011

Hi-Fi portátil


O modo de reproduzir som em alta fidelidade sempre me interessou. Em 1976 comprei o número especial da revista Science & Vie que trazia um artigo desenvolvido sobre as noções básicas sobre o som e que ainda hoje me serve de referência.
Gravar música em boas condições e em alta fidelidade tornou-se um hobby que perdura ao longo dos anos.
Desde o gravador de cassetes, em monofonia, ( mas que pouco importava porque o som do rádio também o era) da Phillips, que me serviu durante todos os anos setenta até aos exemplares acima mostrados passaram os anos mas não a música gravada e o interesse em reproduzi-la de um modo aperfeiçoado e a preço razoável.
Assim, na imagem, à esquerda está o leitor-gravador portátil de cassetesda Sony, um Walkman que pode ser considerado o Rolls Royce do produto que saiu nos anos oitenta e acabou há pouco de ser fabricado. É um pequeno gravador extraordinário, com um som incomparável, no género. Quase não se diferencia dos gravadores de mesa, mas também custava o mesmo que eles...

Ao seu lado reproduz- se a imagem de outra pequena maravilha da era digital em que nos encontramos. O pequeno gravador digital da Roland saiu o ano passado, nesta versão, e consegue gravar em frequências que superam a do cd: 24bits a 96000 Hz, ou seja, a qualidade do dvd-audio. É neste momento o que uso para gravar digitalmente os meus LP´s de preferência e o som que de lá sai quase nem se distingue do dos LP´s originais, o que perfaz o meu interesse em alcançar esse nirvano sonoro que só conhece quem já o experimentou.
O pequeno gravador portátil da Roland é complementado com outra pequena maravilha, o Fiio, um conversor digital-analógico portátil que se acopla ( até tem uma pequena borracha para o efeito) e destinado à ligação a auscultadores, funcionando como um pequeno amplificador que assegura uma reprodução mais perfeita daquelas frequências sonoras mais elevadas.
Finalmente, na era digital consegui encontrar o equivalente ao Lp e ao som que lá fica gravado.
Maravilha!

terça-feira, 6 de setembro de 2011

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Van der Graaf Generator- Still Life


Há trinta e cinco anos, por esta altura, ouvia o disco Still Life dos Van Der Graaf Generator, lançado na Primavera de 1976. Os VDGG eram então o grupo que me fazia correr para o rádio e colocava os auscultadores para ouvir em recolhimento todo o disco que passava ininterruptamente num dos programas da noite da Rádio Comercial, normalmente apresentado por Jorge Lopes.
Era quase uma experiência mística, ouvir o Still Life e quando chegava a vez de My Room, a abrir o lado dois do LP, o nirvana sonoro era alcançado numa fusão com uma letra imaginária que me recolhia no meu quarto. A melodia simples, fraseada no saxofone tenor, acompanhada pela secção rítmica e vocalizada por Peter Hammill tornam esta composição uma das que me ficou sempre no ouvido. A composição final, Childlike faith in childhood´s end, então era o culminar absoluto da experiência sonora que este disco representa.
O disco apareceu nos escaparates das discotecas e rapidamente se tornou um dos que gostaria de ter como disco de culto.
A capa tinha aparecido antes na Rock & Folk de Junho de 76, a preto e branco, juntamente com a crítica de Jean-Marc Bailleux e apontei os temas que apanhei posteriormente em qualquer referência avulsa, eventualmente no próprio disco, bem como a cor da capa ( "tom acastanhado").
Nos anos oitenta comprei finalmente o LP em prensagem alemã, ligeiramente diferente da original, pois contém a indicação da duração das faixas e o disco é da Charisma e da Virgin. A original ainda tem o lettering da capa em tonalidade e recorte diferentes. Não obstante, em termos de qualidade sonora, parece que essa prensagem alemã é a melhor de todas.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Disco, música & moda,


Imagem do jornal Disco, Música & Moda de 1 Setembro de 1971, na qual se pode ver o top 20 do momento. Enquanto os ecos de Vilar de Mouros, cerca de um mês antes, ainda se faziam sentir em que viveu o acontecimento, a música que se ouvia no rádio, na onda média e fm era a usual, comercial e sem interesse por aí além.
Demis Roussos, na época e depois de Spring Summer Winter and Fall, era presença assídua nos tops, o que ainda duraria mais alguns anos, reflectindo-se no primeiro lugar no Top, com We shall dance.
Os discos eram esses, a música era esta e a moda eram as calças de ganga da Lois, de marca espanhola, porque as Levi´s de ganga eram produto raro, por cá. Havia de bombazina, de muito boa qualidade e que apreciava como produto de moda desejada. Em cores escuras como azul e o verde ou mesmo preto, eram ainda de perneira estreita, antes da "boca-de-sino" que apareceriam dali a uns tempos.
Esta moda, tal como as demais, vinham sempre do estrangeiro e os primeiros a mostrá-la eram os emigrantes que regressavam ao país por ocasião do Natal ou das férias de Verão. Alguns meses depois lá apareciam essas roupas por cá, generalizando-se o consumo.
As calças Levi´s de bombazine duravam que se fartavam e aguentavam lavagens em água , sucessivas e sem se estragarem muito. A etiqueta que segue é das primeiras Levi´s e até tem o preço da altura: 275$00, um balúrdio para a época porque as Lois custavam quase metade disso, numa época em que a inflação a valer só se sentiria uns poucos anos mais tarde.

( a imagem das calças é tirada da rede e não é de época, mas a qualidade visível do tecido aproxima-se à do original que me lembro e nunca mais encontrei. A etiqueta, branca, também confere com a desse tempo ).
Seja por efeito do tempo ( a minha adolescência) seja pelo valor real da mercadoria, essas calças de antanho ainda hoje me fascinam como produto industrial, pelo design, pela qualidade do tecido e pelo valor de uso derivado da moda de então.

