sexta-feira, 2 de abril de 2010

Schubert- Missas

Nos anos setenta e oitenta costumava ouvir o Em Órbita, programa de rádio de Jorge Gil que nessa altura já passava exclusivamente música erudita.
O indicativo desse programa que começava às sete da tarde era uma peça coral, que vim a saber mais tarde tratar-se de uma parte de uma missa alemã de Schubert.
Devido ao tom majestoso e cerimonioso da prestação coral, de grande beleza estética e que suscita uma inclinação espiritual na escuta, procurei durante anos, o disco que a apresentasse do modo como a ouvira nesse tempo.
A busca demorou anos e incursões frequentes em discotecas, à procura do verbete Schubert-Missas.
Em primeiro lugar foi o LP, ainda nos anos oitenta, em prensagem alemã da Acanta, com a versão da Deutsche Messe D. 872 pelo Tölzer Knabenchor, dirigido por Gerhard Schmidt-Gaden, gravação de 1975. A aquisição terá ocorrido na célebre discoteca Santo António, no cimo da rua 31 de Janeiro no Porto e onde ouvi talvez a melhor aparelhagem sonora de sempre, com uma colunas Bowers & Wilkins série 801.( imagem tirada da Rede)

O som que ouvi não me devolveu o que a memória guardava do tempo do rádio Comercial, nos breves segundos do início do Em Órbita.
A parte escutada respeitava sem dúvida ao final Schlussgesang. Um coro em "chave de canto" que terminava a "missa alemã", tal como conhecida mas com a designação D. 872.
Mas não era aquilo. Era demasiado rápido para a versão que conhecia do Em Órbita. Demasiado apressado para a majestuosidade do Schlussegesang que ouvira antes, apesar das entoações dos sopros se lhe assemelharem.
Como não era bem aquilo, procurei outras versões da "missa alemã".

Conforme se vê pela imagem acima, apareceu outra versão em cd, da Ophelia Records e com data de 1988, mas com gravação de 1980, o que manifestamente não poderia ser, porque a versão que ouvira vinha já dos anos setenta. E o som do Final, da Schlusse, da chave, não era bem aquele, porque também demasiado apressado no compasso e diverso no som coral.

Em seguida experimentei a versão em cd da Capriccio, gravação de 1988 e com o Rias Kamerchor , RSO de Berlim, com direcção de Marcus Creed. O Schluss final quase me convenceu porque a versão é muito próxima da que ouvira. Durante algum tempo tive a ilusão de que era aquilo, mas uma audição atenta, levou-me à desapontadora conclusão de que ainda não era.
E procurei em vários sítios, em diversas discotecas em todo o lado onde fui. Em Viena achei que encontraria porque é um sítio onde se comercializa muita música erudita à sombra de festivais e de uma ópera que se manteve idêntica durante os decénios que a sustentam. Mas não encontrei.

E um dia, do ano passado, na FNAC de cá, reparei numa caixinha da EMI Classics, uma compilação de 1988/2007, com gravações antigas.
Uma delas respeita à gravação de uma "missa alemã", de 1960, da Orquestra Filarmónica de Berlim, dirigida por Karl Forster, com o coro da Catedral de Santa Edwige de Berlim.
É esta a versão que sempre ouvi na minha memória e agora canta em CD, neste dia de Sexta-Feira Santa.
A paixão de Cristo numa "missa alemã" que afinal não tem o número de série D. 872 mas sim o D. 621. E por causa disso, andei anos à procura de um som. De um coro. De uma versão musical de uma missa, um requiem, cuja primeira apresentação ocorreu em Viena, em Setembro de 1818.
Uma peça musical sublime.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Genesis- A trick of the tail


Em 1974 os Genesis publicaram The Lamb lies down on Broadway, considerado o disco de referência do grupo, na altura e merecedor de encómios como o de necessitar de várias audições para lhe extrair o sumo sonoro e temático. Foi assim que o disco passou no rádio Comercial de então, apresentado por um divulgador- convidado, salvo o erro João Filipe Barbosa ( que é feito dele?) e que em finais do ano desse ano ou início do ano seguinte ( o disco foi lançado em Novembro de 1974 e por cá demorava mais um pouco a chegar) o apresentou como um disco de importância fundamental, com a sua introdução em arpejos de piano.

Durante mais de um ano foi esse o disco dos Genesis que se ouvia até que em 1976, ( Fevereiro) já depois da saída do cantro compositor Peter Gabriel, o grupo lançou o disco A Trick of the Tail, vocalizado pelo baterista Phil Collins.
Esse LP acompanhou o meu primeiro ano em Coimbra e é de memória relevante nas melodias que o compõem como Entangled ou Ripples.
A versão em LP, na imagem acima, foi fabricada e lançada em Portugal pela Polygram e não tem uma qualidade sonora por aí além, por ter uma prensagem pouco nítida nos sons e que os cd´s lançados posteriormente quase ultrapassam com facilidade.
O primeiro cd ( na imagem por cima do outro) foi lançado em 1984 e tem um som razoável por comparação com o do LP.
O outro cd, lançado em 2007 e que fazia parte de uma caixa com todos os discos, então rematrizados e remisturados, dos Genesis a partir de 1976 ( outra existe até essa data) é uma junção de três formatos e aparece em dois discos. Um deles junta o cd simples em 16 bits/44,01 kHz com a versão em SACD. Noutro disco aparece uma versão em dvd-audio e ainda extras em filme dvd, com gravações de concertos dos Genesis em 1976 e 1977, o que por sí vale a compra.
Para além disso, a versão em dvd-audio é superior à do SACD e à do LP em prensagem portuguesa.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Pat Metheny na Páscoa

Nas semanas santas dos anos oitenta, a Rádio Renascença costumava passar música instrumental, depois de alguns anos antes, passar música sacra, erudita.

Era nessa altura, uma semana de pequenas maravilhas instrumentais em que se ouvia coisas que não passavam noutras alturas e se descobriam sons diferentes do mainstream da pop/rock.

Foi assim que descobri alguns álbuns e artistas diversos como os Weather Report, Spyrogira, Eddie Daniels, etc. E Pat Metheny que já era conhecido, passava em muitas horas, com os diversos discos que já tinha publicado.
Por outro lado, em todas as épocas de Páscoa, costumava comprar um disco diferente e com melhor qualidade. Num desses anos, em meados da década de oitenta, a escolha recaiu em First Circle, em LP.
Esse disco fantástico é um dos poucos cuja versão em cd, também da etiqueta ECM, alemã, equivale em som ao LP publicado originalmente em 1984.


