terça-feira, 16 de setembro de 2008

José Almada- os concertos de Cerveira





(Clicar na foto, para observar toda a beleza natural do local)

José Almada, tocou novamente para as pessoas que o quiseram ouvir, em Vila Nova de Cerveira, nos dias 13 e 14 deste mês que passa. No fim de semana passado, depois de no anterior, ter passado na Passarola de Lisboa, apresentou-se em Cerveira, no cimo de um monte sobranceiro à vila, onde um antigo convento franciscano, do séc. XIV, se aninha, recuperado das ruínas de séculos, pelo escultor José Rodrigues. O local, só por si, vale a visita e a deslocação propositada. José Rodrigues, o escultor e pintor, recuperou com grande qualidade e bom gosto, todo um edifício que transformou em museu e local de recolhimento para quem entender. Refugiado também nesse local, o escritor Luandino Vieira, responsável interessado por eventos culturais que aí decorrem, apoiou a iniciativa, esteve presente e bateu palmas. Tal como o dono do local.


O cantor José Almada, tal como um trovador, apresentou-se perante uma audiência de quase uma centena de pessoas, interessadas em ouvi-lo e que para aí se deslocaram propositadamente. Num ambiente de sala pequena, em fim de tarde, as canções de José Almada, soaram como têm soado nos seus concertos, nestes últimos seis meses: boa voz, bem colocada, com músicas que para quem conhece, ultrapassam por vezes a versão em disco, o que é dizer muito sobre um intérprete. O elenco do concerto do Convento, incluía um número alargado de canções já conhecidas, dos seus dois discos e uma ou outra inédita.

O alinhamento, logo desalinhado, incluía Em multidão; Cala os olhos vagabundo; Não, não me estendas a mão; Ah como odeio; Caracol; Ah como te invejo; Olhas as ovelhas como são; E a ovelha bale bale; Hóspede; Homenagem; Vento Suão; Anda madraço; Os anjos cantam; As aves choram; Pedro Louco; Mendigo e Perdigão perdeu a pena.


O trovador José Almada, foi cantando, no seu estilo particular, num ambiente sonoro de qualidade, acabando a actuação, com pedidos de "mais uma".
O concerto teve um ainda intervalo em modo de entremez que incluiu uma breve apresentação do poeta José Gomes Ferreira e alguma da sua poesia, pela professora de Português, Maria José, de Viana do Castelo.


No dia seguinte, à tarde e já na vila, em pleno "terreiro", perante o público das esplanadas e de quem se encontrava a passar e se deslocou de propósito, para a audição, aconteceu a surpresa destes dias: José Almada em concerto, em lugar aberto, resulta maravilhosamente. O que parecia à partida uma música intimista e de recorte trovadoresco, próprio de salão, transforma-se, no palco grande, numa música de auditório, com força suficiente para aguentar um espectáculo prolongado e de multidão.
Uma autêntica surpresa, em Vila Nova de Cerveira.
As canções soltam-se de outra forma, o cantor descontrai de modo visível e a música adquire autonomia diferenciada daquela dos espectáculos para algumas dezenas de pessoas.

José Almada, em Vila Nova de Cerveira, no dia 14 de Setembro de 2008, provou a quem precisaria de provas, que é um artista capaz de encher um auditório e encantar com a sua música quem se disponha a ouvi-lo, para além dos seus apreciadores indefectíveis e que conhecem o valor intrínseco das suas canções. Como eu. E outros.
Por exemplo o Eduardo F. que pode testemunhar isto que por aqui fica escrito, porque esteve presente, viu e ouviu.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

J.J. Cale


























JJ Cale.
Há trinta anos, a revista Rock & Folk trazia um apanhado da sua discografia até à altura e que se resumia a quatro discos fundamentais: Naturally, de 1972; Really, de 1973; Okie, de 1974 e Troubadour, de 1976, o primeiro que me chamou verdadeiramente a atençao por causa da capa etérea e de nuvens musicais.

Esses quatro discos a que se juntam os restantes três, saidos a seguir - Five, de 1979; Shades, de 1981 e Grasshopper, de 1982 ( o primeiro Lp que comprei, do músico, no ano em que saiu), são imprescindíveis na discografia de J.J. Cale.