As Lois eram mais baratas e vinham com o algodão por coçar, pelo que exigiam várias lavagens, no tanque, para desbotarem e ficarem como deviam num tempo em que ainda não tinha sido comercializado em Portugal o jean desbotado de fábrica.
Esta etiqueta com foto abaixo poderá ser das primeiras Lois que tive. E que foi precisamente nesta altura, há quarenta anos. A imagem abaixo, tirada da rede, mostra um exemplar dos anos oitenta, ainda muito parecido ao de dez anos antes.
O valor iconográfico desta simples peça de roupa, de ganga, liga-se a um fenómeno que os soviéticos conheciam muito bem: o desejo de pertencer a um mundo cuja civilização invejavam de alguma forma e por isso mesmo a quem visitasse o país era oferecido um valor exagerado pelo simples par de calças jeans que o turista trouxesse.
Por cá, em Portugal e nessa época, o cerco civilizacional não era tão largo, pelo que se podia quase imitar o que lá fora se passava nos grandes centros da Europa e do mundo ocidental. As modas vindas quase exclusivamente do exterior, como ainda hoje, demoravam uns poucos meses a cá chegar mas chegavam. Hoje em dia o fenómeno está esbatido e duvido que alguém que não tenha vivido esse tempo se aperceba do fenómeno e seu significado.
Ainda assim lembro-me de ler um artigo sobre este assunto em que um francês dizia que era difícil encontrar calças de ganga Levi´s em Paris, no final dos sessenta.


sábado, 6 de agosto de 2011

Chicago- os 4 primeiros





Estas são as imagens das capas dos quatro primeiros lp´s originais dos Chicago, saídos em Abril de 1969, Janeiro de 1970, Janeiro de 1971 e Outubro de 1971, nos EUA. São todos da primeira prensagem americana, ordenados de cima para baixo, com uma imagem de conjunto que engloba o Lp quádruplo IV, ao vivo no Carnegie Hall.
Como se pode verificar, as capas dos três primeiros são duplas tal como os discos, mostrando uma consistência gráfica que outras edições não têm.
Durante muito tempo intrigou-me a capa do primeiro LP por causa da imagem idêntica na capa e contra-capa, com tamanho diverso. Muitas vezes fiquei a pensar que a capa era a contracapa e vice-versa, antes de ter visto o original. Tal acontece com a versão em cd, mesmo a rematrizada em 2002 pela Rhino que tem uma imagem de capa que no LP aparece na contra-capa.
Quanto à música e som respectivo nem vale a pena repisar o que penso: estas versões originais são melhores que as dos cd´s. E mesmo a versão do Chicago II em dvd-audio, parece-me ficar a dever algo ao Lp, uma vez que a evidente riqueza sonora, mais limpa de impurezas do vinilo e mais recheada de dinâmica, não alcança a pureza simbólica e serena do som do LP. Este, mais relaxado e menos amplo em sonoridade dinâmica pode parecer anémico em relação ao dvd-audio, mas em longa audição parece-me preferível. Subjectivamente, claro.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Manassas - Stephen Stills

Continuando nas memórias da música ouvida pelo rádio, surgiu-me o registo de uma audição da Página Um, anterior à que julgava ter sido a primeira. Apontei numa página da revista Mundo da Canção saída em 20.4.1972 algumas canções que passaram no dia 5.7.1972 no programa. Uma delas é "What do you do" como então escrevi e afinal será What to do, do álbum Manassas de Stephen Stills, saído nesse ano, precisamente em Abril. No apontamento também consta José Jorge Letria com Páre, escute e olhe...e ainda uma canção inexistente de Elton John- Convention- que afinal é Salvation, do LP Honky Chateau, desse ano de 1972.

Nesta imagem abaixo, do livro de Geografia do 5º ano de então e que frequentei entre 1971-1972, aparece o nome de Stephen Stills, o que remete para essa altura o interesse na música de Manassas. E em cima aparece o nome de Tony Joe White...o que se torna ainda mais interessante, para descobrir que música é que ouvia desse músico, nessa altura para me suscitar interesse em escrever o nome.


O disco Manassas é o melhor disco da carreira de Stephen Stills. Na altura, para além de What to do adorava ouvir Colorado e outras mais que só mais tarde descobri com a compra do disco, em 1986. Uma edição espanhola, com os títulos das letras traduzidos. Recentemente arranjei o original em prensagem americana que se destaca pela maior consistência do cartão da capa e melhor apresentação gráfica sem cores desbotadas como na edição espanhola ( à esquerda na imagem). A edição original ainda traz um poster com as figuras dos músicos e as letras integrais e créditos escritos "à mão", à maneira dos discos de Neil Young.
Como se pode ver na imagem acima, foi nessa mesma altura que saiu Harvest, o LP de Neil Young que me fez ficar apanhado pela música do cantor canadiano durante estes anos todos. Recentemente saiu um disco novo com canções antigas, de 1984. O título é Treasure e a versão em blu-ray é uma maravilha.
Manassas no entanto, continua a ser um disco de referência e de audição continuada. Há um dvd com a gravação das canções em estúdio e que é absolutamente fantástico pela qualidade sonora e pelo que revela desse grupo de músicos de excepção, na música popular.

sábado, 16 de julho de 2011

E.L.O.

Este disco dos Electric Light Orchestra é de 1974 e chama-se Eldorado. A música dos ELO entrou nos meus ouvidos algures no início de 1975 e com este disco, editado primeiro nos EUA, no final do Verão e na Inglaterra em finais do ano.

A música que ouvi pela primeira vez no rádio começava com o tema introdutório, uma peça de abertura com voz de banda sonora e som orquestral rápido e pouco usual porque logo a seguir, misturado com a sonoridade de orquestra juntava-se uma secção rítmica de bateria e baixo que nunca tinha ouvido. E então aparecia a voz no tema I can´t get out of my head, de uma melodia inconfundível e que me captou a atenção em modo singular porque nem fazia a mínima ideia de quem se trataria. O grupo, ELO era-me completamente desconhecido e o artista principal Jeff Lynne ainda mais. O tema seguinte, Boy Blue, bem ritmado e em tom pop, alternava em pizzicatos de violoncelo absolutamente inovadores para mim, na música rock. Fiquei logo rendido àquele som, sem saber de quem era e que agradavelmente recendia a Beatles que tresandava ( por exemplo Mr. Kingdom que é um pastiche de Across the Universe), com orquestra misturada em tonalidade própria e inconfundível. Semelhante experiência tive outra já nos anos 2000 com o som de John Prine, um country inesperado que me remetia para um Dylan do início dos anos sessenta.

