domingo, 13 de julho de 2008

José Almada, o aristocrata da pobreza sublimada



No Verão de 1970, José Almada, então com 19 anos, publicou o seu primeiro disco em modo de apresentação. Tema: os mendigos.

Os mendigos?- perguntarão os intrigados do costume. Sim, os mendigos. Os pobres dos pobres, incluindo os de espírito e estado de vida social. Os que nada têm de seu e de nada precisam dos outros, a não ser a atenção caridosa que passa e mira de soslaio a condição de desgraça, deixando a esmola para a côdea ou para o alívio instantâneo do espírito recolhido em depressão habitual.

Só esta atitude de atenção a uma condição marginal do indivíduo, suscita a curiosidade do passante de escaparate que mira o disco, com capa a retratar um apartado da vida comum.

Nesse ano, no início da década de setenta, um tema tão obnóxio da corrente comum, suscita a atenção de uma editora recém criada, vinda de um programa de televisão de grande qualidade temática, técnica e de audiência. Um programa como poucos houve na televisão portuguesa. O Zip-Zip, nome do programa, animado pela tripla Carlos Cruz, Fialho Gouveia e Raul Solnado e realizado por Luís Andrade, passou durante todo o ano de 1969, de Maio a Dezembro, em plena esperança de mudança na configuração do regime político português da época. Por lá passaram alguns expoentes da cultura portuguesa da época, como Almada Negreiros que inaugurou o programa, ou Agostinho da Silva que foi entrevistado depois, ou artistas como Manuel Freire, da corrente musical que de repente surgiu com a designação de baladeiros.

O Zip, terminou em Dezembro de 1969, por esgotamento na luta contra a censura marcelista do regime, vinda do salazarismo que teimava em não se renovar social e politicamente, conduzindo, anos mais tarde, directamente à Revolução em 25 de Abril de 74.

Os Mendigos e José Almada, chegaram a ter encontro marcado no programa, frustrando-se o evento pelo fim prematuro do programa que iria marcar o futuro de décadas da tv portuguesa que nunca mais foi a mesma.

Mesmo assim, a gravação do primeiro disco de José Almada que continha o tema e ainda outros, com seis fachas de cada lado, intitulou-se Homenagem, sendo publicado pela editora Zip-Zip, com produção de arranjos, espantosa e sóbria de qualidade rara, de Pedro Osório.

O título tema, retoma uma Homenagem incerta, mas de conteúdo lírico, com peso literário de Fausto José, um escritor e poeta da vida de José Almada, tal como o seria o seu próprio pai, autor de letras cantadas e conteúdo que toca a alma. Uma alma da terra nossa, do nosso povo antigo e de tradições seculares.

Homenagem, toca o lirismo do paralelo entre os ricos e poderosos e os desvalidos que acabam por igual, numa campa. Rasa ou de mausoléu, unem-nos a essência do regresso ao pó e a ligação a essa lição fundamental, de raiz cristã ( memento Homine quia pulvi es...). Homenagem, traduz o espírito do essencial, no percurso do Homem: o destino final, percorrido em rituais diversos, mas de conclusões iguais e sem dissemelhanças.

Os temas restantes, no disco, abordam, todos eles, essa realidade insofismável da existência: somos todos mendigos por algo que não logramos alcançar, num destino comum, em que os animais irracionais, participam, em similitude de destino existencial.

A música de José Almada, original e com referências esparsas à música popular da época, numa economia de meios instrumentais, depurada e por vezes austera, compõe-se em melodias de efeito sonoro perfeito e de riqueza inventiva cativante.

A dicção das palavras cantadas, o estilo de cantoria e a junção da música ao lirismo profundo dos temas, tornam este disco, um dos mais fundamentais e importantes da música popular de sempre.

A potencialidade evocativa dos temas, com cadência marcada em acordes simples, atinge por vezes o sentimento de uma profunda corda interior que suscita a emoção pura de uma lágrima furtiva ou o adejo de uma nostalgia implacável que toca experiências vividas ou sentidas como reais.

A música de José Almada, não se explica em palavras correntes, senão por metáforas nem sempre conseguidas, de definição estilística rebuscada para atingir a simplicidade do óbvio: a qualidade superior da música composta em canção.

José Almada, por outro lado, experimentou a realidade de uma vida singular e que na altura da música de Homenagem, apenas tinha perspectivas de desenvolvimento incerto.

Almada descende de portugueses, enraizados no profundo de um Portugal, fundado em antiguidades que nos moldaram a vida comum, ao longo de séculos.

