domingo, 11 de maio de 2008

As histórias do Rock

O rock, enquanto história contada, tem alguns autores consagrados. Um deles, é Tony Palmer, que em 1976, publicou All you need is love, um dos livros básicos, para qualquer neófito se inteirar da história dos blues ao bluegrass.

Em 1978, o livro poderia ter servido de banda escrita, para acompanhar a banda sonora, da série que passou nas tv´s, incluindo Portugal. Agora, tal série, acaba de ser publicada em dvd.

Na época, a revista francesa Rock & Folk, dedicava uma das suas páginas da secção Erudit Rock, no mês de Dezembro 1978, ao debate, sempre aberto, acerca da melhor obra escrita sobre a música popular.
Escrevia o erudito, a uma pergunta de um leitor, que a obra de Tony Palmer, merecia atenção, por ser uma das melhores de sempre, no aspecto documentário. Criticava porém, a atenção de miscelânia que levava à mistura de géneros, incluindo o rock e perguntava-se o que teria Judy Garland ou Bing Crosby, a ver com Jimmy Page ou Jimmy Hendrix.
Para os eruditos franceses, por isso, a melhor história do rock, até então, era um volume da revista Rolling Stone, saído também em finais de 1976 e intitulado, "The Rolling Stone Illustrated History of rock n´roll".





















No mesmo número da Rolling Stone, de 16 de Dezembro de 1976, pode ver-se o anúncio ao livro de Tony Palmer e ainda ao volume da revista, sobre o mesmo tema e que os franceses, consideravam o supra-sumo porque integrava os escritos de diversos críticos de alta craveira: Nick Kohn, Jon Landau, Lester Bangs, entre outros. Consideravam ainda que o livro continha o necessário a uma obra do género: informativa ao extremo, sintética mas analítica no global, plena de paixão, mas também de lúcido espírito crítico.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

O som das músicas

A revista Música & Som, apareceu no mercado português, em Fevereiro de 1977. Não se pode dizer que tenha sido uma grande pedrada no charco da imprensa musical da época, mas na verdade, foi-o, porque em 1974, com o advento da Revolução de Abril, as revistas e jornais musicais, como a Mundo da Canção e o Disco, música & moda, perderam o peso específico, que tiveram durante alguns anos, como veículos de crítica musical e fonte de notícias sobre a música popular.

Em 1977, a carência era grande e quando o primeiro número da revista se apresentou, com uma capa duvidosa, em que figurava um cantor de teenagers, belga e insuportável, de nome Art Sullivan, ao lado de Bob Dylan, o pior era de temer.

Apesar disso, a ficha técnica da revista, dava algumas garantias de qualidade mínima e o primeiro disco em análise na revista, foi Blue Moves, de Elton John que então passava assiduamente no rádio, num texto assinado por João David Nunes, precisamente um nome de vulto no rádio de então.

Nos meses seguinte, porém, alguns números foram importantes. Por exemplo, em Junho de 1977, a par de um artigo sobre os Supertramp, o disco em análise, é simplesmente um dos maiores discos de sempre da música popular brasileiras, cantada em português por Taiguara.

O disco Imyra, Tayra, Ipy que nunca foi reeditado em cd ( excepto numa edição obscura, no Japão), é uma perfeita maravilha.













Na mesma revista, aparece uma referência fotográfica ao grupo alemão, Can, de um rock mais que progressivo e que ajudaram então a definir a minha moda de vestir. As camisas de rugby, listadas a verde e azul ou vermelho desmaiado e azul, como se vê na imagem, ainda hoje são um must have que não dispenso de ver e tentar descobrir.

Por outro lado, a revista, no início de 1978, tornou-se o único local onde podia ver alguma coisa relacionada com a minha revista fétiche: Rolling Stone.

No mês de Fevereiro de 1978, começava a publicação de artigos e notícias em serviço especial, por acordo com a revista norte-americana.