A primeira vez que terei visto a capa do disco foi numa revista alemã da altura, Pop, de Dezembro de 1974, numa pequena vinheta a preto e branco e numa crítica em língua que não entendia e cujo disco estrela nesse mês, era o Relayer dos Yes.
A Rock & Folk ignorou completamente o disco e talvez por isso nem me tenha apercebido do nome e de uma gravação que para mim se tornou importante ao longo dos anos, a ponto de ser um dos meus discos preferidos. Nos anos seguintes, particularmente em 1977 saiu outro monumento a este tipo de música: Out of the Blue, duplo Lp do mesmo grupo e que merece um postal exclusivo.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Página Um- 1975


Entre todos os programas de rádio que ouvi durante os mais de quarenta anos que me lembro de os ouvir, há um que sobressai pela importância que revestiu na época em que descobria a música popular e numa altura em que todos os meses havia novidades que perduraram no teste do tempo.
O programa Página Um, só com o título dava um programa de discussão temática. Tirado de um nome em inglês- Page One- da autoria de um grupo de rock portuense, Pop Five Music Incorporated que incluía um Miguel Graça Moura que terá sido o autor do tema, o programa começara ainda nos anos sessenta, perdurando durante a primavera marcelista e comecei a ouvi-lo em 1974, salvo erro na altura em que passou Midnight at the oasis, de Maria Muldaur. Este tema lembra-me inapelavelmente o Página Um de 1974.
Com o 25 de Abril e o PREC, o programa alinhou moderadamente na propaganda comunista e de extrema-esquerda, com a passagem de temas musicais de feição abertamente esquerdista, mesmo comunista, da América do Sul ( Victor Jara, assassinado no ano anterior no Chile; Pablo Milanez, cubano; Carachu, chileno; Intillimani, chileno; Claudina e Alberto Gambino; Mercedes Soza; G.C.R. franceses; Quilapaion, Judite Reis; Carlos Andreu, da Expression Spontanée, entre outros, além dos portugueses do costume- GAC, V.L., José Afonso, Sérgio Godinho, etc.).
A par dessa agenda política o programa tinha um alinhamento fantástico que se pode ler neste pequeno apontamento acima transcrito com o programa de 15.1.1975.
Nesse dia começou " com o som reggae de Jimmy Cliff em Don´t let it die, um single" ( tal e qual como o locutor apresentou), depois de ter terminado o tema e após as batidas da bateria e do baixo do indicativo do programa que começava sempre às 7 e meia da tarde. Continuou depois com os Sparks do álbum Propaganda, Never turn your back ( nunca mais ouvi esse tema do mesmo modo que no rádio) e prosseguiu nesse dia com "Supertramp considerado como uma das maiores revelações da música rock e o álbum Crime of the Century".
No fim do tema, publicidade ( não apontei a quê) e logo a seguir um instrumental. O Página Um tinha quase sempre um tema instrumental em todos os programas. Neste caso, não identifiquei, mas podia ser de Deodato, por exemplo. Depois, a música de "intervenção". Eficaz. Depois do rock, a música de mensagem e logo depois um grupo brasileiro, o Quinteto Violado. E assim passava a primeira meia hora. Depois das oito da noite, recomeçava com Michal Murphy, um americano de country-rock e logo depois outro instrumental. Publicidade e "começo da divulgação mais ampla do 3º Lp dos Supertramp". E por aí fora até às 9 da noite.
Um regalo de programa que enchia as medidas de qualquer ouvinte exigente. Um alinhamento perfeito na mistura de géneros e temas e uma locução sóbria e apenas indicativa dos temas, músicos e informação mais pertinente e a propósito. Os locutores foram vários, mas em 75 era Luís Filipe Martins. Antes tinha sido Adelino Gomes ou José Manuel Nunes. E depois, durante o Verão quente de 75 chegou a aparecer Artur Albarran com uma voz um pouco irritante e cretina, mas a música sobrepunha-se a tal efeito .
Evidentemente, às 7 e meia da noite, quase na hora de jantar, o rádio era todo para o programa. Muitas vezes disse à minha mãe o habitual "já vou!", que chamava por mim ( Zé! Está na mesa...) por causa do jantar na mesa em baixo à espera e a arrefecer enquanto ouvia os acordes do órgão dos Sparks em Never turn your back on mother earth...ou o Standing in the rain de Johnny Nash. Ou I´ll play for you, dos Seals and Crofts que adorava ouvir. Ou até Maxime Le Forestier que cantava Mourir pour une nuit de um modo que me ficou no ouvido para os anos seguintes e para a cantar eu mesmo...porque é de um romantismo abissal.

Mais além com...


Em Fevereiro de 1975, na mesma altura em que ouvia Dylan no rádio da Página Um, e outras músicas, lia um livro que me marcou e que desapareceu para lugar esquecido: Mais além com...editado pela Europa-América na época e que recolhia várias entrevistas que a revista francesa L´Express fazia com diversas personalidades e a que dava esse título.
No pequeno apontamento que sarrabisquei na altura, escrevia as razões por que o livro me interessava. Uma delas era a descoberta de Rolan Barthes. Tinha 18 anos. Ao reler, apanho-me com um sorriso porque menciono a...sociologia como algo que me fascinava. A esquerda não andava muito longe...

Bob Dylan- memórias de Blood on the tracks

Se há disco de Bob Dylan que mereça atenção é este, de finais de 1974 e o último que merece a pena ouvir integralmente com o espírito dos anteriores. Depois deste não houve mais e Bob Dylan, para mim acabou aqui, artisticamente. Durante o ano de 1974, em finais, saiu um duplo ao vivo, Before the Flood que me preparou para ouvir este, quando saiu.

O disco começou a passar na Página Um da Rádio Renascença em 18.2.1975 ( apontei a data) e possivelmente com a faixa Idiot Wind, mas também You´re gonna make me lonesome when you go, Lily Rosemary and the jack of hearts e Tangled up in blue. Lembro-me de ser anunciado como novidade vinda de Londres, ( Fernando Tenente?) e era disco esperado.
Não faço ideia porque é que Luís Filipe Martins escolheu essas faixas e não outras, bem mais interessantes, como You´re a big girl now ou a pérola do disco, If you see her say hello. Lembro-me porém que insistia muito em Idiot Wind e Lily Rosemary and...que ainda passou em 1.6.75.
Na altura lia a Rock & Folk e ouvia o disco pela leitura e por passagens avulsas no rádio da época.

