domingo, 13 de janeiro de 2008

Rocking the jazz

Ouvir música no rádio, nos anos setenta e ainda em parte dos oitenta, trazia algumas vantagens. Uma delas, era a possibilidade de sermos surpreendidos por sons desconhecidos até ao momento. Pequenas passagens sonoras, frases musicadas em instrumentos particulares que atingiam o ouvido interno de modo perene.

Uma das descobertas mais interessantes dessa época, foi o jazz tocado em fusão com o ritmo de rock ou a atitude do rock n´roll.

Os discos e música jazz, raramente me conduziam à atenção aos sons. O predomínio do sax ou de outros instrumentos de sopro, ondulado em frequência modulada, deixavam-me indiferente. Miles Davis ou Charlie Parker, nunca lograram mostrar-me sonoramente, paisagens de lirismo ou de embalo, suficientes para me convencerem a escutar os seus discos. Num ou noutro passo, prestei alguma atenção a marimbas ou vibrafones, instrumentos de percussão rápida e também com assento em alguns grupos de rock, por exemplo nos de Frank Zappa.

A fusão do ritmo jazzístico com as batidas de rock, tiveram em Zappa um dos seus cultores de vulto, com o disco Hot Rats, muito badalado, quando saiu em finais de 1969. Gravado em 16 pistas, quando o corrente eram as oito da praxe, Hot Rats tornou-se um clássico merecido, do rock fundido com as entoações jazzísticas. Outros que nunca se esqueceram de misturar sonoridades de metais soprados, com ritmos de bateria e guitarras, bem tocadas, foram os Chicago, logo no começo, no início da década de setenta.

Não obstante, foi apenas no final desses setenta que o interesse nesse tipo de sons, me conduziu a ouvir com atenção certos grupos e compositores.

Quando em 1975, apareceu o LP Journey to Love, de Stanley Clarke, um baixista que fraseava o trecho de abertura, Silly Putty, encadeando-o com solos de guitarra de Jeff Beck, a chama que alimenta paixões instalou-se. Antes, tinha havido lampejos de música de fusão, com os Mahavishnu de John McLaughlin, sempre incensados na revista francesa Rock & Folk, mas o clic, deu-se com Stanley Clarke, porque Journey to love, é um disco maior, principalmente ouvido em LP ( mesmo prensado pela Rádio Triunfo). E onde aliás, participa o mesmo McLaughlin, a tocar guitarra acústica, acompanhado ainda de outro ás do rock no jazz, Chick Corea, em piano acústico, numa composição belíssima de inteiro tacto acústico, intitulada precisamente Song to John, dedicada a John Coltrane.

Esta sonoridade subtil de Stanley Clarke, levou-me a querer entender mais do jazz declinado em atitude rock, o que me conduziu a Larry Coryell, de The restful Mind, com pérolas sonoras inclassificáveis; Terje Rypdal, com What Comes After e aos discos alemães da ECM, com destaque para os de Pat Metheny.











Antes, porém, fruto de audições de rádio espanhola, com indicativos musicados e sem palavras, ouvi três discos de Spyro Gyra, bem destacados da sonoridade etérea e de flautas e oboés, de Terje Rypdal.

Os discos da Spyro Gyra, todos batidos a instrumentais, em metais e ritmo funky, dos anos oitenta, ostentavam títulos como Sripes ( de Incognito, de 82) com harmónica tocada por Toots Thielman e baixo de Marcus Miller, com bateria de Steve Gadd ou Foxtrot, do LP Carnival de 1980.

Esses temas, serviam para separar músicas de outros modos e tocavam por vezes em contínuo em emissões totalmente instrumentais, como por exemplo, na Semana Santa, da Rádio Renascença que passava sempre continuadamente, música instrumental, muitas vezes de fusão e jazz rock.

Serviam ainda para experimentações de novos instrumentos como o Lyricon ( uma espécie de sintetizador de saxofone), utilizado no LP Incognito dos Spyro Gyra, pelo saxofonista Tom Scott, tendo sido usado pelos Weather Report, precisamente em Black Market, no tema Three Clowns.