Ainda hoje não sei se não terá sido por isso que a revista desapareceu do panorama revisteiro português, desde o mês de Junho de 1977. O último número que comprei, foi o que tinha o actor Robert Niro na capa.

Por isso, passaram-me ao lado os números especiais dedicados à morte de Elvis Presley e a capa desenhada por Andy Warhol, de Outubro desse ano. Assim como me escapou o número comemorativo do XX aniversário da revista, publicado em 15 Dezembro de 77.

Porém, o número que me faltou mais, durante anos e anos a fio, foi o de 26 de Janeiro de 1978, com capa de Annie Leibowitz e foto em grande plano de Bob Dylan que nesse número e no seguinte, dava uma extensa e interessante entrevista, a Jonathan Cott, um dylanologista de mérito. O certo é que a revista só voltou a aparecer nos quiosques que frequentava e eram muitos, desde o Porto até Coimbra, passando por Lisboa, de vez em quando, em Ab ril de 1978.

E era tanto maior a minha pena em não apanhar a revista, quanto agora sei, como então prenunciava que a publicação, vivia os seus anos de ouro, ou mais que isso. Cada número , era uma descoberta, um delírio gráfico e uma maravilha de textos assinados pelos melhores críticos da música popular, para não falar das fotos de Annie Leibowitz.

Enfim, como quem não tem cão, para caçar, procura gato para o efeito, a circunstância de a Música & Som, ter começado a publicar exclusivos da Rolling Stone, servia de lenitivo à dor de carência, já então grave e sem remédio nem metadona substitutiva, a não ser a Crawdaddy e a Rock & Folk que lá iam servindo de alívio na dependência grave.

Assim, em Abril de 1978, lá publicou a Música & Som, a entrevista com Dylan, saída originariamente na R.S. Sem o glamour desta e sem o tratamento gráfico conveniente. Ainda por cima, a Rock & Folk, publicava no mês de Julho de 78, uma capa com um desenho de Jean Solé, reproduzindo a foto de Annie Leibowitz e relatando um concerto de Dylan nos USA, através do correspondente permanente, Phillipe Garnier. Imbatível, neste exercício de escrita.













Ainda assim, a Música & Som lá cumpria os mínimos no que se referia à música que nos dizia directamente mais respeito.

Em finais de 1977, publicitou um concurso em que “toca a todos”, desde que enviassem um texto, ensaio ou desenho. O prémio para o desenho ,era uma viola acústica, clássica e espanhola, da marca Almeria. Ora, eu já tinha a minha adorada Kiso-Suzuki, mas queria desenhar e ganhar o prémio e desenhei um tema proposto: Eric Clapton .

Fui aos arquivos de jornais, copiei as imagens de sequência cronológica e gastei horas a desenhar com todo o cuidado a lápis e depois a passar tudo a tinta da china, com pena gráfica fina e precisa. O desenho ficou bom. De se ver ao longe e apetecer guardar. Mandei, no fim do ano, para o concurso.

Em Fevereiro de 1978, ao folhear a revista desse mês, reparei nesta página, depois de ma assinalarem. Fiquei satisfeito, mas desiludido com o resultado gráfico, na revista. O original, onde para? Alguém o deitou fora?
Bem gostava de saber.


domingo, 27 de abril de 2008

A Face dos ingleses

A revista Face, apareceu nos quiosques, em Maio de 1980. Com a new wave e as músicas revivalistas do ska dos Madness e Specials em dois tons a que se seguiu o tropicalismo de August Darnell e os Kid Creole e as novas tendências de moda inglesa que desabou em Culture Club e quejandos Smiths. Os New Order, também tinham lugar, no novo grafismo inventado por Neville Brody, sob a direcção de Nick Logan.


