domingo, 3 de abril de 2011

Afinal havia outra Realidade


Afinal, a primeira Realidade que comprei foi a que figura em cima, à direita. Mas a primeira revista brasileira que comprei e talvez ainda antes das Selecções, foi a Cruzeiro cuja imagem está à esquerda com o sumário porque a capa se perdeu. É de 28 de Abril de 1970 e folheando a revista percebo a razão de a comprar: Zagalo, treinador da selecção de futebol do Brasil e as imagens a cores e em grande dimensão da exploração da lua, com fotos da Apollo 13 e dos astronautas. Em Abril de 1970 tinha 13 anos e esses eram os temas que me interessavam: espaço e futebol.
A primeira Realidade tem imagens de um tubarão branco, muitos anos antes do filme e com uma foto que me impressionava: a imagem de um indivíduo abocanhado por um desses esquálidos, na região do dorso e que sobreviveu. Mas tinha outra coisa que me levou a comprar: uma reportagem desenvolvida em oito páginas com diversos autores de banda desenhada que não aparecia então por cá: Tarzan de Burne Hogarth; Barbarella, de Jean-Claude Forest; Corto Maltese de Hugo Pratt e Lone Sloane de Druillet.
Só alguns anos mais tarde pude ver e ler algumas das histórias dessas bandas desenhadas mas a primeira vez que vi os desenhos a cores foi nessa Realidade, neste caso alternativa às revistas de bd da época.
Para além disso, havia muitas fotos em modo macro, do cérebro humano, dos neurónios e dendritos. Algo que nem hoje a internet consegue replicar porque as fotos impressas em papel couché ( como se dizia) eram brilhantes de de grande dimensão. Ainda trazia uma reportagem e entrevista extensas sobre Franz Stangl, um nazi que chefiou Treblinka e viveu muitos anos refugiado no Brasil ( onde chegou a ser chefe de departamento da Volkswagen) e depois de preso morreu de enfarte na cadeia ainda antes de terminar a entrevista publicada pelo Daily Telegraph Magazine.
As outras duas Realidades são de Outubro e Dezembro de 1972. Portanto, anteriores àquela que indiquei ter sido a primeira e que só agora descobri. Na de Dezembro vem a história dos Pentagon Papers em papel havana.
A de Outubro trazia uma reportagem alargada sobre a imprensa americana alternativa ou assim. Foi aí a primeira vez que reparei na revista National Lampoon de Doug Kenney, um pequeno génio da edição e que já morreu. E também foi aí que vi pela primeira vez o logotipo do Village Voice, para mim, graficamente, o melhor de sempre em todo o mundo.

quinta-feira, 31 de março de 2011

As revistas brasileiras


No início dos anos setenta, as revistas brasileiras que apareciam por cá eram muitas. E bem feitas, com papel de lustro, a cores e fundamentalmente imitações do que melhor se fazia nos EUA.

Em 1970, talvez em Setembro, comprei a minha primeira Selecções do Reader´s Digest, tradução brasileira da edição original, americana. ( imagem em baixo no meio). Porém, tal poderia ter acontecido antes, em Outubro de 1969, porque conservo um número dessa altura. Já não consigo lembrar a data exacta.

As Selecções eram uma maneira de aceder a diversas leituras em contos, crónicas e pequenos livros condensados na parte final da revista. Nesse primeiro número vinha a segunda parte do "espião que mudou de ideia", numa clara alusão ao tema dominante: a propaganda clara do modelo americano em contraposição ao modelo comunista que a revista desfazia sempre que se proporcionava oportunidade para tal e que era em todos os números.

A descoberta da revista, todos os meses no quiosque da rua de S. Vítor, em Braga ( ainda lá está e basicamente com o mesmo aspecto de há quarenta anos) era uma alegria. Isso e ver o novo número da Mundo da Canção ou da Flama.
A par dessas havia as outras brasileiras. As fotonovelas Capricho, por exemplo e com muita saída nas adolescentes e não só. E depois o resto: Manchete, Cruzeiro, Realidade, uma revista bem cuidada e semelhante à Look americana ou à Paris Match francesa. Ou à Stern alemã.
O primeiro número da Realidade que comprei, em Junho de 1973 e que custava 15$00 tratava de diversos assuntos. No entanto o que me levou a comprar foi uma espécie de encarte em papel havana, com uma história dos índios americanos escrita por Dee Brown. que na altura nem fazia ideia quem era mas agora é possível graças à internet. E trazia ainda um artigo desenvolvido e profusamente ilustrado sobre "o que há de novo na URSS?".

E o artigo de fundo era sobre...o pecado, hoje. E este número tem uma particularidade: tem o primeiro autógrafo que jamais pedi a alguém ( agora há um outro a quem pedi, José Almada): o de António Vitorino de Almeida. Logo depois de comprar a revista encontrei-o na rua e como era espectador atento dos seus magníficos programas de tv, abordei-o e pedi-lhe um autógrafo que o mesmo me deu ali mesmo na última página da revista, a esferográfica azul.

O número de Agosto tinha um artigo muito desenvolvido sobre Hitler, condensado de um livro escrito pelo biógrafo Werner Maser da Der Spiegel e que retrata um Hitler diferente do habitual ogre que era então apresentado a consumo público. Além disso e motivo da compra, um lote das melhores fotografias do século, recolhidas pela Associated Press em álbum com 135 fotos. A Realidade publicou 73. Lá vem a imolação de um budista, pelo fogo, em 1963; a morte em directo de Lee Harvey Osvald; o tiro na cabeça de um um vietcong, à queima-roupa, pelo chefe da polícia de Saigon; o primeiro passeio lunar e muitas outras.

Antes dessa, já conhecia a Cruzeiro e a Manchete, particularmente na época de Carnaval, altura em que a revista esgotava nos quiosques. As fotos eram demais e a espectaculiridade do evento justificava-se. Estes números que aqui ficam são de 1974 e um de 1975. O de Maio de 1974 é de antologia porque tem fotos que nunca apareceram na nossa imprensa, particularmente uma do Largo do Carmo na altura da rendição de Caetano, com pessoas a treparem para as pequenas árvores então existentes no local ( actualmente umas vetustas árvores) e incluindo uma, a preto e branco, de Sousa Tavares ( pai) de megafone em punho empoleirado numa guarita dos guardas a falar para a pequena multidão que ali se juntou e enchia por completo o pequeno largo. As fotos retratam o modo como os brasileiros viam a nossa Revolução de Abril e são de antologia. Lembro-me muito bem de ter querido comprar esta revista na época e já não ter conseguido porque no quiosque onde comprava estava já "reservada". Foi uma pequena frustração que passados muitos anos aliviei porque a comprei num alfarrabista que nem sabia o que estava ali. Há uma foto que nunca foi vista por cá, da rua das Gáveas em que uma camioneta de distribuição do jornal Época estava virada, bem como dois ou três carros de polícia.

E conhecia também a revista História cujo primeiro número saiu em Maio de 1973 ( em baixo e no meio) com um artigo sobre a infância de Stalin ("filho de sapateiro, aluno de padres, nunca confiou em ninguém") e outros sobre Dostoievski e mais outro sobre Richelieu.

A par dessa havia ainda outra revista que saía e se chamava Enciclopédia Bloch ( a editora, a mesma da Manchete. A editora da Realidade era a Abril). O número apresentado, de Fevereiro de 1972 e que custou 20$00, tinha uma reportagem fantástica sobre a Linha Maginot e outro extenso, sobre Israel, quatro mil anos de história.

A par dessas havia ainda a Planeta, da Editora Três e sobre assuntos mais esotéricos que então me interessavam por ter lido O despertar dos mágicos de Jacques Bergier. A Planeta tinha o mesmo formato gráfico que a original francesa, Planète que se publicara desde 1961 a 1968. O número apresentado é de Outubro de 1973 e tem um artigo sobre Gurdjieff, um grego da Arménia com fama de santo, mago e profeta.
Até 1974 e a par do Tintin, do Jornal do Cuto e das leituras da tira de Corrigan no JN, eram essas algumas das revistas, neste caso brasileiras, que me alentavam o espírito.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Disc, NME e Melody Maker


Por vezes, ao longo dos anos e de reolhar para os jornais de música ingleses que comprei nos anos setenta, interrogava-me sobre o motivo de ter comprado em Julho de 1972 ( tinha então 15 anos) o jornal Disc que acima se mostra. E descobri porquê, porque me lembrei: foi por causa dos Deep Purple e do baterista que aparecia na capa, a cores que não eram usuais nos jornais de então.

