domingo, 22 de fevereiro de 2009

O som hi-fi dos anos oitenta

A evolução dos sistemas de reprodução de música, para o consumidor, no final dos anos oitenta, pode exemplificar-se por estas imagens que seguem, retiradas das revistas da especialidade, de proveniência britânica. Os americanos também tinham as suas High Fidelity e os alemães, as suas, dedicadas aos produtos das respectivas casas.
No fim da década de oitenta, a tónica no som reproduzido, tinha-se deslocado do gira-discos para o cd. E entre estes aparelhos, para o consumidor comum, os japoneses davam cartas. Os britânicos vinham a seguir. A Sony e a Marantz, ligada à Phillips, trunfavam na qualidade média.
A revista What Hi-Fi, todos os anos, publicava uma espécie de best of do ano em que davam à estampa, os produtos de consumo mais apreciados pelos críticos da revista.






















Imagens da Hi-Fi Answers de Maio 88 e da What Hi-Fi, best of hi-fi, de finais de 1989.

Para além do universo normal e corrente da HI-Fi de consumo, havia outro mundo paralelo, com a alta fidelidade para o consumidor de grande exigência e de bolsa recheada. Neste segmento de mercado, os aparelhos, cabos, fichas e colunas, são de preço proibitivo para o comum das bolsas com menos de 1000 contos ( 5000 euros) para gastar. Ainda hoje assim é, com aparelhos de conversão de sinal digital para analógico, a custar perto desse valor e só para esse aparelho que transforma o som digital do cd em som de qualidade superior, por via de "upscaling", ultarpassando a limitação da frequência dos 44 KhZ, passando-a para 192 KhZ, com um ritmo de amostragem de 24 bits, o paradigma actual do blu-ray.




Imagem da revista Hi-Fi Choice, de Julho de 1989, mostrando um exemplo de aparelhagem de alto coturno, montada em casa de particular.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

O cd e o som digital


Imagens de publicidade ao primeiro aparelho reprodutor de cd´s da Sony e um artigo da revista americana Record de Agosto de 1983.

O aparecimento do cd, em finais de 1982, foi uma revelação na reprodução musical. Durante o ano de 1983 e seguintes, a novidade foi-se impondo aos ouvidos curiosos e apresentada como uma vantagem evidente sobre o LP. Vantagem na conveniência de transporte, na maior capacidade de informação e até maior precisão e fidelidade na reprodução sonora.
O argumento era o de o disco analógico, o LP, sofrer com a reprodução por agulha a passar nos sulcos de vinil, várias vezes e por isso acabar por gastar o suporte físico, distorcendo o som. O cd, afastaria esse espectro, através da reprodução de sinais digitalizados em 0 e 1, inscritos e descodificados integral e perfeitamente, sem gasto físico e distorção sonora. A existir problema, residiria na inscrição inicial, com a codificação digital.
O som, representado por uma onda oscilante com variações de frequência ( o número de vezes que essa onda muda de direcção) e de amplitude ( a variação em altura, dando a noção de volume), pode significar música, como uma série complexa de variações de frequências e amplitudes, como explica este artigo seminal, do jornal Record, de Agosto de 1983.
O cd tornou-se em pouco tempo o meio adequado à gravação e reprodução de sinais digitais, em discos anteriores, como o Bop Till you Drop, de Ry Cooder, de 1979, o primeiro disco de música popular a ser gravado digitalmente