Algumas capas da Face mereciam a compra. Raramente, os artigos, tinham tanta qualidade como as fotos. Os anos oitenta, representaram uma época de glamour e esperança num futuro europeu.
Até ao final dos oitenta, a revista, aguentou um estilo, associando uma moda ao grafismo de época, sendo certo que começou por imitar os anos cinquenta. Nas cores e no arranjo de páginas. Acabou depois, sem brilho especial, na amálgama dos noventa.































































Em Novembro de 1983, num sinal de pan-europeismo, oito revistas de outros tantos países da Europa, entenderam-se para publicar um número em comum, com capa quase igual, onde predominam o azul e branco: um(a) bebé sorridente e nortenha, enfiada num blusão de ganga, de cabeça para baixo. A Face, era uma delas.
A revista francesa Actuel, outra, ainda sob a batuta do seu antigo director, Jean-François Bizot, falecido recentemente, revista herdeira da antiga versão anarquista, dos anos sessenta-setenta, tinha esta capa que em baixo se mostra. A espanhola, chamava-se El Víbora e tinha sido em tempos, uma revista de Banda desenhada para adultos...
Em comum, as oito partilhavam uma visão idílica e exaltante, duma Europa sem fronteiras e num artigo de Patrick Rambaud, escrevia-se assim:

Desde a idade do bronze até às deprimentes fronteiras modernas, a Europa apenas existiu através dos artistas e comerciantes. A partir do momento em que um soldado se intromete, a Europa esfrangalha-se e fecha-se na concha. Exagero? Abram um atlas histórico e procurem os mapas que figuram a Europa. Os mapas políticos reduzem as nossas regiões a puzzles. Estudem antes os mapas que nos falam da difusão das artes e mercadorias: a arte romana mostra-se desde Winchester a Cefalu, corre de Trondheim, mesmo ao Norte, até Salamanca, tudo ao Sul, Bordéus a Oeste, Zsambeck a Este. Idem para a expansão gótica. A irradiação do baroco abrange mais tarde todas as cidades que se tornaram as nossas capitais. Quanto às grandes feiras do séc. XIII, realizam-se ao mesmo tempo em Novgorod, Francforte ou Troyes.
A Europa, por vezes manifestou-se apesar de Carlos V, apesar de Frederico II e apesar de Bonaparte. Os verdadeiros europeus, são Henrique, o Navegador, os burgueses de Anvers e os de Lyon, Giotto, Newton, Casanova, Mozart o nomada, Goethe, ou o escocês John Napier que inventou os logaritmos..."























Nesta imagem supra da Europa, publicada nesse número da Actuel, a Portugal cabem as sardinhas. E aos espanhóis, a paella.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

A capa mais sexy


Capas de discos. A mais sexy? Tirando as de compilações, tipo Fausto Papetti, na música popular, há poucas. Curiosamente, a música popular, em capas de LP´s , foi sempre um pouco recatada nos costumes.
Para mim, a mais sexy das que conheço, é esta que figura acima, dos Jackson Heights, do LP Bump n´Grind, de 1973.
O disco contém uma pérola sonora, uma das melhores canções desse ano: I could be your orchestra. Só por si, vale o disco. E mesmo a capa.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

O som nosso de cada dia

O primeiro disco dos Secos & Molhados, um grupo brasileiro, liderado pelo português João Ricardo, tem sido comentado por aqui.
Então, aqui fica o artigo da revista Cinéfilo, de 6.4.1974, no qual um jornalista ( e que afinal, ao contrário do que sempre pensara, não é brasileiro, mas bem português) , James Anhanguera, então por cá e autor do livro Corações Futuristas, ( Regra do Jogo, 1978), escrevia sobre o grupo que publicou esse disco notável e um grande sucesso na época.








































A revista Cinéfilo, aliás, foi uma das mais importantes revistas portuguesas de sempre, no capítulo das artes, cinema, espectáculos e música. Aparecida em 1973, semanal, tinha um aspecto gráfico , da autoria de José Araújo, que era simplesmente fantástico, para o panorama nacional da época. E passados 35 anos, continua a ser um modelo. A Face, inglesa, dos anos oitenta, fica atrás, para mim. O que é dizer pouco de Peter Saville...

domingo, 6 de abril de 2008

Van der Graaf Generator


As duas imagens acima, estão separadas por trinta anos, pelo menos. É o tempo, a passar...