Na sequência dos mesmos, gravei uma cassete com uma espécie de best of, dos mesmos. Assim, de memória, devo recordar Precious memories, de Okie; Call me the breeze e Don´t go to strangers, de Naturally; Hey babe, de Troubador e Love has been gone, de Shades.

Um disco saído recentemente, Rewind, vale a pena e é uma pequena maravilha, com músicas antigas do músico que influenciou Eric Clapton ( que gravou After Midnight e Cocaine) e Mark Knopfler ( deve-lhe um estilo).

As imagens, são da revista Rock & Folk de Outubro de 1978 e da Guitar Player ( foto de cima). 

ADITAMENTO em 27 de Agosto de 2013:

 Soube agora, pela revista Record Collector, edição de Setembro mas que hoje, 27.8.2013, comprei,  que J.J. Cale morreu no passado dia 26 de Julho de 2013, de ataque cardíaco, com 74 anos. O obituário da revista ocupa uma pequena coluna comuma pequena foto. J.J. Cale merecia a capa...

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Doc Watson, elementar

Imagem da Rock & Folk de Abril 1977, num artigo e entrevista a Doc Watson, de Jacques Vassal.




Não é fácil, para mim, neste percurso rememorativo da aprendizagem musical, em modo auditivo, fixar uma data para o interesse na música country de origem norte-americana.

Uma coisa é certa: foi através do rádio que tal gosto se plantou e me acompanha há longos anos. E no rádio dos anos setenta, apenas me lembro de uma figura com interesse contínuo nesse género musical: Jaime Fernandes, o dj, locutor de voz segura e sóbria que apresentava os discos de música country com paixão auditiva e a comunicava aos ouvintes.

Num desses programas variados, como o Dois pontos ou o Country, a música da América, passou o LP triplo Will the Circle be Unbroken, dos Nitty Gritty Dirt Band em conjunto com os maiores artistas da country da época- 1972.

O triplo álbum passou uma vez ou outra nesses programas e a beleza da sua música acústica, contagiou o gosto que sempre tive pelas guitarras acústicas, banjos e demais instrumentos de cordas.



Algumas das canções que lá estão gravadas pelos maiores artistas do género ( por exemplo Roy Acuff ou Earl Scruggs), como You are my Flower, Keep on the Sunny Side ou I am a Pilgrim, soam nas vozes dos elementos da NGDB, com destaque para Jeff Hanna ou o mentor do projecto, o multi-instrumentista virtuoso ( aqui com Arlo Guthrie) , John McEuen.





Entre os artistas consagrados da country que aparecem no disco, o destaque devido vai para Doc Watson, uma lenda desse género musical. O músico cego desde a infãncia, aperfeiçoou o estilo flat-picking, ao longo dos anos sessenta e nesse triplo LP, toca e canta em várias músicas, como Tennessee Stud, um clássico dos seus discos ao vivo. E toca o clássico da country Black Mountain Rag, num exercício de virtuoso em que os anos não diminuiram a habilidade de dedilhar , nesse estilo peculiar.



O nome ficou e depois disso, Lembro-me de ouvir uma composição de um disco de 1972, ao vivo, com o filho Merle: On Stage. A composição é daquelas que frequentemente me acorre à memória musical para cantarolar: Don´t let the deal go down, também tocado por outros grupos como os Flying Burrito Brothers, no Lp The last of the red hot burrito, também de 1972.

Depois disso, no início dos anos oitenta, procurei os discos de Doc Watson que por cá não havia.

Em França, importavam-nos da editora original, a Liberty e também a UA. E foi aí que consegui arranjar pelo menos três LP´s – Lonesome Road, de 1977; Live & Pickin´de 1979 e Doc and the boys, de 1981. Capas de cartão americano, bem impressas e de sonoridade em vinil de qualidade.




Depois do advento do cd, os discos principais, passaram a fazer parte do acervo comum, da música country que aprecio. Com particular destaque para Doc Watson in Nashville, de 1965 e um dos melhors discos do músico.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

As doze cordas de Leo Kottke

Em meados dos anos setenta, dei conta de uma voz de barítono, com entoações country, a passar no rádio. O nome anunciado era Leo Kottke e o tema era esta música, Pamela Brown. Um tema original de Tom T. Hall, com um som ondulante e de guitarra de doze cordas, deslizante.