O disco, verdadeiramente, só o ouvi integralmente, mais tarde, no Verão de 1976. O meu amigo Zé Gomes foi a França ( tinha lá os irmãos e passava lá temporadas, ao chegar o Verão) e trouxe de lá o LP que passava constantemente no velhinho gira-discos. O LP era a prensagem francesa do disco, semelhante à original americana na contra-capa. Logo que disse a um dono de uma discoteca local que tinha tal disco, o mesmo pediu-lho para apresentar na montra, porque ainda não tinha chegado a Portugal, mais de um ano depois de ter saído.
Este pequeno pormenor mostra até que ponto era difícil conseguir por cá discos originais que fugiam do mainstream comercial e com venda assegurada por causa dos tops.
A par do disco ( e talvez o dos Sparks, Kimono my house) trouxe pela primeira vez a Métal Hurlant, o número 7, embora o que eu pretendia fosse o número 6 com capa de Moebius/Gir. Já não havia nos quiosques...e por isso veio o nº 7 cuja capa viria a fazer furor anos mais tarde quando a etiqueta de roupa Fiorucci se lembrou de imitar o estilo gráfico de Robial, com setinhas a esvoaçar em imagens estilizadas.

Esse LP, provavelmente de prensagem francesa tinha a contra-capa original, ainda com o panegírico de Pete Hamill, um crítico americano e que em edições posteriores desapareceu para dar lugar à ilustração que se pode ver, alargada à capa inteira. Essa contra-capa, li-a vezes sem conta neste mesmo sítio enquanto escutava o disco, tentado dedilhar os acordes em consonância numa velha guitarra acústica desafinada ( só aprendi a afinar em Outubro de 1976, pouco de pois disso).

Nos anos oitenta arranjei a versão espanhola do disco, em "precio redondo", cuja capa pouco tem a ver com a original em termos cromáticos e de textura. Com ele gravei a cassete com temas avulsos. juntos com outros de vários artistas cujos Lp´s fui conseguindo arranjar.
Depois disso, aquando da reedição de alguns discos de Dylan em SACD, em 2003, arranjei o disco cuja edição é bem cuidada e com qualidade sonora apreciável.
No entanto, agora que arranjei o original em prensagem americana, tenho mais uma vez a declarar que o vinil ainda é o meio ideal para reprodução deste tipo de música.


sexta-feira, 1 de julho de 2011

Hi fi 1974


Em 1974 e anos seguintes os anúncios nas revistas americanas acerca de aparelhagens de som eram fantásticos e pouco depois, nos dois anos seguintes já não se encontravam essas pequenas maravilhas da técnica electrónica por causa da crise económica que se abatera sobre Portugal. O contrabando acabou por suprir as carências de alguns interessados e havia nichos dessa actividade nas principais cidades do país. Encontrar um par de colunas JBL, como as acima mostradas, era muito difícil. Tal como as aparelhagens japoneses que nessa época invadiam o mercado de consumo electrónico.
Mas os anúncios permitiam pelo menos ficar a conhecer o que havia no mercado.

Hi fi para pobres

Em 1974 a música que ouvia no rádio ainda era num parecido com este.


Os anúncios de jornal ( aqui, no Expresso) mostravam aparelhagens de alta fidelidade com componentes que incluíam gravadores de cassete. Na altura, o design e a imaginação acerca do som faziam-nas objectos apetecíveis.

Na revista Pilote desse ano de 1974, o anúncio à mesma aparelhagem Sony era mais aperfeiçoado e apelativo. Um must e que fazia sonhar.

Portanto, para juntar a música de rádio que então passava albuns completos e dava a conhecer as novidades do momento que eram e continuam a ser os clássicos do rock, com a possibilidade de os gravar, o melhor seria um combinado assim. Neste caso, da Philips. Havia um que era vendido num clube do livro e do disco, recém formado em Lisboa ( Av. Duque de Ávila) e com sucursal no Porto, na av. da Boavista, perto do Foco. Cheguei a ir até lá para o trazer, mas não tinham para entregar.


E como quem não tem cão caça com gato, arranjei este magnífico felino da tecnologia alemã, pronto para captar as melhores ondas sonoras em FM. E em AM também porque era nessa largura de banda que apanhava o programa de John Peel, Top Gear, na Radio One da BBC. Mais tarde juntei-lhe um pequeno gravador de cassetes da Philips. E durante anos foi assim que gravei a música que fui conhecendo e que agora recupero em LP´s originais.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Compaq anúncio


Outro anúncio ( da revista Wired dos primeiros meses de 1995) a um produto excelente é este do portátil da Compaq LTE 5000 que então comprei e ainda guardo. Um pequeno computador com um acabamento técnico excepcional e um design ainda melhor.
Logo que vi os anúncios nas revistas de informática, em 1995, não descansei enquanto não arranjei um. Serviu-me muito bem durante algum tempo e foi nesse portátil que acedi à internet pela primeira vez, pelo Sapo.
A Byte de Junho desse ano mostrava o produto concorrente, da Toshiba. Só alguns anos mais tarde troquei a Compaq pela Toshiba que foi na primeira década de 2000 o computador de eleição.

Anúncios de luxo

Em 1995 a Apple começou a mostrar estes anúncios em algumas revistas americanas, como a Wired. Este vinha na Premiere de Março desse ano e foca os novos Powerbook, portáteis de design excelente e que a Apple publicitava com figuras conhecidas e que mostravam o que supostamente guardavam no pequeno computador. Eficaz e anúncio de luxo.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Camel publicidade

No Verão de 1975 dei as primeiras passas num cigarro. O meu amigo Garrido, em pleno serviço cívico, fumava SG Gigante. Lembro-me bem, como se fosse hoje: no largo de Vila Nova de Cerveira, à tardinha, fumei, travei e tossi. Mas ficou-me o gosto e repeti. Dali a dias estava a comprar tabaco. Primeiro SG e depois Kart, marca que mantive até deixar o tabaco definitivamente e sem remorsos, em 1.1.1981 quando já fumava mais de um maço por dia. Foi num Domingo, de manhã e quado ia para a missa. Saí de casa, já atrasado como de costume e de caminho puxei pelo cigarro cujo maço guardei durante anos para me lembrar. Não o cheguei a fumar todo embora o caminho desse para tanto. Deitei-o fora e decidi que naquel dia não voltaria a fumar. E no dia seguinte fiz a mesma promessa, o que me custou um pouco. E por ali fora, semanas, meses e anos. No entanto sempre me lembrei do sabor e travo do fumo em certas altura, como de manhã ao acordar ( mas nunca em jejum, como o meu pai fazia) ou depois de tomar café. Por vezes sonhava com o facto de estar a fumar de novo.


