domingo, 13 de julho de 2008

José Almada, o aristocrata da pobreza sublimada



No Verão de 1970, José Almada, então com 19 anos, publicou o seu primeiro disco em modo de apresentação. Tema: os mendigos.

Os mendigos?- perguntarão os intrigados do costume. Sim, os mendigos. Os pobres dos pobres, incluindo os de espírito e estado de vida social. Os que nada têm de seu e de nada precisam dos outros, a não ser a atenção caridosa que passa e mira de soslaio a condição de desgraça, deixando a esmola para a côdea ou para o alívio instantâneo do espírito recolhido em depressão habitual.

Só esta atitude de atenção a uma condição marginal do indivíduo, suscita a curiosidade do passante de escaparate que mira o disco, com capa a retratar um apartado da vida comum.

Nesse ano, no início da década de setenta, um tema tão obnóxio da corrente comum, suscita a atenção de uma editora recém criada, vinda de um programa de televisão de grande qualidade temática, técnica e de audiência. Um programa como poucos houve na televisão portuguesa. O Zip-Zip, nome do programa, animado pela tripla Carlos Cruz, Fialho Gouveia e Raul Solnado e realizado por Luís Andrade, passou durante todo o ano de 1969, de Maio a Dezembro, em plena esperança de mudança na configuração do regime político português da época. Por lá passaram alguns expoentes da cultura portuguesa da época, como Almada Negreiros que inaugurou o programa, ou Agostinho da Silva que foi entrevistado depois, ou artistas como Manuel Freire, da corrente musical que de repente surgiu com a designação de baladeiros.

O Zip, terminou em Dezembro de 1969, por esgotamento na luta contra a censura marcelista do regime, vinda do salazarismo que teimava em não se renovar social e politicamente, conduzindo, anos mais tarde, directamente à Revolução em 25 de Abril de 74.

Os Mendigos e José Almada, chegaram a ter encontro marcado no programa, frustrando-se o evento pelo fim prematuro do programa que iria marcar o futuro de décadas da tv portuguesa que nunca mais foi a mesma.

Mesmo assim, a gravação do primeiro disco de José Almada que continha o tema e ainda outros, com seis fachas de cada lado, intitulou-se Homenagem, sendo publicado pela editora Zip-Zip, com produção de arranjos, espantosa e sóbria de qualidade rara, de Pedro Osório.

O título tema, retoma uma Homenagem incerta, mas de conteúdo lírico, com peso literário de Fausto José, um escritor e poeta da vida de José Almada, tal como o seria o seu próprio pai, autor de letras cantadas e conteúdo que toca a alma. Uma alma da terra nossa, do nosso povo antigo e de tradições seculares.

Homenagem, toca o lirismo do paralelo entre os ricos e poderosos e os desvalidos que acabam por igual, numa campa. Rasa ou de mausoléu, unem-nos a essência do regresso ao pó e a ligação a essa lição fundamental, de raiz cristã ( memento Homine quia pulvi es...). Homenagem, traduz o espírito do essencial, no percurso do Homem: o destino final, percorrido em rituais diversos, mas de conclusões iguais e sem dissemelhanças.

Os temas restantes, no disco, abordam, todos eles, essa realidade insofismável da existência: somos todos mendigos por algo que não logramos alcançar, num destino comum, em que os animais irracionais, participam, em similitude de destino existencial.

A música de José Almada, original e com referências esparsas à música popular da época, numa economia de meios instrumentais, depurada e por vezes austera, compõe-se em melodias de efeito sonoro perfeito e de riqueza inventiva cativante.

A dicção das palavras cantadas, o estilo de cantoria e a junção da música ao lirismo profundo dos temas, tornam este disco, um dos mais fundamentais e importantes da música popular de sempre.

A potencialidade evocativa dos temas, com cadência marcada em acordes simples, atinge por vezes o sentimento de uma profunda corda interior que suscita a emoção pura de uma lágrima furtiva ou o adejo de uma nostalgia implacável que toca experiências vividas ou sentidas como reais.

A música de José Almada, não se explica em palavras correntes, senão por metáforas nem sempre conseguidas, de definição estilística rebuscada para atingir a simplicidade do óbvio: a qualidade superior da música composta em canção.

José Almada, por outro lado, experimentou a realidade de uma vida singular e que na altura da música de Homenagem, apenas tinha perspectivas de desenvolvimento incerto.

Almada descende de portugueses, enraizados no profundo de um Portugal, fundado em antiguidades que nos moldaram a vida comum, ao longo de séculos.

Na família alargada de José Almada, encontramos pessoas que conviveram com o fausto da nobreza, a riqueza dos privilégios régios ou o usufruto de heranças antigas e disputadas em lutas fratricidas e de recorte centenário.

A família e genealogia de José Almada convocam logo a curiosidade de um percurso no Portugal antigo e com raízes nos mais altos estratos de uma sociedade de classes ainda medievais e que surtiram pelos últimos séculos do nosso viver comum.

Esse património genético, alguma coisa deveria comportar, em estilo, modo, resquício de comportamento e educação.

A José Almada, tocou-lhe essencialmente, a herança de um património rico em lirismo, antigo, português, profundo e enraizado em poetas e escritores do nosso viver em comunidade organizada, desde o remoto séc XII.

É provável que o próprio nem se dê conta da herança notável, aceite sem declaração notarial e a benefício de património pessoal intangível, mas de riqueza assinalável. Porém, quem quiser pesquisar o acervo que o disco Homenagem denota nos seus temas, referências líricas, estilísticas, musicais e de simplicidade desarmante, encontra-a toda, lá, nos interstícios das suas canções e no estilo do canto que as anima.


O concerto de Viana do Castelo, em 11.7.2008, pelas 22h e 30.


Alinhamento das canções ( após audição da gravação do espectáculo):


1. Batem leve, levemente- o poema bem conhecido de Augusto Gil, cantado em versão inédita.

2.Olha as ovelhas como são- do Lp Homenagem, uma das suas mais belas canções, em ritmo que adere ao ouvido interno.

3. Hóspede- do primeiro LP e a primeira canção que José Almada compôs, em gravação.

4. Vento Suão, do 2º LP e com letra de Fausto José, poeta já falecido e amigo de José Almada.

5. Oh pastor que choras, tema de José Gomes Ferreira, também cantado por Fausto, na mesma altura e que julgo superior a essa versão do autor de Rosalinda.

6. Em multidão, uma canção nova, em estreia, com letra de José Gomes Ferreira.

7. Cala os olhos, vagabundo, outra do primeiro LP e uma das grandes canções de José Almada, Fabulosa.

8. Vento Irado. Igualmente do primeiro Lp, a canção mais triste e melancólica do cantor, com letra do pai, Luís Guedes Machado.