A curiosidade em Pat Metheny começou igualmente com o título de um disco. Este, em parceria com Lyle Mays, de 1980.




domingo, 28 de março de 2010

Van der Graaf Generator- capas de discos

Os discos de Van der Graaf Generator, grupo inglês dos anos setenta, fizeram parte da minha companhia musical desde Godbluff, de 1975. O tema The undercover man, escutado vezes sem conta, começava lentamente e em sussurro..."here at the glass".
Logo que os primeiros compassos surgiam do éter no rádio, várias vezes corri para o gravador de cassetes para gravar o disco todo que então passava em programas do rádio... Comercial, ainda da rede pública.
No ano seguinte saíram dois discos- primeiro Still life cuja capa admirava no escaparate da discoteca e por isso é das capas que mais aprecio na música popular. A música, essa, continuava na veia do disco anterior, com o destaque para os saxofones de David Jackson.
O disco saiu nos primeiros meses de 1976, ( em Abril) e faz agora 34 anos.
Entre as várias versões em LP e cd, o Lp original suplanta em qualidade de gravação sonora, a do primeiro cd, de 1988, com um som demasiado anémico e mesmo a rematrização de 2005, apesar disso, com muito melhor qualidade que o anterior cd.

Alguns meses depois, em Outubro de 1976, saiu World Record. Quando o disco começou a passar no rádio ( perto do Natal? Já em 1977?) nem queria acreditar que um novo disco dos VDGG surgisse tão cedo e com uma qualidade idêntica à dos anteriores. Ainda nem tinha digerido todo a matéria sonora de Still Life e eis que surge a composição Wonderin´ a passar no rádio, com uma beleza que foi ficando durante o ano de 1977, a par do primeiro Peter Gabriel a solo, dos Kinks de Sleepwalker e dos discos de Roy Harper, mais a música brasileira.

No mês de Abril 1977, a revista Música & Som publicou um artigo sobre o disco , com análise musical ( João David Nunes ) gráfica e técnica ( Manuel Bravo e Filipe Costa), para além das letras ( João de Menezes Ferreira).

Sandy Denny-Like an old fashioned love song

O disco Like an old fashioned love song de Sandy Denny gravado em 1973 e publicado em Junho de 1974 é um dos grandes discos da cantora falecida em 1978.
É um disco que se escuta da primeira à última faixa, sempre com canções memoráveis. Perdi já as vezes que o escutei desde que comprei o LP no final dos oitenta e por causa da primeira música, Solo, que ouvira no tempo, na Página Um.

O LP na imagem, à esquerda, prensagem de 1986, da Carthage Records tem uma sonoridade que os sucedâneos da direita não alcançam.

O cd mais à direita e com um verde mais claro é da Rykodisc/Hannibal Records , dos primeiros anos da década de noventa do século que passou e é o que soa pior. Como se a música que lá contém se ouvisse através de uma cortina de veludo que filtra o som e o torna algo espesso e sem relevo nos pormenores instrumentais que lá estão.

O cd do meio, rematrizado em 2005 pela Island Records, tira essa cortina, mas o impacto sonoro é maior do que no LP que soa um pouco mais laid-back e melhor, com maior definição de detalhe sonoro.

Sobre a etiqueta Hannibal, uma informação recolhida na Rede permite entender como se formou e evoluiu:

"Hannibal/Carthage were labels run by Joe Boyd, who was the American ex pat (or, at least living abroad) who ran London's famous UFO club. He was also a very influential record producer, responsible for discovering Pink Floyd.

As friends with Chris Blackwell, he produced Fairport Convention and Nick Drake (among others) for Island and, I believe, the Incredible String Band for Electra.

At some point, in the late 70s I believe, he started his own labels, which specialized in Brit Folk, including reissuing several Fairport and Richard and Linda Thompson albums. Richard also signed with him to release his new material, as well.

I forget if there was a distinction between what was released on Carthage, and what on Hannibal, but, ultimately, Boyd sold out to Rykodisc, who folded the Carthage imprint."


sábado, 20 de março de 2010

Blonde on Blonde- Dylan

A revista inglesa Hi-Fi news datada de Abril de 2010, consagra a sua recensão crítica do mês, ao LP de Bob Dylan, Blonde on Blonde, editado nos EUA no mesmo dia que Pet Sounds dos Beach Boys-16 Maio 1966.

Blonde on Blonde é um dos discos de rock que mais aprecio colocando-o no patamar dos cinco maiores que conheço. No entanto, só ouvi o disco mais de meia dúzia de anos depois de ter saído. Em primeiro lugar ouvi Just Like a Woman, na versão que Dylan apresentou no Concerto para o Bangla Desh, em 1971.Durante anos a fio não soube sequer como era o disco e que aspecto tinha. Duplo, com uma faixa- Sad Eyed lady of the Lowlands- que escuto neste preciso momento e que se prolonga por quase 12 minutos, ocupando uma faixa inteira do LP original.
Em Março de 1976 a revista Rock & Folk publicou duas páginas de recensão crítica aos discos de Bob Dylan, por ocasião da publicação de Desire, nessa altura, para mim, já sem interesse por aí além e depois do último disco grande de Bob Dylan, Blood on the tracks.
O crítico da revista menciona " as míticas pensagens US, tão difíceis de desencatar, belas e robustas no seu cartão" referindo-se às capas dos Lp´s americanos, com um cartão muito diferente do europeu, mais espesso e com melhor impressão gráfica das imagens por causa disso.

Ainda assim, foi nessa altura que pude ver a capa, mas nem sequer a cor da mesma, dos primeiros discos de Dylan e procurei saber qual seria Blonde on Blonde, descobrindo por exclusão de partes uma vez que o disco apenas tem uma foto do cantor, desfocada.

A cor verdadeira do LP só a vi em meados dos anos oitenta quando comprei um exemplar, de prensagem espanhola, do ano de 1980.
A revista Hi-Fi news destaca a versão em cd da Mastersound-Cloumbia Legacy que também arranjei posteriormente e que provavelmente será um dos poucos exemplos em que o som do cd ultrapassa de modo implacável e indiscutível o do LP, nesta prensagem espanhola de fraca qualidade. Não conheço a qualidade do LP original mas pelos comentários do articulista da revista, o cd poderá bem ser superior, o que é de admirar.


domingo, 14 de março de 2010

Jean Ferrat

Morreu Jean Ferrat, um dos cantores franceses que marcaram o séc. XX. na Chanson française, a par de Brassens, Leo Ferré, Regianni ou Moustaki.

No final dos anos noventa, por causa destes cheguei à música de Jean Ferrat e deparei logo com uma cujo título me despertou atenção: Camarade. Camarada? Exactamente. Jean Ferrat era comunista, não bem ortodoxo mas poeta do comunismo e que por isso o levou a cantar Aragon, precisamente.

Ainda assim, são várias as canções cuja qualidade não respira ideologia. Como esta:

quarta-feira, 3 de março de 2010

Deep Purple


Em 1972 saiu um álbum dos Deep Purple que se tornou um ícone do hard-rock, acompanhando os Led Zeppelin ou os Black Sabbath nesse estilo musical com predominância da guitarra em distorção e secção rítmica acelerada. O disco marcou os anos setenta, com duas ou três canções que ficaram no ouvido e fartaram de soar na época.