No entanto, essa qualidade sonora, atribuida inicialmente, tornou-se uma miragem ao longo dos anos, perante o reconhecimento de que o som do cd, tem uma tonalidade metalizada, com forte impacto sonoro, mas com falta de leveza e doçura na reprodução, comparativamente ao LP. A subtileza musical, não passa tão bem no cd como no vinil. Não se ouve tão bem. A reprodução por amostragem de sons, no cd, não resulta tão em como a lavrada dos mesmos, pela agulha da cabeça de leitura que literalmente percorre os sulcos do vinil. Essa continuidade sem soluções, permite uma melhor reprodução dos harmónicos que conferem consistência equilibrada ao som musical.
Por outro lado, a regravação de cd´s depois de gravações em vinil, ou seja, a gravação em AAD, modifica a sonoridade original, trocando por vezes o som dos canais, a audição de pormenores subtis que no disco de vinil são evidentes e no cd, saem modificados, na passagem de analógico a digital. Mesmo em cd´s gravados a partir de matrizes originalmente digitais ( como o referido Bop till you drop), a diferença da reprodução de canais estéreo e instrumentos se nota.
No final de contas, o som do vinil não foi vencido pela facilidade de acesso e reprodução que o cd representou.


Artigo da revista americana High Fidelity, de Março de 1984 e publicidade às colunas Sony, da mesma época.

A primeira vez que ouvi um cd, em aparelhagem de qualidade, foi em Espanha, no Corte Inglés, logo que apareceu a novidade, à venda no retalho. Um rack protegido com vidro, todo da Sony e com o primeiro aparelho reprodutor, o CDP-01, com as colunas mostradas na figura acima. A aparelhagem estava protegida por vidro e era operada por um funcionário que demonstrava ali mesmo, a putativa qualidade superior do produto. Um dos primeiros cd´s que passava era o de Simon & Garfunkel, Bridge over troubled water.

A ideia repetida nos media, de que o som do cd era superior, ajudou a criar a ilusão de que assim era e nessa vez, a basbaquice da novidade não contrariou o que mais tarde se tornou evidente: o LP continuava a ser superior.
Nos EUA, a revista americana High Fidelity, reuniu um grupo de peritos e críticos para analisarem a sonoridade comparada do cd e do LP.
O resultado foi inconclusivo, na época, com a indicação de aspectos positivos no cd, relacionados com a facilidade de uso e o som, em alguns casos, a ficar por conta do LP. Ainda assim, uma emissora de rádio espanhola, Radio Popular de Vigo, começou a transmitir, em meados da década de oitenta, uma hora de "música digital" no programa FM Stereo. Ry Cooder, precisamente, tornou-se presença habitual, tal como Boston, Foreigner,Joni Mitchell e Toto, com Rossana, um dos títulos mais espectaculares do álbum IV e que dava uma noção do som digital, "larger than life".
A seguir apareceu o disco dos Dire Straits, Love over gold e o som digital passou à fase de marketing maciço.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Antes do cd

As aparelhagens de alta fidelidade, no início dos anos oitenta, começaram a aparecer em componentes juntos em móveis próprios. Quase todas de origem japonesa. Sony, Pioneer, Teac, Technics.

A par dessas aparelhagens para todos, havia o sector da alta, alta fidelidade, de origem inglesa principalmente, com alguns componentes japoneses. Nos gira-discos, os pratos, braços e cabeças de leitura, tinham nomes como Linn, Ittok, Kiseki, Koetsu, etc. Nos amplificadores, a Quad e depois a Krell, entre outros.
Para a mediania, a busca era pela melhor combinação possível, entre amplificadores, muitas vezes receptores com rádio incluído, os gira-discos de qualidade suficiente para se ouvir um estereo decente e uma dinãmica conforme à norma hi-fi, a DIN 45 500. Os gravadores de cassete, incluindo o sistema de redução de ruído da gravação, Dolby B e C.
Por fim, ou logo de início, a estética do produto.

Nos início dos anos oitenta, estes dois exemplos, um de origem alemã, fabricado em Portugal, eram correntes nas lojas de aparelhagens.
O da esquerda, Technics, apesar da maior sofisticação estética, equivaleria em termos sonoros, ao da Grundig, da mesma época. Este tinha ainda a vantagem de trazer acoplado um gira-discos de marca Dual, com um braço e cabeça de leitura aceitável, em termos sonoros. O gravador de cassetes já tinha Dolby B e o sintonizador era uma maravilha.
Antes da chegada do cd e do som digital, foi neste género de aparelhos que ouvi o que havia para ouvir na música. Foi no Grundig que gravei dezenas de cassetes e que ainda se mantém operacionais e foi no rádio que escutei as emissões dos melhores programas da época.
Foi também nesse gira-discos que ouvi pela primeira vez, muitos discos dos anos sessenta e setenta que nunca tinha ouvido: alguns discos dos Beatles, Little Feat, por exemplo. E o primeiro disco que comprei com dinheiro ganho por mim: Movement dos New Order, saído nessa altura e prensado em Portugal.




