Um dia de Ano Novo, em 1999, no fim do almoço em família alargada os meus cunhados apresentaram charutos cubanos, genuinos. E então pensei: charuto não é cigarro, uma vez não são vezes e cedi à tentação. Acendi um e depois de algumas baforadas travei o fumo inadvertidamente e depois propositadamente. A experiência afigurava-se promissora da retoma do fumo porque o prazer do travo era tentador e renovado. Evidentemente é esse o perigo para quem deixa de fumar e cede à experiência de "só um , desta vez". Mas tive sorte.


Apanhei um tão grande enjoo que me indispôs o dia todo e...foi remédio santo. Nunca mais fumei nada de espécie alguma e nunca mais voltei a pensar ou a sonhar com o fuminho.

Em 1976, em Coimbra, por força do anúncio publicitário supra ou outro parecido, publicado nas revistas americanas, procurei nas tabacarias este maço. Precisamente este maço- e não encontrei. Havia os de caixa dura mas este não. A estética da embalagem sempre me fascinou. E as dificuldades de importação que então havia ( crise económica em crescendo, já em 1976) restringiu o consumo deste tabaco estrangeiro, embora o contrabando prosperasse nessa época por causa disso.

Guitarra acústica e publicidade

Este anúncio à guitarra acústica Epiphone vinha publicado numa revista National Lampoon de 1975. Nessa altura andava à procura de uma "baratinha" e que fosse uma imagem daquelas que via aos músicos americanos: geralmente Martin ou Gibson, com preços proibitivos. Esta Epiphone, uma espécie de subproduto da Gibson, com a sua tampa clarinha e formato folk atraía-me a atenção. O anúncio esse, nunca mais o esqueci. Um grande anúncio. Quase se adivinha o som da guitarra e a suavidade das cordas a vibrarem no ar.
O som da guitarra acústica com cordas de aço ou bronze sempre foi dos que mais apreciei e é para mim um som sublime. As diferentes marcas de guitarra conferem sonoridades diferentes aos seus instrumentos e há quem distinga os mesmos só pelo ouvido. No you tube há quem se divirta com isso, com grande categoria.

Grateful Dead-National Lampoon

Sempre gostei da imagem deste LP dos Grateful Dead que só ouvi nos anos noventa. A imagem de publicidade ao disco, essa, saiu numa National Lampoon de 1975. O verde intenso e o contraste do restante desenho em relevo trompe l´oeil sempre me fascinaram.

sábado, 21 de maio de 2011

O processo criativo dos Beatles

[Beatles: gravação de Strawberry Fields Forever.]

Na Rock & Folk de Novembro de 1972 vem um artigo sobre os Beatles, extraído de um livro sobre os Beatles, de Alain Dister. Em dada altura, escreve o autor:

John e Paul trabalhavam muito as suas próprias canções. Escreveram então [logo no início do grupo] mais de uma centena, entre as quais poucas foram gravadas. "Love me do" que foi o primeiro sucesso e "One after 909" que apareceria no último album figuravam entre essas. A maior parte nunca foi conhecida porque Jane Asher, enquanto Paul ainda vivia com ela, ao arrumar a casa um dia, inadvertidamente, deitou-as ao lixo. As canções já eram assinadas Lennon-McCartney. Tinham uma técnica particular para escrever que mantiveram durante quase todo o tempo em que estiveram juntos. Logo que um tinha uma ideia, escrevia-a num papelinho. Depois, a partir daí, frase após frase construiam um pequeno texto, segundo o método chamado de "tentativa e erro" , lançando as palavras um pouco ao acaso, para verem se colava, reconstituindo pouco a pouco um puzzle minimamente apresentável. O espírito com que John redigia os caderninhos quando era mais jovem intervinha muito no processo de composição: humor um pouco maluco, jogo de palavras, deformação voluntária das sílabas para conferir à mesma palavra dois ou três sentidos diversos. Alguns anos mais tarde os críticos iriam arrancar os cabelos diante do "hermetismo" das canções de Lennon-McCartney, cada um com a sua explicação, para o maior divertimento dos dois compadres...

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Nico e o poster

Esta imagem de Nico ( antiga cantora dos Velvet Undeground, já falecida e que na altura esteve em França num concerto a solo) foi publicada na Rock & Folk de Fevereiro de 1975 , como poster nas duas páginas centrais e por algum tempo esteve na parede do quarto por causa da beleza da imagem. A imagem da beleza feminina, então, para mim. Então inatingível e depois sublimada. Sem perdas. É uma satisfação interior sentir que se não sente nostalgia a não ser por um tempo que sendo de descoberta, conduziu a esse eldorado da beleza pura.

domingo, 8 de maio de 2011

The Lamb lies down on Broadway- Genesis

Há discos que fui ouvindo muito tempo depois de terem saído. Por vezes anos , como no caso dos discos do Grateful Dead, Little Feat ou até mesmo os dos Beatles. Discos que nunca ouvi, como o Silk Torpedo dos Pretty Things. Discos que ouvi na época em que saíram como foram quase todos os importantes na segunda metade da década de setenta. E discos que "ouvi" mesmo antes de terem saído, por ouvir falar deles e ler o que sobre eles se escrevia.

The Lamb lies down on Broadway, dos Genesis, é um deles. Saído em finais de 1974, antes da sua publicação já se falava no disco. E no rádio de então, num dia de inverno desse ano, num programa que já nem recordo mas com a participação de um dos entusiastas que animavam por vezes os programas, salvo o erro, João Filipe Barbosa ( julgo mesmo que não erro) apresentou um disco-mistério que incitava os ouvintes, logo nos primeiros compassos a adivinhar de quem se tratava...
Lembro-me que ao ouvir os primeiros sons do piano do tema inicial e que dá título ao disco, ocorreu-me que era o novo disco dos Genesis. E tendo acertado, ouvi religiosamente os restantes temas, comentados pelo convidado que apresentava o duplo LP que trouxera "lá de fora". Fiquei logo fascinado com o disco que tem alguns "hits" como "carpet crawlers" ou "counting out time".

Só algum tempo depois, na Rock & Folk de Janeiro de 1975 que chegava por cá semanas depois, li a crítica de François Ducray ao disco, mas nessa altura, ao contrário de outras já me considerava um expert na análise temática do disco que segundo aquele João Filipe Barbosa carecia de várias audições atentas para se extrair toda a essência semiótica dos temas.