Na família alargada de José Almada, encontramos pessoas que conviveram com o fausto da nobreza, a riqueza dos privilégios régios ou o usufruto de heranças antigas e disputadas em lutas fratricidas e de recorte centenário.

A família e genealogia de José Almada convocam logo a curiosidade de um percurso no Portugal antigo e com raízes nos mais altos estratos de uma sociedade de classes ainda medievais e que surtiram pelos últimos séculos do nosso viver comum.

Esse património genético, alguma coisa deveria comportar, em estilo, modo, resquício de comportamento e educação.

A José Almada, tocou-lhe essencialmente, a herança de um património rico em lirismo, antigo, português, profundo e enraizado em poetas e escritores do nosso viver em comunidade organizada, desde o remoto séc XII.

É provável que o próprio nem se dê conta da herança notável, aceite sem declaração notarial e a benefício de património pessoal intangível, mas de riqueza assinalável. Porém, quem quiser pesquisar o acervo que o disco Homenagem denota nos seus temas, referências líricas, estilísticas, musicais e de simplicidade desarmante, encontra-a toda, lá, nos interstícios das suas canções e no estilo do canto que as anima.


O concerto de Viana do Castelo, em 11.7.2008, pelas 22h e 30.


Alinhamento das canções ( após audição da gravação do espectáculo):


1. Batem leve, levemente- o poema bem conhecido de Augusto Gil, cantado em versão inédita.

2.Olha as ovelhas como são- do Lp Homenagem, uma das suas mais belas canções, em ritmo que adere ao ouvido interno.

3. Hóspede- do primeiro LP e a primeira canção que José Almada compôs, em gravação.

4. Vento Suão, do 2º LP e com letra de Fausto José, poeta já falecido e amigo de José Almada.

5. Oh pastor que choras, tema de José Gomes Ferreira, também cantado por Fausto, na mesma altura e que julgo superior a essa versão do autor de Rosalinda.

6. Em multidão, uma canção nova, em estreia, com letra de José Gomes Ferreira.

7. Cala os olhos, vagabundo, outra do primeiro LP e uma das grandes canções de José Almada, Fabulosa.

8. Vento Irado. Igualmente do primeiro Lp, a canção mais triste e melancólica do cantor, com letra do pai, Luís Guedes Machado.

9. Os anjos cantam, também do primeiro LP e a minha canção preferida, actualmente. Ouço-a vezes sem conta, em todo o lado, principalmente a cantarolar. Uma canção de antologia, com poema de José Gomes Ferreira.

Terminou aqui a primeira parte do espectáculo.

Na segunda parte:

1.Casa abandonada, canção do irmão, Luís, presente na sala e a quem foi dedicada.

2. Perdigão perdeu a pena, canção inédita, com letra de Camões.

3. Ah! Como te invejo, do segundo LP, Não, não me estendas a mão.

4.Perdidamente, inédita e dedicada à mulher.

5. Homenagem, título do primeiro LP.

6. Ah! Como odeio, também do segundo LP.

7. Pedro Louco, do segundo LP e com leve travo a Moustaki. Um sucesso de audição.

8. As aves cantam, do segundo Lp


Encore:


Hóspede, Pedro Louco e Anda Madraço, esta de um primeiro ep.


O espectáculo que José Almada deu em Viana do Castelo, em 11.7.2008, numa sala para concertos, anexa ao teatro Sá de Miranda, foi reveladora de tudo o que ficou escrito e ainda mais:

Aos 56 anos de idade, os temas de 1970 e 1975, soaram como novidades agradáveis e recentes, a ouvidos neófitos que acorreram para os escutar. A quem já os conhecia de ginjeira,o canto particular de José Almada, soou como a confirmação de um grande artista, de talento suficiente para emocionar uma plateia que esteja disposto a mergulhar no sentimento e evocação poética, garantindo uma viagem em sensações líricas e de melancolia controlada pela beleza simples da poesia da palavra portuguesa.

O alinhamento dos temas, passou pelos dois discos publicados, nessa época- , Homenagem e Não, não me estendas a mão- e ainda alguns inéditos, não gravados.

Partindo de uma apresentação em cantoria a solo, com acompanhamento singelo a guitarra acústica, José Almada tocou e cantou, cerca de 18 canções, num espectáculo com duas partes e contando com os três encores, a pedido de uma assistência entusiástica de amigos, admiradores e espectadores atentos.