sábado, 7 de fevereiro de 2009

Hi-Fi




















Os amplificadores Sansui, de meados dos setenta e o gravador da Nakamichi, dez anos mais tarde. Duas maravilhas da técnica japonesa.

Depois das primeiras experiências do sons agradáveis ao ouvido, comecei a apurar a atenção sonora, para as particularidades dos aparelhos de reprodução de música. Um rádio a pilhas ou de transístores amplificados, em FM, transmite apenas uma imagem sonora em espectro comprimido pelas capacidades de reprodução limitadas.
Ouvir um disco em aparelhagem de alta fidelidade, no início dos anos setenta, era tarefa difícil pela raridade das fontes.Geralmente, a melhor era a da própria discoteca que vendia os discos. Na altura já havia uma no sítio onde vivia e com duas cabines de som que permitiam escutar em bom recato o disco que se poderia comprar a seguir.
Moody Blues, de Seventh Sojourn, em 1972, lembro-me bem que foi um deles. Ou Machine Head dos Deep Purple. Ou ainda American Pie de Don Mclean. Uma maravilha de som que não tinha correspondência no que se ouvia no rádio. Um stereo bem separado; um baixo bem definido e distinto do som da bateria; uma voz e tons intermédios que não se encavalitavam nos demais.
Aprendi depois que a alta fidelidade, traduz a possíbilidade de se ouvir os sons bem definidos e tão próximos quanto possível da reprodução ao vivo. Um som de baixo deve ser distinto do bombo maior da bateria e a dinâmica entre agudos e graves, deve ser o mais ampla possível, embora o ouvido humano só capte uma parte das frequências disponíveis.
Uma das primeiras experiências sonoras gratificantes foi em juke boxes. Aparelhos de café, grandes de metro de altura e um leque de singles, para escolher a troco de moeda pequena. Todos os singles do Sticky Fingers, dos Stones, foram ouvidos em jukebox de café. Os Beatles,igual. Cat Stevens e outros.
Por muito espectacular que sejam as juke boxes, não são alta fidelidade. E essa ouve-se em gira-discos de qualidade suíça ( Thorens) ou inglesa ( Linn), ou mesmo Dual, com agulhas e cabeças de leitura japonesas ( Koetsu ou Audio Technica ou mesmo Ortofon, de outro lado).





















Aparelhadas a amplifiadores de qualidade ( japoneses para o corrente de alta qualidade e ingleses para o esoterismo. Sansui, Akai ou Quad). E para se ouvir bem, umas colunas de duas ou três vias sonoras, para separar os graves os médios e os agudos. Neste campo, os americanos da JBL, da série 2100 ou os ingleses da Bowers & Wilkins série 801, ou as Rogers, são referência. Mas uns auscultadores Sennheiser série 600 fazem o mesmo efeito junto aos ouvidos.




















As colunas de som B&W 801 e as JBL dos anos setenta.