Nos programas de Jaime Fernandes, um dos maiores divulgadores de música popular que jamais tivemos, no canal 4 que sucedeu ao Rádio Clube, a música country, em determinada altura até logrou ter o seu programa dedicado, com uma ou duas horas, na altura do almoço. No início dos anos oitenta, o programa Dois Pontos, até se anunciava com um tema de Leo Kottke, Little Shoes, do disco Guitar Music , de 1981.

Um dos discos que passava frequentemente, era Mudlark, que saiu em 1971. E também Ice Water, de 1974.
Em 1976, por ocasião da saída de The Best, tive ocasião de ouvir algumas das músicas desses discos e de outros, como Greenhouse, Chewing Pine e Dreams and all that stuff.
Temas como When Shrimps learn to whistle, Mona Roy, Bill Cheatham e Hole in a Day, tornam essa compilação, em duplo cd, antes em duplo LP que cheguei a gravar em cassete, um repositório do melhor de Kottke até essa altura.

Uma das surpresas dessas audições, foi a progressão na doze cordas, de Last Steam Engine Train, mais uma música de combóios. E ouvir Leo Kottke dedilhar e cantar Eight Miles High, dos Byrds, ajudou a considerá-lo como um dos melhores guitarristas da música popular americana. A entoação dessa canção supera a dos Byrds.

Nos anos oitenta, os discos de Leo Kottke, sofisticaram-se a um modo que uma trilogia como A shout toward noon, de 1986 ( com A trout toward noon e Three quarter north) , Regards from Chuck Pink, de 1988( com I Yell at traffic e Doodles) e My Father´s Face, de 1989( com o título tema, e a segunda versão de Everybody Lies) tornam-nos imprescindíveis em qualquer discoteca que se preze.
Não segui a restante produção, até 2005, mas adivinho a restante meia dúzia de discos, dignos dos antecessores.

domingo, 7 de setembro de 2008

John Prine



Na música country de raiz norte-americana,  durante os anos setenta e oitenta, fui ouvindo e lendo coisas sobre os grupos e artistas mais importantes.  Por essa altura, julgava estar a par do essencial da música redneck de produção nashvilliana. Nem falhei o filme de Robert Altman, precisamente Nashville, de 1975, sobre a música country. 

Ainda assim, um dia, no início dos anos noventa, ouvi no rádio esta música. Foi uma das últimas surpresas que me sucederam nas audições radiofónicas, na música popular.
Um som deste jeito, parecia-me o de um Dylan fora de tempo. Em tom de balada, com uma guitarra e uma concertina pontual, em poucos acordes, e até monocórdico por vezes. 

Não descansei até saber de quem se tratava e de quem era aquela voz notável que nunca tinha ouvido antes.
E descobri depois que se chamava John Prine e o disco em causa, The Missing years. Uma grande surpresa, de facto, porque além daquela música, intitulada All the Best, também se podiam ouvir as restantes, quase todas de qualidade superior, como a inicial Picture show e ainda It´s a big ggofy world. outra de entoações dylaneanas. 

De John Prine, vim saber depois disso que os seus discos, já vinham dos anos setenta e oitenta.
E uma canção, Hello in There, uma belíssima elegia sobre a velhice na América, ( e em todo o lado) fazia parte do disco Diamonds and rust, de 1975, de Joan Baez, uma obra prima. 
E Grandpa was a carpenter, é outro grande tema da country, com inúmeras versões. E illegal smile, também.

 John Prine tem um estilo inconfundível. Até Norah Jones, o sabe...



Jerry Reed


Jerry Reed morreu em 31 de Agosto passado. Entre os músicos da country music, nem é dos mais conhecidos ou de reputação mais mítica, como um Doc Watson, um Chet Atkins ou mesmo um Artie Traum, também falecido num destes últimos meses. Embora seja autor de uma das mais belas canções country, provavelmente uma das que me fez aproximar dessa música, na voz de Johnny Cash: A thing called love.