O Weather Report, nos seus discos dos anos setenta e oitenta, dava sempre bom tempo. Com Wayne Shorter, a soprar saxofones ( e tem um disco de 1975, com Milton Nascimento, intitulado Native Dancer), Jaco Pastorius, no baixo sem trastes, sempre num jogo de brilhante deslize sonoro, os Weather Report, eram liderados pelo austríaco Zawinul, mestre dos teclados, falecido no ano passado.

O disco Black Market, seguia-se a Heavy Weather, tendo outros de valor idêntico. Jaco Pastorius, também já falecido, é autor de dois discos a solo, notáveis e colaborou depois com Pat Metheny e Joni Mitchell, num disco ao vivo ( Shadows and Light), após Hejira, dos anos setenta.













Na sequência destas sonoridades híbridas, produzidas em estúdios de músicos seleccionados pela categoria profissional de nunca errarem nas notas das partituras que lhes colocam à frente ou com parâmetros pré-definidos, acabei por esbarrar num música de guitarra ligeira, com músicas cativantes ao ouvido: Earl Klugh. Primeiro, Um Lp de 1983, Low Ride, com o tema de abertura Back in Central Park, numa batida caribenha e depois noutros temas como Lp de 1984, Wishful Thinking é a quintessência deste estilo fusionista, inclinado para a ligeireza sonora. Sem grandes nomes ( o saxofonista David Sanborn, aparece num tema,e Eric Gale noutro), o disco baseia-se em temas de guitarra de recorte fácil mas eficaz na audição repetida. O tema Tropical Legs, vale quase, quase, um outro qualquer de Stanley Clarke, mesmo com John Mclaughlin. Ligeiro qb, conserva um lirismo único na sua simplicidade quase pimba. O tema The only one for me, tem quase o mesmo efeito e foi isso que me levou a procurar, em Espanha o disco que por cá nem havia, ainda com títulos traduzidos em espanhol, na rodela negra. Wishful Thinking torna-se assim num Pensamiento de deseo…







Em consonância com estes ritmos, aparece naturalmente, Larry Carlton, no LP de 1980, Strikes Twice. O tema Midnight Parade, com riffs de Gibson 335, é de paragem obrigatória.

Em 1985, Miles Davis, estava também na onda jazz rock, com You´re under arrest. O tema Human Nature, de S. Porcaro e J. Bettis, glosado em trompete, só se comparava ao Time after Time, de Cindy Lauper.












Nesta onda, foi fácil chegar a Bob James e a David Sanborn, em 1986, com o LP Double Vision. Com a dupla rítmica Marcus Miller e Steve Gadd, o disco contém algumas boas músicas do género, com uma gravação cuidada e permitiu ainda a introdução a…Al Jarreau. O LP homónimo de 1983, é uma obra prima do canto em jazz rock e fusão.












E foi nesta revoada de sons de fusão, ligeiros na sua maior parte que aportei a um porto seguro de qualidade sonora impressionante: Pat Metheny. O primeiro assomo, foi com As Falls Wichita, So falls Wichita Falls. Mas a história tem capítulo próprio. Contada um dia destes.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Banda desenhada portuguesa

A banda desenhada portuguesa, nas últimas décadas, teve uma expressão artisticamente pública, quase nula.

Depois dos anos de ouro do Cavaleiro Andante e do Mosquito, antes de 25 de Abril de 1974, havia dois artistas conhecidos, mas nem por isso com sucesso público suficiente: Vítor Péon e Eduardo Teixeira Coelho.

As suas obras foram publicadas em algumas revistas, uma delas o Jornal do Cuto, de início dos anos setenta.












Logo após o 25 de Abril, com a liberdade quase completa de publicação, surgiram algumas publicações de âmbito totalmente libertário e sem barreiras de censura.

Em primeiro lugar, uma revista clássica e de grande ambição: a Visão, da editora Edibanda, propunha-se retomar uma banda desenhada feita em português, com autores portugueses. No centro do primeiro número, saído em 1 de Abril de 1975, o autor e director da revista, Vítor Mesquita, com a obra Eternus 9, repetida anos mais tarde no Mosquito, em retoma. A Visão valia o que valia Vítor Mesquita. Acabou por isso mesmo.