Os Van Der Graaf Generator, tinham concerto aprazado em Gouveia(!), neste fim de semana. O mítico grupo de Manchester ( começou na universidade local), foi sempre um dos meus preferidos, no chamado rock progressivo. A par dos Gentle Giant e dos King Crimson.

Mas os Van Der Graaf, além disso, tinham um nome mais apelativo e uma imagem fugidia que os remetia para a categoria de mito.

No início do ano de 1975, a revista francesa Rock & Folk, escrevia artigos curtos, mas de louvor intrigante, citando temas e discos anteriores que nunca ouvira e que apetecia encontrar. Em Abril de 1975, o crítico Jean Marc Bailleux, relatava que tinha ido até Nova York no encalço do primeiro disco do grupo, atrasado seis anos, em França, e publicado apenas nessa altura. Uma crónica destas, impressiona.

Em Junho do mesmo ano, uma outra crónica no jornal inglês New Musical Express, dava conta dos espectáculos do grupo em...Paris. A imagem associada ao artigo do jornal, foi talvez a primeira que me permitiu ver a cara dos músicos.

Em Dezembro de 1975, a revista francesa Best, publicava quatro páginas com letras de músicas antigas dos VDGG e ainda do novo disco, GodBluff. Com imagens que eram as primeiras a cores, que via, dos membros do grupo, como esta que segue.

Ouvi a música dos Van Der Graaf Generator, pela primeira vez, em meados dos anos setenta. Talvez no início de 1975, mas é possível que tenha sido no final. Por uma razão prática: foi nessa altura que saiu o LP, Godbluff. E foi nessa altura que os VDGG dram vários concertos em paris, na sala Wagram. Como documenta esta foto.

Embora o grupo tenha editado discos fundamentais, até essa altura, e que só ouvi anos mais tarde, por não estarem disponíveis no mercado corrente, foi em finais de 1975 que comecei a ouvir os acordes iniciais de Godbluff que recordo como se fosse hoje.

Na rádio desse tempo antigo e memorável, à noite, por vezes, começava a ouvir-se um som de sopro repetido, seguido durante segundos por um de teclados e uma voz que sussurava “here at the glass...”.

Depois de o escutar por várias vezes, apresentado por Jorge Lopes ou Fernando Balsinha, adeptos do progressivo passado em disco integral, no RCP, corria para o gravador para apanhar o máximo. E o máximo que consegui apanhar nesse tempo, foi o que se passava a seguir a “...farce”. Faltava sempre gravar as duas frases anteriores- “Here at the glass-all the usual problems, all the habitual...farce”. Embora a versão do disco seja superior, pode ouvir-se ao vivo no You Tube. Assim, doutro modo, era o Undercover man.

E a seguir, era o nirvana musical até ao fim do disco, com os Sleepwalkers. Esses temas, continuam a ser, ainda hoje, alguns dos que consigo cantar integralmente, com a letra decorada e tudo. Dezenas e dezenas de audições, nunca lhes subtraíram um átomo de maravilha.

Em finais de 1975, começava a aprender as primeiras noções do que era o Direito. Preferia, sem dúvida alguma, passar na montra das discotecas da baixa de Coimbra e mirar o LP. De capa preta e com um carimbo a vermelho, a dizer, “Godbluff”.

Como não tinha gira-discos, ouvia com gravador portátil. E chegava, nesse tempo. E pedi a uma amiga que comprara o disco para me deixar fotocopiar as letras, impressas na capa interior. Uma fotocópia que na altura ainda cheirava a um odor de fotocópia tipo xerox e que ainda guardo.