Revendo o jornal, nada mais interessava. Nem sequer a recensão do LP de John Lennon, Sometime in New York City, na altura ainda nem sequer publicado na Inglaterra, devido a "publishing problems", segundo o jornal.
Sobre Ian Paice, baterista dos Deep Purple, uma página, a fls. 13.
Na última página, porém, outro motivo para compra ( 9$00, na altura): a reprodução de posters da cultura popular de então: Zappa, Che, Jimi Hendrix, Osibisa e também Midnight Cowboy e I want you for U.S. Army!

Só em Julho de 74 comprei pela primeira vez o NME, New Musical Express. Folheando, também não descortino razões imediatas para tal, na época ( e já custava 12$50). Na recensão de discos talvez esteja a resposta: o LP dos The Who, Quadrophenia. E um anúncio ao Live dos Fairport Convention que na época ouvia muito, particularmente Sloth e Rosie. E a fls. 41... uma imagem do International Nude Show. Oh Shit! Tu queres ver que? Oh no. Tem o Neil Young a fls. 14 e uma entrevista de Peter Townshend a fls. 27. Uff!

Em 1974, reincidi em Dezembro ( última imagem em baixo à esquerda) e paguei ainda os mesmos 12$50, mas não tem mistério neste caso: podia ser Led Zeppelin, com o Lp Physical Grafitti, com uma recensão tema a tema e portanto imperdível porque o disco era então imprescindível. Mas a primeira vez que ouvi o disco foi em 8 de Abril na Página Um. ( o programa esteve interrompido devido ao PREC, desde meados de Fevereiro até 5 de Abril e lembro-me que todos os dias sintonizava a Rádio Renascença, às 7 e meia da tarde para ouvir o solo de bateria do Page One, dos Pop Five) .
Portanto o motivo da compra foi o artigo sobre os Bad Company que se ouvia muitas vezes nesse programa de rádio, com observações ditirâmbicas do actual responsável pela LPM ( agência de imagem que presta assessoria ao actual governo), Luís Filipe Martins e já se ouvia na Página Um, na altura. Dizia que era um supergrupo que congregava elementos dos Free e dos King Crimson, o que sendo verdade pouco significava. No entanto, o primeiro disco trazia I can´t get enough e o segundo, Straight Shooter ainda era melhor. Foi essa a razão da compra, certamente.
E trazia a fls 24-35 um anúncio de duplo fim de página com o The Lamb lies down on Broadway, dos Genesis, o que podia ser outro motivo de gastar 12$50. Mas talvez a entrevista com Brian Eno de dupla página, a fls. 42-43 também o justificasse. Ou o anúncio a Slow Motion dos Man.

Em 1975 o interesse aumentou e expandiu-se por causa da música que ouvia no rádio, particularmente o Página Um.
Em Julho de 1975 também não tem segredo algum o motivo porque comprei o NME com imagem acima à esquerda: Neil Young, sem margem para dúvida. E por causa do Lp Tonight´s the night, até hoje um dos melhores de Neil Young.
Nas quatro páginas centrais um artigo desenvolvido sobre os Beach Boys que na altura me deixou indiferente ( não me lembrava de Holland e de California Saga...uma das canções que me ficou sempre na memória).

Ainda em 1975 comprei pela primeira vez o Melody Maker, por causa, obviamente de Roy Harper que Jaime Fernandes passava insistentemente no programa 4 da Rádio Comercial, salvo o erro Dois Pontos ou o que o precedeu.

Jaime Fernandes é um dos grandes divulgadores de música popular dessa época e de Roy harper em particular. Ou Leo Kottke. Ou os Nitty Gritty Dirt Band. Se hoje gosto desses músicos e dessa música a ele se deve, inteiramente.
Sobre Roy Harper, passava então Valentine, de 74 ou Lifemask de 73 ou mesmo Flat Baroque and berserk, de 70. Talvez passasse então uma colectânea que reunia temas de todos eles. E ainda mais o que viria em 75: HQ, um dos melhores.
No mesmo MM, na pagina 11, inteira, uma imagem de Bob Marley e os dreadlocks de Natty Dread. O anúncio dizia respeito aos concertos desse Verão no Lyceum e que originaram o célebre Live? Talvez. Este disco, Natty Dread, só o ouvi muitos anos depois, mas a imagem era fortíssima e o reggae fazia as suas primeiras aparições no mercado discográfico de grande audiência ocidental, através da Island Records de Chris Blackwell. O reeggae em finais de 74 já era tema do Página Um, com tema de Jimmy Cliff, Don´t let it die. E Ken Boothe também. Mas não era a mesma coisa que Bob Marley.
A pág. 27 uma recensão de One size fits all de Frank Zappa que o programa Espaço 3p ( Boa noite em FM, Banda Sonora e Perspectiva) um deles de Fernando Balsinha ( já falecido) passava muito e que me levou a apreciar a música de Zappa como nenhum outro disco. Quem diz Zappa diz King Crimson, Van der Graaf Generator, Camel, ou Magna Carta. E os Wings de Venus and Mars, também. E Jethro Tull. E Gentle Giant. Curved Air. Focus. Yes. Kraftwerk. Stanley Clark e outros mais. Triumvirat que passava muito Illusions on a double dimple.
Nas páginas centrais um artigo desenvolvido sobre o grafismo das capas de discos, o que me levou a comprar mais depressa o jornal, certamente.
A fls. 40-41 outro motivo de grande interesse: guitarras acústicas e um artigo sobre "eight of the best". Entre eles, Doc Watson. E duas referências em guitarras acústicas: a Epiphone 145 que tinha visto em publicidade maravilhosa, na revista National Lampoon e a Gibson 200 FG. Cada uma custava então £49. Cerca de 3000$00, na época. Uma fortuna, para mim. Um sonho adiado, por isso mesmo.
Durante todo esse ano e o seguinte sonhei com uma guitarra acústica, folk. Daquelas com a protecção em plástico preto por baixo da abertura.

Quanto aos jornais, continuei a comprar o NME e o MM sempre que os achava interessantes e o dinheiro chegava. Em Abril de 75 descobri a Rolling Stone como motivo de interesse e a Rock & Folk já vinha do ano anterior.
E em Setembro de 75, claro, It´s Zeppelin. Physical Grafitti oblige.
A seguir veio Bob Dylan com Blood on the tracks e depois o Punk, já em 1977. Com Elvis Costello na capa do MM.
Entre essas datas, porém, fiquei a conhecer os nomes dos grupos que mais me interessavam e ainda hoje interessam.

domingo, 20 de março de 2011

1975-1976: as revistas de música


Uma das coisas que me dá maior gozo intelectual, é recordar o modo como descobri as revistas que escreviam sobre música popular, em meados dos anos setenta.