No mesmo ano de 1975, surgiram duas revistas de âmbito libertário e anarca: O Estripador, em Janeiro de 1975 e Evaristo, em Março do mesmo ano. Os desenhadores de proa, do Estripador, dirigido por Duarte Boavida e Delfim Miranda, copiavam textos da Actuel francesa e chamavam-se Melo Relvas e Bruno Scoriels.














O Evaristo, tinha um pouco de mais fôlego artístico, com a colaboração de Carlos Zíngaro, ilustrador de capas de discos, como o primeiro da Banda do Casaco ( de finais de 1974) ou os de Júlio Pereira, Fernandinho vai ao vinho e Lisboémia ( de 1976 e 1978).




quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Cartazes de cinema


Este é um dos melhores cartazes de cinema que conheço. É dos anos setenta, de um filme de Werner Herzog. Lembro-me de ter visto este cartaz em formato A5, emoldurado, dentro de um carro estacionado, numa rua de Coimbra que dá para as escadas monumentais. Fiquei fascinado pela beleza da composição e das cores, com o branco a contrastar. Nunca mais esqueci a ilustração e agora nos tempos da Rede 2.0 torna-se mais fácil arranjar estas imagens. Há pouco tempo, vi um livro na FNAC, com posters de cinema dos anos setenta, e lá estava este também.

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

A ilustração em caricatura

A par da música, a ilustração gráfica, é uma das maravilhas artísticas que nunca me cansam de ver, rever e guardar.

No início dos anos setenta, a ilustração em forma de caricatura, foi tomando lugar no interesse e em 1973, uma revista brasileira, Realidade, publicava um artigo com algumas reproduções de caricaturas realizadas por três artistas franceses, então a despertar para o mundo das publicações.
Jean-Claude Morchoisne, Patrice Ricord e Jean Mulatier, ao longo destes anos, repetiram capas de revistas de todo o mundo e o respectivo portfolio, deixava-se já adivinhar nesse ano distante, do começo da década que me marcou.


























Estas duas caricaturas de Jean-Claude Morchoisne, da diva Brigitte Bardot, estão separadas por mais de vinte anos ( uma, a da esquerda, é de 1996; a da direita, do início dos anos setenta). A melhor? Sem qualquer dúvida, a da direita...





















A caricatura de Hitler, a que Moschoisne se refere no texto da Realidade, é provavelmente esta, publicada no início de 1973, na revista francesa, de banda desenhada, Pilote.

Histórias de discos

Quase todos os meus discos têm uma história, particular e de que me lembro. A música tem uma história; as capas e letras também e o modo como aparecem a despertar o interesse de ouvinte, outra história tem.

Vou começar por contar a história dos discos que retiro ao acaso, da estante. Outros se seguirão, na mesma lógica de apresentar a música e a arte inerente, nos sons e no grafismo, tal como se me deparou, no contexto do tempo que já passou. A música e a arte, são para mim, aliás, um modo de parar o tempo numa ilusão perfeita que é a de prolongarem a beleza que as coisas um dia tiveram, continuando a ter, mesmo que apenas na recordação fugidia desses momentos de felicidade.

O primeiro disco da série, é praticamente uma imagem de uma capa, derivada de um anúncio e num contexto de palavras inseridas numa revista.

Já aqui escrevi várias vezes sobre essa revista, a Rolling Stone americana, e do prazer de ler, ver e apreciar tudo o que a mesma trazia, nos anos setenta, e boa parte dos oitenta.

No número de 1 de Julho de 1976, trazido de França por um amigo que lá fora ( e que também trouxe o número sete da revista Métal Hurlant e uns discos, como o dos Sparks, Kimono My House e o de Bob Dylan, Blood on the tracks, ainda com as anotações do crítico ( do NY Times) Paul Williams , na contracapa), é um dos mais emblemáticos da revista, porque contém, uma espécie de sampling de quase todas as matérias que sempre foram apanágio da revista nessa época: política, temas sociais, música, espectáculo e discos.

