9. Os anjos cantam, também do primeiro LP e a minha canção preferida, actualmente. Ouço-a vezes sem conta, em todo o lado, principalmente a cantarolar. Uma canção de antologia, com poema de José Gomes Ferreira.

Terminou aqui a primeira parte do espectáculo.

Na segunda parte:

1.Casa abandonada, canção do irmão, Luís, presente na sala e a quem foi dedicada.

2. Perdigão perdeu a pena, canção inédita, com letra de Camões.

3. Ah! Como te invejo, do segundo LP, Não, não me estendas a mão.

4.Perdidamente, inédita e dedicada à mulher.

5. Homenagem, título do primeiro LP.

6. Ah! Como odeio, também do segundo LP.

7. Pedro Louco, do segundo LP e com leve travo a Moustaki. Um sucesso de audição.

8. As aves cantam, do segundo Lp


Encore:


Hóspede, Pedro Louco e Anda Madraço, esta de um primeiro ep.


O espectáculo que José Almada deu em Viana do Castelo, em 11.7.2008, numa sala para concertos, anexa ao teatro Sá de Miranda, foi reveladora de tudo o que ficou escrito e ainda mais:

Aos 56 anos de idade, os temas de 1970 e 1975, soaram como novidades agradáveis e recentes, a ouvidos neófitos que acorreram para os escutar. A quem já os conhecia de ginjeira,o canto particular de José Almada, soou como a confirmação de um grande artista, de talento suficiente para emocionar uma plateia que esteja disposto a mergulhar no sentimento e evocação poética, garantindo uma viagem em sensações líricas e de melancolia controlada pela beleza simples da poesia da palavra portuguesa.

O alinhamento dos temas, passou pelos dois discos publicados, nessa época- , Homenagem e Não, não me estendas a mão- e ainda alguns inéditos, não gravados.

Partindo de uma apresentação em cantoria a solo, com acompanhamento singelo a guitarra acústica, José Almada tocou e cantou, cerca de 18 canções, num espectáculo com duas partes e contando com os três encores, a pedido de uma assistência entusiástica de amigos, admiradores e espectadores atentos.

O espectáculo, à semelhança do ocorrido em Ovar, na casa Contacto, em finais de Maio passado, foi organizado por amigos e admiradores entusiastas que aprontaram uma belíssima casa de espectáculos em modo de café-concerto, com centena e meia de lugares sentados e grande ambiente sonoro e acústico.

A expectativa, entre os presentes, vindos de vários lados, de Lisboa, Porto, Braga e da terra, era grande, porque a maioria, conhecendo o disco, nunca tinha ouvido José Almada ao vivo e deixaram de ouvir falar do mesmo, há mais de trinta anos, surgindo com a curiosidade de saber como era o José Almada de hoje, comparando-o com o de há mais de trinta anos, na presença e voz, gravada e fisicamente presente.

A apresentação do cantor, ao público do café do teatro Sá de Miranda, ocorreu assim, num ambiente de relativa surpresa. O som vindo do palco, revelou-se perfeito e de qualidade superior, na transposição da voz do cantor, acompanhado pela viola.

José Almada habituou-se a cantar em pé, perante o público que o escuta e nem a banqueta presente, o conduziu ao assento de repouso durante toda a actuação.

Começou por entoar as suas canções saídas de Homenagem e de Não, não me estendas a mão, os dois discos de referência, misturando-as com algumas inéditas. Com pequenos intervalos explicativos sobre a origem da letra e de pequenos apontamentos sobre o significado das canções, foi apresentando a essência da sua mensagem cantada, em tom de baladeiro, sem compromisso político evidente, ao contrário dos émulos que apareceram na mesma época e que fizeram história na música popular portuguesa.

Uma das canções, intitulada Casa Abandonada, composta em parceria com um irmão, aliás presente, e numa altura em que ambos nem contavam vinte anos, conta a história de vida das casas antigas que perderam a alma dos donos.

O que espanta, na música e canções de José Almada , é essa alusão explícita e constante, a perdas de coisas e bens, num despojo total, que paradoxalmente enriquece o espírito e sublima os sentimentos de perdas e a melancolia dos pesares mais profundos, numa poesia de coerência temática que acaba como emblemática do estilo do cantor. A música de José Almada, nesses temas, completa na perfeição, o sentimento poético subjacente aos poemas de autores como José Gomes Ferreira ou Fausto José, este, um autor local, do tempo do Douro.

A interpretação das canções antigas, pelo actual José Almada, contempla uma actualização na entoação e algumas delas, ganharam em vicacidade. Por exemplo, a ultra melancólica Vento Irado, do Lp Homenagem, cantada na primeira parte do espectáculo, ganha uma toada mais expedita e menos arrastada que no disco, retirando-lhe alguma carga de tristeza prolongada que na gravação, atinge quase as raias do insuportável, tal a intensidade da letra e música associada, num langor acompanhado pelas cordas e sopros da mais acentuada melancolia.

No disco, segue-se, a essa toada triste, a elegia sobre os Anjos que cantam e não cantam. Uma das mais belas canções do disco Homenagem, com letra de Carlos Oliveira, também foi cantada no espectáculo, em tom um pouco mais corrido, sem os requebros e embalos que emprestam a esse tema uma beleza etérea que apetece repetir e repetir na audição do disco. Na versão do espectáculo, a canção não perde a toada do requebro, ganhando o ritmo, embora desacompanhado do piano, que no disco complementa na perfeição o arranjo musical da canção.

A canção Hóspede, subentendida como Os Mendigos, é outra das grandes canções do disco e cuja interpretação ao vivo, não perde absolutamente nada, porque a riqueza melódica e lírica da canção, suporta completamente a interpretação desacompanhada de arranjos.

Outra das canções apresentadas e já ouvidas em espectáculos anteriores, é Oh Pastor que choras, a versão do poema de José Gomes Ferreira que o cantor Fausto também gravou na mesma época. Esta versão de José Almada, mesmo a apresentada em espectáculo ao vivo, suplanta essa versão de Fausto, na escolha da melodia interpretativa.

Em paralelo com Os Anjos Cantam, a canção Cala os olhos vagabundo, com poema de José Gomes Ferreira, é um primor do primeiro disco e que no espectáculo ao vivo, resulta em pleno como uma grande composição, a lembrar os grandes mitos do vagabundo andante, tentado pelo desconhecido maravilhoso.

O tema inaugural e principal de Homenagem, que lhe dá o título, é prejudicado nos espectáculos ao vivo, pela ausência da instrumentação que no disco lhe confere uma dimensão extraordinária. No entanto, ainda assim, o poema de uma força telúrica e evocativa, remonta a carência de instrumentação, pela força interpretativa.