Porém, Jerry Reed tem uma maneira de pegar na guitarra acústica que encanta nos sons que dela retira, em finger-picking.
A sua versão de City of New Orleans de Arlo Guthrie, ( uma das melodias mais cativantes da country music e um dos ambientes mais castiços da América das grandes planícies e dos combóios) é de se lhe tirar o chapéu, Stetson.
Os seus duetos com Chet Atkins, também.
A primeira vez que dele ouvi falar, foi na escrita de um artigo na Rock & Folk, de Maio de 1977, da qual retirei a foto junta- de um tipo displicente, numa cadeira de baloiço, com uma guitarra a tiracolo.
O You Tube, um maná para estas coisas e que não existia na época, permite agora conhecer o modo de tocar, de Jerry Reed.

A thing called love




quinta-feira, 17 de julho de 2008

Homenagem

Aqui fica a Homenagem, para ser ouvida.

A música de José Almada

Uma música apenas, para ilustração musical do blog. Uma das melhores do disco Homenagem. Uma canção que me consome o prazer auditivo, nestes últimos dias. Repetidamente ouvida, conserva toda a frescura da letra e da música sublime, com quase quarenta anos. Basta clicar para ouvir.

Os anjos cantam

domingo, 13 de julho de 2008

José Almada, o aristocrata da pobreza sublimada



No Verão de 1970, José Almada, então com 19 anos, publicou o seu primeiro disco em modo de apresentação. Tema: os mendigos.

Os mendigos?- perguntarão os intrigados do costume. Sim, os mendigos. Os pobres dos pobres, incluindo os de espírito e estado de vida social. Os que nada têm de seu e de nada precisam dos outros, a não ser a atenção caridosa que passa e mira de soslaio a condição de desgraça, deixando a esmola para a côdea ou para o alívio instantâneo do espírito recolhido em depressão habitual.

Só esta atitude de atenção a uma condição marginal do indivíduo, suscita a curiosidade do passante de escaparate que mira o disco, com capa a retratar um apartado da vida comum.

Nesse ano, no início da década de setenta, um tema tão obnóxio da corrente comum, suscita a atenção de uma editora recém criada, vinda de um programa de televisão de grande qualidade temática, técnica e de audiência. Um programa como poucos houve na televisão portuguesa. O Zip-Zip, nome do programa, animado pela tripla Carlos Cruz, Fialho Gouveia e Raul Solnado e realizado por Luís Andrade, passou durante todo o ano de 1969, de Maio a Dezembro, em plena esperança de mudança na configuração do regime político português da época. Por lá passaram alguns expoentes da cultura portuguesa da época, como Almada Negreiros que inaugurou o programa, ou Agostinho da Silva que foi entrevistado depois, ou artistas como Manuel Freire, da corrente musical que de repente surgiu com a designação de baladeiros.

O Zip, terminou em Dezembro de 1969, por esgotamento na luta contra a censura marcelista do regime, vinda do salazarismo que teimava em não se renovar social e politicamente, conduzindo, anos mais tarde, directamente à Revolução em 25 de Abril de 74.

Os Mendigos e José Almada, chegaram a ter encontro marcado no programa, frustrando-se o evento pelo fim prematuro do programa que iria marcar o futuro de décadas da tv portuguesa que nunca mais foi a mesma.

Mesmo assim, a gravação do primeiro disco de José Almada que continha o tema e ainda outros, com seis fachas de cada lado, intitulou-se Homenagem, sendo publicado pela editora Zip-Zip, com produção de arranjos, espantosa e sóbria de qualidade rara, de Pedro Osório.

O título tema, retoma uma Homenagem incerta, mas de conteúdo lírico, com peso literário de Fausto José, um escritor e poeta da vida de José Almada, tal como o seria o seu próprio pai, autor de letras cantadas e conteúdo que toca a alma. Uma alma da terra nossa, do nosso povo antigo e de tradições seculares.

Homenagem, toca o lirismo do paralelo entre os ricos e poderosos e os desvalidos que acabam por igual, numa campa. Rasa ou de mausoléu, unem-nos a essência do regresso ao pó e a ligação a essa lição fundamental, de raiz cristã ( memento Homine quia pulvi es...). Homenagem, traduz o espírito do essencial, no percurso do Homem: o destino final, percorrido em rituais diversos, mas de conclusões iguais e sem dissemelhanças.