Essas referências, nos anos setenta eram apenas mitos de papel em publicidade lustrosa. Só ouvi essas maravilhas, bem entrado nos anos oitenta, porque em Portugal, a partir de meados da década de setenta, a importação livre estancou na falta de divisas que a Revolução provocou.
A alternativa eram as lojas de contrabando e havia várias, no Porto, Lisboa ou Coimbra. Tudo aparecia por lá, mesmo os aparelhos mais improváveis, como os gravadoes de cassetes da Nakamichi que vi em Coimbra em finais dos setenta. Ou umas colunas alemãs, Visonik David que me encantaram nos lados da rua Escura no Porto.
De resto, havia as revistas de alta fidelidade que mostravam o que não podíamos ter ou ouvir.
A primeira vez que fiquei impressionado com a qualidade sonora de um disco em alta fidelidade, foi com o Supertramp de Crisis? What Crisis? , de 1976. Um dia, Domingo de manhã, ouço os primeiros acordes de Easy soes it e nunca um disco tinha soado assim. A aparelhagem era de contrabando, marca Akai e nem sequer de altíssima qualidade, mas a suficiente para ter percebido que aquilo era escutar música como ela deveria ser escutada. A mesma experiência repeti pouco depois no mesmo sítio com um disco de Sonny Terry e Brownie Mcghee, de 73. Fantástico som e que me prendeu a atenção até hoje,

Parafrasenado Milton Nascimento ( "cerveja que tomo hoje é apenas em memória dos tempos da Pan Air"), música que ouço hoje é apenas em memória desses sons de qualidade original e de descoberta da maravilha da alta fidelidade. A impressão que deixou, replicou depois, várias vezes ao longo dos anos, mas é uma experiência que se sente poucas vezes e quando aparece, é única. É um pouco como a descoberta do nirvana sonoro, quando acontece.
Depois disso, lembro de ouvir o som de uma aparelhagem na discoteca Santo António no Porto, no final dos anos oitenta que me deixou de ouvidos atentos para sempre: umas colunas Bowers & Wilkins modelo 801 debitavam em baixo volume aquilo que me pareceu e continua a parecer a referência em alta fidelidade. Antes, em Coimbra, na discoteca Valentim de Carvalho, em 1979 ouvi o disco Octave dos Moody Blues e a canção Driftwood e ainda hoje recordo a beleza da aparelhagem sonora que a reproduzia, bem como a seguir ouvio no mesmo sítio Sleep Dirt de Frank Zappa e o jazz-rock nunca me pareceu tão bom.
No inicio dos anos oitenta comecei a trabalhar e a procurar a minha primeira aparelhagem de som que me permitisse ouvir em stereo decente o que já ouvia em mono há muitos anos.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

A reprodução dos sons

Ouvir música nos anos setenta, era no rádio. Nos programas que passavam discos inteiros, por volta desta hora da madrugada. O programa Espaço 3P ( Boa noite em FM; Banda Sonora e Perspectiva). Toda a boa música da segunda metade dos anos setenta, foi ouvida em primeiro lugar no rádio. Neste rádio, da Grundig que ainda funciona como há trinta anos.


Para guardar a música era preciso gravá-la. Em gravadores de cassetes. O gravador desses primeiros tempos, era qualquer coisa como isto, da Phillips.




Mas os objectos de desejo eram já os que apareciam nos anúncios das revistas americanas. Gravadores japoneses, de cassetes, como este, com preço em escudos, fruto da conversão do dólar da época. O preço era cerca de 50 euros actuais ( $ 429,95 na altura, com o dólar a 25$00)


Em 1974, o sonho mais alto, porém, era este; uma aparelhagem da Sony, tudo em um, com um design único, na época. A imagem da esquerda é do Expresso desse ano; a da direita, da revista francesa Pilote. A de cima, é da revista National Lampoon, também de 1974.





quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Walkman da Sony

Publicidade americana ao primeiro Walkman, da Sony, em 1979.

Este pequeno aparelho electrónico, inventado pela Sony, de Akio Morita, em 1979, foi desenvolvido até chegar ao topo, em 1984, com o Walkman, pro d6c que figura abaixo.
Este pequeno aparelho de gravação e reprodução de cassetes, tem um som fenomenal.

Lembro-me de ouvir um dos modelos originais, no início dos anos oitenta, trazido do estrangeiro.
Com uns pequenos auscultadores de grande qualidade sonora, o estéreo nunca me pareceu tão perfeito na alta fidelidade. E foi certamente uma das experiências sonoras mais marcantes e relevantes, de todas as que fui experimentando ao longo dos anos.
Para além disso, o design e apresentação não fica atrás da qualidade sonora, sendo uma autêntica obra de arte industrial.

















segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Andrew Wyeth, 1917-2009

Andrew Wyeth morreu na semana que passou, em 16 de Janeiro, com 91 anos.