Uma das novas canções, apresentadas no espectáculo, é uma versão do poema de Augusto Gil, Batem leve, levemente. Outra, a versão musicada do poema de Luíz de Camões, Perdigão perdeu a pena, num tema interessante, como nova composição inédita. Em complemento pessoal e de referência intimista, uma canção intitulada Perdidamente, dedicada especialmente à mulher, presente e com tempo recente e demasiado relacionada para permitir a distância crítica suficiente.

Do segundo LP, cantou As aves choram, Ferreiro velho e cansado ( por lapso de escrita, agora corrigido, não cantou esta) e principalmente Pedro Louco, repetida no final, a pedido da audiência, tal como aconteceu com Hóspede e uma canção de um ep, Anda Madraço, com que terminou o espectáculo.

Em registo sonoro,quase todas as canções deste segundo disco, resultam melhor em palco que no disco, principalmente Pedro Louco ( Ah! Se um dia o Pedro Louco). Nem a orquestração do disco, retira seja o que for à força interpretativa que a canção contém, apresentada em palco.

O espectáculo de Viana, de José Almada, conteve-se em dúzia e meia de canções, apresentadas sobriamente e com uma força interpretativa de empenho notável. A gravação do espectáculo, disponível dentro de pouco tempo, testemunha um grande evento, com um som cheio de musicalidade e palavras certas para os poemas dos discos de José Almada.

No fim, de pé, os presentes pediram-lhe, mais uma vez, Pedro Louco que é louco, é louco, é mouco é. Pediram-lhe ainda a repetição de Hóspede, com a toada dos mendigos e uma que não cantara antes: Anda Madraço.

No entanto, o verdadeiro remate do espectáculo, ocorreu perante uma dúzia de amigos, num pequeno bar da cidade, junto a um rio Lima silencioso e calmo. Perante um porto de mar atento, mas de guindastes já adormecidos, tocou novamente e em privado, a sua Homenagem e outras ainda e ainda uma que não cantou no início do espectáculo, como esperava: Não, não me estendas a mão.

Nem seria preciso. A sensibilidade elevada das suas canções, dispensa a mendicidade de sentimenos genuinos de autenticidade.


(Postal corrigido em 15.7.2008, após audição da gravação.)



domingo, 15 de junho de 2008

Abraxas de Santana



Contemporêneo das descobertas na banda desenhada, é um dos discos que mais escutei na adolescência. Abraxas, dos Santana.

O LP, saído em finais de 1970, foi uma das aquisições de um amigo meu, cujo gira-discos passou a repetir agulhas, nos sulcos de Oye como va e Black magic Woman.

Para nós, Santana, nesse tempo, era uma recordação de um portentoso solo de bateria, pelo então baterista Mike Shrieve, no festival de Woodstock.

Abraxas, tinha um motivo principal da preferência: o êxito, Samba pa ti. Contudo, de tanta audição, tornou-se uma segunda escolha e de repente, os motivos de entrada do órgão minimalista de Black Magic woman, ganharam mais relevo do que o fraseado do slow Samba pa ti ( aqui em boa versão Youtube, de um espectáculo no Japão) .

Slow tão óbvio como Samba pa ti, torna-se difícil de encontrar, ( só Europa, meia dúzia de anos depois) porque instrumental de muito aconchego de adolescência, em bailes de salão com música gravada.

No entanto, Abraxas, é um conjunto de temas e canções com ritmo afro-latino, misturado com a guitarra de Carlos Santana, um dos mestres desse instrumento da música popular.

O encadeamento dos temas, é perfeito na passagem instrumental de uns para outros.

O disco começa em tom calmíssimo, de vagas pianísticas e som de maré, interrompido por uma guitarra eléctrica que vai pontuado a paisagem sonora, em instrumental que adquire ritmo de jazz rock, alguns minutos depois.

A entrada de Black Magic Woman, canção de Peter Green dos Fleetwood mac, aparece em sonoridade organística, pontuada pela guitarra em modo bluesy, numa transição perfeita. A voz surge apenas a meio da canção, em ritmo quase latino.

Oye como va, depois de uma refrega de guitarra, no final de Black Magic Woman, surge num tom calmo e de salsa, em mais uma transição perfeita. Oye como va, é um clássico, um standard deste tipo de música que convida imediatamente a bater o pé e a mexer os quadris. As percussões, são fundamentais nesta canção de êxito, à qual se seguem mais três de ritmo afro-latino, com grande intervenções de guitarra rock e misturadas em ambiente sonoro descontraído.

Antes de Samba pa ti, toda em guitarra solo, Mother´s daughter, acaba em ritmo eléctrico de frenético e o começo do slow é uma surpresa de disco de luxo. Por isso, a que se lhe segue, Hope you´re feeling better, retoma o funky-rock, num evocação hendrixiana, para deixar espaço sonoro à última composição, El Nicoya que começa em tom de batuque e marimbas e se desenvolve em ritmo dançante de percussões variadas.

Abraxas é um daqueles discos que se ouve vezes sem conta, depois de se ter escutado tudo.

Ao longo dos anos, Santana tem editado vários discos, alguns deles de êxito assinalável e recheados de pequenas pérolas musicais.

Depois de Abraxas, voltei a interessar-me pelo Santana de Welcome, em 1973, com duas músicas de antologia: Love devotion and surrender e When i look into your eyes.

O seguinte, de 1974, Borboletta, contém Promise of a fisherman e a seguir, terminam os meus discos de Santana, com o álbum ao vivo, de 1977, Moonflower. Contém êxitos passados e ainda uma interpretação asinalável de She´s not there, dos Zombies, o motivo principal para o ter comprado.

O que veio a seguir, são repetições.

sábado, 14 de junho de 2008

Histórias de desenhos


Estas imagens que seguem da autoria do indivíduo acima retratado ( em 2000), têm uma história desenhada que pode ser lida na Porta de Loja.

A banda desenhada, representou ao longo dos anos, uma espécie de alternativa à arte mais clássica e de museu. A pintura e o desenho publicados em revista ou jornal, para ilustrar historietas, sempre foram uma das coisas que me interessaram ao longo da vida.

O autor aqui representado, Jean Giraud/Moebius, um francês de boa estirpe estética, é um dos maiores dessa arte que alguns entendem menor e outros sublimam aos píncaros da beleza.





domingo, 1 de junho de 2008

José Almada

José Almada ao vivo, em Ovar, num pequeno teatro de aconchego em que o palco, decorado em motivos de gosto rural e antigo e as cadeiras da plateia quase se tocam, numa simbiose entre os artistas e os espectadores, apresentou as suas canções, não cantadas em público desde há mais de trinta anos. Como novidade, ainda cantou algumas inéditas e de idêntica matriz.