Os temas restantes, no disco, abordam, todos eles, essa realidade insofismável da existência: somos todos mendigos por algo que não logramos alcançar, num destino comum, em que os animais irracionais, participam, em similitude de destino existencial.

A música de José Almada, original e com referências esparsas à música popular da época, numa economia de meios instrumentais, depurada e por vezes austera, compõe-se em melodias de efeito sonoro perfeito e de riqueza inventiva cativante.

A dicção das palavras cantadas, o estilo de cantoria e a junção da música ao lirismo profundo dos temas, tornam este disco, um dos mais fundamentais e importantes da música popular de sempre.

A potencialidade evocativa dos temas, com cadência marcada em acordes simples, atinge por vezes o sentimento de uma profunda corda interior que suscita a emoção pura de uma lágrima furtiva ou o adejo de uma nostalgia implacável que toca experiências vividas ou sentidas como reais.

A música de José Almada, não se explica em palavras correntes, senão por metáforas nem sempre conseguidas, de definição estilística rebuscada para atingir a simplicidade do óbvio: a qualidade superior da música composta em canção.

José Almada, por outro lado, experimentou a realidade de uma vida singular e que na altura da música de Homenagem, apenas tinha perspectivas de desenvolvimento incerto.

Almada descende de portugueses, enraizados no profundo de um Portugal, fundado em antiguidades que nos moldaram a vida comum, ao longo de séculos.

Na família alargada de José Almada, encontramos pessoas que conviveram com o fausto da nobreza, a riqueza dos privilégios régios ou o usufruto de heranças antigas e disputadas em lutas fratricidas e de recorte centenário.

A família e genealogia de José Almada convocam logo a curiosidade de um percurso no Portugal antigo e com raízes nos mais altos estratos de uma sociedade de classes ainda medievais e que surtiram pelos últimos séculos do nosso viver comum.

Esse património genético, alguma coisa deveria comportar, em estilo, modo, resquício de comportamento e educação.

A José Almada, tocou-lhe essencialmente, a herança de um património rico em lirismo, antigo, português, profundo e enraizado em poetas e escritores do nosso viver em comunidade organizada, desde o remoto séc XII.

É provável que o próprio nem se dê conta da herança notável, aceite sem declaração notarial e a benefício de património pessoal intangível, mas de riqueza assinalável. Porém, quem quiser pesquisar o acervo que o disco Homenagem denota nos seus temas, referências líricas, estilísticas, musicais e de simplicidade desarmante, encontra-a toda, lá, nos interstícios das suas canções e no estilo do canto que as anima.


O concerto de Viana do Castelo, em 11.7.2008, pelas 22h e 30.


Alinhamento das canções ( após audição da gravação do espectáculo):


1. Batem leve, levemente- o poema bem conhecido de Augusto Gil, cantado em versão inédita.

2.Olha as ovelhas como são- do Lp Homenagem, uma das suas mais belas canções, em ritmo que adere ao ouvido interno.

3. Hóspede- do primeiro LP e a primeira canção que José Almada compôs, em gravação.

4. Vento Suão, do 2º LP e com letra de Fausto José, poeta já falecido e amigo de José Almada.

5. Oh pastor que choras, tema de José Gomes Ferreira, também cantado por Fausto, na mesma altura e que julgo superior a essa versão do autor de Rosalinda.

6. Em multidão, uma canção nova, em estreia, com letra de José Gomes Ferreira.

7. Cala os olhos, vagabundo, outra do primeiro LP e uma das grandes canções de José Almada, Fabulosa.

8. Vento Irado. Igualmente do primeiro Lp, a canção mais triste e melancólica do cantor, com letra do pai, Luís Guedes Machado.

9. Os anjos cantam, também do primeiro LP e a minha canção preferida, actualmente. Ouço-a vezes sem conta, em todo o lado, principalmente a cantarolar. Uma canção de antologia, com poema de José Gomes Ferreira.

Terminou aqui a primeira parte do espectáculo.

Na segunda parte:

1.Casa abandonada, canção do irmão, Luís, presente na sala e a quem foi dedicada.

2. Perdigão perdeu a pena, canção inédita, com letra de Camões.

3. Ah! Como te invejo, do segundo LP, Não, não me estendas a mão.

4.Perdidamente, inédita e dedicada à mulher.