Ao passar a ouvir música popular de um modo contínuo e numa época em que as novidades mensais eram de vulto e muitas delas ficaram na história da música como obras inultrapassáveis, as revistas que mostravam imagens dos discos, dos artistas e recenseavam os lançamentos, tornaram-se obrigatórias.
Depois de no início dos anos setenta ter passado a ler o jornal Disco, musica & moda e a Mundo da Canção, onde se escrevia sobre o assunto, copiando muitas vezes os artigos das revistas estrangeiras e se publicavam letras das músicas, o interesse alargou-se para os originais, escritos em francês ou inglês.
A Rock & Folk, saída em França em 66-67, aparecia por cá e vendia-se nos quiosques ao lado daqueloutras.
Entre os primeiros números que me lembro de ver dependurados dos fios de jornais e revistas, presos com molas de pôr roupa a secar, há um que não esquece: aquele de 1973 em que aparecia a foto de Bob Dylan, no filme Pat Garrett and Billy the Kid. Apareceu no final do Verão, em Setembro de 73 e nessa altura como andava também interessado na banda desenhada franco-belga, tendo descoberto o Pilote, a ficção científica e as obras de Moebius, não comprei logo. Além disso, os músicos que apareciam na capa, nesses meses a seguir não eram suficientemente apelativos para tal.
Só em Novwmbro de 1974, quando andava numa onda de Crosby Stills Nash & Young, muito por causa dos álbuns a solo de Neil Young, Graham Nash e Steve Stills, dei comigo a comprar o primeiro número da Rock & Folk, à venda na livraria Bertrand e exposta na porta de vidro. O número anterior, ( com Jerry Garcia na capa) ainda se encontrava à venda e depois de ter comprado aquele, dei mais 47$50 pelo outro.
Muitas vezes me pergunto como arranjava dinheiro para essas revistas que apesar de mensais importavam numa maquia considerável para um pobre estudante que era. Muito tenho que agradecer ao meu pai que nunca se furtou a esmolar esse gasto.

Por causa da Rock & Folk, descobri a Rolling Stone que era mensalmente citada numa página da revista intitulada Boogie Woogie e que partes das entrevistas ou a notícia da mesmas.
Por causa disso, a Rolling Stone passou a ser outra das revistas ( em forma de jornal A3 e papel do género, com um cheiro característico que não desapareceu com o tempo) que folheava, também na Bertrand desse tempo.
Só em Abril de 1975 o número exposto me chamou a atenção por trazer o actor Peter Falk na capa, na altura um sucesso de tv a preto e branco com a série Colombo, um detective singular e que precisávamos de ter por cá para resolver certos imbroglios.

Nesse número vinha ainda uma reportagem sobre a reabertura do processo da morte de Kennedy em Dallas, por ter sido descoberto na época algo inédito nos filmes que então se fizeram. Os fotogramas de um desses filmes ( Zapruder) vinham alinhados de modo interessante o que me despertou para o grafismo da revista, muito inovador para a época. Ainda assim, passei e não comprei. Lembro-me de ter hesitado muito, mas o preço era demais, a juntar às outras.
Mas foi por causa desse número que não comprei que se formou uma obsessão, meses depois, em arranjar a revista na altura em que a mesma já não aparecia na Bertrand por motivos que me ultrapassavam. Talvez a política económica da época, de restrição de importações, por força da bancarrota ( a primeira) em que estávamos prestes a entrar, tenha sido a causa. Não sei ao certo porque a vinda da revista era muito irregular e assim foi durante vários anos.

Porém, a partir do Verão de 75 andava obcecado em arranjar um número da mesma. Porém, só em Outubro de 1975, já em Coimbra par aonde fui estudar, consegui encontrar o primeiro número da revista. Uma capa com o caso Patty Hearst, com uma ilustração plagiada voluntariamente a Wyeth.
Desde então passei a comprar a revista mas por pouco tempo. Como a periodicidade era quinzenal, os 37$50 que então custava representava um custo significativo ao fim do mês. E logo a seguir ao segundo número que comprei, desapareceu dos quiosques.
Durante meses, perguntei todas semanas pela revista. Nada de nada. Em Julho pedi a um amigo que foi a Paris, para me trazer de lá um número - o que tem a figura de Paul Simon na capa. Uma maravilha quando a recebi, conjuntamente com o número 7 da revista Métal Hurlant que então saía em França e não aparecia por cá.
Folheei tantas vezes esses números dessas revistas que me apetece por vezes publicá-las e comentar cada página, porque assim poderia fazê-lo.

Por cá, só em Novembro de 1976 apareceu outra vez, com um número que aparece na foto em baixo, à esquerda. E já com o preço de 47$50, por obra e graça da inflação.
Como a Rolling Stone não aparecia, havia outra que se expunha nos quiosques e tinha conteúdo semelhante: Crawdaddy. Desde Fevereiro de 1976, com o primeiro número dedicado a Paul Simon ( na ocasião de Still crazy after all these years) que passei a comprar o gato Crawdaddy em vez do cão Stone.
E fiquei adepto das duas e por isso as publico aqui.

sábado, 19 de março de 2011

Os LP´s dos Chicago

A música do grupo americano Chicago entrou nos meus ouvidos aí no início dos anos setenta, na época do single Lowdown, saído na primavera de 1971 e tirado do terceiro LP do grupo. Um amigo tinha o single e passava-o constantemente. No lado dois, Loneliness is just a word, não entusiasmava muito.


O Lp original é um dos grandes discos do grupo mas também o anterior, II, saído em 1970 o tinha sido e apenas 25 or 6 to 4 captava a atenção do rádio e dos singles que na altura valiam a audição de um disco.
O IV Lp já aqui foi citado como o álbum branco dos Chicago, em LP quádruplo, gravação ao vivo, no Carnegie Hall, com uma capa graficamente soberbamas um som que deixa algo a desejar, por causa das condições ambientais da gravação original.

O V, saído em 1972, já tinha o single engatilhado para não se deixar esquecer e Saturday in the Park passava então no rádio e lembra-me disso.

Portanto, só com o VI, saído em 1973 se deu a revelação, para mim, de um grupo excepcional, também por causa de dois singles do LP: Just you and me e principalmente Feelin´stronger everyday, um hit do verão de 73 que o rádio passava e me deixava com vontade de ter o disco.

Até recentemente esse VI foi o disco que mais apreciei do grupo. Há uns anos arranjei toda a discografia ( é um modo de dizer porque há um disco ao vivo no Japão, de 1972 que não se arranja em LP, nem na ebay...) e voltei a ouvir tudo o que não ouvira então.
E o gosto mudou porque os primeiros são os melhores. E a partir do X ou do XI, este saído em 1977, a produção é simplesmente para esquecer.

Em 1975 uma revista alemã, Pop, publicou um anúncio em que reproduzia as capas de todos os LP´s dos Chicado até então saídos. Para mim, terá sido a primeira vez que vi tais capas dos primeiros LP´s. E a preto e branco.
Em Fevereiro de 1977, a revista Rock & Folk publicou um extenso artigo sobre os Chicago, assinado por François Ducray, um dos responsáveis da revista, no qual analisava a biografia de cada um dos músicos e recenseava cada um dos álbuns. O melhor, para Ducray, era o V. Como se pode ler clicando na imagem acima e que também apresenta o recorte da publicidade da Pop. Por trás da imagem dos discos está um poster da época de saída do VI, publicado salvo o erro no jornal Disco. Reproduz a parte interior da capa ( em duofold) do disco.

Recentemente comprei o VI e o VII ( um disco duplo) na sua verão original em LP de prensagem americana. São simplesmente fabulosos, graficamente. Incomparavelmente superiores às versões europeias que se venderam por cá, na altura.
O cartão é especial, a cor especial e o VII até apresenta relevo da prensagem do lettering que o tornam um objecto especial de colecção. Fabuloso!

sábado, 5 de março de 2011

Júlio Pereira- Fernandinho vai ó vinho


Outro disco que encontrei recentemente é o primeiro a solo de Júlio Pereira ( que anda muito esquecido dos rádios e dos media portugueses mas continua a compor como sempre e faz espectáculos de uma qualidade rara), de 1976, Fernandinho vai ó vinho.

O disco foi editado em cd há uns anos mas encontra-se esgotado. O LP, esse ainda há por aí. A gravação e prensagem não é famosa, segundo pude agora ouvir, mas os temas musicais e as letras são deliciosas de uma esquerda que teima em não desaparecer.
O LP tem um encarte com as letras e todos os participantes: Zeca Afonso, Paulo de Carvalho, Sérgio Godinho, Fernando Tordo, Herman José, Carlos Mendes, José Jorge Letria, Francisco Fanhais e outros da mesma época e feitio.
Provavelmente é o LP onde se concentra maior número de cantores "progressistas" da extrema-esquerda e outros que abandonaram o barco e apostataram ( José Jorge Letria, hoje a Sociedade Portuguesa de Autores).