Numa plateia conquistada de avanço, pela expectativa de ouvir algo já gravado e reconhecido há muitos anos , José Almada não desiludiu os seus admiradores, no modo de tocar e cantar músicas simples, de poucos acordes, mas de sensibilidade grande e imaginário poderoso, em panorama alargado ao bucolismo, aos campos, animais e sentimentos humanos mais profundos e perceptíveis, na maneira de dizer e cantar.

A ovelha bale bale”, introduziu a dúzia e meia de canções dos dois discos a solo, publicados no início da década de setenta, mais algumas inéditas e recentes, numa tonalidade de voz que recupera as inflexões originais e acrescenta outras, surgidas com o tempo de espera de mais de trinta anos.

As palmas vigorosas que se seguiram e repetiram, permitiram ao cantor ajustar a viola acústica de cordas de nylon e a cantar de pé, como será seu costume, introduzindo o tema seguinte, Hóspede e logo depois, Olha as ovelhas como são, duas das melhores do primeiro disco.

A instrumentação singela, da simples viola acústica, no concerto, apenas acrescenta os contrapontos necessários à música cantada por José Almada, em acordes de acompanhamento que complementam a voz e são os temas, conhecidos, do disco, que trazem à memórias as frases mágicas, como em Homenagem, cantada a seguir a Anda Madraço, esta, numa versão de vivacidade superior à do disco.

Homenagem, é um tema de êxito certo, para uma composição que no disco, vai ao mais fundo do tempo, onde se enterram os mortos e celebram os vivos.

A sublimação musical de um tema orientado à volta de uma cerimónia funérea, adquire cambiantes artísticos no uso das palavras que definem e descrevem a diferença da pompa e circunstância de um enterro nobre e um outro de maltrapilho.

A evocação de um tema deste género, de contexto algo lúgubre, adquire outro contorno, paradoxalmente mais alegre, na tonalidade musical de um ritmo que descreve um andamento fustigado, em tudo contrário ao esperado compasso que o tema sugere.

A música, também sublime, torna este tema o paradigma da obra de José Almada: o uso de palavras raras e esquecidas, com evocação de vivências passadas e antigas, num leit-motiv sempre presente: o das pessoas humildes e despojadas de bens, que não de sentimentos ou humanidade interior e sentida, muitas vezes, em ligação telúrica com o campo e as suas realidades de equilíbrio antigo. Uma ecologia folk, enraizada, do tempo em que nem se falava no assunto.

É esse o tema fundamental da obra de José Almada e que o torna único no panorama da música popular portuguesa, ao saber aliar a extrema musicalidade da sua obra, a letras de grande qualidade literária, de autores consagrados ou de pessoas que lhe foram próximas e escreveram no mesmo tom.

A audição do primeiro disco de José Almada, Homenagem, comprova isso mesmo, porque se torna em pouco tempo, um exercício de repetição prazeirenta de sons agradáveis ao ouvido. É um disco cativante e de efeito aditivo, pela beleza e musicalidade das composições.

Em bónus, nada despiciendo, essas composições, trazem sempre um ângulo ou perspectiva de uma vivência única que no caso do autor, terá sido mesmo experimentada, na vida real dos anos setenta e oitenta. O convívio com pastores, agricultores e a vida rural, em particular, no Douro de Armamar, juntando o bucolismo e o agreste, soma-se ao convívio literário com autores de grande qualidade temática, como é o caso de José Gomes Ferreira.

Na confluência desses elementos particulares, e que criam um clima próprio e único, a música de José Almada atinge por vezes os píncaros do génio da beleza poética e artística.

Ora, foi nesse estado de espírito que esperei o concerto, levando comigo o disco original e ainda uma revista Mundo da Canção, de Dezembro de 1970 que transcreve um tema das suas músicas, precisamente Mendigo, e uma apreciação crítica do disco então saído, da autoria de Tito Lívio, exigente crítico da revista e que considerou essas obras musicais, de José Almada, como “muito positivas”.

No intervalo do concerto, à procura do cantor, encontrei-o nos bastidores e foi uma emoção, manifestar-lhe o quanto me agrada a sua música e os motivos que me levam a apreciá-la.

A sua grande simplicidade no trato e alguma timidez, por temer não estar à altura das expectativas musicais, depois de mais de trinta anos de voluntário afastamento das lides musicais, são apenas o pretexto para lhe solicitar os autógrafos que nunca peço a artista algum e que neste caso me dão um enorme prazer e guardo como preciosidades, porque me trazem de volta o tempo em que descobri estas pequenas maravilhas da sua música.

Na conversa que se seguiu, nesse intervalo e no fim da actuação, houve tempo para perceber os motivos do afastamento, as razões da gravação dos discos e o contexto em que ocorreram e ainda as dificuldades em obter actualmente, uma via para uma publicidade mais consentânea e merecidíssima, com a sua obra de 1970.

Escrever sobre o concerto e a música de José Almada, tem de arrastar consigo a referência obrigatória a estas sensibilidades que a sua música convoca, porque são a essência dela e que lhe dão alma distinta.

A música de José Almada não se descreve. Escuta-se e aprecia-se, sendo redundantes os adjectivos que se lhe possam colar, vindos de quem aprecia. O concerto, relata-se em poucas palavras: excepcional e memorável, mesmo tendo em conta a exiguidade de meios e a singeleza da apresentação.

Os pormenores sobre a sua simpatia, personalidade ou maneira de ser, complementam apenas essa essência de luxo musical, na pele de um Mendigo, um Pastor que chora, um amigo dos lagartos, porcos, ovelhas ou caracóis, em modo musicado.

No artigo de Tito Lívio, na Mundo da Canção, nº 12, de 15.11.1970, sobre o primeiro disco, escrevia-se:

"Questões haveria a pôr: sinceridade, coerência, eficácia, progressismo ou aprogressismo de uma canção como esta, etc...problemas afinal, que outros ( possíveis) discos de José Almada possam vir a esclarecer. Para se poder ver lucidamente. Bem como o porquê daquela forma estranha de pronunciar os esses".

As questões estão respondidas e de modo a contentar os que alguma vez tiveram dúvidas: o concerto de José Almada, em Ovar, deu resposta a algumas delas. A sua vida anterior, responde às demais. O seu regresso, pode acrescentar algo mais à história que ainda não terminou, para bem de todos nós que apreciamos o que ouvimos.


quinta-feira, 22 de maio de 2008

Led Zeppelin


A música de Led Zeppelin, no início dos anos setenta, tornou-se uma espécie de quintessência do rock, com temas como Whole lotta love e Immigrant song, do segundo e terceiro discos e Black Dog do quarto que contém ainda a obra prima Stairway to heaven, uma das canções referência da música rock, nas diversas listas organizadas para o efeito, a par de Layla de Eric Clapton, ou Bohemian Raphsody, dos Queen.