O álbum Machine Head é o disco escolhido pela Hi-Fi news deste mês ( imagem acima, clicar para ler), para o destaque sonoro.
Como habitualmente, a revista colige todas as edições do disco original, fazendo uma apreciação crítica dos diversos formatos e edições posteriores.

Depois do LP original sobressai a edição comemorativa do 25º aniversário, de 1997 e a edição em sacd, de 2003.
Na reedição de 1997, com dois cd´s, os temas foram remisturados num cd e no outro apenas rematrizados. Prefiro esta última melhoria.

O LP tem como símbolo sonoro o famoso Smoke on the water, single de sucesso, mas inferior em qualidade ao primeiro tema, Highway Star, com ideias musicais mais tarde exploradas por uns Van Halen, como se pode ouvir no solo de guitarra de Richie Blackmore, com progressões em arpejos que foi buscar a...Bach. Tal como o Whiter shade of pale dos Procol Harum.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Loudon Wainwright III


Durante o ano de 1976, no rádio, num eventual programa de Jaime Fernandes, passou um disco que foi repetido uma vez ou outra. A voz, parecia a de um trovador tipo Dylan com inflexões de Arlo Guthrie e os temas soavam a country e folk.
O disco era de Loudon Wainwright III e o álbum, T Shirt. Os temas que ouvira, para além do tema do momento- Bicentennial-, no momento da comemoração dos 200 anos da independência americana, havia mais dois ou três que ficaram no ouvido e um deles- Wine with dinner- motivou a procura do disco que nunca encontrei nem sequer em foto a cores. O tema não está disponível no You Tube e só agora, passados mais de trinta anos, o ouvi novamente. Tal como já escrevi, soa como se o ouvisse ontem. O refrão desse tema, à semelhança de alguns outros, poderia fazer parte da banda sonora da minha música de sempre.

Para além de Wine, o destaque vai para Talking big apple, sobre Nova Iorque; Reciprocity, outro dos temas esquecidos que o tempo recupera e quase todos os demais, porque o disco não tem temas fracos e está muito bem acompanhado musicalmente.
Além disso, tem uma pequena curiosidade que nunca vi noutro: o tema Wine with dinner, toca no fim do primeiro lado e retoma o verso final, não cantado, no fim do segundo lado.
Por causa desses dois ou três temas, durante anos a fio, esperei encontrar o disco cujo nome exacto nem sabia, porque os temas tinham apenas alguns fragmentos de letras na minha memória, como sejam o de relatar os problemas de Nova Iorque com o remate de que "Ah, but it´s not boring".
Assim, em determinada altura encontrei A Live one e esperei que fosse nesse disco que o tema Wine with dinner se encontrasse. Não encontrava e em vez dele, descobri outros, como Motel Blues ou Down drinkin at the bar. Mas...não era a mesma coisa.

The real thing é mesmo o LP T Shirt. Um grande disco, esquecido injustamente.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Cat Stevens- Tea for the tillerman -40 anos

Clicar para ler.

A leitura da revista Hi-Fi news deste mês trouxe a surpresa de ver um artigo bem documentado sobre o LP Tea for the tillerman, de Cat Stevens, com pequenos apontamentos de entrevista ao próprio compositor.

O disco, lançado em Novembro de 1970, é talvez o melhor do cantor, a par de Teaser and the firecat e um dos temas- wild world- na versão de Jimmy Cliff- suscitou a um rapazito de pouco mais de quatorze anos, uma performance musical, no grupo Os Ladinos, com acompanhamento de bateria, a la Levon Helm, com direito a papel com a letra escrita num dos tom tom do instrumento.

O artigo da Hi-Fi news elenca os "formatos alternativos" ao disco original, na página copiada e indica a versão em cd, da Mobile Fidelity, de 1988, como sendo aquela cujo som se aproxima mais do ouvido no estúdio quando o disco foi gravado.
O disco da MF tem esta capa e ouvi-o agora mesmo. Duas vezes. Depois de o ter ouvido , seguramente, dezenas de vezes, ao longo dos anos.


domingo, 24 de janeiro de 2010

Jacques Martin


Na semana que passou, morreu, aos 88 anos, Jacques Martin, o último representante vivo da banda desenhada de "linha clara", a escola belga de Hergé que tinha em Edgar-Pierre Jacobs a outra pedra angular dessa grande casa da banda desenhada.

O autor de banda desenhada começou na revista Tintin, na Bélgica, em 1948, com Alix, o herói da antiguidade clássica que Jacques Martin integrava em histórias realistas e com alto grau de proximidade à realidade histórica conhecida. Em 2002 , foi entrevistado por Eurico de Barros, no Diário de Notícias.

Alix foi publicado na revista Tintin, nos anos setenta, em várias aventuras.

Não obstante, foi com outro personagem que comecei a dar atenção a Jacques Martin: Lefranc, publicado na edição portuguesa de Tintin, logo que comecei a comprar a revista, no início de 1972.
No entanto, nessa altura, já as historietas eram desenhadas por outrém, Bob de Moor, um outro colaborador do Tintin e seguidor da linha clara, belga.

Na revista portuguesa, a história A Toca do Lobo, desenhadao por Bob De Moor, suscitou a minha atenção pelos detalhes realistas das paisagens, carros e cenas de enquadramento quase cinematográficas.
Nessa aventura, o herói Lefranc, um jornalista de investigação, para chegar à "toca do lobo" tem de escalar uma montanha dos Vosges franceses. E aí, ataviado de mochila, cordas e roupa de alpinista, motivou alguns desenhos para estudo de sacos...

No Verão de 1973, a Tintin portuguesa publicou a primeira aventura de Lefranc, A grande ameaça, desenhada e escrita por Jacques Martin, e publicada no Tintin belga, em 1954. A diferença de desenhos e estilo de "linha clara", é notória entre este e Bob de Moor, se bem que a edição de 1973, na capa pelo menos, difere da original.

O rigor geométrico e de pormenor definido, em Jacques Martin, ( imagem abaixo à direita, da primeira prancha de A grande ameaça, no Tintin de 25.8.1973) aproxima-o muito mais de Edgar Pierre Jacobs do que os desenhos de Bob de Moor ( imagem da esquerda, em baixo, da aventura A toca do lobo, no Tintin de 1.4.1972), em si mesmos também um primor de virtuosismo artístico.



sábado, 23 de janeiro de 2010

Kate McGarrigle


Na música popular, de todas as expressões, não há assim tantas artistas femininas, singulares, como isso.

Na pop/rock, o número dos discos que guardei e aprecio, de música composta, tocada ou cantada por mulheres, ainda se reduzem mais.