Musicalmente é outra maravilha e só é pena que Júlio Pereira não o inclua no repertório dos espectáculos actuais e prefira mostrar o virtuosismo estéril de alguns temas de bandolim.

O mesmo vale para o LP seguinte, Lisboémia, também na imagem e de 1978.
Com o mesmo cuidado gráfico na capa, ilustrações desenhadas por Carlos Zíngaro ( o mesmo que ilustrou o primeiro LP da Banda do Casaco, Dos benefícios de um vendido no reino dos bonifácios, que se vende a preços proibitivos, actualmente) e músicas no mesmo estilo pop e ligeiro mas de grande qualidade e que apetece ouvir.

Taiguara Imyra Tayra Ipy


Este disco em formato LP nunca foi passado a cd ( talvez o tenha sido no Japão há uns anos) e é dos discos de mpb que mais aprecio.

Ouvi-o logo na altura em que saiu, em 1976; cheguei a gravar algumas músicas tiradas do rádio de então e andei anos atrás do mesmo. A revista Música & Som da época em que o disco saiu fez uma recensão crítica alargada, que se pode ver na imagem.
Em 1987 ou 88 cheguei a pedir a pessoas que estavam no Brasil para mo mandarem e tive que me contentar com uma cassete BASF CR-E-II, de crómio em dióxido, gravada numa emissora de rádio local porque o LP já estava esgotado nessa altura.
Na mesma cassete vinham gravadas músicas de Milton Nascimento de um disco ainda mais raro: a banda sonora do filme Tostão, de 1970.

Finalmente consegui-o encontrar em boas condições e bom preço. O disco é uma pequena maravilha da música popular brasileira e um dos que mais buscava.

Chama-se Imyra Tayra Ipy e é de Taiguara.

Tem uma canção que se intitula Terra das Palmeiras que se desenvolve em crescendo e que em mais de trinta anos nunca deixei de cantar.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

O Minas original, de 1975

Estes dois discos, em formato LP, são idênticos na música que contém. A diferença está apenas na apresentação e talvez na sonoridade. O da esquerda é uma edição de 1985, portanto uma reedição do disco original que está à direita, na imagem. Já foi referido aqui. A capa da direita é brilhante e o título Minas é prateado, tal como o envólucro interior que no original é em papel havana, com inscrições violeta e prata e o outro em papel normal.
Porquê este preciosismo coleccionista? Por causa de um artigo na revista Rock & Folk de 1976, em recensão crítica ao disco que saiu na altura em França ( em 1975, no Brasil) e teve uma crítica espectacular .
Durante estes anos todos, praticamente desde meados dos anos oitenta, procurei o LP original por causa dessa crónica que aludia ao papel ( com as letras das músicas) e à capa. Acabei por o encontrar no outro dia, por acaso, numa loja de Lisboa que vende discos usados.
E fiquei satisfeito.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Os discos de 1980

Faltam alguns: Van Morrison e Common one; Little Feat e Down on the farm; J. Geils Band e Love Stinks;Joni Mitchell e Shadows and Light; Stevie Wonder e Hotter than July e Rolling Stones com Emotional Rescue.

Entre todos, o que resiste mais à prova do tempo em audição agradável é Hold Out, de Jackson Browne. E One trick Pony, de Paul Simon também. Borderline de Ry Cooder é também um disco de audição impecável.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

As revistas de 1980

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Hot Tuna

Nas últimas semanas ouvi vezes sem conta o disco Quah, de Jorma Kaukonen e Tom Hobson. O disco, em LP, é de finais de 1974 e é uma pequena maravilha que congrega vários géneros musicais, em que o antigo membro dos Jefferson Airplane se excede musicalmente. Jorma Kaukonen, depois de sair dos Jefferson formou o grupo Hot Tuna em parceria com Jack Casady, um baixista que mostra o que vale no disco Burgers, considerado pela revista Rock & Folk, em 1976, como um dos marcos do country rock.
Entre as melhores composições do disco que comprei nos anos oitenta, numa reedição da Relix Records, numa discoteca do "drugstore" Apolo 70, em Lisboa, conta-se por exemplo Genesis, abaixo mostrado numa gravação de época do you tube.
O disco Burgers, esse veio de França, também no início dos anos oitenta, por encomenda que incluía os New Order ou os primeiros Pat Metheny. Ou os Little Feat. Ou Doc Watson. Ou ainda outros.

A minha descoberta da música dos Hot Tuna, provavelmente virá de meados das década de setenta. Lembro-me perfeitamente do radialista António Sérgio, já falecido, anunciar no rádio, o disco ao vivo, Double Dose, em 1978-79, em plena explosão do punk/new wave. Lembro-me inclusivamente da voz do radialista a apresentar o disco, com a introdução do primeiro tema, Winin boy blues e a explicação de que os Hot Tuna costumavam aquecer o ambiente dos concertos com uma primeira parte acústica.
Esse disco, além disso, a par do Irish Tour´74 de Rory Gallagher é dos melhores ao vivo que conheço.
O disco Quah, nessa altura, ( 1974) não era escutado porque não apareceu por cá e não passou no rádio, com certeza, a não ser posteriormente. O mesmo acontecia com composições como Third Week in Chelsea que lia na Rock & Folk como maravilhas do autor e não conhecia, porque não tinha acesso aos discos dos Jefferson Airplane.
Estes discos do rock californiano eram raros por cá, segundo penso, uma vez que apenas passavam no rádio quando algum curioso voluntarista como João Filipe Barbosa ou um João Afonso, o levavam para certos programas em que se anunciava a passagem das raridades, em alturas especiais. Eram programas de rádio que esperava sempre ouvir e descobri assim os Grateful Dead, por exemplo. E outros, como os Little Feat.
Já não recordo as circunstâncias precisas em que o ouvi a primeira vez, mas no início da década de oitenta era um disco que ouvia em cassete gravada do rádio e que então me parecia uma perfeita maravilha acústica. Até hoje, é um dos meus discos preferidos. Nas viagens que em meados da década de oitenta fazia para trabalhar, levava nos ouvidos a música de Quah. Muitas vezes. Tantas que o disco me recorda esse tempo .





domingo, 24 de outubro de 2010

Auscultadores Sennheiser


Auscultadores. Sempre foram o modo de ouvir música mais intimista e de forma mais envolvente do que as colunas de som normais.
Como o ambiente se reduz ao pavilhão auricular, não há interferências das dimensões e decoração das salas, o que normalmente modifica o som que se ouve através das colunas.
E no entanto nem todos são iguais, como se percebe...ouvindo.

Desde cedo que ouvia no silêncio da noite, o rádio que passava álbuns inteiros. Lembro-me de ouvir em transe quase religioso o disco dos Van der Graaf Generator, Still Life, em 1976, um dos meus discos preferidos de sempre. Experiência única com uns auscultadores mono e de fraca qualidade, mas ainda assim reveladores de pormenores sonoros que de outra forma escapam ao ouvido.
Nos anos oitenta, experimentei a sonoridade de uns Sennheiser, alemães e com uma qualidade sonora espantosa.
Não me lembro do porquê da preferência, mas a cor amarela da espuma de protecção talvez tenha algo a ver e a estética do produto, sempre interessante.

Os primeiros que experimentei julgo terem sido os HD 414 , na foto, os do meio do lado direito. Mas já tinha ouvido falar dos HD 40, (atrás daqueles e com foto da respectiva caixa) como tendo um som fantástico. E confirma-se completamente porque arranjei uns há uns meses. E eram os mais simples e mais baratos da firma alemã, nos anos 80.
Depois dos HD 414, experimentei uns HD 430 ( foto de baixo, a meio) e realmente eram bem melhores.
Não satisfeito, tentei depois disso os HD 58o Ovation que comprei em Braga, na Valentim de Carvalho ( atrás do lado esquerdo), já no dealbar dos anos noventa e que me acompanharam muitos anos até ficarem subitamente silenciosos e sem arranjo possível.
Para os substituir, há uns anos dei uma conta calada pelos melhores da firma, com excepção de uns esotéricos com preço proibitivo. Os HD 600 com imagem à esquerda restituem a fidelidade sonora em altíssima qualidade se a fonte lhes fizer justiça.
Ultimamente, com curiosidade arranjei o modelo HD 424, ( na foto de cima, do lado direito, em baixo) ainda dos anos setenta, mas não me convenceram muito. São bastante inferiores aos Hd40 que são realmente espantosos e quase pedem meças aos HD 600, que custam várias vezes o preço deles. A mim, custaram-me qualquer coisa como 10 euros, ou coisa que o valha. E andei meses à procura de uns, na ebay.


sábado, 16 de outubro de 2010

Mais cassetes e leitores

Antes do advento dos aparelhos de gravar digitais, baratos, o modo mais prático de conservar e ouvir música de discos LP eram as gravações da música em casssetes.