A imagem supra é a do disco original, em LP. Há uns anos foi publicado em cd, rematrizado, mas a versão em sacd que nunca escutei e deve ser de muito boa feitura porque a do LP que se segue ( A trick of the tail, do início de 1976) em versão sacd é simplesmente espantosa e superior eventualmente à do LP que também tenho.

Depois desse Lp, no ano de 1975 no Verão quente da nossa democracia, os Genesis estiveram no pavilhão de Cascais para um concerto memorável a vários títulos. Na altura, o Expresso deu-lhe a suprema honra de uma pequena notícia, nas páginas de espectáculos, num artigo de algumas dezenas de palavras assinadas por Pedro Pyrrait. Tempos outros.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

The Who -Quadrophenia

Este disco que é duplo foi publicado em 1973 e foi um estouro musical no ambiente da época. Em duplo LP, o tema musical aludia às rivalidades entre jovens ingleses que se dividiam entre mods e rockers nos anos sessenta.
A música é o melhor que os The Who fizeram e este LP , na sua versão original, tem um som que lhe faz justiça. Mais que o cd rematrizado, publicado em 1996. A sonoridade do Lp relembra-me o que ouvia no rádio de então e que cheguei a gravar numa cassete especial da BASF que comprei de propósito para gravar LP´s inteiros e que então passavam no rádio desses anos.
Recentemente ouvi o disco no carro e em casa. E agora no LP original que gravei em 24bits/96KhZ. É uma maravilha de som que mostra um grande trabalho da secção rítmica ( John Entwistle e Keith Moon) em ligação perfeita com a guitarra de Pete Townshend.

Grande disco de que destaco The Punk and the Godfather. E obviamente 5:15. Aqui numa versão do Top of the Pops da época e provavelmente em play-back. Era esse o hit que se ouvia na época, no rádio. O video dá para ver como tocava Keith Moon. E o que Pete Townshend fazia aos instrumentos no fim dos concertos.

Um dos primeiros discos

Este disco de Graham Nash e David Crosby foi editado em 1972 e lembro-me de ouvir a primeira faixa- Southbound Train- que começa com uma harmónica e prolonga a música dos Crosby Stills Nash & Young.
Essa música que ouvira no rádio de então pela primeira vez, ficou-me no ouvido durante anos a fio, bem como a imagem da capa do disco numa discoteca cá da terra. É uma das imagens de capa de disco que me marcou o gosto e durante mais de vinte anos não a revi. Em 1998, a Atlantic, no âmbito da comemoração dos seus 50 anos, publicou o cd, em formato de cartão a imitar o LP.

Mas o LP era inimitável porque recortado na capa que se desdobrava em três, contendo ainda a capa interior as letras e os créditos musicais.

O LP é por isso mesmo um dos meus primeiros discos que só agora arranjei.

Os discos primeiros

Estes dois Lp´s em edição original são de 1970 e 1974. O da esquerda é o Abraxas de Santana e o da direita o Kimono my house, dos Sparks.
São dos primeiros discos que ouvi na época, em casa de um amigo meu- o José Gomes- que os comprara ( ao primeiro por 150$00) e passava com a frequência que só dantes havia em ouvir música: horas a fio e repetidas vezes.
De todas as vezes que lá entrava, o disco que tocava era frequentemente o dos Santana. Provavelmente o melhor disco do grupo e que encadeia todas as composições de um modo musicalmente coerente para o meu gosto. O dos Sparks tocava do mesmo modo e nessa altura ( 74-75) já o ouvira bastas vezes na Página Um da Rádio Renascença da época, apresentado por Luís Filipe Martins.
São dois dos primeiros discos originais que ouvi com a regularidade e que me fizeram gostar dessa música de sempre. Por isso mesmo os comprei agora, na sua versão original em prensagem inglesa.
E soam do mesmo modo que os ouvia na época. E de modo diferente dos cd´s. Mesmo o dos Santana cujo cd comemorativo dos 30 anos, rematrizado e acrescentado, não soa do mesmo modo, apesar de rematrizado e 24 bits numa edição cuidada e já com alguns anos ( é de 1998).
A capa dos discos originais, de prensagem inglesa não é da mesma qualidade que as prensagens americanas, com um cartão mais espesso e cuidado, mas é o que me lembro de ver e ouvir.

domingo, 3 de abril de 2011

Afinal havia outra Realidade


Afinal, a primeira Realidade que comprei foi a que figura em cima, à direita. Mas a primeira revista brasileira que comprei e talvez ainda antes das Selecções, foi a Cruzeiro cuja imagem está à esquerda com o sumário porque a capa se perdeu. É de 28 de Abril de 1970 e folheando a revista percebo a razão de a comprar: Zagalo, treinador da selecção de futebol do Brasil e as imagens a cores e em grande dimensão da exploração da lua, com fotos da Apollo 13 e dos astronautas. Em Abril de 1970 tinha 13 anos e esses eram os temas que me interessavam: espaço e futebol.
A primeira Realidade tem imagens de um tubarão branco, muitos anos antes do filme e com uma foto que me impressionava: a imagem de um indivíduo abocanhado por um desses esquálidos, na região do dorso e que sobreviveu. Mas tinha outra coisa que me levou a comprar: uma reportagem desenvolvida em oito páginas com diversos autores de banda desenhada que não aparecia então por cá: Tarzan de Burne Hogarth; Barbarella, de Jean-Claude Forest; Corto Maltese de Hugo Pratt e Lone Sloane de Druillet.
Só alguns anos mais tarde pude ver e ler algumas das histórias dessas bandas desenhadas mas a primeira vez que vi os desenhos a cores foi nessa Realidade, neste caso alternativa às revistas de bd da época.
Para além disso, havia muitas fotos em modo macro, do cérebro humano, dos neurónios e dendritos. Algo que nem hoje a internet consegue replicar porque as fotos impressas em papel couché ( como se dizia) eram brilhantes de de grande dimensão. Ainda trazia uma reportagem e entrevista extensas sobre Franz Stangl, um nazi que chefiou Treblinka e viveu muitos anos refugiado no Brasil ( onde chegou a ser chefe de departamento da Volkswagen) e depois de preso morreu de enfarte na cadeia ainda antes de terminar a entrevista publicada pelo Daily Telegraph Magazine.
As outras duas Realidades são de Outubro e Dezembro de 1972. Portanto, anteriores àquela que indiquei ter sido a primeira e que só agora descobri. Na de Dezembro vem a história dos Pentagon Papers em papel havana.
A de Outubro trazia uma reportagem alargada sobre a imprensa americana alternativa ou assim. Foi aí a primeira vez que reparei na revista National Lampoon de Doug Kenney, um pequeno génio da edição e que já morreu. E também foi aí que vi pela primeira vez o logotipo do Village Voice, para mim, graficamente, o melhor de sempre em todo o mundo.

quinta-feira, 31 de março de 2011

As revistas brasileiras


No início dos anos setenta, as revistas brasileiras que apareciam por cá eram muitas. E bem feitas, com papel de lustro, a cores e fundamentalmente imitações do que melhor se fazia nos EUA.