Este disco de Andy Pratt, que apenas ouvi há poucos anos, tendo-o comprado numa loja de discos usados da Itália ( salvo erro, Pisa ou Lucca), vale apenas por essa imagem da Rolling Stone, com as cores da foto de Steinbecker and Houghton.

Aliás, a foto da capa do disco, dos mesmos autores e uma das mais interessantes capas da música popular, aparece, na revista, misturada na composição gráfica da imagem, arranjada pelo departamento gráfico da revista ( Roger Black como director, nessa altura). Essas imagens, conferem uma dimensão extra ao trabalho sonoro que agora me parece inferior a essas imagens. A música do disco é uma tremenda decepção, apesar da produção de luxo e dos músicos de sessão, sem falhas instrumentais.

A etiqueta Nemperor Records, distribuída pela Atlantic, também era uma curiosidade de época. Os músicos que participam, são de estúdio e da nata das sessões: Andy Newmark e Steve Gadd na bateria ; Tony Levin, nas guitarras e o próprio Arif Mardin, o produtor do disco, nas percussões, entre outros ( Mark Doyle, nas guitarras).

Imagens: arquivo próprio e a do disco, retirada da net.

domingo, 30 de dezembro de 2007

O salteador de cassetes perdidas

Nos apontamentos para cassetes, em meados dos setenta, ( 1976 ou 77) avulta um que serviu de referência a uma gravação de músicas dos Rolling Stones, dos primeiros discos, e ainda de Bob Dylan, também dos primeiros discos. O rascunho mostra os sucessivos apagamentos das gravações. Muitas músicas que agora apenas recordo, nomeadamente do punk de finais dos setenta, foram assim, cobertas em autêntico palimpsesto, por outras músicas mais suaves e de urgência perene. Estas dos Stones de de Dylan, nem rasto deixaram, a não ser nestas notas testemunhais. Idem para os Nitty Gritty e também para os The Who, cujo Quadrophenia mereceu audições atentas ao 5.15 e aos rolamentos da bateria de um maluco dos bombos: Keith Moon.

Juntamente com essas gravações, a lista dos álbuns mais passados nos programas de rádio da época, em modo integral, preenche várias folhas A5, por meses. Ficam os dos meses de Setembro, Outubro e Novembro de 76.




















E mais uma capa de cassete, numa ilustração aérea de uma águia, sobre os carros e o genesis, antes de Dylan, Chicago e Neil Young, entre outros numa das primeiras gravações, tiradas da aparelhagem hi-fi, circa 1982, registada desta vez numa Agfa Stereochrom de 90 minutos, mais seis para as precisões...


As cassetes de pirata

As cassetes, como meio de gravação de sons, serviram às mil maravilhas, para apanhar do rádio, as músicas que me interessavam. Em meados da década de setenta, comecei a gravar regularmente, num pequeno gravador Philipps, acoplado a um rádio Grundig, cassetes com músicas do rádio e particularmente, de alguns programas que então passavam até LP´s inteiros, sem restrições de direitos autorais.


Foi assim que formei o gosto auditivo, em programas de FM, como Dois Pontos, e espaço 3P , na Rádio Comercial, antes Programa 4 e antes ainda, Rádio Clube português.

As cassetes, serviam para regravar, sempre que determinada música já estava bem ouvida e a lassidão e falta de dinheiro para renovar o stock, obrigavam a gravar por cima do que já havia.
Nos anos oitenta, com uma aparelhagem de melhor qualidade, já foi possível gravar e ouvir em alta fidelidade, cingida às limitações da dinâmica das fitas em óxido de ferro ou dióxido de crómio ou ainda em puro metal, o supra-sumo da qualidade do meio.

Esta é uma das primeiras, que em 1979, serviu para gravar o LP Comuniqué, dos Dire Straits, depois de ter gravado alguns outros, nomeadamente os Nitty Gritty Dirt Band.