Nos anos oitenta, surgiu um boom na produção de cassetes para aparelhos portáteis e não só, após o aparecimento do primeiro Walkman da Sony, em 1979 ( o primeiro da esquerda na imagem abaixo)
Em finais da década de oitenta, no entanto, o aperfeiçoamento técnico das cassetes e respetivos leitores permitiam pequenas maravilhas, cujo monumento máximo é este: o gravador/leitor Dragon, da Nakamichi.

Não obstante, nas cassetes propriamente ditas, o aparecimento das fitas com cobertura de partículas metálicas para melhor fixar o sinal sonoro, permitiu que gravasse LP´s como os dos Steely Dan, numa Maxell Metaxial, ( atrás junto ao Sony) cujo sinal sonoro ainda hoje é uma maravilha e que pouco deixa a desejar ao som original dos LP´s. Eram cassetes caras e por isso utilizadas uma única vez, para gravar em primeira mão os discos que assim ficavam ouvidos e depois eram reproduzidos na cassete.
Nessa altura apareceu também um pequeno leitor da Aiwa, marca japonesa que competia com a Sony nesse mercado. Pode ver-se acima e por cima das cassetes porque serviu durante alguns anos para ouvir em trânsito as cassetes gravadas em casa.
No entanto deitado e no meio das ditas cassetes de muita estimação, jaz um gravador/leitor da Sony que é um portento sonoro: o Walkman Pro, com possibilidade de gravação com redução de ruído Dolby C ( o Aiwa também tem mas só em modo de leitura).
Foi comprado há poucos anos porque na altura em que saiu o preço era proibitivo e semelhante ao que custava um bom aparelho de mesa.
No entanto, é uma delícia ouvir cassetes, ainda hoje nesse pequeno aparelho da Sony. Principalmente através dos pequenos auscultadores da Sennheiser modelo HD 40, da mesma época ( na imagem atrás do Sony).

Este tempo das cassetes reporta-me logo a uma música dos Steely Dan, gravada na dita cassete e do álbum Gaucho: Third World Man. Perdi a conta a quantas vezes já ouvi esta música. Provavelmente centenas. E esta é mais uma porque enquanto escrevo a estou a ouvir. Na dita cassete.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Cassetes


Nos anos setenta, oitenta e até ao advento das técnicas digitais de gravação de sons, o modo mais prático de gravar e guardar música era este: cassetes. Baratas ( relativamente porque algumas em metal eram bem caras), práticas e que podiam ser reproduzidas no carro, com a ajuda de um bom aparelho de auto-rádio, o que resultava por vezes em sonoridades surpreendentes por causa do ambiente acústico, fechado e concentrado.
As primeiras gravações que fiz, seriam para aquém de meados da década de setenta. A cassete Basf de cor verde que se apresenta na imagem foi gravada em 79 e contém Comuniqué dos Dire Straits, gravado inteiramente do rádio que então passava álbuns inteiros sem interrupção durante os cerca de 40 minutos de duração.
A cassete cinza serviu para gravar inicialmente o Quadrophenia dos The Who, pelo mesmo métoco e posteriormente foi apagada e regravada com os Nitty Gritty Dirt Band e outros grupos.
A maior parte das cassetes expostas foi gravada já no final dos anos oitenta e à medida que os discos apareciam eram imediatamente gravados com a preocupação da maior qualidade sonora possível. Ainda hoje, passados mais de vinte anos, se ouvem todas com a qualidade original.
As marcas das cassetes variavam mas não muito. A melhor provavelmente, era a TDK em crómio ou metal.
Ainda hoje gravo cassetes para ouvir no Sony Walkman Pro. Uma pequena maravilha técnica. E um som fantástico que nenhum aparelho iPod logrará alguma vez imitar ou sequer assemelhar-se em qualidade pura.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Milton Nascimento

Não me lembro bem de quando ouvi pela primeira vez a música de Milton Nascimento. Talvez logo a seguir ao 25 de Abril de 74, por causa de um álbum ao vivo, publicado nesse ano e chamado Milagre dos Peixes ao vivo, para se distinguir do disco em estúdio com o mesmo nome e do ano anterior. Lembro-me porém de considerar desde essa altura Milton Nascimento como um dos maiores músicos e cantores que conheço e admiro. Com uma voz única e de timbre fabuloso.

Não obstante, durante a década de setenta tomei conhecimento com alguns temas dispersos dos discos que foram saindo e eram divulgados no rádio, tal como aconteceu com o Milagre dos Peixes, cujo tema San Vicente ( aqui numa versão impressionante) sempre me encantou.
Tal como aconteceu com outras músicas de outros autores, antes de as escutar tinha-as lido e relido na revista Rock & Folk.
Numa recensão de discos do número de Junho de 1976, aparecia o disco Minas e o que o crítico dizia do mesmo era simplesmente fantástico para se perder a audição. "Cette voix qui est- je pèse mes mots-la plus fantastique voix d´homme que l´on peut entendre aujourd´hui." E "Minas como Minas Geraes d´où est issue le plus grand génie de la musique du Brésil ( seul Egberto Gismonti saurait lui être comparé). Au point de vue chant pur, Nascimento ne saurait trouver de concurrents que chez les plus parfaits vocalistes indiens."
E mais: " Pas besoin de vous dire que les textes- pour ceux qui ont la chance de comprendre la plus belle langue du monde, chance que je leur envie- ont la réputation d´être des sommets de poésie contemporaine."
Com estas críticas, fervia sempre de impaciência durante anos, sempre que me lembrava e ouvia no rádio, para encontrar os discos onde vinham estas maravilhas que lia. Por cá, na altura não havia importação que me lembre e só mais tarde, já em finais dos oitenta passou a ser possível ver e ouvir os discos,

Nessa altura, em 1976 saiu também o LP Geraes que tinha várias pérolas musicais, incluindo uma canção religiosa fantástica- Cálix Bento- que ouvi provavelmente num programa de José Nuno Martins, sobre música brasileira, Os cantores do rádio, segundo julgo e que foi um espaço radiofónico de grande divulgação da mpb, passando todos os géneros e discos da altura. Quem os ouviu nunca mais esqueceu, pela certa, tal como nunca mais esqueceu certas músicas e discos.
Por isso, em Janeiro de 1978, foi com grande curiosidade que li a crónica de duas páginas da revista R&F e que fazia o apanhado da discografia do músico brasileiro até essa data, com considerações sempre ditirâmbicas a propósito da qualidade dos discos, com destaque particular para Clube da Esquina e Milagre dos Peixes. Discos que só alguns anos mais tarde ouvi integralmente ( na verdade, Milagre dos Peixes, só ouvi em cd há pouco tempo).
Mas do LP Minas que comprei ainda na discoteca Tubitek no Porto, nos anos noventa, depois de ter conseguido anteriormente a gravação em cassete vinda do Brasil. Desse LP, em prensagem brasileira de 1985 ( a versão original segundo aquela revista conserva um encarte em papel de luxo, com as letras) saiu a canção emblemática de Milton: Saudade dos aviões da Pan Air. E do LP Clube da Esquina nº 2 que saiu em 1978, foi com grande satisfação que ouvi pela primeira vez, no rádio, o tema Cancion por la unidade latino-americana, com a participação de Chico Buarque, a cantar em espanhol. É uma canção fabulosa, tocada num ritmo misturado de percussão brasileira e que confere uma beleza que sempre me impressionou.
Foi assim que em 1980 apareceu Sentinela, talvez o melhor disco de Milton Nascimento e em LP que já comprei na devida altura, numa prensagem excelente, portuguesa, da Polygram. Mais recentemente comprei o primeiro disco de Milton, Travessia, um original de 1967 e que foi publicado em Portugal, pela mão de José Nuno Martins que escreveu a apresentação na contra-capa, em 1979.




segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Rory Gallagher

Um dos álbuns que em 1975 faziam parte da lista dos mais desejáveis, era este Irish Tour´74 de Rory Gallagher.