Poucos meses depois, na Primavera de 1976, porém, saía o melhor Lp do grupo. Still Life, captou a minha atenção, depois de ter lido na revista Best, alguns dos temas de discos anteriores, incluindo Killer e Man-erg, dois monumentos do rock progressivo britânico e que só ouvi alguns depois, já na década de oitenta e um ou outro, na de noventa.


Por esse tempo, os VDGG já tinham conquistado o interesse total, de modo que a visão do LP, no escaparate, foi como uma visão de um quadro modernista, de um pintor do início do século passado: um deslumbre. Nessa época, os LP´s de música de qualidade tinham lugar de culto nas discotecas especializadas e esse foi dos primeiros discos que me apeteceu comprar só para ter o guardar. Acabei por o arranhar, anos depois, em prensagem original.

A audição desse disco, no Outono de 1976, nas noites de auscultadores, suscitou desenhos, sonhos e lembranças sonoras de grande impressão. Os temas são todos de grande qualidade e o final, grandioso, concentra toda a temática das letras de Peter Hammil: a vida e a morte, com o transcendente por perto. A experiência de audição desses temas, nessa altura e nessas circunstâncias, será provavelmente a mais aproximada, ao transe experimentado pelos adeptos dos paraísos artificiais.

O começo, com órgão ondulante parte para um ritmo encantado, em poucos compassos. O tema My Room, apenas com secção rítmica, saxofone e voz, é uma pequena maravilha de concisão temática e de melodia inesquecível. Um tema de grande luxo sonoro, ouvido repetidas vezes, sempre com grande prazer auditivo.

A música dos VDGG, prescinde, na maior parte dos temas, da guitarra do rock, para dar preferência aos teclados de Hugh Banton e principalmente aos instrumentos de sopro de David Jackson, a grande figura do grupo, a par de Peter Hammil, autor das letras.

No mesmo ano de 1976, outro disco. World Record, alguns meses depois de Still Life, numa sucessão produtiva de qualidade impressionante, foi um disco escutado com o interesse redobrado pelas sensações anteriores de transe sonoro.

O tema final, grandioso, era um achado que nesse final de ano de 1976, soava como uma sinfonia ao novo mundo que em Portugal se prometia e que redundaria em fracasso a breve trecho.

No disco seguinte, de 1977, intitulado The Quiet Zone/ The Pleasure Dome, a experiência fantástica dos três discos anteriores, saía frustrada pela introdução da sonoridade de um violino. Apesar da expectativa, não consegui apreciar o disco , como apreciava os anteriores. O violinista, Graham Smith, do grupo String Driven Thing ( que chegou a vir a Portugal, salvo o erro), emprestava ao disco uma sonoridade não apetecida e por isso, espúria.

Os Van Der Graaf acabavam para o meu gosto, nesse disco.

Porém, faltava descobrir os anteriores. E que descobertas! Todos os discos anteriores, merecem a atenção particular do apreciador de música popular progressiva, a começar logo pelo primeiro.

Além disso, o líder Peter Hammil, entre 1971 e 1975, publicara discos a solo, tão ou mais importantes que os discos do grupo.

Em 1977, ouvia Nadir´s Big Chance. Uma descoberta que me satisfazia a sede de Van Der Graaf. Depois, nos anos oitenta e noventa ( o primeiro disco dos VDGG, The Aerosol Grey machine, foi publicado em cd, pela primeira vez, em 1997), foi a descoberta progressiva de toda a discografia anterior dos VDGG, um dos grupos que mais aprecio na música popular.

No mesmo ano de 1977, a revista Rock & Folk, no número de Agosto, publicava esta crónica de um disco sem referência de maior, a não ser o título The Long Hello e a menção a músicos dos Van Der Graaf.

O disco, ouvi-o uma vez, no rádio da época. Fiquei a lembrar-me de um dos temas, todo instrumental, aliás e com recortes jazzísticos.