Num passo em frente na qualidade do suporte, apareceu a BASF, com as versões em Ferro de embalagem especial e uma de ferrocrómio, onde ficou gravado o LP branco dos Beatles



Assim, as melhores deixavam-se para os melhores discos. Por exemplo, nesta cassete de compilação de álbuns dos Steely Dan, no final dos anos oitenta, escolhi o máximo: Maxell MX, Metaxial

Noutras ocasiões, a mistura de géneros e sons, servia para a audição no carro, como estas que seguem dos anos noventa, ilustradas com imagens copiadas algures.


quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Há trinta anos atrás

Na minha lista dos dez mais de 1977, no capítulo de discos de música popular, publicados esse ano, a graduação elencava-se assim:


  1. Roy Harper- Bullinamingvase.
  2. Van Der Graaf- World Record
  3. Peter Gabriel- 1º a solo
  4. Jethro Tull- Songs from the wood
  5. Kinks- Sleepwalker
  6. Eagles- Hotel California ( do final de 1976, mas apenas ouvido em 1977)
  7. Stevie Wonder- Songs in the key of life ( idem)
  8. Crosby Stills & Nash- CSN
  9. Led Zeppelin ( nem sei que disco, provavelmente The song remains the same, de 1976)
  10. Frank Zappa- Zoot Allures ( do final de 1976, mas apenas ouvido em 1977)


E depois do teste do tempo de 30 anos:


  1. Steely Dan- aja ( ouvido integralmente só nos anos oitenta, por ocasião da audição do disco posterior, Gaucho, de 1980, numa descoberta sonora que não deixa indiferente quem der atenção ao detalhe e cuidado na produção. Um dos temas descobertos mais tarde, Here at the Western World, é da mesma época que Aja, e é um dos melhores temas dos Steely Dan. Saiu na colectânea, em caixa de 4 cd´s, Citizen, publicada em 1993)
  2. Jackson Browne- The Pretender ( Ouvido só no final dos anos oitenta. Antes contentava-me em ouvir o título-tema, na Rádio Popular de Vigo, uma emissora de grande mérito na divulgação de certos artistas, desconhecidos entre nós. Jackson Browne era um deles. Por ocasião da passagem do disco ao vivo, Running on empty, de finais de 1977 mas ouvido já em 1978, Jackson Browne tornou-se um artista obrigatório da música popular)
  3. Weather Report- Heavy Weather ( ouvido nos anos oitenta, com a descoberta do jazz-rock que começou com Stanley Clarke e Silly Putty - tema de Journey to love, de 1975)
  4. Fleetwood Mac- Rumours ( que contém Never Going Back Again, durante muito tempo a única canção que me obrigou a pegar na guitarra para aprender picking).
  5. ELO- Out of the blue ( o mais escutado na época. Tem duas ou três canções de antologia e de maravilha sonora)
  6. Neil Young- American Stars and Bars ( O mais estimado. Tenho uma gravação em cassete, na qual a canção Star of Bethleem engata com a versão de San Vicente, de Milton Nascimento, no disco ao vivo, de 1974, Milagre dos Peixes, num efeito perfeito).
  7. Doc & Merle Watson- Lonesome Road ( ouvido nos anos oitenta, por ocasião da audição dos discos do country americano de Doc Watson e que me levou a descobrir vários discos, entre os melhores do artista)
  8. James Taylor- JT ( Handing man é uma das canções de 77. Perfeita.)
  9. Kate & Anne McGarrigle- Dancer with Bruised Knees. ( ouvido apenas em finais dos anos oitenta, foi uma surpresa sonora que se seguiu a uma outra ainda mais espectacular- a do primeiro disco de 1975, ouvido na mesma altura)
  10. Roy Harper- Bullinamingvase ( durante muitos anos, até 1996, altura da publicação em cd, só ouvi a memória deste som que marcou o ano de 1977, com a composição One of theses days in England).