É um dos melhores discos ao vivo que conheço, com uma energia em dose dupla, nas quatro faixas dos LP. Blues, country-blues, guitarra acústica, dobro e um domínio do fraseado bluesesco na guitarra Gibson...ehh...Fender Stratocaster. E também na Telecaster.

O Página Um dos primeiros meses de 1975 passava este disco vezes sem conta e habituei-me de tal modo ao som da guitarra em consonância com os teclados de Lou Martin que o som do LP ainda hoje é a referência que guardo na memória.

O dvd com o título do concerto saiu em 2000, sendo uma mostra do espectáculo e dos bastidores do concerto em modo de documentário, com a sonoridade excelente e com o bónus de se poder ver Rory Gallagher a dedilhar a Martin acústica como poucos que conheço, mostrando como se toca em pickin e slide, na dobro National, o tema As the crow flies baby.

Rock & Folk, 14, rue Chaptal

Em Maio de 1975, com maior probabilidade já em Junho, comprei a Rock & Folk com capa que abaixo se mostra. Era o nº 100 da revista que comprava desde o Outono do ano anterior e na capa aparecia uma figura menor do rock, Alice Cooper que então ( e agora) pouco me interessava musicalmente.

Mas o recheio da revista prometia, com artigos sobre o "rock alemão", Nova Iorque e Deep Purple e as recensões críticas de discos- ChicagoVIII, Rick Wakeman ou Bad Company. E uma reportagem fotográfica sobre os bastidores da redacção da revista.
Ao longo dos meses, habituara-me já a ler alguns dos melhores críticos de rock que conhecia e foi com curiosidade que descobri o aspecto de um François Ducray, ou os directores Philippe Paringaux e Philippe Koechlin, para além do enfant-terrible Philippe Manoeuvre, num autêntico reinado filipino porque este já dava cartas na escrita da revista e actualmente a dirige.

Na página de apresentação, uma foto com a legenda 14, rue Chaptal, em Paris. Uma rua mítica conforme se pode ler agora.

Na página 43, uma lista de discos que se vendiam por correspondência. Alguns dos melhores discos de sempre, da música rock aí figuram, porque o rock, no dizer de um dos directores da revista ( Paringaux) teve a sua idade de ouro, entre 1965 e 1975.

Na altura passava longas horas a reler estas revistas e a sublinhar os discos que gostaria de ouvir repetidamente, em LP´s que gostaria de ter. Nesse mês, qualquer coisa como 309 francos já me tornaria um ouvinte satisfeito. Com o franco a cerca de 5$00, daria 1 545$00...mais portes. No ano seguinte, no Outono, compraria uma guitarra acústica, parecida com as que via na revista, por 3 600 pesetas. Qualquer coisa como 1 500$00...




Estas férias tive oportunidade de visitar a cidade e fui à descoberta da Rue Chaptal e do seu número 14. Não existe já, o número enquanto morada. Porque era um pequeno pavilhão interior ao edifício que se vê do lado direito a meio da rua, antes do arvoredo. No mesmo local, no nº 16, funciona ainda uma dependência administrativa, segundo julgo, da firma Gibson. De guitarras, claro.

domingo, 15 de agosto de 2010

Maxime Le Forestier

Estes dois primeiros discos de Maxime le Forestier têm uma história, para mim. O primeiro, saído em 1973, ouvi-o numa edição toda riscada, no final dos anos setenta. Mesmo assim, ainda o gravei numa cassete que ouvia regularmente, com todo o ruído de fundo que um disco riscado conserva.
Em 1998 sairam as edições em cd, muito cuidadas, em digipak reproduzindo fielmente as capas originais dos LP´s e numa gravação digital rematrizada da original, a 20 bits.
Os dois discos têm uma vintena de canções, todas imprescindíveis para quem gosta de música francesa.
Recentemente adquiri os dois Lp´s originais, para concluir, mais uma vez, que o som analógico suplanta do digital mesmo em rematrização a 20 bits. Os baixos mais pronunciados, convivem alegremente com a subtileza da sonoridade acústica dos temas Le Steak ou Entre 14 et 40 ans.
No You Tube não há muito Le Forestier. E é pena porque é um artista fundamental da música popular francesa.
Mas há uma versão bem interessante de Entre 14 et 40 ans, gravada ao vivo em 1973, num espectáculo no Olympia e publicada em disco ( cd editado em 2004 e Lp original publicado em 1974)

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Guitar Player

Por ocasião do seu 20º aniversário, em Janeiro de 1987, a revista Guitar Player, publicou este desdobrável consagrado aos 20 que importam, na música popular e na guitarra em particular.


Na contra-página uma legenda ( clicar para ler) dava conta dos artefactos apresentados e o seu significado. Entre todos, a guitarra em estilhas era de Pete Townshend, destruida por ocasião da tournée de Quadrophenia, oferecida ao editor da revista, Don Menn.

Desenhos soltos


Este desenho de 1974 junta uma imagem desenhada de uma foto de Eduardo Gageiro, no dia 25 de Abril de 1974, de um soldado a guardar as instalações ocupadas da RTP e uma imagem de uma publicidade de uma revista francesa.

sábado, 19 de junho de 2010

Maria Muldaur


Este disco de Maria Muldaur, saído em 1973, é uma pérola musical. Quase todas as composições merecem uma audição, particularmente o título que foi um hit na altura- Midnight at the oasis- que passava na Página Um.

A composição, para além da beleza formal e vocal, tem um solo espantoso de guitarra, de Amos Garrett que tem vivido desse solo, conforme atesta o You Tube, aliás com numerosos seguidores.

Mesmo assim, o disco passa muito bem com outras composições country, como Any old time que abre o disco ou My Tennessee Montain Home que conta com a participação de músicos tão notáveis como Jim Keltner, na bateria; Chris Ethridge no baixo; David Grisman, no bandolim; ou Clarence White (a estrela dos Byrds) na guitarra acústica. Outras músicas contam ainda com Ry Cooder e David Lindley ( Any old Time), sendo esse um dos segredos do disco- a instrumentação impecável e de grande profissionalismo dos músicos acompanhantes.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Os trilhos da imaginação

Há coisas curiosas e uma delas é a imaginação e os truques que nos prega, apadrinhados pela memória.


No início dos anos setenta, costumava ler o Jornal de Notícias, do Porto e que na época publicava várias tiras desenhadas, em sequência diária, com historietas diversas. A maior parte dessas tiras, provinha da agência americana King Features Syndicate, Inc. e uma delas narrava em desenhos as aventuras do agente secreto Corrigan, também conhecido por X-9.

Os desenhos, em 1971, eram da responsabilidade de Al Williamson, embora tal facto, na época me fosse relativamente indiferente, tal como era a circunstância de a série ter já longos anos e o autor original se chamar Alex Raymond. O que a mim interessava mesmo, na altura, era ler a sequência diária e ficar de um dia para o outro à espera do desenvolvimento da história, nem sequer muito elaborada mas de efeito seguro, tal como qualquer filme de série b.
E os desenhos impressionavam-me pela qualidade intrínseca ao traço fino e preciso com que se mostravam carros, máquinas e...mulheres, geralmente modelos de beleza.
Entre 1 de Fevereiro e 1 de Maio de 1971 o Jornal de Noticias publicou as 78 tiras da história do Prisioneiro do Mosteiro e provavelmente a primeira tira da história que vi, foi esta, porque estava de férias de Páscoa, desde 1 de Abril de 1971.

O que me impressionou na imagem foi o desenho do convento budista.

