quinta-feira, 25 de outubro de 2007

As publicidades americanas nos anos setenta

As publicidades nas revistas americanas dos anos setenta, eram simplesmente de admirar. Fose a cigarros, carros, motas ou aparelhagens de som, as fotos texto e ilustrações de algumas delas marcaram esse tempo e deixaram recordações artísticas. A seguir, ficam algumas das que marcaram mais numa das revistas que comprava em 74, 75 e 76, quase, quase, só por causa da publicidade e das ilustrações: a National Lampoon.

A publicidade a discos, como a banda sonora do filme Nashville e o Lp de Bob Dylan, Before the Flodd, em finais de 1974, por exemplo.





















A publicidade aos sistemas de hi-fi, japoneses. Um gravador de cassetes, com indicação do preço em escudos, na época...





















E a publicidade às fitas magnéticas, em cassete e em cartucho ( formato interessante que desapareceu completamente e que permitia um acesso rápido às faixas, com uma melhor qualidade de som que as cassetes). As primeiras gravações que efectuei, num gravador um pouco melhor que o mostrado, usavam também as fitas Basf, alemãs, que ainda perduram e soam mais ou menos bem.

As publicidades nos sessentas e setentas

Luís: "catch me, if you can!"





















Imagens: Selecções do Reader´s Digest de Junho de 1966 e Fevereiro de 1971

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Há mais de trinta anos que lhe tiro o chapéu.

Antes de o escrever aqui, já os Led Zeppelin o tinham feito- a Roy Harper, no III disco do grupo, em 1970, com Hats off to Roy Harper.

Não lembro a primeira vez que ouvi Roy Harper. Sei que foi na rádio, em meados dos anos setenta, em programas animados ou por João David Nunes ou por Jaime Fernandes. Este, grande entusiasta de Roy Harper, divulgava os seus álbuns, várias vezes, nos seus programas dedicados a músicas suaves, de folk e country tingidos.

Em Abril de 1978, a revista Música & Som, considerou o disco Bullinamingvase, de Roy Harper, como o melhor lançamento do ano anterior, em Portugal e de música estrangeira. A revista fez-lhe uma festa, convidando-o para receber o prémio.

Nessa altura, o disco Bullinamingvase, particularmente a composição de longa duração, One of these days in England, era um clássico na minha audição. Todo o disco, no entanto, excede as expectativas do ouvinte prevenido para tirar o chapéu ao músico, acompanhado por músicos de escol, ingleses.

A versão em cd da pequena maravilha lançada em 1977, só saiu à luz, na etiqueta Science Friction, em 1996. Está esgotada também e tinha a gravação em 20 bit supermapping, próxima do som original do LP.

O disco, provavelmente, foi a revelação desse ano já longínquo, juntamente com outras pequenas pérolas da música rock: Out of Blue dos ELO; Sleepwalker dos Kinks; o primeiro a solo de Peter Gabriel; o primeiro dos Bóston; Even in the Quietest moments dos Supertramp; Before and after Science de Brian Eno; World Record dos Van der Graaf; Hejira de Joni Mitchell e ainda Rumours dos Fleetwood Mac e ainda JT de James Taylor, para não falar em Aja dos Steely Dan, ouvido muito mais tarde.
Bullinamingvase, porém, é o disco de 1977, para mim, tal como foi para a M&S nessa altura, por influência de Jaime Fernandes e outros.

Foram eles quem passaram na rádio, os discos anteriores, como Flat Baroque and Beserk, de 1970, que contém pepitas sonoras como Don´t you grieve e I hate the white man.

Ainda Stormcock, em destaque agora que se vai republicar em edição de luxo, anunciada para o fim de Novembro do ano corrente. Esse disco de 1971, conta-se entre os melhores do músico se é que se podem distinguir os melhores de uma discografia, toda ela repleta de maravilhas sonoras. O prato forte musical de Stormcock é The Same old rock, introduzido em suaves arpejos de guitarra acústica que mimetizam uma toada flamenca e que encadeada na composição Little lady, do disco seguinte, Lifemask, dá uma ideia dos programas de Jaime Fernandes sobre Roy Harper. Para melhorar o ambiente sonoro só a audição integral do disco seguinte, de 1974, Valentine, o mais romântico e perdido de amores. I´ll see you again, é uma confissão de perdição e Commune um encontro de amor em guitarra acústica que casa muito bem com a primeira composição, Forbidden fruit, uma canção com uma das melodias mais fantásticas que conheço e que canto de modo constante, sempre que me lembro, mas cuja letra não se pode interpretar à letra, sendo uma fantasia perigosa e que perturba a inocência. Uma letra absolutamente incorrecta, hoje em dia, e com razão.

Depois deste pequeno best of, sobra ainda o grande disco de 1975, HQ, um dos mais elaborados técnica e musicalmente, com virtuosos da guitarra como Chris Spedding, Bill Bruford,na bateria, John Paul Jones, dos Led Zeppelin e mais uma das pièces de résistence de Roy Harper: When an old cricketer leaves the crease.