Ainda há dias publiquei uma ilustração de Wyeth, belíssima no expressionismo abstracto que era a sua marca artística.

Ainda sem o saber, o meu primeiro contacto com a obra de Wyeth, ocorreu no final do ano de 1975, quando comprei a Rolling Stone, de 24.10.1975, a primeira com uma capa assim:


A ilustração, da autoria de Jamie Putnam, era acompanhada da referência explícita: "with apologies to Andrew Wyeth".

E compreende-se perfeitamente, porque é um plágio da obra do mestre, Christinas´s World, pintada a têmpera, em 1948 e exposta no Museu de Arte Moderna em Nova Iorque.




Posters

No início dos anos setenta o costume de coleccionar posters de grupos e artistas da música popular, e não só, era aproveitado pelas revistas para potenciar vendas.

Uma revista alemã, a POP, fazia disso o assunto principal, com posters desdobráveis que atingiam dimensão de metro.



Nunca tive esse hábito de coleccionar posters avulsos,mas há dois que ficaram na porta do quarto durante uns anos. Um deles, o dos Rolling Stones, estragou-se e outro, o dos Chicago, não teve melhor sorte. Foram os únicos que adornaram o local ( para além do clássico Che Guevara com uma luz indirecta e avermelhada, que incidia no brilho do mesmo. Esse, sobreviveu).

O dos Rolling Stones, publicita o LP Exile on main St, de 1972 e foi conseguido numa loja de discos da Sonolar; o dos Chicago, dá conta do disco VI, de 1973 e foi publicado como suplemente a um jornal, segundo suponho.


domingo, 18 de janeiro de 2009

Beatniks e Albatroz

No número 18 do jornal Disco-música & moda, publicado em 15.10.1971, fazia-se uma referência breve, na página 3, a "um novo grupo português": os Albatroz; ao mesmo tempo, na página 4, outra brevíssima nota, mencionava os Beatniks e a sua nova formação.

No mesmo número dá-se conta da entrevista com os Albatroz, a publicar no número 19. Que não tenho em arquivo.


A cópia legível, desses artigos do nº 18, é a seguinte,bastando clicar para ampliar a imagem:




sábado, 17 de janeiro de 2009

Primavera de 1977

A propósito da capa de um disco de Minnie Riperton, publicada no ié-ié, saltaram memórias de ter vista tal capa, em anúncios antigos, em revistas.


As revistas são americanas e saíam por cá, com algumas semanas ou meses de atraso. Era um regalo, poder ver nessas revistas o que por cá nem aparecia, por vezes. Ler críticas de discos nunca ouvidos, ver imagens de artistas desconhecidos e poder acompanhar a evolução da cultura e música populares desses anos.

Cada passagem no quiosque ou nas livrarias que também vendiam revistas, como a Bertrand, no Chiado, na Portagem de Coimbra, na Stº António, no Porto, ou mesmo em Viana do Castelo onde está situada numa das zonas mais belas da cidade, era um momento de prazer espiritual, com a vista das novidades.
As revistas sempre despertaram em mim um fascínio digno de indagação psicanalítica. As capas apelativas, com os títulos e artigos anunciados, acompanhados das imagens criadoras de beleza estética, sempre foram motivo para interesse de coleccionador.
Raras vezes resisti a uma revista com assunto apelativo, por isto ou por aquilo. O único óbice, na altura, era a disponibilidade de cobres ou papel-moeda nos bolsos. Em tendo, era chapa gasta no objecto de desejo. E coleccionado, porque valia sempre uma leitura posterior.
Há revistas que li dezenas ou centenas de vezes, ao longo de décadas. Quando revisito algumas delas, sinto uma espécie de máquina do tempo em funcionamento, que me transporta imediatamente para as sensações da época ou para a beleza de certas situações ou imagens ou ainda para a categoria da escrita de certos autores.
Os discos, livros ou assuntos à roda, liam-se primeiro, antes de serem ouvidos e viam-se antes de serem lidos.
Há imagens e textos nessas revistas que me colocam no tempo, como se o tempo não tivesse decorrido, numa impressão que ficou, duradoura e virtual, sempre à espera de ser retomada.
Daí que sempre que surge a oportunidade de retomar o fio do tempo, não perco um segundo.
Tal como agora, com a imagem do ié-ié.
O disco em causa, nunca o ouvi. A capa em causa, nunca a vi, na realidade. O que vi e lembro bem, é o contexto em que tal disco foi publicitado. Apenas isso e basta para fazer uma pequena incursão na Primavera de 1977, ano de grandes recordações musicais e não só.