Não sei porquê, nem sequer o motivo pelo qual nunca perdi essa imagem da memória, entre os milhões de coisas e objectos que entretanto passaram pela consciência e inconsciência. No entanto, a nitidez dessa imagem esquemática e quase em esquisso, ao longo do tempo desapareceu, paradoxalmente, para se fixar numa imagem mais nítida e precisa que se associou ao verdadeiro convento budista no Tibete que aparece nesta imagem. Uma imagem falsa, portanto, uma vez que a verdadeira, original, não era sequer do convento do Tibete e apenas uma alusão ficcionada ( o país da historieta é um inexistente Kalipur) e que no entanto se trasmudou por efeito ilusório ao longo dos anos.

E como descobri isto tudo?

No outro dia, no Porto, num alfarrabista, perguntei por aventuras de Corrigan, precisamente por andar à procura desta historieta. O livreiro mencionou um nome- José Matos-Cruz- como grande conhecedor da matéria e que até tinha escrito nos anos oitenta, vários textos a propósito precisamente, da publicação dessas tiras diárias no Jornal de Notícias. E mostrou-me algumas, de suplementos no Jornal de Notícias e Capital ( o relativo a estas imagens, sei-o agora, foi publicado em 26.10.1986 e 5.3.1987, respectivamente).
Uma busca rápida pela Rede apontou-me o nome do autor, como tendo um blog -Imaginário. E um endereço de email que logo utilizei para lhe expor o meu interesse particular nesta coisa pouco comum. E passados dias recebi a resposta amabilíssima não só com a menção à história em causa, como a data em que foi publicada e onde poderia encontrar tal coisa. Da leitura à ebay foram alguns segundos e na Itália havia precisamente para venda um desses volumes em que tal história aparecia.
São desse volume- Eureka Bum, suplemento ao nº 124, de 15 de Maio de 1974- as imagens a preto e branco e com a dimensão das tiras que o JN publicava que aqui ficam.
E obviamente o agradecimento, mais uma vez, ao especialista José Matos-Cruz.

Aditamento em 15.6.2010:

Al Williamson morreu no Domingo, 13 de Junho, com 79 anos, na sua cidade natal, Nova Iorque. Lido aqui.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Crosby Stills Nash & Young- Déja Vu

Este Lp fotografado saiu em 14.3.1970, nos EUA. Os Crosby Stills Nash & Young, lançaram Déja Vu depois de já terem alcançado notoriedade com o primeiro Lp e em trabalhos dos membros do grupo noutras bandas, como os Buffalo Springfield ou mesmo os Byrds.

Déja Vu, em 1970, valia pelo virtuosismo vocal e instrumental dos músicos e para mim valia pela canção Teach Your Children, cuja toada nunca me cansei de ouvir, sendo uma das músicas que me levou a tentar aprender a tocar guitarra acústica.
No entanto, o som característico dessa música é a pedal steel guitar que aqui é tocada por Jerry Garcia, dos Grateful Dead, segundo se conta em estreia porque o instrumento country por excelência seria novidade para o músico. Diga-se por isso mesmo que o acompanhamento é primoroso de sobriedade e categoria e foi exactamente esse som, nesta canção que me chamou a atenção para o country rock.
Para além disso, o LP original ( na foto) tem um acabamento gráfico excepcional. A capa é rugosa no cartão prensado ( ampliar com um clique para perceber) e a foto é colada, sendo a letra decorada em tom dourado que torna o objecto um verdadeiro álbum.
Uma das capas mais belas da música popular.

domingo, 30 de maio de 2010

Before the flood- Bob Dylan


Este disco ao vivo de Bob Dylan saiu em Junho de 1974 e provavelmente chegou cá a Portugal, dois ou três meses depois. Lembro-me de o ouvir na Página Um da Rádio Renascença e com essa audição, retomei o interesse em ouvir Bob Dylan, cujas canções antigas tinham já ficado para trás no tempo, com um intervalo para Knocking on Heavens ´s door e George Jackson, singles dos anos anteriores.
O disco seguinte, Blood on the tracks, saído em Janeiro de 1975, foi ouvido ( com a canção Idiot wind) pela primeira vez na mesma Página Um, em 18.2.1975, num serviço de correspondência musical com algum residente em Londres que enviava para cá os discos novos.

Com Before the Flood, as antigas canções como Like a Rolling Stone, Blowin in the wind ( que se lhe segue no disco) e Don´t think twice it´s allright ganharam novo fôlego e durante muitos anos lembrei-me desse som que ouvira no rádio, incluindo alguns temas pelo grupo The Band ( Up on cripple creek tem aí uma das melhores versões e que é referência para mim, na clareza de instrumentação) que acompanhou Dylan nessa tournée americana, muito falada na época, como atestam as reportagens das revistas estrangeiras da especialidade ( Rolling Stone e Rock & Folk, por exemplo e na imagem).

O som do LP, de prensagem americana, original, naturalmente restitui toda a magia do som de época, suplantando em muito o som algo abafado do cd duplo que saiu em 1990. Apesar de ter saído uma edição rematrizada, recentemente, ainda não ouvi e por isso fico-me com o som do LP como referência.


segunda-feira, 24 de maio de 2010

José Fortes


Este conjunto de discos de música popular portuguesa, o que têm em comum?

A figura de José Fortes, a sua sensibilidade de técnico de som e a sua perícia na arte de misturar as sonoridades para a gravação. José Fortes é um dos técnicos de som que aparece em quase todos os discos de música popular portuguesa, particularmente nos retratados acima.

Em 2006, a propósito da reedição de um disco da Banda do Casaco, Hoje há conquilhas, amanhã não sabemos, ( na imagem, em tom amarelo de ovos estrelados) LP original de 1977, cuja gravação master, original, desapareceu, José Fortes, dedicou-se à recuperação do som do LP, para regravação em formato digital, o que aconteceu em Outubro desse ano e com uma nota de José Fortes a dizer assim:

"Quem decide deixa desaparecer o original.
Quem aprecia recupera-o dos escombros.
Podemos continuar a ouvir a Banda do Casaco."


Imagem da revista Única do Expresso de 22.5.2010. Clicar para ler

sábado, 8 de maio de 2010

40 anos a deixar rolar os Beatles

Faz hoje 4o anos que o LP Let it be dos Beatles foi lançado.

Em Maio de 1970, a música dos Beatles, para mim, ainda era novidade na sua maior parte. E continuaria a ser uma vez que a audição dos LP´s era coisa de discoteca, de passagem e no rádio só passavam singles. Por isso mesmo, só muito mais tarde ouvi alguns dos temas de Let it be que me deixaram surpreendido, como por exemplo Two of us, o tema de abertura e como já contei por aqui.

Não sei exactamente quando saiu o LP por cá e quando ouvi as suas músicas pela primeira vez, mas julgo que teria sido alguns meses depois do lançamento em Inglaterra, porque assim costumava ser.
Por isso, em Agosto de 1970, a revista Mundo da Canção mostrava a capa do LP em tonalidade bi-cromática de amarelo e azul celeste e no interior as letras de The long and winding road e Two of us, precisamente.
No entanto, o tema já era redundante, nessa altura, porque os Beatles eram apenas mais um grupo na explosão da música popular de expressão anglo-americana. Havia outras coisas para ouvir, incluindo a pop mais comercial dos Christie ( Yellow River) ou de Michel Delpech ( Wight is Wight), Shocking Blue ( Venus) ou mesmo Marmalade ( Reflections of my life), para além do rock dos Led Zeppelin e o disco II que continha o incontornável Whole Lotta Love, saído em finais do ano anterior e nessa altura de Maio já a estourar nos rádios em onda média. E também os Crosby Stills Nash & Young, cujo tema Teach Your Children do Lp Déjà Vu, saiu na mesma altura. Ou Cecilia, dos Simon & Garfunkel de Bridge Over Troubled Water.
O mais provavel seria o tema da Eurovisão, All kinds of Everything, de Dana. Muito bonito, por sinal.

Quando Let it Be chegou por cá, apareceu também em versão de luxo- uma caixa preta com as fotos dos membros do grupo e sem dizeres na parte da frente. Lembro-me de ver essa caixa e o livro que a acompanhava que era de luxo e que nunca vi. Mas como quem não tem cão, caça com gato, há imagens na Rede, do precioso artefacto que custa actualmente uma pequena fortuna de algumas centenas de euros, em alguns casos.