Em 1973, depois de conhecidos pelo ar de rock pesado que os caracterizava, os Led Zeppelin, começaram a passar no rádio, com uma música introduzida em tonalidade acústica e de bom tom. A voz de Robert Plant, juntava-se à guitarra acústica e mandolim, numa composição melódica e de single com boa saída nas vendas. Após a introdução de minuto e meio, surge uma das secções rítmicas mais pesadas do rock, com o baixo de John Paul Jones e a bateria de John Bonham a que só uma boa aparelhagem sonora fazem justiça redonda e profunda.

Ao longo de toda a canção, o som acústico, mistura-se com o mais electrizante deslize da guitarra Gibson Les Paul, de Jimmy Page, até que após uns segundos de coda, no final dos quatro minutos de duração, ouve-se o murmúrio eléctrico final do single, que saiu no mesmo ano que Angie dos Rolling Stones, este, também uma surpresa no estilo habitual do conjunto.

O disco Houses of the Holy, dos Led Zeppelin, de 1973, contém clássicos da música pesada, mas é esse single de leveza segura que os tornou apetecíveis de ouvir, para mim, nesse ano.

Assim, foi com expectativa contida que nos primeiros meses de 1975, surgiram nas ondas de rádio do Página Um, os primeiros acordes, em arabesco dissonante, de Kashmir, do disco Physical Graffiti, entretanto publicado.

Como habitualmente, precedendo a audição, havia a leitura atenta, das críticas ao disco, surgidas na imprensa do género.

Em 7 de Dezembro de 1974, o New Musical Express, publicava um artigo de página inteira, assinado por Nick Kent, no qual o crítico anunciava o interesse de Page em A. Crowley e elaborava um pouco sobre a sede de oculto do guitarrista.

Noutras duas páginas, o mesmo crítico, descorticava o disco Physical Graffiti, faixa a faixa, dando a conhecer a opinião da crítica inglesa da especialidade, sobre o novo magmum opus, em dose dupla, dos Zeppelin. In the light, era a “pièce de resistence” do disco, acompanhada do prato principal Kashmir.

No mês de Fevereiro, a francesa Rock & Folk, transcrevia o artigo crítico do NME e no mês de Abril, Phillipe Manoeuvre ( actual director da revista), fazia ele mesmo a crítica ao disco, em tom de ditirambo habitual, mas desta vez, contextualizado na menção pessoal ao crítico do NME: “ A hora da vingança chegou. Já temos o nosso Led Zeppelin debaixo do braço e Nick Kent passa por imbecil. Então, fazem as pesoas esperar dois anos para isto?”

Duas críticas em paralelo, com relevo para a diferença estilística e de vulto superior no NME e, neste caso, a irrisão da Rock & Folk, na pena de Manoeuvre, um crítico semiótico de leitura divertida e fugido a intelectualidades sociológicas, com ênfase na escrita saltitante da apreciação totalmente subjectiva.

Seja como for, essas duas críticas, lidas na mesma altura, não suplantavam a escuta demorada dos temas do disco que foi um dos mais inportantes de 1975 e cuja capa, recortada em janelinhas, deixava adivinhar uma série de figurinhas, à medida que se deslizava a capa interior do disco. Um efeito estético, já experimentado no terceiro Lp, cujo capa caleidoscópica, rodava sobre si mesma, para mostrar as ilustrações escondidas.

















domingo, 18 de maio de 2008

A crítica da escrítica

O comentador “ Queirosiano”, num apontamento escrito a propósito da crítica da música popular, tanto neste blog, como principalmente, no do ié-ié, indica a “ligeireza” da crítica gaulesa, particularmente dos escribas da Rock & Folk, em contraponto a uma hipotética qualidade superior, na matéria, nas “boas revistas “ dos anglo-saxónicos.

Em primeiro lugar, que boas revistas tinham os anglo-saxónicos, no domínio da crítica discográfica, com dedicação à música popular, nos anos setenta, período crítico em causa?

Conheço poucas: do lado inglês, só conheço, aliás, jornais, com destaque para o New Musical Express e o Melody Maker, semanários da modalidade, num período demasiado rico, para a música rock.

Do outro lado do oceano, na América, vicejavam a Rolling Stone e a Crawdaddy, nesta área específica, com alguma condescendência para a Creem. A Musician, apareceu muito depois, já nos anos oitenta. E as revistas específicas, sobre guitarras ( Guitar Player, em especial) ou sobre jazz ( Downbeat) não contam.

Por isso, é naquelas que encontramos alguns critérios, para a realização crítica, em tom musical.

Para entrarmos nos caminhos ínvios da crítica musical, é preciso falar de música. E como é possível falar de música, pergunta Charles M. Young, no número de Agosto de 1991, da revista Musician, sem escrever acerca dos aparatos da música, sem fazer alguams piruetas semióticas, desconstrutivas e centradas na pessoa dos próprios músicos que a executam?

A música popular, não atinge sofisticação técnica suficiente que obrigue ao estudo de pautas e contrapontos. Muitos músicos, aliás, nem sabem ler pautas e a noção de escalas ou acordes, adveio-lhes pela experiência própria, ouvindo outros músicos que disso nada sabiam : os negros do Mississippi.

Charles M. Young, traz um exemplo à colação: não se deve pedir ao crítico apenas concentração nos aspectos puramente musicais, assim com não se deve esperar de um Tolstoi uma escrita sobre a guerra e a paz, desligando o problema das pessoas que a fazem; ou de um Shakespeare, que deixe o palavreado sobre Hamlet, dedicando a prosa exclusivamente ao assunto da decadência das classes dominantes.

Ainda assim, Young, acha que escrever sobre música é um privilégio. E observar a reacção popular, na criação de alegria nos outros, através da música, confere um retorno idêntico, de satisfação garantida.

Portanto, escrever sobre música, leva poucas notas e muitos apontamentos à margem.

Numa vertente intelectual, um crítico serve-se de referências várias e alusões diversas, para conferir dimensão respeitável a meras opiniões, subjectivas, sobre o assunto que todos podem apreciar e alguns analisar, nas suas componentes.

Para definir de algum modo os termos da crítica musical, popular, em publicações a ela dedicadas, nada melhor do que isolar um músico e ler o que sobre ele e a sua obra escreveram os diversos críticos, de ambos os lados do Atlântico.

Tomemos o caso singular de Neil Young, um músico consensual e ao mesmo tempo respeitado pela crítica e pelo público.

Um dos críticos mais conceitiuados do meio, John Rockwell, do New York Times, definia assim a música de Neil Young, em 1977:

a quintessência do cowboy- hippie, solitário, um romântico indefectível em luta para contruir pontes de si para as mulheres e através destas, para os arquétipos cósmicos do mito e do passado.