Sandy Denny, Joni Mitchell, Linda Rondstadt ou Emmylou Harris e Joan Baez, destacam-se entre outras porque tenho discos que aprecio.

Mas há duas irmãs canadianas que ficaram no ouvido, nos anos oitenta, logo que ouvi um ou outro tema no rádio: Kate & Anna Mcgarrigle.

Kate morreu esta semana que acaba, como dá conta o blog das irmãs. Rodeada de paz, tranquilidade e a presença da família, segundo se escreve. Fora casada com Loudon Wainwright III, pai de Rufus, como mesmo apelido e por causa disso, encomendei este disco que não ouço há mais de trinta anos e sei que vou ouvir como se fosse ontem. É o disco do Bicentennial, de 1976.

Por enquanto, ouço dois Lp´s das irmãs, na foto acima, em prensagem de capa original canadiana. O primeiro, de 1975, apenas com o nome das irmãs e o segundo, de 1977, Dancer with bruised knees.
Duas pequenas jóias da música popular, bilingues em algumas faixas, por causa do francês do Canadá e deliciosos de escutar, de uma subtileza musical que só comparo a certos artistas ( como Paul Simon me ocorre agora).
O primeiro, de 1975, é mais que uma pequena jóia, porque um dos melhores discos de música popular, todos os géneros confundidos e com a participação de artistas de grande gabarito como Lowell George, dos Little Feat; Steve Gadd, na bateria; David Grisman; Amos Garrett- autor do solo de Midnight at the oasis, de Maria Muldaur em 1973 e outros.

Por isso, merci beaucoup Kate & Anne Mcgarrigle, pour votre musique.

Thank you for the music.






quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Procol Harum forever



A música dos Procol Harum era assim analisada na revista Rock & Folk de Setembro de 1969, por ocasião da recensão do terceiro disco do grupo, A salty dog:

"A voz de Brooker. As palavras de Reid. O órgão de Fisher. Uma orquestração fabulosa. O resumo de tudo o que pop-music hoje tem de melhor. A combinação perfeita de influências que vão da música clássica ( o wagneriano Wreck of the Hesperus) aos ritmos antilhenses ( Boredom, ao lado do qual Ob la di e todos os rock steady do ska-blue-beat do mundo fazem pálida figura), passando pelo bom velho blues das famílias ( Juicy John Pink). Uma música tanto sólida como delicada, refinada ou swingante, se não é a ideal não anda longe disso. A salty dog não marca o nascimento de um grande grupo, mas, enfim, o seu reconhecimento."

Os três primeiros discos dos Procol Harum, de facto, são obras-primas e dizê-lo passados mais de quarenta anos, significa um reconhecimento apócrifo.
Do primeiro disco, homónimo, ressalta imediatamente o primeiro tema, Conquistador. O segundo é outra maravilha- She wandered through the garden fence- que José Cid ouvir muito bem para compor um single de êxito dos anos setenta.
Mas os temas que seguem, suscitam a mesma atenção sonora, com destaque para Salad days ( are here again) ou o final, Repent Walpurgis.

O segundo disco, Shine on Brightly, de 1968, foi lançado nos EUA com maior sucesso que no UK, por motivos conjunturais, de desinteresse relativo da terra onde nasceram, conforme então se escrevia.
O disco é ainda superior ao primeiro em qualidade, sem falhas do primeiro ao último tema, com destaque para uma composição em cinco partes- In Held Twas in I. A canção Ramblin on é de adição sonora garantida, tal como o era Salad days do primeiro disco.

A Salty dog saiu em Junho de 1969, na Inglaterra. É outro disco de grande fôlego do grupo, havendo quem assegure ser o melhor de todos, o pico da carreira do grupo. Por mim, o segundo é que é.

A partir daí, o disco de 1970, Home, retoma uma linha mais rock e com predomínio de guitarra de Robin Trower, com temas de blues típico e misturas de sons de guitarra com órgão Hammond, uma marca de água do grupo, desde o tema inicial, de 1967, A whiter shade of pale.

O disco seguinte Broken Barricades, de 1971, retoma de algum modo o estilo mais antigo, com músicas como Luskus Delph e o próprio tema Broken Barricades.

Em 1972 saiu um disco ao vivo que se tornou o emblema do grupo para regressar ao interesse público com os temas antigos, como Conquistador, tema de abertura e sem menção ao êxito A Whiter shade of pale.
Depois disso, surgiu em 1973 Grand Hotel, um grande disco a que se seguiu outro do mesmo tom, Exotic birds and fruit.
Em 1975 saiu Ninth, na mesma linha, embora um pouco mais fraco musicalmente e em 1977 saiu o último álbum com interesse elevado dos Procol Harum: Something Magic, um bom disco, eventualmente superior aos dois antecedentes.

Em dez anos, o grupo publicou dez magníficos discos e não há muitos grupos na música popular que o tivessem conseguido.
Aliás, nem lembro de nenhum...com uma única e óbvia excepção e por isso as últimas semanas tem sido uma audição contínua da música dos Procol Harum

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

As revistas de 1979

Há trinta anos, as revistas de música que lia, resumiam-se a duas: a Rolling Stone e a Rock & Folk .

A revista Feature que aparece na imagem é de 1979 mas foi comprada há pouco, por ser uma herdeira da Crawdaddy, entretanto desaparecida.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Músicas de há trinta anos- 1979.



Em 1979, lembro-me bem, nos primeiros meses, por circunstâncias pessoais e trágicas, deixei de ouvir música, durante muito tempo.

Um dia, ou uma tarde, em descanso de sesta, acordei com uns sons que já tinha ouvido antes e não prestara atenção: no rádio soava "Reeling in the years", dos Steely Dan, de 1973 ( LP Can´t buy a thrill) com a guitarra de Elliott Randal ( um músico de estúdio que suplantou Jeff Baxter no solo, por este não o apanhar bem na altura e a quem este pediu para o tocar). O solo já foi considerado pelo próprio Jimmy Page, como o seu favorito de sempre ( informação do livrito The complete guide to the music of Steely Dan). Essa música particular retirou-me da letargia e voltei a ouvir música que nesse ano ainda não acabara de todo, como na canção de Don McLean.
No início do ano saíra um disco de interesse na música reggae, misturada com rock/pop. Bush Doctor, de Peter Tosh, com a colaboração de Mick Jagger é um disco cujo tema de abertura, Gotta Walk, don t look back, saiu em single no final de 1978 e tem vocalização daquele. No entanto, o que chama a atenção sonora é a rítmica de ferro de Sly Dunbar e Robbie Shakespeare uma dupla que viria a dar muito que falar na música popular. O disco é dos melhores no reggae, versão pop.
Também nos primeiros meses, saiu Minute by minute dos Doobie Brothers, com o êxito What a fool believes e o instrumental fantástico Steamer lane breakdown.
Os Bee Gees que em 1977 tiveram um êxito de estrondo com o disco-sound de Saturday Night Fever reincidiram no início de 1979, com o disco Spirits haveng flown, um disco que alinha uns tantos êxitos discretos que ainda hoje se ouvem com proveito, seja Too much heaven ou Tragedy.
Os Roxy Music, com o disco Manifesto, iniciaram o caminho para Avalon, com Angel eyes e Dance away, com Rick Marotta na bateria e Richard Tee nos teclados em piano.