O espectáculo, à semelhança do ocorrido em Ovar, na casa Contacto, em finais de Maio passado, foi organizado por amigos e admiradores entusiastas que aprontaram uma belíssima casa de espectáculos em modo de café-concerto, com centena e meia de lugares sentados e grande ambiente sonoro e acústico.

A expectativa, entre os presentes, vindos de vários lados, de Lisboa, Porto, Braga e da terra, era grande, porque a maioria, conhecendo o disco, nunca tinha ouvido José Almada ao vivo e deixaram de ouvir falar do mesmo, há mais de trinta anos, surgindo com a curiosidade de saber como era o José Almada de hoje, comparando-o com o de há mais de trinta anos, na presença e voz, gravada e fisicamente presente.

A apresentação do cantor, ao público do café do teatro Sá de Miranda, ocorreu assim, num ambiente de relativa surpresa. O som vindo do palco, revelou-se perfeito e de qualidade superior, na transposição da voz do cantor, acompanhado pela viola.

José Almada habituou-se a cantar em pé, perante o público que o escuta e nem a banqueta presente, o conduziu ao assento de repouso durante toda a actuação.

Começou por entoar as suas canções saídas de Homenagem e de Não, não me estendas a mão, os dois discos de referência, misturando-as com algumas inéditas. Com pequenos intervalos explicativos sobre a origem da letra e de pequenos apontamentos sobre o significado das canções, foi apresentando a essência da sua mensagem cantada, em tom de baladeiro, sem compromisso político evidente, ao contrário dos émulos que apareceram na mesma época e que fizeram história na música popular portuguesa.

Uma das canções, intitulada Casa Abandonada, composta em parceria com um irmão, aliás presente, e numa altura em que ambos nem contavam vinte anos, conta a história de vida das casas antigas que perderam a alma dos donos.

O que espanta, na música e canções de José Almada , é essa alusão explícita e constante, a perdas de coisas e bens, num despojo total, que paradoxalmente enriquece o espírito e sublima os sentimentos de perdas e a melancolia dos pesares mais profundos, numa poesia de coerência temática que acaba como emblemática do estilo do cantor. A música de José Almada, nesses temas, completa na perfeição, o sentimento poético subjacente aos poemas de autores como José Gomes Ferreira ou Fausto José, este, um autor local, do tempo do Douro.

A interpretação das canções antigas, pelo actual José Almada, contempla uma actualização na entoação e algumas delas, ganharam em vicacidade. Por exemplo, a ultra melancólica Vento Irado, do Lp Homenagem, cantada na primeira parte do espectáculo, ganha uma toada mais expedita e menos arrastada que no disco, retirando-lhe alguma carga de tristeza prolongada que na gravação, atinge quase as raias do insuportável, tal a intensidade da letra e música associada, num langor acompanhado pelas cordas e sopros da mais acentuada melancolia.

No disco, segue-se, a essa toada triste, a elegia sobre os Anjos que cantam e não cantam. Uma das mais belas canções do disco Homenagem, com letra de Carlos Oliveira, também foi cantada no espectáculo, em tom um pouco mais corrido, sem os requebros e embalos que emprestam a esse tema uma beleza etérea que apetece repetir e repetir na audição do disco. Na versão do espectáculo, a canção não perde a toada do requebro, ganhando o ritmo, embora desacompanhado do piano, que no disco complementa na perfeição o arranjo musical da canção.

A canção Hóspede, subentendida como Os Mendigos, é outra das grandes canções do disco e cuja interpretação ao vivo, não perde absolutamente nada, porque a riqueza melódica e lírica da canção, suporta completamente a interpretação desacompanhada de arranjos.

Outra das canções apresentadas e já ouvidas em espectáculos anteriores, é Oh Pastor que choras, a versão do poema de José Gomes Ferreira que o cantor Fausto também gravou na mesma época. Esta versão de José Almada, mesmo a apresentada em espectáculo ao vivo, suplanta essa versão de Fausto, na escolha da melodia interpretativa.

Em paralelo com Os Anjos Cantam, a canção Cala os olhos vagabundo, com poema de José Gomes Ferreira, é um primor do primeiro disco e que no espectáculo ao vivo, resulta em pleno como uma grande composição, a lembrar os grandes mitos do vagabundo andante, tentado pelo desconhecido maravilhoso.