Na Enciclopédia Ilustrada do Rock n´Roll, Janet Muslin, escrevia sobre Neil Young: “Com On the Beach de 1974 e Tonight´s n«the night e Zuma, ambos de 1975, a música progressivamente mais rudimentar, pouco mais fez do que reiterar o lado obscuro das suas letras. A sua renúncia ao artifício foi tão absoluta que não lhe deixou espaço tanto para o drama ou para a tensão.”

Em relação a estes dois escritos, verifica-se uma discordância imediata do crítico da Rolling Stone, Paul Nelson, (RS 11.8.1977) outro dos conceituados, que acrescenta, no mesmo passo, contrariando esta asserção opinativa:

Ora bem. Não. A menos que se compreenda a trilogia On the Beach/ Motion Pictures/Ambulance Blues, de On the Beach e Don´t be denied, de Times Fades away, não se poderá escrever de modo inteligente, sobre Neil Young. Mas logo que alguém compreenda estas canções, começa a perceber a possibilidade excitante de que talvez Young seja o primeiro ( e único) pós-romântico do rock n´roll.

Sobre Neil Young, Tony Palmer, no livro All you need is love, escreve…nada, para além de uma pequena legenda numa foto de página, dedicada aliás, aos CSN&Y.

Porém, a comparação das críticas do New Musical Express, e da Rock & Folk, sobre o mesmo disco de finais de 1977, Decade, uma recolha de temas de discos anteriores, permite de alguma forma perceber a diferença entre a crítica anglo-saxónica ( no caso, inglesa) e a francesa.













Este tipo de crítica, como pode classificar-se?

Dave Marsh, um dos crítico mais relevantes, na Rolling Stone, de 16.12.1976, depois de apontar os epígonos da crítica rock americana ( Robert Christgau, Jon Landau, Paul Nelson e o próprio Dave Marsh) escreveu um artigo sobre a “crítica aos críticos”, da música popular, onde dizia que “ pouca crítica rock respeita à música, porque a maioria dos críticos de rock, está menos preocupada com o som do que com a sociologia. Isso pode ter consequências deprimentes. Por exemplo, o sucesso de Springsteen, é definido em termos do seu culto crítico, imaginário punk, ou o seu dramatismo em palco. Raramente, alguém discute o seu uso inventivo da estrutura das canções ( múltiplas pontes, por exemplo) os seus extraordinários efeitos de guitarra ou o poder simples da sua voz. Mas há uma boa razão para isso. A maioria do rock não vale a pena a discussão, excepto como fenómeno, resultado do trabalho num formato restritivo. Mas isso, prejudica a crítica, quanto tudo é visto como um evento e nada como arte.

Ou um grande negócio...

Num livro de 1977, Rock n´Roll is here to pay, ( em português, traduzido pela Caminho, em 1989, como Rock & Indústria) , Steve Chapple e Reebe Garofalo, dedicam algumas páginas a explicar o que era a revista Rolling Stone, um dos epítomes da crítica do rock.

Uma revista, “sem dúvida autónoma”, mas que não poderia ser tão grande e tão poderosa, sem a quantidade de publicidade da indústria da música , que a sustenta. E apontavam a sua ligação óbvia ao poder económico, numa perspectiva crítica ao capitalismo que a revista representava sem qualquer rebuço, mesmo entre os seus melhores escribas ( Hunter S. Thomson).

Um aspecto curioso, relacionado com a revista Rolling Stone e referido no livro Rolling Stone Magazine- the uncensored history, de Robert Draper e do ano de 1990, prende-se com Bruce Springsteen, precisamente.

O crítico Jon Landau, amigo de Jann Wenner, fundador da Rolling Stone, e onde aquele, aliás também colaborava, escreveu num jornal de Boston, o Real Paper, I´ve seen rock n´roll future and its name is Springsteen”.

O disco que saiu com a colaboração de Landau, Born to Run, teve honra de capa simultaneamente, na Time e na Newsweek,... na mesma semana ( 27 Outubro 1975)! Mas não na Rolling Stone ...e a explicação segundo aqueles autores, prende-se com inveja, pura e simples.













A revista Crawdaddy, a primeira revista americana a aparecer no mercado, sobre a música popular, numa perspectiva crítica ( portanto, para além da Billboard e da Cashbox), publicou nessa altura, no número de Outubro de 1975, uma capa, com um desenho estilizado, da cara do artista e o título: a star is born to run. E dez páginas no interior, profusamente ilustradas, em tom laudatório, assinadas por Peter Knobler, precisamente o editor da revista.

A Rolling Stone, nem nesse ano, nem nos seguintes, dedicou uma capa sequer, a Bruce Springsteen. A primeira vez, que Springsteen, fez a capa da R.S. foi em Setembro de 1978, no número 272.

A crónica a Born to Run, apareceu no número de 9.10.1975, assinada por Greil Marcus, outro dos monstros sagrados da crítica, autor de um dos melhores livros sobre a música rock: Mistery Train, de 1975, precisamente.

Na crítica da revista, Greil Marcus, estende num artigo de página inteira, uma análise crítica, exemplar do estilo Rolling Stone.

No outro lado do Atlântico, a Rock & Folk, dedicava a sua abertura de crítica de discos, do número de Novembro de 1975, ao mesmo disco.

Que diferenças se podem capturar, nesta crítica, de meia- página , assinada por François Ducray, um dos peso- pesados da revista e naquelas duas, das revistasa americanas?

Que diferença estilística e de conteúdo se alcança nas duas escríticas?

Só lendo. E lendo, percebe-se logo porque prefiro os franceses a escrever sobre a música americana, do que estes no seu próprio meio. A riqueza de análise, salta para fora do microcosmos da cena americana e das comparações comuns, de Springsteen a Dylan. E as referências a outras paragens, alarga o imaginário crítico, ao escrítico francês.














É esta a principal razão, da minha preferência pela rock-crítica francesa: não ficar a mirar a larga paisagem americana ou a confinar-se ao ambiente do smog inglês.

O resto, delineado a preceito, remete para tudo o que um leitor crítico pode atingir em plano de igualdade com qualquer crítico: o gosto musical estrito e referido às notas das pautas.

A leitura das revistas sobre música popular, como sejam as apontadas, é um todo, em que a "leitura" das imagens, publicidade e arranjo gráfico, dos temas, se conjuga para dar um tom geral à publicação.

As entrevistas aos "artistas", por exemplo, assumem um lugar de relevo nestas publicações e são célebres as entrevistas de Jonathan Cott, da Rolling Stone. A entrevista a Bob Dylan que aquele fez, em 1978, para a R.S. poderia comparar-se com a entrevista de Craig Mcgregor, ao mesmo artista, em Abril de 1978 no New Musical Express, de 22 de Abril desse ano.