Em Abril saiu um disco ao vivo dos Cheap Trick, gravado no Budokan do Japão e um dos melhores discos ao vivo de música popular. Em Maio, um disco dos Tubes, Remote Control, associa-se a esse tipo de música americana.
No mesmo Budokan foi gravado o disco ao vivo de Bob Dylan, saído em Junho e uma desilusão em relação ao Before the Flood, de anos antes, como aliás já o tinha sido o Hard Rain, igualmente ao vivo e saído em 76.

Em Abril saiu igualmente um disco de Frank Zappa, Sheik Yer Bouti, um dos maiores sucessos do músico e que o mesmo atribuía...à capa que representava um árabe de dejehlaba, a fumar o cigarrito da praxe na contra-capa. O disco é uma maravilha da música popular e que percorre todos os estilos do country ao jazz, passando pelo hard rock. É um dos grandes discos do ano e cujos temas se encadeiam num audição de interesse geral.
No final do ano Zappa publicou ainda um duplo LP, da trilogia Joe´s Garage, outra obra de grande fôlego artístico e com capa a condizer.
Com o recuo do tempo, esses dois discos são dos mais importantes do ano.
Os Supertramp, lançaram nessa altura o disco de canto do cisne, depois de três discos fabulosos em que se espraia de modo sonoro, o génio de Roger Hdgson: Brekafast in America. A seguir viria um disco ao vivo e os Supertramp nunca mais seriam os mesmos.

Em Junho, Emmylou Harris lançou a Blue Kentucky Girl, cujo interesse maior reside nos guitarristas James Burton e Albert Lee ( com Hank de Vitto na pedal steel guitar) e o som country, bem tocado e gravado, com o êxito Even cowgirls get the blues.
Ainda nesse mês saiu um disco da nova vaga inglesa, saida do punk de uns anos antes. Ian Dury e os Blockheads publicavam Do it yourself em tonalidade reggae e de música com mais de dois acordes. No mesmo tom, do outro lado do Atlântico, os Devo publicaram Duty now for the future e esses dois discos eram companhia habitual nos programas de rádio de António Sérgio.
Na mesma onda, no final do ano saiu o disco dos Specials, depois dos singles. A message to you Rudi, em dois tons: reggae e pop em formato ska. E também Too much too young e International jet set ou Ghost town. Specials é um grupo de 79, pós punk.

No Verão saíram os melhores discos: J.J. Cale e 5, mais Dire Straits e Communiqué e ainda Neil Young com Rust Never sleeps que me acordou também, à semelhança do reeling in the years, a ouvir a história de Pocahontas e Marlon Brando e o Astrodome e ainda o tepee.

Os primeiros acordes de Communiqué, foram ouvidos no rádio, como habitualmente.
Communiqué é a obra prima dos Dire Straits ex-aequo com Making Movies, do ano seguinte e que tem solid rock, um tema que passou no programa de António Sérgio com uma versão que nunca mais ouvi e que me ficou no ouvido para sempre. Seria um acetato? Um registo sonoro inédito e de promoção? Não sei e gostaria de saber onde desencantou António Sérgio tal preciosidade que na altura passou. Com a morte do mesmo não vai ser possível saber do próprio, mas há esperança nas gravações dos Dire Straits que vão saindo.

No Outono sairam Slow train coming, mais um dos cantos de cisne de Bob Dylan, com participação de Mark Knopfler ( quase imperceptível) e um tema que ouvia bem na altura: I believe in you. Saiu ainda um disco dos Electric Light Orchestra, Discovery que muito apreciava, depois de ter ouvido no ano anterior, Out of the blue e saiu também um que merecia o meu deslumbramento: Bop till you drop, de Ry Cooder.
O disco, o primeiro de música popular gravado digitalmente ( e depois convertido em analógico, com gravação ), é assombroso no trabalho de guitarra e ainda nos temas escolhidos. Seja nos instrumentais ( I think it s going to work out fine) seja nos vocais ( o tema de rythm and blues, Trouble you can fool me e principalmente o fabuloso I can´t win) o disco, apesar de nenhuma composição origina, mas apenas "covers", é um dos discos do ano. Ouvi-o vezes sem conta e sempre a pensar como soaria numa aparelhagem decente e de grau superior, tendo em conta a qualidade da gravação. Com o aparecimento do cd esperaria que a sonoridade fizesse justiça à gravação, mas a frieza do digital deixa muito a desejar, ainda. A não ser que algum dia apareça uma gravação em qualidade superior aos habituais 44.1 kHz, a 16 bits, norma corrente do cd...fico com a ideia sonora que o LP de 1979 ainda é superior.

No final do ano, para além dos Pink Floyd de The Wall, já aqui falado, apareceram os Led Zeppelin, com In through the outdoor, um outro canto de cisne; Eagles, com In the long run, idem aspas e os Talking Heads, com Fear of Music, uma música e um grupo também saídos do punk e new wave, neste caso americano.

Em retrospectiva, se tivesse que levar um só destes discos para uma ilha deserta e ouvir, hesitaria entre o de Ry Cooder e o de Neil Young. Rust never sleeps.

Entretanto, sorrateiramente, nessa altura aparecia uma sonoridade jazzística, nos indicativos de programas, editada pela etiqueta alemã ECM. Pat Metheny só se tornou conhecido na década seguinte, mas o LP American Garage, de 1979, contém um dos seus melhores temas instrumentais.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Pink Floyd, the wall


Em finais de 1979, a música popular tinha perdido mais de metade do interesse, para mim.
Durante todo esse ano, o número de discos publicados com valor que resistiu ao tempo, foi muito pequeno, relativamente a outros anos da década.

Actualmente e em retrospectiva aguentam-se como discos de referência da pop/rock, os de Supertramp, com Breakfast in America; Frank Zappa e Sheik Yerbouti, mais Joes´garage,1; Bee Gees e Spirits having flown; Roxy Music e Manifesto; Doobie Brothers e Minute by Minute; Neil Young e Rust never sleeps; JJ Cale e 5; Dire Straits e Communiqué; Ry Cooder e Bop till you drop e ELO com Discovery.