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

os Ladinos

Não é só o Artur Pinto do Quinteto , no ié-ié, que pode contar a sua petite histoire sobre o uso dos tom tons e da tarola.
Nesta fotografia do Carnaval de 1971, o pequeno tocador de bombos, então com 14 anos, ajeitava-se como podia, para ler a letra da canção Wild World, original de Cat Stevens, mas com versão mais interessante de Jimmy Cliff, em papel apegado na pele do bombo. A prestação não deve ter sido famosa, mas o pequeno grupo dos Ladinos, nem sequer tinha som de retorno...

Livros de música

No âmbito da música popular, não se pode dizer que haja grandes livros ou ensaios sobre a sua essência estrutural, o significado das suas notas musicais mais agudas, ou a semântica dos graves mais profundos.

Para além do mais, em Portugal, há trinta anos nem havia assim tanta coisa escrita ou traduzida para português, sobre este assunto, predominantemente musical,mas também com forte cariz social.
A crítica de discos e músicas, em Portugal, foi sempre de qualidade inferior à música. Lá fora, na França, Inglaterra ou EUA, acontecia por vezes o contrário.

Em 1975, foi publicado por cá um livro da autoria de um certo Jorge Lima Barreto, autor de outras obras sobre música jazz, como Revolução do Jazz ou Grande Música Negra.
O livro, intitulado Rock/Trip, procurava uma ponte ideal entre os sons publicados e o onirismo induzido pelas substâncias de alucinação, ilícitas na sua maioria.
A obra procurava uma atenção ambiciosa, de cariz sociológico e tudo, com títulos de trechos como Lumpen-music; Cosmo-política; Aventuras psicadélicas; Parapsicologia da trip; O Reino Imaginário; Colagem e acto cósmico; Pop sincrético, etc, etc.
Porém, tirando os títulos, nas suas 222 páginas, pouco adianta na compreensao do fenómeno rock ligado às drogas. Frequentemente incompreensível, com laivos esotéricos no pior sentido, é um livro que não se recomenda, a não ser como documento de época.



Mais interessante, é um outro, que comprei em Dezembro de 1976, traduzido do alemão- O mundo da música pop, de Rolf-Ulrich Kaiser, do início dos anos setenta, com prefácio de Joaquim Fernandes ( um curioso prefácio, aliás). Foi publicado pela Livraria Paisagem, do Porto.
O livro, abalança-se a uma história resumida do rock, numa perspectiva um tanto ou quanto libertária, com referências constantes a Tuli Kupfberg e os Fugs e grande encómio a Frank Zappa ( "o conjunto mais popular da música pop, chama-se Mothers of Invention", por exemplo). Foi escrito numa época em que o rock parecia ainda estar vivo, como na primeira metade dos sessenta. É um livro de ilusão, portanto. Mas que mostra os truques.




Na sequência de livros com intuito histórico e didático, há um outro, dos franceses, Philippe Daufouy e Jean-Pierre Sarton, intitulado Pop Music/Rock, publicado em 1972 e que comprei também em Dezembro de 1976, publicado pela Regra do Jogo, em 1974.

Este livro, foi reeditado numa 2ª edição, em 1981, com um pósfácio de um pouco mais de uma centena de páginas, muito interessante, aliás, de Miguel Esteves Cardoso. Aí, o escrítico que tinha recolhido precisamente em livro, intitulado Escrítica Pop, as suas crónicas de jornal, repesca quase todos os discos da década de 70, em resenha crítica sumária.
O livro, no entanto, é um pouco mais interessante do que o do alemão, embora na mesma tonalidade. Um pouco mais esquesdista, separando a "indústria", do artista e apresentando o panorama de modo seco e sem edulcorantes encomiásticos, torna-se um bom referente de certa escrita dos sixties.