Em primeiro lugar, na revista Rolling Stone, de Março de 1977, onde foi publicado pela primeira vez o anúncio do tal disco. Nem sequer é o disco, mas apenas a pose da cantora no sofa, com lettering country, a lembrar a do disco Harvest, de Neil Young. O facto de ser publicado logo na página de abertura da revista, em destaque isolado e ao lado da ficha técnica, dá conta do valor que a etiqueta dava a essa publicidade que se revelou eficaz para fixar na memória.





















A publicidade da RS, revela-se mais interessante do que a da Crawdaddy do mês de Março de 77, inserida numa página ímpar e com acompanhamento de cartas ao director. A imagem da capa da revista de Abril de 77, essa, é um must do surrealismo fantástico que naqueles tempos era normal ver nas capas de revista.





















Nas páginas interiores da Crawdaddy de Abril 77, , surge uma imagem de Steve Miller, o joker que foi motivo de cópia para desenho, no ano seguinte.




















Ainda nas publicidades de Abril, a Crawdaddy, relevava estes dois discos:






















segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Dylan 1976-79

Imagem da Rolling Stone de 23.10.1975.

Uma das coisas que me agrada, nestes escritos particulares, é a rememoração de datas e factos, alguns deles esquecidos e repescados para a ribalta da memória activa.
A descoberta da música de Bob Dylan, ocorreu mais ou menos como descrito antes. O single George Jackson, acompanhado pela sonoridade do Concerto para o Bangla Desh, deu corpo ao interesse já mediatizado na figura mítica de Dylan. Michel Delpech, cantava Wight is Wight, Dylan is Dylan e este verso, resumia a mitologia que rodeava a figura do cantor americano.

Em Outubro de 1975, depois de ter ouvido bem Blood on the tracks, sentia-me completamente conquistado pela música e imaginário de Dylan, reparando no que se publicava a seu respeito, mesmo sem conhecer discos anteriores, bem mais importantes do que os da época e futuros.

No final do ano, comprei pela primeira vez a revista Rolling Stone, que trazia na capa, a imagem de Patty Hearst, herdeira do império jornalístico e ao mesmo tempo, seguidora de um grupelho revolucionário, depois de ter sido raptada e integrada no seio do mesmo.
A revista foi comprada em Coimbra, na livraria Bertrand, do largo da Pportagem, onde se vendia acompanhada de outras revistas americanas e francesas que me despertavam a atenção.

Logo nas primeiras páginas, uma foto que me pareceu fantástica, dava conta, no texto que a acompanhava, de um espectáculo de Bob Dylan, em homenagem a John Hammond o publicista que o deu a conhecer à editora Columbia e o contratou. Numa época em que as fotos de Dylan eram raras e as mesmo as revistas estrangeiras não eram generosas na mostra iconográfica, qualquer informação visual sobre o artista, era uma pequena maravilha.

A foto, publicada acima, pode ser vista e agora com o You Tube até pode ser vista e ouvida a música que então tocava, por ocasião dessa reunião. No caso, Hurricane, do disco Desire ( aqui numa versão superior à do disco, mesmo com o violino irritante de Scarlett O Hara), saído em 76 e que foi uma desilusão em relação a Blood on the tracks.