Em Novembro/Dezembro saiu The Wall, dos Pink Floyd, em disco duplo e que concitou a atenção geral dos rádios, com o single Another brick in the wall.
O disco começou a ser passado no rádio e com análise de alguns comentadores que glosavam os temas como um petisco sonoro e intelectual a saborear com calma e tempo.
Na verdade, o disco contém alguns bons temas musicais da autoria de Roger Waters, sendo considerado quase um disco a solo.
O tema de introdução, In the flesh, desenvolve-se depois pelo tema da educação, com o Another brick e o refrão "we don´t need no education..."
Logo a seguir, porém, surge o acústico Mother e acaba assim o lado um do LP.
No lado dois, um dos temas importantes, One of my turns, precedido por monólogos femininos em visita de casa, depois de passar pelo tema floydeano e favorito de concertos , Young Lust, precisamente um tema Waters/ Gilmour, com destaque para a guitarra deste.
O lado três, começa com Hey You e prosssegue com "is there anybody out there?, sussurrado em canto, a introduzir outro tema forte, Nobody Home, que termina em típica toada Pink Floyd. O lado termina com Confortably Numb, um dos picos do disco.
O último lado contém In the flesh, run like hell, outro tema de concerto e termina com The Trial.

De todas as vezes que ouço o disco, lembro-me da apreciação dos críticos da época ( João Filipe Barbosa, por exemplo) que referiam a obra como de grande densidade a suscitar estudo aturado dos temas e com digestão intelectual adequada. Tal como o fizeram com o disco dos Genesis, The Lamb lies down on Broadway, de 1975.

sábado, 28 de novembro de 2009

Procol Harum


A actual reedição dos discos dos Procol Harum, por ocasião do 40º aniversário do lançamento de A Salty Dog, é muito cuidada e o som, rematrizado, excede o das anteriores edições dos discos, em 1995.

Durante a primeira metade do ano de 1973, saiu um disco que concitou a atenção geral de quem escutava música popular na altura. O grupo, aliás, esteve em Portugal, para dois espectáculos em Cascais, com crónica na Mundo da Canção nº 35.

Grand Hotel dos Procol Harum começou a passar no rádio de então como uma canção que se ouvia em modo de sucesso. E no álbum havia outras: toujours l´amour, rum tale, souvenir of London, eram mais três e ainda Liqourice John.

O disco depois de ouvido na discoteca local ficou no ouvido como um dos grandes Lp´s de 1973 ( a par de Quadrophoenia dos The Who; Dark side of the moon dos Pink Floyd e Goodbye Yellow brick road de Elton John).
Nessa altura, alguém da turma comprou o disco e num intevalo aproveitei para passar a letra do tema principal. Assim como fica aqui, num pequeno papel amarelecido pelo tempo.


quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Dream dos NGDB

Um dos discos que mais gosto, todos os géneros confundidos, é este dos Nitty Gritty Dirt Band. Dream, publicado em finais de 1975, é um dos melhores senão o melhor do grupo e assim foi escrito pela revista Rock & Folk, numa crónica de Dezembro de 1975, aqui fotografada, assinada por Claude Alvarez-Pereyre e que começa assim:

(...) "a uma introdução etérea e planante sucede um instrumental do grupo, um bom e velho reel, tendo em particular um soberbo solo de guitarra acústica ( poderia ser uma Gibson, com o som ao mesmo tempo seco e muito doce). "
A revista Rolling Stone da mesma altura, 6 de Novembro de 1975, arrasava o disco, fazendo pouco da capa interior em que se proclamava que o grupo dominava "todos os estilos de música". A crónica de Ed Ward terminava dizendo que "jack of all trade, master of none", para resumir o disco. Não se percebe esta crítica, vinda ainda por cima de um americano, sobre um grupo americano.

Ainda assim, este Dream, dos Nitty Gritty Dirt Band, passou algumas vezes no rádio, de 1975/76 em programas de Jaime Fernandes e Jaime Lopes, à noite.
Lembro-me de ouvir e gravar, ficando para sempre na memória a diversidade dos estilos musicais e a beleza das músicas, sem excepção. É um daqueles discos que se ouve do princípio ao fim, sem intervalos de gosto menos que excelente, por causa do alinhamento dos temas que mistura canções com temas acústicos instrumentais, muito sóbrios e de estilo diversificado que se fazem valer pelo virtuosismo dos elementos do grupo, com destaque para John McEuen.
Destaca-se em particular, um composição do célebre tema All you have to do is dream, de D. Bryant e interpretado por muitos artistas, com relevo para Doc Watson, Leo Kottke e Everly Brothers, por exemplo entre outros.
Ripplin Waters é um tema de Jim Ibbotson, um elemento do grupo e que concita a atenção pela delicadeza da composição acompanhada a bandolim. Joshua come home, igualmente de Ibotson, é outra pequena maravilha e a composição final é um tema instrumental repescado de um disco antigo em metal e que tocava automaticamente nos bares, como ainda hoje se pode ouvir em pequenos cilindros pré-formatados em relevo.

A apresentação gráfica do disco, em LP é outro ponto alto, com uma capa a apresentar um desses discos antigos e que se desdobra para recortar meia capa por cima, como se pode ver na imagem.
A apresentação dos cd´s não consegue o mesmo efeito, sendo certo que dos dois que se publicaram- um da BGO Records, inglesa e que desbota as cores quentes originais do castanho do disco e outro da Capitol-United Artists ( etiqueta original americana), com melhor tonalidade gráfica ( na imagem), mas ainda assim longe do toque do cartão do vinil original.
O som, esse nem se fala. Ouve-se e em vinilo é mais perfeito e adequado ao que me lembro de ouvir no rádio mono de então...



Pormenor da capa do LP, muito próxima da cor real ( a redução do tamanho em bits limita a definição mais perfeita, porque a cor real é um pouco mais escura no castanho e dourada na imagem espelhada) , mas ainda assim, insuficiente para mostrar toda a beleza gráfica do cartão usado e impressão da imagem, com tonalidades mate, dignas de figurar num lugar cimeiro entre as melhores capas de discos de música popular. A ampliação da imagem permite ainda uma melhor visualização que no objecto real, suscita uma atenção demorada ao pormenor da cor e subtileza da variação no título e imagem inscrita na imagem.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Tubular bells

Em 1974/75, o programa de rádio Página Um, passava de vez em quando música instrumental em pequenos trechos, sempre interessantes.

Um dos instrumentais que passava em 75 era do álbum Artistry de Eumir Deodato, um brasileiro radicado nos USA.

Porém, os instrumentais na música popular, começaram bem antes a ser interessantes. Pelo menos desde Spanish Flea, de Herb Alpert e a Tijuana Brass, de 1966; Albatross, de Fleetwood Mac, de 1969 e Sylvia, dos Focus, de 1973.

Precisamente em 1973, apareceu um disco instrumental que provocou uma onda de interesse, em primeiro lugar na Inglaterra e depois um pouco por todo o lado.