Para além das entrevistas, os artigos de fundo, sobre músicos e música, neste caso popular, assumem importância fundamental, quando abrangem géneros musicais ou artistas de relevo certo. Lembro-me dos artigos na Rock & Folk, sobre os Rolling Stones, sobre os Pink Floyd, Sobre os The Who; Steely Dan, Chicago, Cars, e muitos outros. Sobre os Beatles, por exemplo, no número de Novembro de 1976, um número especial e de grande impacto documental, sendo a primeira vez que tive oportunidade de ler algo sobre a obra completa dos Beatles, até então, com uma recensão crítica de todos os seus discos, com o esta que se deixa em imagem.













Em resumo, se fosse escolher qual a revista intelectualmente mais marcante, mas informativa, mas divertida até, no panorama musical do rock e do pop, nunca teria qualquer dúvida em afirmar que essa revista foi a Rock & Folk.

A Rolling Stone, tinha o glamour próprio das grandes americanas. A Crawdaddy, idem.

Porém, os ingleses, com os seus jornaizinhos semanais, embora de grande impacto na cena musical local, apesar de tudo, nunca lograram publicar artigos documentados ou ilustrativos daquilo que no fim de contas, constituia o seu património artístico, no campo da música popular.

Os franceses, encarregaram-se de fazer o trabalho estético por eles. Felizmente. E isso parece-me uma evidência que dispensa demonstrações elaboradas.


segunda-feira, 12 de maio de 2008

Hot Tuna


Primeiro o nome, era logo esquisito. Hot Tuna, soa bem e saberá melhor como comida de restaurante do sul. Mas também soa a música sulista, elitista qb.

Como habitualmente, o nome surgiu antes da música, porque os discos dos Hot Tuna, não tinham curso livre e corrente em Portugal, quando sairam. Em França, sim. E a revista Rock & Folk, dava-lhes o destaque devido, por causa dos dois nomes que compunham no grupo: Jorma Kaukonen e Jack Casady, ambos saídos do Jefferson Airplane, dos anos sessenta e da música que praticavam.

Assim, coloca-se-me uma dúvida acerca do momento preciso, no tempo, em que tomei conhecimento pela primeira vez, dos Hot Tuna e da existência de uma música em modo bluesy, tocada em acústico e eléctrico desfasado pela distorção harmónica de Jorma Kaukonen.

Em Dezembro de 1974, a Rock & Folk, trazia a recensão crítica de Quah, de Jorma Kaukonen, mas na altura, o nome dizia-me tanto como o da crítica ao lado, no caso, Emmanuel Booz. E no entanto, esse disco viria, anos depois, a figurar entre os melhores discos que me foi dado a ouvir, na música popular.

Assim, a primeira exposição solar aos Hot Tuna, deu-se em Novembro de 1975, com um artigo de seis páginas na Rock & Folk. Texto, sem música, porque esta veio muito depois. E ficou a pulga atrás da orelha: o primeiro disco dos Hot Tuna era inteiramente acústico e o segundo, acusticamente eléctrico. Só esta palavra, suscitava toda a atenção: um grupo do sul, a tocar country-blues em modo acústico, era para se ouvir, tendo em atenção que o próprio Jorma declarava à revista que era assim que sabia tocar e que só aprendeu a tocar eléctrico no seio dos Airplane. Uma das canções de Bark, poderia ser dos Hot Tuna: Third week in Chelsea que andei anos a fio para ouvir.

A primeira canção do primeiro álbum, um disco ao vivo saído em 1970, intitulado, Live at the New Orleans House, Berkley, é Hesitation Blues, seguida de outras duas com terminação em blues. O disco, esse, só foi ouvido, na década de noventa, quase vinte anos depois de o ter lido nas páginas da Rock & Folk.

O primeiro disco que comprei, dos Hot Tuna, foi o LP Burgers. De 1972, é considerado um dos discos referênia do country rock. Antes de o arranjar, já ouvira no rádio de António Sérgio, em 1978, o grande disco ao vivo, Double Dose. Uma dose dupla de blues, em aquecimento acústico e em desenvolvimento eléctrico a seguir, abrangendo os temas dos álbuns anteriores e ainda Embryonic Journey, dos Jefferson Airplane.

Possivelmente, foi a passsagem de Double Dose que me ofereceu a oportunidade de ouvir a essência dos Hot Tuna e de ficar à espera dos discos restantes que final tinha saído todos antes desse. Discos míticos, foram reeditados em cd, pela BMG, muito tarde, já nos anos noventa. E nem todos o foram. Double Dose, precisamente, ficou para trás e ainda cortado de temas essencias, por causa do tempo do disco não caber integralmente no formato cd. Um deles, Hoppkorv, foi mesmo reeditado, apenas em 1996. A canção cortada, foi precisamente a que servia de introdução à música dos Hot Tuna, na minha memória: Killing time in Cristal City , com mais de seis minutos e que António Ségio apresentava num tom de voz cava e a lembrar que a dupla dos Hot Tuna, costumava aquecer a audiência, com uma sequência de números acústicos, antes de intoduzir a electricidade incandescente na sonoridade poética dos blues em modo country.

Antes disso, no início dos anos oitenta, tive a sorte de ouvir e gravar do rádio, o disco de 1974, Quah!, não dos Hot Tuna, mas de Jorma Kaukonen a solo, com a participação de Tom Hobson e produzido por Jack Casady.

O disco, durante anos a fio, ficou no ouvido, por causa da beleza especial das músicas, distinta da dos Hot Tuna, e predominantemente acústica, diversificada do habitual blues, mas com incursões do folk, gospel e até havaiana. Desde a introdução, com Genesis, até à conclusão, com Hamar promenade, o disco é um sonho de sons únicos na música popular. Um disco nostálgico antes do tempo, mistura orquestração com a sonoridade das cordas secas e a voz de Kaukonen, numa fantasia sonora que nunca deixou de me encantar. Não conheço outro disco que me provoque o mesmo efeito, ao ouvir que este.

Em finais dos anos oitenta, o LP foi reeditado pela Relix records, reproduzindo a capa original e em 2003, a versão em cd saída na mesma época, foi remasterizada pela RCA, com grande cuidado, ao ponto de se assemelhar à sonoridade do LP, com a vantagem de trazer quatro canções de bóuns, gravadas na mesma altura que as do LP original, ou seja nos anos 1972-74.

Como habitualmente na música de Kaukonen, alguns temas, são de um músico negro, do country-blues, o reverendo Gary Davis, como por excemplo I´ll be allright

. Porém, as composições essenciais do disco, a saber a inicial, Genesis, passando pela belíssima Song for the north Star e pela não menos belas , I´ll let you know before i leave ( instrumental), a etérea Flying Clouds , são de Kaukonen.