O tema inaugural e principal de Homenagem, que lhe dá o título, é prejudicado nos espectáculos ao vivo, pela ausência da instrumentação que no disco lhe confere uma dimensão extraordinária. No entanto, ainda assim, o poema de uma força telúrica e evocativa, remonta a carência de instrumentação, pela força interpretativa.

Uma das novas canções, apresentadas no espectáculo, é uma versão do poema de Augusto Gil, Batem leve, levemente. Outra, a versão musicada do poema de Luíz de Camões, Perdigão perdeu a pena, num tema interessante, como nova composição inédita. Em complemento pessoal e de referência intimista, uma canção intitulada Perdidamente, dedicada especialmente à mulher, presente e com tempo recente e demasiado relacionada para permitir a distância crítica suficiente.

Do segundo LP, cantou As aves choram, Ferreiro velho e cansado ( por lapso de escrita, agora corrigido, não cantou esta) e principalmente Pedro Louco, repetida no final, a pedido da audiência, tal como aconteceu com Hóspede e uma canção de um ep, Anda Madraço, com que terminou o espectáculo.

Em registo sonoro,quase todas as canções deste segundo disco, resultam melhor em palco que no disco, principalmente Pedro Louco ( Ah! Se um dia o Pedro Louco). Nem a orquestração do disco, retira seja o que for à força interpretativa que a canção contém, apresentada em palco.

O espectáculo de Viana, de José Almada, conteve-se em dúzia e meia de canções, apresentadas sobriamente e com uma força interpretativa de empenho notável. A gravação do espectáculo, disponível dentro de pouco tempo, testemunha um grande evento, com um som cheio de musicalidade e palavras certas para os poemas dos discos de José Almada.

No fim, de pé, os presentes pediram-lhe, mais uma vez, Pedro Louco que é louco, é louco, é mouco é. Pediram-lhe ainda a repetição de Hóspede, com a toada dos mendigos e uma que não cantara antes: Anda Madraço.

No entanto, o verdadeiro remate do espectáculo, ocorreu perante uma dúzia de amigos, num pequeno bar da cidade, junto a um rio Lima silencioso e calmo. Perante um porto de mar atento, mas de guindastes já adormecidos, tocou novamente e em privado, a sua Homenagem e outras ainda e ainda uma que não cantou no início do espectáculo, como esperava: Não, não me estendas a mão.

Nem seria preciso. A sensibilidade elevada das suas canções, dispensa a mendicidade de sentimenos genuinos de autenticidade.


(Postal corrigido em 15.7.2008, após audição da gravação.)



domingo, 15 de junho de 2008

Abraxas de Santana



Contemporêneo das descobertas na banda desenhada, é um dos discos que mais escutei na adolescência. Abraxas, dos Santana.

O LP, saído em finais de 1970, foi uma das aquisições de um amigo meu, cujo gira-discos passou a repetir agulhas, nos sulcos de Oye como va e Black magic Woman.

Para nós, Santana, nesse tempo, era uma recordação de um portentoso solo de bateria, pelo então baterista Mike Shrieve, no festival de Woodstock.

Abraxas, tinha um motivo principal da preferência: o êxito, Samba pa ti. Contudo, de tanta audição, tornou-se uma segunda escolha e de repente, os motivos de entrada do órgão minimalista de Black Magic woman, ganharam mais relevo do que o fraseado do slow Samba pa ti ( aqui em boa versão Youtube, de um espectáculo no Japão) .

Slow tão óbvio como Samba pa ti, torna-se difícil de encontrar, ( só Europa, meia dúzia de anos depois) porque instrumental de muito aconchego de adolescência, em bailes de salão com música gravada.

No entanto, Abraxas, é um conjunto de temas e canções com ritmo afro-latino, misturado com a guitarra de Carlos Santana, um dos mestres desse instrumento da música popular.

O encadeamento dos temas, é perfeito na passagem instrumental de uns para outros.

O disco começa em tom calmíssimo, de vagas pianísticas e som de maré, interrompido por uma guitarra eléctrica que vai pontuado a paisagem sonora, em instrumental que adquire ritmo de jazz rock, alguns minutos depois.

A entrada de Black Magic Woman, canção de Peter Green dos Fleetwood mac, aparece em sonoridade organística, pontuada pela guitarra em modo bluesy, numa transição perfeita. A voz surge apenas a meio da canção, em ritmo quase latino.