Mike Oldfield, com vinte anos, gravou quase toda a música de Tubular Bells, tocada por si e o disco foi um sucesso da pop/rock que ainda hoje se ouve muito bem. Os diversos temas, todos instrumentais, encontram o seu pico sonoro na estrutura de Harmonics, o 12º tema do disco

.





quarta-feira, 4 de novembro de 2009

O meu pai

O meu pai faleceu na passada Sexta-Feira. Estava doente, respirava mal e padecia de obstrução respiratória crónica que o atormentava há alguns anos a esta parte.
Segundo o médico que o via regularmente, a doença crónica, devia-se aos muitos cigarros que fumou.
Lembro-me que fumava Português Suave, e na foto acima, tirada no início dos anos sessenta, tem um cigarro nos dedos. Imediatamente atrás, estou eu, de mão no bolso e a observar atentamente as manobras do meu tio Manuel ( já falecido também, há meses) e do meu primo também Manuel, senhor da situação e ao lado de um motor de rega, em cima de um carro de bois, numa casa de lavoura como era a dos meus avós maternos. Ainda ontem lá estive, precisamente naquele local, para falar com o meu primo.
Esta foto simboliza a minha infância, antes de entrar para a escola primária e representa a minha posição perante o meu pai: ao lado, mas atento ao que o rodeava..

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

A primeira Métal

O primeiro número da revista, tal como anunciado na contra-capa da Rock & Folk de Março de 1975. Ao lado o número de Fevereiro da mesma revista, onde se anunciava, num reclame desenhado por Moebius.

O primeiro número da Metal Hurlant, saído em Fevereiro de 1975, só mais de trinta anos depois, chegou à estante e por causa da ebay.
Mas valeu a pena, porque era um acontecimento que se prolongou durante esses anos.

As duas primeiras páginas:

domingo, 25 de outubro de 2009

Jornais e revistas de 1974 e 75. Música e outras.



Alguns jornais e revistas de música e entertainment de 1974-1975. A Playboy é de Novembro de 1974. Para além dos artigos, o sumário, com as fotos dos colaboradores e um anúncio a uma revista- AvantGarde-faziam parte das 250 páginas que continham nesse mês uma revisão fotográfica sobre o "sexo no cinema", em 1974. Filmes como "Deep Throat" o muito falado e que deu a alcunha à fonte do Washington Post, no caso Watergate e que nunca vi ( nem no You Tube...), mas também Serpico, O Exorcista, O Porteiro da Noite, ou Blazing Saddles, de Mel Brooks.
A entrevista de fundo é a Hunter Thompson, o arauto do novo jornalismo que dizia assim, sobre os políticos:

"Em Washington a verdade nunca se diz durante o dia ou à secretária. Se apanharem as pessoas quando estão cansadas ou bêbadas e fracas, podem arranjar-se algumas respostas. É preciso desgastar os bastardos primeiro."



Pilote-Metal, a transição

Antes de chegar à vista da Metal Hurlant, o que aconteceu apenas no Verão de 1976, já em Junho de 1974, na Bertrand de Lisboa, tinha comprado os volumes 65 e 66 de recolha da revista Pilote, encadernados e que traziam nove números da revista do ano de 1973. Pouco depois, arranjei o volume 70 da mesma revista.

Esses dois primeiros volumes traziam duas histórias célebres, das melhores que a bd jamais teve para mostrar: uma, traduzindo uma viagem onírica de Jean Giraud e família, intitulada La Déviation e que anuncia a transição do estilo do autor, do realismo de Blueberry, para a ficção científica; e outra de Tardi, com Adieu Brindavoine, em ambiente exótico e a prenunciar o advento da I guerra mundial. A par de ambas, a revista publicava ainda a história de Gir, de BLueberry, L´outlaw.
No volume 70, na continuidade destas duas histórias, os mesmos autores assinavam uma ,com o título L´homme est-il bon?, de Gir; e outra, de Tardi, com o título La Fleur au fusil.







Métal Hurlant

Anúncio na Rock & Folk de Maio 1976

Na transição das leituras da Pilote de 1974, para a Métal Hurlant do início do ano seguinte, um hiato se formou por um motivo prosaico: esta última revista não chegava cá, a Portugal, nessa altura. Possivelmente por causa da distribuição e por ser proveniente de uma editora "independente" das tradicionais da bd da época: a Humanöides Associés.
Assim, apenas podia entrever a revista através de outras revistas, designadamente a Rock & Folk e a Best, que a publicitavam nas páginas dedicadas à banda desenhada, as Comix e em publicidades dedicadas. Mas sempre a preto e branco.
Portanto, até ao Verão de 1976, não tive ocasião de ver a revista ao vivo e a cores, o que se tornou motivo de curiosidade acrescida, porque as apreciações críticas traziam sempre grandes encómios à qualidade gráfica e ao conteúdo.

Por ocasião do número 6, do segundo trimestre de 1976, a vista da capa, mesmo a preto e branco, deixou-me ainda mais ansioso por ler a revista: trazia um desenho de Moebius, no estilo de Gir.
E nesse Verão, pedi a um amigo que foi a Paris para me comprar esse número 6. Mas já não o encontrou à venda nos quiosques. Trouxe o número 7, com capa célebre de Robial, num estilo que seria copiado dali a alguns anos, pelo marca italiana Fiorucci...
























quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Pilote, nova fórmula.

Os primeiros seis números da nova série, iniciada em Junho de 1974, da revista francesa Pilote.

Em pleno Verão de 1974, no mesmo local que anteriormente, a revista Pilote aparecia modificada. Mais pequena e com uma capa que prometia uma calçada de boas rubricas ( um pavé de bonnes rubriques).
Entre os desenhos dos paralelos, num deles, lá estava Giraud...e por isso lá voltou o desejo de ler outra vez a revista. Desta vez, ainda mais cara, a 45$00, numa época que em Portugal juntava a inflação à carência de divisas que tornava o escudo cada vez mais desvalorizado.
Porém, a periodicidade passara de semanal a mensal o que equilibrava.

Logo no primeiro número dessa nova série, e no seguinte, uma página inteira, mais duas, de desenhos de Gir-Jean Giraud, ainda com esse nome com que assinava os westerns, mas por pouco tempo. Dali a meses, surgiria o heterónimo Moebius e uma nova aventura- A Métal Hurlant, a melhor revista de banda desenhada franco-belga que jamais existiu depois da época dourada dessa expressão artística.

A Métal Hurlant, surgiu nos primeiros meses de 1975, nunca se vendeu em Portugal, pela distribuição normal, porque a revista também não era produzida de modo corrente. Era uma revista fundada por dois ou três desenhadores a que se juntou um empresário e um visionário e que fundaram ainda uma editora: a Humanoides Associés.
Entre os desenhadores, Moebius-Giraud, Druillet e o visionário Dionnet. Durou até final dos anos oitenta e marcou uma época artística na bd. Motto da revista: La machine à rêver.
E, de facto, on rêve, bien sur. Estamos já muito, muito longe das aventuras do Tintin ou mesmo da Pilote,da primeira fase. Veremos a seguir como foi a aventura do metal que grita.