Mesmo assim, só em Março de 1976, com a Rock & Folk, descobri a imagem dos discos anteriores de Bob Dylan, particularmente de Blonde on Blonde de que já lera maravilhas e ouvira eventualmente uma ou outra cançãoo ( Just like a woman ). O disco, esse e os outros, só nos anos oitenta, vim a ouvi-los com toda a atenção e a reconhecer que Bob Dylan é um artista grande da música popular que disse tudo nos anos sessenta. Porque esses primeiros discos, são verdadeiros clássicos.





















Imagens da Rock & Folk de Março de 1976.

Em 1978, na sequência destes textos e imagens, quando saiu o disco Street Legal, a penúltima tentativa de Dylan., em fazer um disco minimamente interessante ( a última foi com Slow Train Coming, do ano seguinte), apareceu uma entrevista na Rolling Stone, a Jonathan Cott, o intelectual de serviço.
Nessa época, já a Rolling Stone deixara de aparecer nos locais de venda habituais, e a portuguesa Música & Som, no número de Abril de 1978, publicava a primeira parte da entrevista, num exclusivo que me sabia a caçar com gato, em vez do cão original.
Também nessa altura, Dylan já tinha lançado o disco ao vivo Hard Rain, que pouco tem a ver com Before the Flood. Tinha ainda lançado em finais de 1975, o duplo Basement tapes, recolha de velhos temas pirateados nos White Wonders, míticos, dos anos sessenta. Viria ainda a publicar, em 1979, outro disco ao vivo, At Budokan, também de relativo interesse.
Dylan, musicalmente, para mim, ficou aí, faz agora trinta anos.

Só tempo depois, descobri a capa original da revista Rolling Stone que sempre quis coleccionar, por causa disso mesmo. A Rock & Folk francesa, até lhe copiou o motivo, num desenho de Solé, na edição de Julho de 1978.


domingo, 11 de janeiro de 2009

Bob Dylan- 1975




















Imagens de capa de cassete e foto da digressão de 1974 ( Uncut- Janeiro 2005)

Em 18.2.1975, o Página Um, da Rádio Renascença, passava pela primeira vez os acordes de Idiot Wind, do lp Blood on the tracks. Anunciado como o novo disco de Bob Dylan, vindo de Londres para o programa, trazido por mão amiga.
Nos dias e semanas que seguiram, o disco passou sempre no programa, com destaque para Lily Rosemary and the jack of hearts, You´re make me lonesome when you go, Tangled up in blue e Idiot Wind.

Durante os anos que seguiram, este disco de Bob Dylan, passou a ser a referência da sua música.
Além do mais, porque só mais tarde vim a conhecer integralmente a obra-prima Blonde on Blonde, de 1966; e principalmente, os primeiros discos do cantor, com destaque para Highway 61 Revisited, que contém o clássico Like a Rolling Stone, com uma versão notável no Before the Flood. Sempre que a ouvia no Página Um, ou noutros programas que depois passavam discos integrais, nos anos setenta, era uma festa auditiva.

Mais tarde vim a saber outros pormenores sobre Blood on the tracks. O disco foi gravado em Nova Iorque e já em Dezembro de 1974, pronto a seguir para os escaparates, foi regravado por Dylan na versão final que acabou por aparecer.
Algumas canções da primitiva versão podem ser ouvidas na colectânea Bootleg series vol I-3. Uma ou outra, até será preferível à versão defintiva. Por exemplo, Idiot Wind.





















Imagens da Uncut de Janeiro 2005 e Rock & Folk de Fevereiro 1975


Por outro lado, o Lp original, trazia na contra-capa, um texto de Pete Hamill, crítico musical americano e que em edições posteriores foi suprimida, substituida por um desenho. a toda a largura. Ainda fui a tempo de ver a edição original, francesa, com o texto de Pete Hamill. que aliás, pode também ser lido, na versão em sacd do disco, saída em 2003 e de grande qualidade artística e técnica.

A versão original do disco, aparece nestas imagens tiradas da Rede, de um disco canadiano.