Recordo ainda a discussão entre amigos, na altura, sobre a tradução do tema, Let it be. Ainda hoje não sei exactamente qual a mais acertada. Por isso, deixa rolar.



segunda-feira, 26 de abril de 2010

Plágios assumidos

Na entrevista que Donald Fagen e Walter Becker deram à revista americana Musician, de Março de 1981, em oito páginas, em determinada altura o entrevistador David Breskin refere aos dois músicos de Steely Dan se eram familiares com um tema chamado Long as you know you´re living yours, do disco Belonging de Keith Jarrett. Becker responde logo que sim. E acrescenta depois, a uma pergunta da Musician sobre a circunstância de a ter comparado com o tema Gaucho que...não.
E o repórter insiste em referir que em termos de tempo e da linha de baixo e a melodia do saxofone tal se torna interessante.
Becker responde-lhe, encavacado que " Parenthetically it is, yeah". E o reporter escreve que naquela altura deveria passar ao off the record, mas os artistas autorizam o off em modo de escrita on e Fagen refere explicitamente que " we were heavily influenced by that particular piece of music" e ainda acrescentou: " we steal. We´re the robber barons of rock n´roll", indicando que a outra composição no disco que apresenta uma óbvia semelhança com outras músicas é "Glamour Profession" com a música do grupo Dr. Buzzard´s original Savannah band.

Ora aqui estão os corpos de delito. Primeiro o original de Keith Jarrett:



E a seguir, a versão de Gaucho, notoriamente inspirada naquela:



E a sonoridade do Dr. Buzzard original savannah band:



Comparada com o tema Glamour Profession dos Steely Dan:

domingo, 25 de abril de 2010

Steely Dan e Gaucho

O disco em análise na Hi.Fi News com data de Maio de 2010 é o Gaucho dos Steely Dan, um disco originalmente publicado em finais de 1980 e que a revista, como habitualmente, analisa na suas várias versões gravadas, em LP e cd e mesmo, no caso os formatos japoneses, em prensagens de meia-velocidade.
A conclusão da revista é a de que as primeiras prensagens do LP original, são as melhores em termos sonoros, comparáveis inclusivé, às prensagens posteriores em modo audiófilo ( em 1981) pela MCA.
Em cd, cuja primeira edição surgiu em 1984, a melhor versão será a do SACD de 2003 ou a do cd misturado por Elliot Schneider para a DTS, em 1997.


Por causa destas dúvidas sonoras, ao longo dos anos fui procurando o nirvana sonoro que sabia existir no disco Gaucho, gravado com produção de Gary Katz.
Já dei conta neste blog da apreciação crítica a este disco particular dos Steely Dan e do tema particular que me chamou então a atenção quando o disco saiu e era reproduzido no rádio Popular de Vigo, em emissões consagradas ao novo formato digital do cd: Third World Man. Por causa desse tema vim a conhecer todos os demais discos dos Steely Dan e alguns melhores que Gaucho ( Pretzel Logic, de 1974, por exemplo).
Assim, o primeiro LP que arranjei foi no El Corte Inglès de Vigo, em prensagem espanhola, tal como os outros Lp´s do grupo. O som não é mau, mas é menos que perfeito e não tinha as letras das canções na capa interior, o que não acontecia com o LP original, como vim a saber depois. Para descobrir os músicos que tocavam, entre os quais Mark Knopfler num tema ( Time out of mind) foi preciso aguardar meses de pesquisa avulsa.
Anos mais tarde, já nos anos noventa, apareceu a versão do disco em importação da Valentim de Carvalho da prensagem alemã da Warner, à semelhança de muitos outros discos então importados a preços mais baixos que os habituais. A capa desse disco era de qualidade gráfica superior à espanhola ( o que nem era preciso muito porque era algo descolorida e anémica) e além disso tinha as letras das canções impressas na capa interior fina, mas com os músicos todos em evidência. Para este grupo é sempre importante conhecer os músicos que tocam nos discos.
Durante anos foi com estes dois LP´s que referenciei o som dos cd´s que entretanto também arranjei. Primeiro, o cd original de 1984 e depois um outro da Mobile Fidelity, em original Master Recording que se fazia pagar mais do dobro do cd normal. O som melhorado em relação ao primeiro cd, ainda não satisfazia inteiramente e por isso logo que saiu a versão em cd, em 2003, experimentei também, quase me convencendo que estava aí a versão definitiva. Mas não.

Por ler a crítica da HI-Fi news, arranjei agora no ebay, o LP original, em prensagem USA. E de facto é outra coisa e o melhor de todos, cd´s incluidos.

É este o som de Gaucho que prefiro e que admiro e que não me canso de escutar. E esta é uma das experiências mais satisfatórias que pode haver: descobrir realmente esse nirvana sonoro que sabemos existir.



LP original, seguido da prensagem espanhola e da alemã.


Cd original de 1984, seguido da versão da Mobile Fidelity de 1991 e da versão em SACD de 2003, com o anúncio ao LP publicado na Rolling Stone de Janeiro de 1981, na capa que traz John Lennon e Yoko Ono abraçados, numa fotografia célebre de Annie Leibowitz e publicada já depois da morte daquele. Ainda a revista Musician de Março de 1981 com uma entrevista extensa aos dois mentores do grupo, Donald Fagen e Walter Becker, na qual confessam vários plágios na música que fizeram.
A seguir, a comprovação de um deles...

domingo, 18 de abril de 2010

Fora de Órbita



Duas páginas de programação de rádio, da revista R&T de Agosto de 1970 e Janeiro de 1974.

O programa de rádio Em Órbita, começou a transmitir-se em 1.4.1965 e no seu formato inicial, com passagem de música popular de vanguarda ( na época, a de expressão anglo-saxónica, o pop/rock) e com a apresentação de Cândido Mota e a realização, entre outros, de Pedro Soares Albergaria, João Manuel Alexandre e Jorge Gil.

Como se pode ver clicando na imagem acima da revista R&T de época, em Agosto de 1970, o programa transmitia-se das 19h às 21h. Em finais de 1973, havia um Em Órbita dois, a passar às 24 h, no mesmo rádio: o RCP em FM. Anunciava-se nessa altura o aparecimento do Em Órbita que em Junho de 1974 passava já às 19 horas e até às 21h, como anteriormente.
Em Maio de 1971, o programa terminou esse percurso pela música popular e passou a outra forma mais erudita.
Nos anos oitenta, o programa apresentado nessa altura por João David Nunes, passou a focar a sonoridade radiofónica na música antiga erudita e em meados da década, patrocinou inclusivamente a realização de concertos. No caso do tricentenário do nascimento de J.S.Bach ( 1685-1985), a Erato e a Dacapo, produziram um disco duplo, com os Concertos brandeburgueses, de J.S.Bach, pela Orquestra Barroca de Amsterdão, dirigida por Ton Koopman.

Foi nessa altura que o Em Órbita, ( cujo indicativo era o tema último da Deutsche Messe, Schlussgesang) , despertou a minha atenção para esse tipo de música barroca e particularmente Ton Koopman, levando-me a comprar o LP comemorativo ( acima e que se amplica com um clique), com os seis concertos tocados em instrumentos antigos que emprestam à sonoridade uma característica própria e algo anacrónica.

O mesmo Ton Koopman que hoje se terá apresentado no Auditório da Gulbenkian. Provavelmente com a presença de Jorge Gil...e que poderia ser entrevistado agora para falar do seu programa e principalmente do rumor que anda por aí, no sentido de o mesmo guardar religiosamente as gravações em fita, do programa Em Órbita daqueles anos todos.
Se isso fosse verdade e Jorge Gil se disponibilizasse talvez que um mecenas pudesse ajudar à concretização de um sonho: retomar as memórias desse programa ímpar na nossa rádio. Talvez um Teixeira Pinto que agora se dedica a coisas da cultura tivesse memória de Em Órbita. Talvez outros.