Anos a fio, percorri discotecas, perguntei por referências, em vários lados do mundo. Graças á Rede e a este sítio de grande aficionado, descobri que o disco que vira a preto e branco na crítica da Rock & Folk, tinha afinal esta belíssima cor e era a versão francesa do disco que tem outras versões.

E este ano, graças ao ebay, comprei-o. Este mesmo, nesta versão e nesta capa. E ouvi-o, outra vez, tal como há mais de trinta anos tinha acontecido. E lembrava-me exactamente das notas do tema, tal como se as tivesse escutado ontem. Fantástico.



domingo, 30 de março de 2008

A Banda de Birmingham


I can´t get it out of my head. Esta música de 1974, dos Electric Light Orchestra, passava no rádio como uma sonoridade estranha, entre os êxitos da época.

Os ELO, criticamente, foram apresentados na época, como uma derivação directa da música dos Beatles, com exploração das variáveis abertas por I´m the Walrus. Tem alguma lógica, mas suplanta a comparação. Os ELO são ingleses e o núcleo fundamental, veio dos Move que tinha uma personagem interessante, que ficou de fora: Roy Wood.

Naquele tema e noutros que se seguiram, a secção de cordas, de uma orquestra clássica, misturada com os intrumentos eléctricos, emprestava um som esquisito a um grupo de rock. As sequências de acordes, levemente dissonantes, suscitavam a curiosidade ouvinte e puxavam a atenção a ouvir mais.

A abrir o disco, a Eldorado Overture, parecia uma banda sonora, de um filme de aventuras. Um Salteadores da Arca Perdida, antes do tempo.

A sequência em andante molto vivace, arrefecia o ímpeto, para dar o lugar sonoro, à voz que cantava logo...Midnight, on the water, em ondulações de vibrato.

A secção rítmica, misturada com os violinos e violoncelos, antes de Jeff Lynn cantar I can´t get out of my head, tornam esse tema musical, um dos mais apreciados da década de setenta e que ainda hoje perdura como interessante e sempre audível, como um clássico.

Os temas seguintes, confirmam o disco como um dos melhores de 1974. Logo no segundo título, Boy Blue, os metais que introduzem a música, conjugam com as cordas dos violinos, em pizzicato e retomando a atmosfera de banda sonora de filme de aventuras. Por altura do oitavo trecho, o rock n´roll, bem batido, lembra o ouvinte que se trata mesmo de um disco de rock.

Mesmo assim, no final, a impressão que fica do disco, é um pouco etérea e estranha, para uma obra de rock.

Quando o ouvi, em 1974, foi uma verdadeira surpresa e ficou estes anos todos, como um dos discos de referência de uma discoteca ideal.

Arranjei o LP, versão original, prensado em Portugal pela Rádio Triunfo, já nos anos oitenta. Depois disso, arranjei a versão em cd, dourado, da DCC Compact e ultimamente a versão remasterizada do cd.

A capa do LP é uma pequena maravilha de referências ao filme O feiticeiro de Oz, com os sapatos brilhantes, de Judy Garland, que remete para a estrada de tijolos amarelos, por sua vez remetendo para o disco de título homónimo , de Elton John, de 1973.

Dois anos depois, em 1976, já soavam novas melodias da Orquestra da luz eléctrica, com o disco New World Record. Do mesmo modo que o Eldorado, todos os temas, repetem as mesmas frases dissonantes, ao conjugarem os metais, as cordas e a sonoridade eléctrica da amplificação da guitarra. A versão do disco, em cd e comemorativa dos 30 anos, apresenta a versão instrumental dos temas que realçam a construção musical característica da banda.

Talvez por isso, Randy Newman, compositor americano, compôs em 1979, o disco Born Again, com o tema The Story of a rock n´roll band, dedicado precisamente, aos ELO e que começa assim:

They were six fine english boys; who knew each other in Birmingham"…acompanhado das variações harmónicas típicas, do grupo, inventando uma tonalidade menor, rebatuda na percussão, para o tema Telephone Line.