5. Homenagem, título do primeiro LP.

6. Ah! Como odeio, também do segundo LP.

7. Pedro Louco, do segundo LP e com leve travo a Moustaki. Um sucesso de audição.

8. As aves cantam, do segundo Lp


Encore:


Hóspede, Pedro Louco e Anda Madraço, esta de um primeiro ep.


O espectáculo que José Almada deu em Viana do Castelo, em 11.7.2008, numa sala para concertos, anexa ao teatro Sá de Miranda, foi reveladora de tudo o que ficou escrito e ainda mais:

Aos 56 anos de idade, os temas de 1970 e 1975, soaram como novidades agradáveis e recentes, a ouvidos neófitos que acorreram para os escutar. A quem já os conhecia de ginjeira,o canto particular de José Almada, soou como a confirmação de um grande artista, de talento suficiente para emocionar uma plateia que esteja disposto a mergulhar no sentimento e evocação poética, garantindo uma viagem em sensações líricas e de melancolia controlada pela beleza simples da poesia da palavra portuguesa.

O alinhamento dos temas, passou pelos dois discos publicados, nessa época- , Homenagem e Não, não me estendas a mão- e ainda alguns inéditos, não gravados.

Partindo de uma apresentação em cantoria a solo, com acompanhamento singelo a guitarra acústica, José Almada tocou e cantou, cerca de 18 canções, num espectáculo com duas partes e contando com os três encores, a pedido de uma assistência entusiástica de amigos, admiradores e espectadores atentos.

O espectáculo, à semelhança do ocorrido em Ovar, na casa Contacto, em finais de Maio passado, foi organizado por amigos e admiradores entusiastas que aprontaram uma belíssima casa de espectáculos em modo de café-concerto, com centena e meia de lugares sentados e grande ambiente sonoro e acústico.

A expectativa, entre os presentes, vindos de vários lados, de Lisboa, Porto, Braga e da terra, era grande, porque a maioria, conhecendo o disco, nunca tinha ouvido José Almada ao vivo e deixaram de ouvir falar do mesmo, há mais de trinta anos, surgindo com a curiosidade de saber como era o José Almada de hoje, comparando-o com o de há mais de trinta anos, na presença e voz, gravada e fisicamente presente.

A apresentação do cantor, ao público do café do teatro Sá de Miranda, ocorreu assim, num ambiente de relativa surpresa. O som vindo do palco, revelou-se perfeito e de qualidade superior, na transposição da voz do cantor, acompanhado pela viola.

José Almada habituou-se a cantar em pé, perante o público que o escuta e nem a banqueta presente, o conduziu ao assento de repouso durante toda a actuação.

Começou por entoar as suas canções saídas de Homenagem e de Não, não me estendas a mão, os dois discos de referência, misturando-as com algumas inéditas. Com pequenos intervalos explicativos sobre a origem da letra e de pequenos apontamentos sobre o significado das canções, foi apresentando a essência da sua mensagem cantada, em tom de baladeiro, sem compromisso político evidente, ao contrário dos émulos que apareceram na mesma época e que fizeram história na música popular portuguesa.

Uma das canções, intitulada Casa Abandonada, composta em parceria com um irmão, aliás presente, e numa altura em que ambos nem contavam vinte anos, conta a história de vida das casas antigas que perderam a alma dos donos.

O que espanta, na música e canções de José Almada , é essa alusão explícita e constante, a perdas de coisas e bens, num despojo total, que paradoxalmente enriquece o espírito e sublima os sentimentos de perdas e a melancolia dos pesares mais profundos, numa poesia de coerência temática que acaba como emblemática do estilo do cantor. A música de José Almada, nesses temas, completa na perfeição, o sentimento poético subjacente aos poemas de autores como José Gomes Ferreira ou Fausto José, este, um autor local, do tempo do Douro.

A interpretação das canções antigas, pelo actual José Almada, contempla uma actualização na entoação e algumas delas, ganharam em vicacidade. Por exemplo, a ultra melancólica Vento Irado, do Lp Homenagem, cantada na primeira parte do espectáculo, ganha uma toada mais expedita e menos arrastada que no disco, retirando-lhe alguma carga de tristeza prolongada que na gravação, atinge quase as raias do insuportável, tal a intensidade da letra e música associada, num langor acompanhado pelas cordas e sopros da mais acentuada melancolia.