Em 1970, talvez em Setembro, comprei a minha primeira Selecções do Reader´s Digest, tradução brasileira da edição original, americana. ( imagem em baixo no meio). Porém, tal poderia ter acontecido antes, em Outubro de 1969, porque conservo um número dessa altura. Já não consigo lembrar a data exacta.

As Selecções eram uma maneira de aceder a diversas leituras em contos, crónicas e pequenos livros condensados na parte final da revista. Nesse primeiro número vinha a segunda parte do "espião que mudou de ideia", numa clara alusão ao tema dominante: a propaganda clara do modelo americano em contraposição ao modelo comunista que a revista desfazia sempre que se proporcionava oportunidade para tal e que era em todos os números.

A descoberta da revista, todos os meses no quiosque da rua de S. Vítor, em Braga ( ainda lá está e basicamente com o mesmo aspecto de há quarenta anos) era uma alegria. Isso e ver o novo número da Mundo da Canção ou da Flama.
A par dessas havia as outras brasileiras. As fotonovelas Capricho, por exemplo e com muita saída nas adolescentes e não só. E depois o resto: Manchete, Cruzeiro, Realidade, uma revista bem cuidada e semelhante à Look americana ou à Paris Match francesa. Ou à Stern alemã.
O primeiro número da Realidade que comprei, em Junho de 1973 e que custava 15$00 tratava de diversos assuntos. No entanto o que me levou a comprar foi uma espécie de encarte em papel havana, com uma história dos índios americanos escrita por Dee Brown. que na altura nem fazia ideia quem era mas agora é possível graças à internet. E trazia ainda um artigo desenvolvido e profusamente ilustrado sobre "o que há de novo na URSS?".

E o artigo de fundo era sobre...o pecado, hoje. E este número tem uma particularidade: tem o primeiro autógrafo que jamais pedi a alguém ( agora há um outro a quem pedi, José Almada): o de António Vitorino de Almeida. Logo depois de comprar a revista encontrei-o na rua e como era espectador atento dos seus magníficos programas de tv, abordei-o e pedi-lhe um autógrafo que o mesmo me deu ali mesmo na última página da revista, a esferográfica azul.

O número de Agosto tinha um artigo muito desenvolvido sobre Hitler, condensado de um livro escrito pelo biógrafo Werner Maser da Der Spiegel e que retrata um Hitler diferente do habitual ogre que era então apresentado a consumo público. Além disso e motivo da compra, um lote das melhores fotografias do século, recolhidas pela Associated Press em álbum com 135 fotos. A Realidade publicou 73. Lá vem a imolação de um budista, pelo fogo, em 1963; a morte em directo de Lee Harvey Osvald; o tiro na cabeça de um um vietcong, à queima-roupa, pelo chefe da polícia de Saigon; o primeiro passeio lunar e muitas outras.

Antes dessa, já conhecia a Cruzeiro e a Manchete, particularmente na época de Carnaval, altura em que a revista esgotava nos quiosques. As fotos eram demais e a espectaculiridade do evento justificava-se. Estes números que aqui ficam são de 1974 e um de 1975. O de Maio de 1974 é de antologia porque tem fotos que nunca apareceram na nossa imprensa, particularmente uma do Largo do Carmo na altura da rendição de Caetano, com pessoas a treparem para as pequenas árvores então existentes no local ( actualmente umas vetustas árvores) e incluindo uma, a preto e branco, de Sousa Tavares ( pai) de megafone em punho empoleirado numa guarita dos guardas a falar para a pequena multidão que ali se juntou e enchia por completo o pequeno largo. As fotos retratam o modo como os brasileiros viam a nossa Revolução de Abril e são de antologia. Lembro-me muito bem de ter querido comprar esta revista na época e já não ter conseguido porque no quiosque onde comprava estava já "reservada". Foi uma pequena frustração que passados muitos anos aliviei porque a comprei num alfarrabista que nem sabia o que estava ali. Há uma foto que nunca foi vista por cá, da rua das Gáveas em que uma camioneta de distribuição do jornal Época estava virada, bem como dois ou três carros de polícia.

E conhecia também a revista História cujo primeiro número saiu em Maio de 1973 ( em baixo e no meio) com um artigo sobre a infância de Stalin ("filho de sapateiro, aluno de padres, nunca confiou em ninguém") e outros sobre Dostoievski e mais outro sobre Richelieu.

A par dessa havia ainda outra revista que saía e se chamava Enciclopédia Bloch ( a editora, a mesma da Manchete. A editora da Realidade era a Abril). O número apresentado, de Fevereiro de 1972 e que custou 20$00, tinha uma reportagem fantástica sobre a Linha Maginot e outro extenso, sobre Israel, quatro mil anos de história.

A par dessas havia ainda a Planeta, da Editora Três e sobre assuntos mais esotéricos que então me interessavam por ter lido O despertar dos mágicos de Jacques Bergier. A Planeta tinha o mesmo formato gráfico que a original francesa, Planète que se publicara desde 1961 a 1968. O número apresentado é de Outubro de 1973 e tem um artigo sobre Gurdjieff, um grego da Arménia com fama de santo, mago e profeta.
Até 1974 e a par do Tintin, do Jornal do Cuto e das leituras da tira de Corrigan no JN, eram essas algumas das revistas, neste caso brasileiras, que me alentavam o espírito.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Disc, NME e Melody Maker


Por vezes, ao longo dos anos e de reolhar para os jornais de música ingleses que comprei nos anos setenta, interrogava-me sobre o motivo de ter comprado em Julho de 1972 ( tinha então 15 anos) o jornal Disc que acima se mostra. E descobri porquê, porque me lembrei: foi por causa dos Deep Purple e do baterista que aparecia na capa, a cores que não eram usuais nos jornais de então.