Oye como va, depois de uma refrega de guitarra, no final de Black Magic Woman, surge num tom calmo e de salsa, em mais uma transição perfeita. Oye como va, é um clássico, um standard deste tipo de música que convida imediatamente a bater o pé e a mexer os quadris. As percussões, são fundamentais nesta canção de êxito, à qual se seguem mais três de ritmo afro-latino, com grande intervenções de guitarra rock e misturadas em ambiente sonoro descontraído.

Antes de Samba pa ti, toda em guitarra solo, Mother´s daughter, acaba em ritmo eléctrico de frenético e o começo do slow é uma surpresa de disco de luxo. Por isso, a que se lhe segue, Hope you´re feeling better, retoma o funky-rock, num evocação hendrixiana, para deixar espaço sonoro à última composição, El Nicoya que começa em tom de batuque e marimbas e se desenvolve em ritmo dançante de percussões variadas.

Abraxas é um daqueles discos que se ouve vezes sem conta, depois de se ter escutado tudo.

Ao longo dos anos, Santana tem editado vários discos, alguns deles de êxito assinalável e recheados de pequenas pérolas musicais.

Depois de Abraxas, voltei a interessar-me pelo Santana de Welcome, em 1973, com duas músicas de antologia: Love devotion and surrender e When i look into your eyes.

O seguinte, de 1974, Borboletta, contém Promise of a fisherman e a seguir, terminam os meus discos de Santana, com o álbum ao vivo, de 1977, Moonflower. Contém êxitos passados e ainda uma interpretação asinalável de She´s not there, dos Zombies, o motivo principal para o ter comprado.

O que veio a seguir, são repetições.

sábado, 14 de junho de 2008

Histórias de desenhos


Estas imagens que seguem da autoria do indivíduo acima retratado ( em 2000), têm uma história desenhada que pode ser lida na Porta de Loja.

A banda desenhada, representou ao longo dos anos, uma espécie de alternativa à arte mais clássica e de museu. A pintura e o desenho publicados em revista ou jornal, para ilustrar historietas, sempre foram uma das coisas que me interessaram ao longo da vida.

O autor aqui representado, Jean Giraud/Moebius, um francês de boa estirpe estética, é um dos maiores dessa arte que alguns entendem menor e outros sublimam aos píncaros da beleza.





domingo, 1 de junho de 2008

José Almada

José Almada ao vivo, em Ovar, num pequeno teatro de aconchego em que o palco, decorado em motivos de gosto rural e antigo e as cadeiras da plateia quase se tocam, numa simbiose entre os artistas e os espectadores, apresentou as suas canções, não cantadas em público desde há mais de trinta anos. Como novidade, ainda cantou algumas inéditas e de idêntica matriz.

Numa plateia conquistada de avanço, pela expectativa de ouvir algo já gravado e reconhecido há muitos anos , José Almada não desiludiu os seus admiradores, no modo de tocar e cantar músicas simples, de poucos acordes, mas de sensibilidade grande e imaginário poderoso, em panorama alargado ao bucolismo, aos campos, animais e sentimentos humanos mais profundos e perceptíveis, na maneira de dizer e cantar.

A ovelha bale bale”, introduziu a dúzia e meia de canções dos dois discos a solo, publicados no início da década de setenta, mais algumas inéditas e recentes, numa tonalidade de voz que recupera as inflexões originais e acrescenta outras, surgidas com o tempo de espera de mais de trinta anos.

As palmas vigorosas que se seguiram e repetiram, permitiram ao cantor ajustar a viola acústica de cordas de nylon e a cantar de pé, como será seu costume, introduzindo o tema seguinte, Hóspede e logo depois, Olha as ovelhas como são, duas das melhores do primeiro disco.

A instrumentação singela, da simples viola acústica, no concerto, apenas acrescenta os contrapontos necessários à música cantada por José Almada, em acordes de acompanhamento que complementam a voz e são os temas, conhecidos, do disco, que trazem à memórias as frases mágicas, como em Homenagem, cantada a seguir a Anda Madraço, esta, numa versão de vivacidade superior à do disco.

Homenagem, é um tema de êxito certo, para uma composição que no disco, vai ao mais fundo do tempo, onde se enterram os mortos e celebram os vivos.

A sublimação musical de um tema orientado à volta de uma cerimónia funérea, adquire cambiantes artísticos no uso das palavras que definem e descrevem a diferença da pompa e circunstância de um enterro nobre e um outro de maltrapilho.

A evocação de um tema deste género, de contexto algo lúgubre, adquire outro contorno, paradoxalmente mais alegre, na tonalidade musical de um ritmo que descreve um andamento fustigado, em tudo contrário ao esperado compasso que o tema sugere.