Depois de ouvir Double Dose e o acústico Quah, e ainda Burgers, foi-me dada oportunidade de recuperar todos os outros, antes lidos na imprensa musical francesa: Phosphorescent rat, de 1973; America´s Choice, de 1975; Yellow Fever, do mesmo ano, e Hoppkorv, de 1976. De todos, prefiro o primeiro, Phosphorescent rat. Todos, encontram uma excelente compilação no duplo ao vivo, mas na versão LP.

Os temas de luxo dos Hot Tuna, são, por ordem aleatória: Watch the North wind rise ( Hoppkorv); Letter to the north star, Soliloquy for 2 ( Phosphorescent rat); Sleep song e hit single #1 ( America´s Choice); Barrroom cristal ball ( Yellow fever); Hesitation Blues e Death don´t have no mercy ( primeiro); I can´t be satisfied e song for the stainless cymbal ( Hoppkorv); True Religion, Keep on truckin´, ( Burgers). Todo a dose dupla, ao vivo e todo o quah.

Em 1976, o grupo veio a França, ao festival de Nimes, no Verão. Em dois números, o de Setembro e o de Outubro, a Rock & Folk, deu-lhes o destaque da capa e de uma entrevista, na qual voltavam a referir a canção Third Week in Chelsea e a opção pela música acústica.

Nos anos a seguir, Jorma Kaukonen e os Hot Tuna, continuaram a publicar discos, alguns deles ao vivo. Nenhum deles, se aproximou dos publicados até ao final da década de 70.

domingo, 11 de maio de 2008

Reggae


Reggae. Música da Jamaica. Rock partido em batidas sincopadas. Faz agora trinta anos que escutava com toda a atenção e gosto, Kaya, de Bob Marley, talvez o primeiro disco de reggae, a ouvir com interesse inteiro e em modo repetido, na gravação que então fiz do rádio. Talvez o melhor disco de reggae, para mim. Desde a faixa de abertura, Easy Skankin´, até ao final, são dez canções perfeitas de música da Jamaica, feita em Londres.

Mas, o reggae, como ritmo e género musical distinto de outros, já tinha chamado a atenção, alguns anos antes.

Em 1971, Jimmy Cliff, tinha cantado uma versão da canção Wild World, de Cat Stevens, em ritmo reaggae. Foi essa, talvez, a primeira exposição ao ritmo quebrado, mesmo sem perceber a especificidade do requebro.

Em 1972, o mesmo Jimmy Cliff, assinava a banda sonora de The Harder they come, mas essa música excelente passou despercebida, na época.

Só em 1974, com a sonoridade estranha de Ken Boothe, no tema Everything i own, de David Gates dos Bread, voltou a menção explícita ao ritmo sincopado e no ano seguinte, a canção No Woman no cry, de Bob Marley, cantada ao vivo no Lyceum de Londres, era um êxito...pop. Como o foi o disco 461 Ocean Boulevard de Eric Clapton que aproveitou a onda reggae, para lançar I shot the sheriff.

Porém, foi em 1975 que o tipo exacto de canções reggae, despertou atenção, no quase deserto de exemplares originais, disponíveis. Bob Marley, era uma referência, como o era Jimmy Cliff. E foi outra vez, através das revistas que ouvi o som reggae original. Na Rolling Stone de Setembro de 1975, já se falava na explosão reggae.

Por isso, com naturalidade, em 1976, o êxito de Junior Murvin, Police & Thieves, precedeu o estalo da new wave, nos anos seguir. Em 1977, Althia & Donna, cantavam no rádio Uptown Ranking. E de repente, o reggae aparecia em todo o lado, nas músicas de singles, da época.

Elvis Costello, Ian Dury, até os Police. Até os 10 cc, com Dreadlock Holiday. Até os Rolling Stones, com Cherry oh baby, de 1976 ( Black & blue).

Por isso, na primavera de 1978, ouvir Is this love, de Bob Marley, no rádio, já era um prazer conhecido. No anto anterior, passara Jammin e Waiting in vain, do disco Exodus. Em 1978, o disco Kaya, tornou-se o clássico do reggae normalizado.

No final desse ano, outro disco grande de reggae, sairia para o mercado: Bush Doctor de Peter Tosh, com Mick Jagger, e o tema Gotta walk. E com a dupla rítmica que iria marcar a década seguinte, na música popular: Robbie Shakespeare e Lowell Sly Dunbar.

Só à conta desses dois, se ouvem os discos de Dylan dessa época. Por exemplo, Someone gotta hold of my heart, de 1983 que viria a figurar em Infidels, com outro nome ( tight connection ).

Na década de oitenta, ainda, o destaque no reaggae vai para uma banda inglesa, com nome de impresso de desemprego: UB 40.

E só nessa década, ouvi o êxito da Jamaica, antigo, pop e autêntico percursor do reggae: my boy lolipop.

As histórias do Rock

O rock, enquanto história contada, tem alguns autores consagrados. Um deles, é Tony Palmer, que em 1976, publicou All you need is love, um dos livros básicos, para qualquer neófito se inteirar da história dos blues ao bluegrass.

Em 1978, o livro poderia ter servido de banda escrita, para acompanhar a banda sonora, da série que passou nas tv´s, incluindo Portugal. Agora, tal série, acaba de ser publicada em dvd.

Na época, a revista francesa Rock & Folk, dedicava uma das suas páginas da secção Erudit Rock, no mês de Dezembro 1978, ao debate, sempre aberto, acerca da melhor obra escrita sobre a música popular.
Escrevia o erudito, a uma pergunta de um leitor, que a obra de Tony Palmer, merecia atenção, por ser uma das melhores de sempre, no aspecto documentário. Criticava porém, a atenção de miscelânia que levava à mistura de géneros, incluindo o rock e perguntava-se o que teria Judy Garland ou Bing Crosby, a ver com Jimmy Page ou Jimmy Hendrix.
Para os eruditos franceses, por isso, a melhor história do rock, até então, era um volume da revista Rolling Stone, saído também em finais de 1976 e intitulado, "The Rolling Stone Illustrated History of rock n´roll".





















No mesmo número da Rolling Stone, de 16 de Dezembro de 1976, pode ver-se o anúncio ao livro de Tony Palmer e ainda ao volume da revista, sobre o mesmo tema e que os franceses, consideravam o supra-sumo porque integrava os escritos de diversos críticos de alta craveira: Nick Kohn, Jon Landau, Lester Bangs, entre outros. Consideravam ainda que o livro continha o necessário a uma obra do género: informativa ao extremo, sintética mas analítica no global, plena de paixão, mas também de lúcido espírito crítico.