Revendo o jornal, nada mais interessava. Nem sequer a recensão do LP de John Lennon, Sometime in New York City, na altura ainda nem sequer publicado na Inglaterra, devido a "publishing problems", segundo o jornal.
Sobre Ian Paice, baterista dos Deep Purple, uma página, a fls. 13.
Na última página, porém, outro motivo para compra ( 9$00, na altura): a reprodução de posters da cultura popular de então: Zappa, Che, Jimi Hendrix, Osibisa e também Midnight Cowboy e I want you for U.S. Army!

Só em Julho de 74 comprei pela primeira vez o NME, New Musical Express. Folheando, também não descortino razões imediatas para tal, na época ( e já custava 12$50). Na recensão de discos talvez esteja a resposta: o LP dos The Who, Quadrophenia. E um anúncio ao Live dos Fairport Convention que na época ouvia muito, particularmente Sloth e Rosie. E a fls. 41... uma imagem do International Nude Show. Oh Shit! Tu queres ver que? Oh no. Tem o Neil Young a fls. 14 e uma entrevista de Peter Townshend a fls. 27. Uff!

Em 1974, reincidi em Dezembro ( última imagem em baixo à esquerda) e paguei ainda os mesmos 12$50, mas não tem mistério neste caso: podia ser Led Zeppelin, com o Lp Physical Grafitti, com uma recensão tema a tema e portanto imperdível porque o disco era então imprescindível. Mas a primeira vez que ouvi o disco foi em 8 de Abril na Página Um. ( o programa esteve interrompido devido ao PREC, desde meados de Fevereiro até 5 de Abril e lembro-me que todos os dias sintonizava a Rádio Renascença, às 7 e meia da tarde para ouvir o solo de bateria do Page One, dos Pop Five) .
Portanto o motivo da compra foi o artigo sobre os Bad Company que se ouvia muitas vezes nesse programa de rádio, com observações ditirâmbicas do actual responsável pela LPM ( agência de imagem que presta assessoria ao actual governo), Luís Filipe Martins e já se ouvia na Página Um, na altura. Dizia que era um supergrupo que congregava elementos dos Free e dos King Crimson, o que sendo verdade pouco significava. No entanto, o primeiro disco trazia I can´t get enough e o segundo, Straight Shooter ainda era melhor. Foi essa a razão da compra, certamente.
E trazia a fls 24-35 um anúncio de duplo fim de página com o The Lamb lies down on Broadway, dos Genesis, o que podia ser outro motivo de gastar 12$50. Mas talvez a entrevista com Brian Eno de dupla página, a fls. 42-43 também o justificasse. Ou o anúncio a Slow Motion dos Man.

Em 1975 o interesse aumentou e expandiu-se por causa da música que ouvia no rádio, particularmente o Página Um.
Em Julho de 1975 também não tem segredo algum o motivo porque comprei o NME com imagem acima à esquerda: Neil Young, sem margem para dúvida. E por causa do Lp Tonight´s the night, até hoje um dos melhores de Neil Young.
Nas quatro páginas centrais um artigo desenvolvido sobre os Beach Boys que na altura me deixou indiferente ( não me lembrava de Holland e de California Saga...uma das canções que me ficou sempre na memória).

Ainda em 1975 comprei pela primeira vez o Melody Maker, por causa, obviamente de Roy Harper que Jaime Fernandes passava insistentemente no programa 4 da Rádio Comercial, salvo o erro Dois Pontos ou o que o precedeu.

Jaime Fernandes é um dos grandes divulgadores de música popular dessa época e de Roy harper em particular. Ou Leo Kottke. Ou os Nitty Gritty Dirt Band. Se hoje gosto desses músicos e dessa música a ele se deve, inteiramente.
Sobre Roy Harper, passava então Valentine, de 74 ou Lifemask de 73 ou mesmo Flat Baroque and berserk, de 70. Talvez passasse então uma colectânea que reunia temas de todos eles. E ainda mais o que viria em 75: HQ, um dos melhores.
No mesmo MM, na pagina 11, inteira, uma imagem de Bob Marley e os dreadlocks de Natty Dread. O anúncio dizia respeito aos concertos desse Verão no Lyceum e que originaram o célebre Live? Talvez. Este disco, Natty Dread, só o ouvi muitos anos depois, mas a imagem era fortíssima e o reggae fazia as suas primeiras aparições no mercado discográfico de grande audiência ocidental, através da Island Records de Chris Blackwell. O reeggae em finais de 74 já era tema do Página Um, com tema de Jimmy Cliff, Don´t let it die. E Ken Boothe também. Mas não era a mesma coisa que Bob Marley.
A pág. 27 uma recensão de One size fits all de Frank Zappa que o programa Espaço 3p ( Boa noite em FM, Banda Sonora e Perspectiva) um deles de Fernando Balsinha ( já falecido) passava muito e que me levou a apreciar a música de Zappa como nenhum outro disco. Quem diz Zappa diz King Crimson, Van der Graaf Generator, Camel, ou Magna Carta. E os Wings de Venus and Mars, também. E Jethro Tull. E Gentle Giant. Curved Air. Focus. Yes. Kraftwerk. Stanley Clark e outros mais. Triumvirat que passava muito Illusions on a double dimple.
Nas páginas centrais um artigo desenvolvido sobre o grafismo das capas de discos, o que me levou a comprar mais depressa o jornal, certamente.
A fls. 40-41 outro motivo de grande interesse: guitarras acústicas e um artigo sobre "eight of the best". Entre eles, Doc Watson. E duas referências em guitarras acústicas: a Epiphone 145 que tinha visto em publicidade maravilhosa, na revista National Lampoon e a Gibson 200 FG. Cada uma custava então £49. Cerca de 3000$00, na época. Uma fortuna, para mim. Um sonho adiado, por isso mesmo.
Durante todo esse ano e o seguinte sonhei com uma guitarra acústica, folk. Daquelas com a protecção em plástico preto por baixo da abertura.

Quanto aos jornais, continuei a comprar o NME e o MM sempre que os achava interessantes e o dinheiro chegava. Em Abril de 75 descobri a Rolling Stone como motivo de interesse e a Rock & Folk já vinha do ano anterior.
E em Setembro de 75, claro, It´s Zeppelin. Physical Grafitti oblige.
A seguir veio Bob Dylan com Blood on the tracks e depois o Punk, já em 1977. Com Elvis Costello na capa do MM.
Entre essas datas, porém, fiquei a conhecer os nomes dos grupos que mais me interessavam e ainda hoje interessam.