No final de 1977, com audição já em 1978, novo disco, duplo e de grande fôlego. Out of the blue, soava como os grandes discos duplos da época: uma sucessão de temas sonoros, com vários hits potenciais. O primeiro disco, ouve-se até ao fim, sem mudar de agulha ou trocar de faixa. O segundo, idem. É um disco que mantém, integrais, as qualidades dos dois anteriores. Com uma capa brilhante e apelativa.

Out of the blue, retoma o conceito gráfico do disco anterior, reformando a referência à decoração de juke box, num objecto voador não identificado, muito em voga na época.

Sucesso garantido. Audição deliciosa. No mesmo mês em que saía Never mind the bollocks, dos Sex Pistols e a compilação Decade, de Neil Young.

Em 1979, na senda do disco sound, um novo disco: Discovery. O ovni, transformado em lâmpada de aladino. Conceito de achado. A música, continua na maravilha, com vários temas de luxo, destacando-se Midnight Blue e Need her love.

Em 1981, o último disco com interesse da banda: Time, com dois temas de antologia: Rain is falling e The Lights go down.

Imagem de Eldorado, retirada da Rede; de Out of the blue, retirada de publicidade, na Rock & Folk de Dezembro de 1977.

sexta-feira, 21 de março de 2008

Mais música inglesa

Barclay James Harvest é um dos grupos ingleses cuja primeira audição, em 1974, aconteceu no rádio e no programa Página Um da Rádio Renascença, para mim o programa farol, da divulgação das novidades da música popular, em 1974 e 1975.

O tema Child of the Universe, do LP Everyone is everybody else, passava constantemente, no início de 1975. Tal como Mill Boys e Poor boy blues ou Negative Earth.

A música dos BJH, assemelhava-se a uma versão mais singela e menos pomposa da dos Moody Blues. De tal modo que havia quem os considerasse os Moody Blues dos pobres...

Porém, em 1975, esses temas a que se juntavam os do disco ao vivo, Live, desse mesmo ano, eram um regalo auditivo para os apreciadores das melodias e harmonias simples.

Segundo o animador do programa, Luís Filipe Martins, o disco ao vivo, apareceu na altura, com uma versão em quadrifonia, numa percursão do actual surround sound em 5 ou sete canais.

Ao mesmo tempo que passavam temas de Everyone, repescavam-se outros de discos anteriores, como de Once Again, de 1971. Mocking Bird e Galadriel merecem um ouvido atento.

No final desse mesmo ano de 1975, saiu o LP, Time Honoured Ghosts. Um disco que se escuta do primeiro ao último tema, como alguns dos Moody Blues, não se escutam...

Em 1976, o disco seguinte, Octoberon, já não tinha grande interesse, tirando a última faixa.

Time Honoured Ghosts, foi o disco que recuperei agora, na sua versão original, numa das lojas de Londres.

Na época, o jornal Melody Maker, inglês até mais não poder, ( e já desaparecido de circulação) anunciava o disco do modo que segue.

O mesmo jornal, na contracapa publicava um anúncio que sujava as mãos, com a tinta do jornal, a um disco dos Man, Maximum Darkness. Nunca ouvi esse disco, mas só pelo anúncio, sempre tive vontade disso. Uma guitarra Gibson SG ( a mesma usada, por vezes, por Frank Zappa) e um lettering da capa, a fazer lembrar o ilustrador Rick Griffin, autor do logotipo da Rolling Stone. Para mim, costumava chegar para ouvir um disco. Mesmo que fosse apenas a ler...ou a ver, como é o caso.


quinta-feira, 20 de março de 2008

Música inglesa ( do lado da Escócia)



No Outono de 1978, lembro-me bem de ouvir a música do LP City to City, de Gerry Rafferty.
O disco, vale todo pelas excelentes melodias e produção esmerada. O primeiro lado, ouve-se de fio a pavio, porque todas as canções são memoráveis, como num antigo disco dos Beatles.