No disco, segue-se, a essa toada triste, a elegia sobre os Anjos que cantam e não cantam. Uma das mais belas canções do disco Homenagem, com letra de Carlos Oliveira, também foi cantada no espectáculo, em tom um pouco mais corrido, sem os requebros e embalos que emprestam a esse tema uma beleza etérea que apetece repetir e repetir na audição do disco. Na versão do espectáculo, a canção não perde a toada do requebro, ganhando o ritmo, embora desacompanhado do piano, que no disco complementa na perfeição o arranjo musical da canção.

A canção Hóspede, subentendida como Os Mendigos, é outra das grandes canções do disco e cuja interpretação ao vivo, não perde absolutamente nada, porque a riqueza melódica e lírica da canção, suporta completamente a interpretação desacompanhada de arranjos.

Outra das canções apresentadas e já ouvidas em espectáculos anteriores, é Oh Pastor que choras, a versão do poema de José Gomes Ferreira que o cantor Fausto também gravou na mesma época. Esta versão de José Almada, mesmo a apresentada em espectáculo ao vivo, suplanta essa versão de Fausto, na escolha da melodia interpretativa.

Em paralelo com Os Anjos Cantam, a canção Cala os olhos vagabundo, com poema de José Gomes Ferreira, é um primor do primeiro disco e que no espectáculo ao vivo, resulta em pleno como uma grande composição, a lembrar os grandes mitos do vagabundo andante, tentado pelo desconhecido maravilhoso.

O tema inaugural e principal de Homenagem, que lhe dá o título, é prejudicado nos espectáculos ao vivo, pela ausência da instrumentação que no disco lhe confere uma dimensão extraordinária. No entanto, ainda assim, o poema de uma força telúrica e evocativa, remonta a carência de instrumentação, pela força interpretativa.

Uma das novas canções, apresentadas no espectáculo, é uma versão do poema de Augusto Gil, Batem leve, levemente. Outra, a versão musicada do poema de Luíz de Camões, Perdigão perdeu a pena, num tema interessante, como nova composição inédita. Em complemento pessoal e de referência intimista, uma canção intitulada Perdidamente, dedicada especialmente à mulher, presente e com tempo recente e demasiado relacionada para permitir a distância crítica suficiente.

Do segundo LP, cantou As aves choram, Ferreiro velho e cansado ( por lapso de escrita, agora corrigido, não cantou esta) e principalmente Pedro Louco, repetida no final, a pedido da audiência, tal como aconteceu com Hóspede e uma canção de um ep, Anda Madraço, com que terminou o espectáculo.

Em registo sonoro,quase todas as canções deste segundo disco, resultam melhor em palco que no disco, principalmente Pedro Louco ( Ah! Se um dia o Pedro Louco). Nem a orquestração do disco, retira seja o que for à força interpretativa que a canção contém, apresentada em palco.

O espectáculo de Viana, de José Almada, conteve-se em dúzia e meia de canções, apresentadas sobriamente e com uma força interpretativa de empenho notável. A gravação do espectáculo, disponível dentro de pouco tempo, testemunha um grande evento, com um som cheio de musicalidade e palavras certas para os poemas dos discos de José Almada.

No fim, de pé, os presentes pediram-lhe, mais uma vez, Pedro Louco que é louco, é louco, é mouco é. Pediram-lhe ainda a repetição de Hóspede, com a toada dos mendigos e uma que não cantara antes: Anda Madraço.

No entanto, o verdadeiro remate do espectáculo, ocorreu perante uma dúzia de amigos, num pequeno bar da cidade, junto a um rio Lima silencioso e calmo. Perante um porto de mar atento, mas de guindastes já adormecidos, tocou novamente e em privado, a sua Homenagem e outras ainda e ainda uma que não cantou no início do espectáculo, como esperava: Não, não me estendas a mão.

Nem seria preciso. A sensibilidade elevada das suas canções, dispensa a mendicidade de sentimenos genuinos de autenticidade.


(Postal corrigido em 15.7.2008, após audição da gravação.)