A música, também sublime, torna este tema o paradigma da obra de José Almada: o uso de palavras raras e esquecidas, com evocação de vivências passadas e antigas, num leit-motiv sempre presente: o das pessoas humildes e despojadas de bens, que não de sentimentos ou humanidade interior e sentida, muitas vezes, em ligação telúrica com o campo e as suas realidades de equilíbrio antigo. Uma ecologia folk, enraizada, do tempo em que nem se falava no assunto.

É esse o tema fundamental da obra de José Almada e que o torna único no panorama da música popular portuguesa, ao saber aliar a extrema musicalidade da sua obra, a letras de grande qualidade literária, de autores consagrados ou de pessoas que lhe foram próximas e escreveram no mesmo tom.

A audição do primeiro disco de José Almada, Homenagem, comprova isso mesmo, porque se torna em pouco tempo, um exercício de repetição prazeirenta de sons agradáveis ao ouvido. É um disco cativante e de efeito aditivo, pela beleza e musicalidade das composições.

Em bónus, nada despiciendo, essas composições, trazem sempre um ângulo ou perspectiva de uma vivência única que no caso do autor, terá sido mesmo experimentada, na vida real dos anos setenta e oitenta. O convívio com pastores, agricultores e a vida rural, em particular, no Douro de Armamar, juntando o bucolismo e o agreste, soma-se ao convívio literário com autores de grande qualidade temática, como é o caso de José Gomes Ferreira.

Na confluência desses elementos particulares, e que criam um clima próprio e único, a música de José Almada atinge por vezes os píncaros do génio da beleza poética e artística.

Ora, foi nesse estado de espírito que esperei o concerto, levando comigo o disco original e ainda uma revista Mundo da Canção, de Dezembro de 1970 que transcreve um tema das suas músicas, precisamente Mendigo, e uma apreciação crítica do disco então saído, da autoria de Tito Lívio, exigente crítico da revista e que considerou essas obras musicais, de José Almada, como “muito positivas”.

No intervalo do concerto, à procura do cantor, encontrei-o nos bastidores e foi uma emoção, manifestar-lhe o quanto me agrada a sua música e os motivos que me levam a apreciá-la.

A sua grande simplicidade no trato e alguma timidez, por temer não estar à altura das expectativas musicais, depois de mais de trinta anos de voluntário afastamento das lides musicais, são apenas o pretexto para lhe solicitar os autógrafos que nunca peço a artista algum e que neste caso me dão um enorme prazer e guardo como preciosidades, porque me trazem de volta o tempo em que descobri estas pequenas maravilhas da sua música.

Na conversa que se seguiu, nesse intervalo e no fim da actuação, houve tempo para perceber os motivos do afastamento, as razões da gravação dos discos e o contexto em que ocorreram e ainda as dificuldades em obter actualmente, uma via para uma publicidade mais consentânea e merecidíssima, com a sua obra de 1970.

Escrever sobre o concerto e a música de José Almada, tem de arrastar consigo a referência obrigatória a estas sensibilidades que a sua música convoca, porque são a essência dela e que lhe dão alma distinta.

A música de José Almada não se descreve. Escuta-se e aprecia-se, sendo redundantes os adjectivos que se lhe possam colar, vindos de quem aprecia. O concerto, relata-se em poucas palavras: excepcional e memorável, mesmo tendo em conta a exiguidade de meios e a singeleza da apresentação.

Os pormenores sobre a sua simpatia, personalidade ou maneira de ser, complementam apenas essa essência de luxo musical, na pele de um Mendigo, um Pastor que chora, um amigo dos lagartos, porcos, ovelhas ou caracóis, em modo musicado.

No artigo de Tito Lívio, na Mundo da Canção, nº 12, de 15.11.1970, sobre o primeiro disco, escrevia-se:

"Questões haveria a pôr: sinceridade, coerência, eficácia, progressismo ou aprogressismo de uma canção como esta, etc...problemas afinal, que outros ( possíveis) discos de José Almada possam vir a esclarecer. Para se poder ver lucidamente. Bem como o porquê daquela forma estranha de pronunciar os esses".

As questões estão respondidas e de modo a contentar os que alguma vez tiveram dúvidas: o concerto de José Almada, em Ovar, deu resposta a algumas delas. A sua vida anterior, responde às demais. O seu regresso, pode acrescentar algo mais à história que ainda não terminou, para bem de todos nós que apreciamos o que ouvimos.