Em 1978, Right down the line, fazia o pleno, da melodia com o ritmo e voz açucarada em tom mascavado, de Gerry Rafferty. Baker Street, de saxofone rompante, marca o disco como bem inglês, mas com sonoridades americanas, audíveis na belíssima Island, penúltima do lado dois do LP.

Durante vários anos, andei à procura da versão original do LP saído há trinta anos. Encontrei-o agora nos discos usados de Londres, perto de Portobello e não muito longe de Baker Street. E estou a gravá-lo em cassete, para ouvir como deve ser, quando entender, sem gastar o LP que ficará para gerações a seguir.
Belíssimo disco. Trinta anos em cima, nada lhe retiraram ao prazer auditivo que convoca. Tal como a revisão de Baker Street, tipicamente londrina e que ainda faz lembrar o tema Baker Street Muse, do LP Minstrel in the gallery, de 1975, de outro grande disco inglês: Jethro Tull



As imagens acima, foram retiradas da Rede.

As que seguem, foram retiradas das revistas Crawdaddy e Rolling Stone, da época- Agosto de 1978, um grande mês, de maravilhas inesquecíveis. A publicidade ao disco e o artigo crítico, referem também os Stealer´s Wheel, grupo anterior que gravou três discos entre 1972 e 75, com sucessos como Stuck in the middle with you e formado por Gerry Rafferty e Joe Egan .


terça-feira, 18 de março de 2008

Livros e discos de Londres

O périplo de Londres, pelos locais de livros e discos, precisa de guia. O guia fornecido pelo "filhote" e pelo "ié-ié", foi de utilidade certa, para encontrar os lugares exactos. Tal como em Paris, os sítios de venda de discos usados e antigos, se concentram no Quartier Latin, assim em Londres, se concentram alguns dos mais interessantes, em Notting Hill, com descida para Portobello Road.
Ao sair do Tube, com milhentos turistas em busca do mercado ao ar livre, depara-se logo com a imagem desta pequena livraria:


Bem perto, uma série de lojas do género. Na Soul & Dance, arranjei o disco de Smokey Robinson, Smokey, de 1973;


No mesmo sítio, em loja ao lado, vários discos, vistos pela primeira vez: Maria Muldaur e o Waitress in a donut shop, de 74; Chris Hillman e Slippin away, de 1976; Clifford T. Ward e Mantle Pieces, de 1973. Possivelmente, o disco que contribuiu para a vinda do artista, já falecido, a Portugal, no ano de 1974.
Ainda um disco de 75, dos Barclay James Harvest, Time Honoured Ghosts que contém o tema Titles, todo ele em colagem de letras de canções dos Beatles.
Um outro de 1978, de Gerry Rafferty, City to City e que contém, Baker Street.

Este disco de Gerry Rafferty, a par do London Town, é um dos mais memoráveis desse ano de 1978. Música mainstream, é certo. Perto da pop. Mas sempre presente, quando me lembro da época. Tenho o disco em cd e Lp, numa prensagem posterior. Precisava por isso, da original...


As duas imagens que seguem, mostram os sítios onde me perco, com maior facilidade: só depois de passar a pente fino todos, mas todos, os exemplares à vista, é que abandono o local. E que ninguém fale comigo, nessas ocasiões. Costumam ser momentos de transe. Deliciosos, claro.

Esta imagem que segue, é da livraria Hatchard´s, em Picadilly. As estantes à vista, são todas consagradas à música popular. Organizada por ordem alfabética. Não conheço nada mais completo, em lado algum. E ainda assim, faltam coisas.
A Hatchard´s tem cinco ou seus pisos. Como a Hatchard´s, ou quase, há outras livrarias em Londres. Entrei em algumas. É um mundo que Portugal ainda não conhece.