Para além destes, merece ainda destaque, o livro de Steve Chapple e Reebe Garofalo, Rock & Indústria , publicado em 1977 e traduzido em 1989 pela Caminho.
Este livro, assume uma escrita altamente crítica para com a indústria musical sendo dedicado a Phil Ochs, o cantautor esquerdista americano, já falecido.
Com referências constantes a publicações musicais, vale-se de números e estatísticas para apresentar o panorama da música rock desde o seu começo nos anos 50 até à actualidade da época. Com entrevistas a responsáveis pelas editoras e publicações, é um dos manuais essenciais à compreensao da evolução comercial da música rock e suas actividades paralelas. Com inúmeras citações, torna-se uma bíblia das referências rock e obra indispensável para compreender a génese do fenómeno na América, das grandes companhias discográficas e das pequenas que se tornaram grandes entretanto. Altamente recomendado, tal como a bibliografia, extensa e de amplitude máxima, embora de pendor esquerdista.





















Nenhum desses livros, porém, assume um carácter tão original e de escrita tão apelativa como Awopbopaloobopalopbamboom, de Nik Cohn, publicado em 1970 ou Mistery Train, de Greil Marcus, publicado em 1975.


sábado, 8 de dezembro de 2007

Os lá de fora



Nos anos sessenta e até setenta, em Portugal, valorizava-se muito o que vinha lá de fora, culturalmente.
Na música, então, era uma basbaquice completa, sempre que um qualquer grupo ou intérprete de renome mediático na tabela de vendas, aparecia por cá para um concerto desgarrado do habitual circuito internacional. Parece que na antiga União Soviética o fenómeno era pior: disputavam as calças de ganga de quem por lá aparecia, ido do "lado de cá", como bens de requintado luxo exótico.

Em 1970, um grupo belga, Wallace Collection, tinha já um êxito que por cá passou extensivamente na rádio: Daydream e a sucessão do refrão composto em lalalas, acompanhada dos rolamentos intensivos da secção rítmica, convencia de que se ouvia um som único. Na Primavera de 1970, o grupo esteve em Portugal e a revista Mundo da Canção, dedicou-lhe a capa e duas páginas.
A curiosidade da reportagem, assenta num pormenor também citado no blog do ié-ié, a propósito da guitarra portuguesa. Tal como Jimmy Page no final da década de oitenta, o elemento preponderante dos Wallace Collection, Van Holmen, na altura da estadia em Portugal, comprou uma guitarra portuguesa ( "não muito cara") e como comprovam as fotos, pelo menos dedilhou-a na altura...

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Contar a sério, como foi.

A história da música portuguesa dos anos sessenta, aquém e além dos baladeiros, passa necessariamente por Pedro Osório. Ontem, foi com os académicos do Quinteto Académico, de 1967. Na pequena entrevista, Pedro Osório dizia: "Quem toca jazz, como nós, e como nós se preza de não o fazer mal, tem de achar pobre a substância musical do pop, tem de achar repetitivo, fácil."
Não terá sido por isso que o músico dedicou grande parte do seu esforço criativo, nos anos a seguir, a compor cançonetas de festival, uma das poucas formas de sobrevivência para quem se dizia músico.
Nas imagens que seguem, do Século Ilustrado de 9.3.1968, o cantor Carlos Mendes, "estudante de arquitectura e a cumprir o serviço militar", aparece ladeado pelas duas notáveis da época: Simone de Oliveira e Madalena Iglésias.





















As imagens referem-se a uma reportagem por ocasião da transmissão televisiva do V festival da canção, cujo vencedor, Carlos Mendes, com a canção Verão ( música de Pedro Osório), teve de competir com intérpretes como Mirene Cardinalli, Tonicha ( duas canções), Nicolau Breyner, J.M. Tudela, José Cid, Simone ( duas canções) e António Calvário.
Vale a pena ler as legendas das fotos, num ambiente "conta-me como foi". A tv no alto do palanquinho; os olhares oblíquos; a imagem a preto e branco da tv, onde se reconhece o trabalho do apresentador a contar votos expressos, vindos dos distritos do país e um retrato a sépia de espectadores atentos, num qualquer café de bairro, sem faltar o pormenor daquele que munido de apontamento de revista ( seria a Rádio & Televisão?), segue atentamente o evoluir das votações. Há várias pessoas de gravata, num café, à noite e a menção ao café, servido e acompanhado de três "bagaços". Bagaço assim, num café, hoje já não há.