Duas páginas de Gir, na Pilote nº 1 e 3, nova série, em transição para a temática de ficção científica que seria o prato forte da revista Métal Hurlant.


A Pilote de 1974


Depois de comprar o número 745, da Pilote, voltei a comprar o seguinte e...nada de Giraud ou dos artistas que esperava encontrar. Fiquei desiludido e ainda por cima a revista era demasiado cara para a época. Basta dizer que o Tintin português, na época, custava 10$00, quase três vezes menos!
No entanto, no número 749, de 14.3.1974, aparecia um número especial dedicado à ficção científica em que vinham duas páginas com desenhos de Jean Giraud, de temas até aí desconhecidos ao artista. Temas galácticos, de pura fantasia heróica, de naves espaciais e um personagem que mais tarde daria que falar em desenhos: o major Grubert. Tudo isso nas duas páginas que se podem ver na foto acima.
No número anterior, já aparecera pela primeira vez um autor desconhecido com desenhos fantásticos e de elevado teor artístico: Druillet, com um episódio da saga de ficção científica começada antes e que era revelada nesse número como uma continuação.
Começou aí, nesses mesmos números, uma nova fase de interesse na banda desenhada que ultrapassava as historietas realistas de cóbóis ou aventuras exóticas. A ficção científica e a latere, a chamada banda desenhada para adultos, com histórias de teor mais complexo e rebuscado, passaram a ser um motivo de interesse suplementar para a leitura. No n

Portanto, com o número 753, da semana do 25 de Abril de 1974, suspendi a compra da Pilote que era um luxo caro, numa época em que as revistas de interesse geral versavam sobre a política em Portugal, o que acontecia com os jornais, a revista Vida Mundial e até as revistas estrangeiras.
Mas a suspensão da Pilote não foi por muito tempo.

Jornais e revistas de 1974

Por ocasião do 25 de Abril de 1974, uma das coisas que mais me interessava era a banda desenhada, a par dos assuntos de política geral. Mais do que a música popular cujo interesse intensivo e alargado só começou meses depois.


A revista Tintin, nas versões portuguesa e mesmo a original belga que me interessaram desde 1972, em 1974 ainda mantinha a qualidade original. Nessa altura publicava histórias de Clifton ( Degroot), Lucky Luke ( O caçador de Prémios, uma das melhores histórias da saga), Asterix ( O Adivinho, idem) Bernard Prince ( Hermann), mas estava já na fase terminal da época de ouro. No final do ano, perdia o interesse, porque entretanto, aconteceram coisas que modificaram o gosto de então. Em 1975 já não comprava a Tintin portuguesa. Nem a belga também. Depois disso, em 1976 e 1977, meia dúzia de números se tanto. E assim acabou o Tintin em revista, para mim.
Os autores franceses que me tinham levado a esse interesse acrescido, no início dos anos setenta,- Giraud, Hermann, William Vance, Jacques Martin, Godard, Morris, Uderzo,- entre outros, tinham deixado de apresentar com a regularidade de anos anteriores os seus trabalhos desenhados.
Particularmente Jean Giraud, o autor de Blueberry e cujas aventuras apareceram no Tintin português, por via de acordo de publicação com a Pilote francesa. Embora durante o ano de 1974 o Tintin português ainda publicasse A pista dos Sioux, a história era antiga, de 1971 e nessa altura, Giraud estava já noutra via que pouco depois se revelaria uma novidade de vulto.
Até então, o tipo de desenho, as aventuras de cóbois e a estrutura narrativa, com combóios, índios, paisagens do farwest do tempo da guerra de secessão e sucessivas querelas, despertaram a atenção para a leitura dessas histórias que já tinha aparecido anos antes e ainda voltariam a aparecer, precisamente no original Pilote, que por cá não se vendia como o Tintin.

O primeiro número dessa revista francesa que por cá apareceu à venda, através da distribuidora Bertrand, foi o 745, de 14.2.1974.
Logo que vi esse número no escaparate da porta de entrada da livraria ( que ainda existe com o mesmo nome e local), fiquei espantado de emoção.
Aquela revista que apenas entrevira em citações na revista Tintin portuguesa estava ali...e custava 27$50, uma pequena fortuna para uma revista de banda desenhada. Mas teve que ser e lá foram as poupanças da semana. E na semana seguinte, idem. E depois e ainda depois, até chegar ao nº 753 de 11.4.1974. Tendo em conta a décalage ( francesismo a preceito) na distribuição, é provável que esse número tenha sido comprado na semana do 25 de Abril de 1974.
Nessa altura, o meu interesse na revista cingia-se a voltar a ver histórias de Jean Giraud, de Blueberry.
Mas tal não aconteceu, por motivos que se contam a seguir.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

National Lampoon


A revista National Lampoon aparecia em Portugal em 1974 como uma das revistas americanas que mais apetecia ler. Por causa dos textos humorísticos, cáusticos e por causa do arranjo gráfico que combinava desenho, ilustração, mais algumas páginas centrais com "comics", de teor surrealista, delirante ou apenas cómico e realista.
A par disso, entremeava as páginas com publicidade a discos, aparelhagem de som e imagem, etc.
Só por causa desta publicidade valia a pena comprar a revista, porque não se via noutro lado, a não ser na Rolling Stone ou Crawdaddy e mesmo assim em modo mais comedido.

Nessa altura, as imagens desse tipo contavam. Ver a imagem de um disco novo de um grupo ou artista que interessavam era uma novidade que levava a comprar a revista. Os desenhos nas páginas centrais, em papel de jornal, a contrastar com a cor e textura do couché, também a tornava original.
O primeiro número que comprei, foi em Junho de 1974 e nesse ano e seguinte, estão aqui alguns números, alguns deles com capas politicamente incorrectas como já não se usa mais.

Capa dos Grateful Dead


O disco que fica em capa, só o conheci alguns anos depois de ter visto a publicidade numa revista americana, a National Lampoon de Outubro de 1975, uma época épica no Portugal de então, em PREC que soçobrou no mês seguinte, altura em que a revista por cá apareceu.

O grupo da capa é o Grateful Dead, cuja música nem conhecia, mas a publicidade de página inteira, com um disco de Blues for Allah, seria hoje manifestamente improvável na sociedade americana.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Nitty Gritty Dirt Band em triplo



Outro grupo americano que publicou discos nos anos setenta a merecerem atenção, incluindo nas capas, foi o Nitty Gritty Dirt Band de Jeff Hanna e John McEwen.
Em 1976, um triplo LP, com o título Dirt Silver and Gold, recolhendo o melhor do grupo até então, tinha esta capa estendida, desdobrável em três lados e que simulava um cofre antigo, decorado em fin de siècle. Grande disco, grande capa.