O disco teve reedição em cd, em 1995, também num luxo de apresentação já esgotado e em 20 bit supermapping.

Entre Bullinamingvase e HQ o meu gosto balança e por isso tiro o chapéu a Valentine.

domingo, 14 de outubro de 2007

A imprensa de música em Portugal

A imprensa sobre música popular, em Portugal, nos anos sessenta e setenta, não deixava de lado as novidades estrangeiras, mais notáveis e populares.
Apesar de ausência de crítica propriamente dita, o que só apareceu verdadeiramente no final dos anos sessenta, com a revista Mundo da Canção e mesmo assim, de modo pouco elaborado e acantonado a certos preconceitos de Esquerda, como é notório nos nomes que assim a escreveram, já nos início dos anos sessenta, havia secções de música na revista Século Ilustrado; a revista Estúdio, aparecida nos anos 50 e consagrada primordialmente às novidades do cinema, mas com páginas correntes, dedicadas à música popular, trazendo ainda letras de canções. As imagens que seguem, é da revista Estúdio, de 5 Setembro de 1963 e 5 de Outubro do mesmo ano. A publicação quinzenal, que custava 2$50,( e em 1973 ainda custava o mesmo), era dirigida por Domingos Mascarenhas, com A. Romariz Monteiro e M. Félix Ribeiro, sendo editor, Francisco da Costa Vieira ( em Dezembro de 1973, o directo já era J.M. Boavida-Portugal).









































Em 15 de Outubro de 1970, a revista Mundo Moderno, vinda do Cine Disco de 1968, publicava estas duas páginas. Uma, de "letras" de canções, coisa procurada na época, porque por vezes os discos não as traziam e alguém as importava de revistas e jornais estrangeiros; outra de publicidade a discos do momento.
No caso das letras, os temas do momento eram as Hot legs dos Neanderthal man que ombreavam de par, com o tema delicado de Lady D´Arbanville, de Cat Stevens. Nas novidades, o destaque para os Aphrodite´s Child, de Demis Roussos e a canção hit, Spring, Summer, Winter and Fall.






















Em finais de 1972, saía o semanário Musicalíssimo, dirigido por José Vaz Pereira e com colaborações de Bernardo Brito e Cunha ( um nome repetido nestas andanças, posteriormente, na futura Música & Som, por exemplo); Viale Moutinho ( outro nome conhecido já do Mundo da Canção), Manuel Cadafaz de Matos ( outro para a futura Música & Som) e Luís Rodrigues.
O jornal reencarnou nos anos oitenta, com direcção de Jacques Rodrigues e colaborações variadas em que se incluiam Júlio Isidro, Fernando Quinas e Rui Neves, além de Aníbal Cabrita, Jorge Lopes, Rui Morrison, Ricardo Saló e outros, ligados à rádio.

Obviamente, seria falta grave não mencionar o semanário Sete, neste panorama. Ou O Jornal, onde começou a escrever crónicas de discos e músicos, o único crítico verdadeiramente inovador, na escrita e no conceito, que alguma vez tivemos nestas últimas décadas, em Portugal: Miguel Esteves Cardoso.


terça-feira, 9 de outubro de 2007

Os jornais de música


Nos anos sessenta, em Portugal, praticamente não havia jornal ou revista dedicado em exclusividade à música popular de alguma qualidade. Nacional ou estrangeira. havia revistas de espectáculos e televisão, como a Nova Antena, a Plateia, a Rádio & Televisão e poucas mais. em 1968, a revista Cine-Disco, depois, Mundo Moderno, veio colmatar essa falha, mas a primeira publicação a impor-se nessa área específica, foi o Mundo da Canção, surgido em finais de 1969.
Porém, logo em 1971, nascia o jornal quinzenal, sem variações de cor, Disco, música e moda. O modelo, graficamente e por assuntos, era o inglês Disc, and music echo.
O primeiro número, dedicava a capa aos Crosby Stills, Nash & Young e ainda aos Rolling Stones e a Elton John, três pesos-pesados da música pop/rock.

O aparecimento da imprensa musical em Portugal, no entanto, foi precedido das páginas avulsas sobre o assunto, nos jornais diários, particularmente o Diário Popular, às sextas-feiras, com o suplemento Top Ten.
Em 15 de Abril de 1971, comprei o primeiro número do Disco, música & moda. Por causa de uma capa dedicada aos Beatles e com um convite na própria capa, aos leitores, para escreverem sobre o grupo, até ao mês seguinte. Desconheço o que se passou ( talvez o ié-ié, possa ajudar), porque o número seguinte do jornal que voltei a comprar, foi o de 1 de Setembro de 1971, já o 15º e por causa da reportagem sobre o festival de Vilar de Mouros, ocorrido no início desse Verão.
Vilar de Mouros, foi um happening, para quem esteve presente a apreciar cantores e grupos que nunca por cá haviam passado. Elton John, ainda na fase inicial da carreira e com Your song na bagagem hospedou-se num hotel de Viana do Castelo e ninguém o viu, antes do espectáculo, 30 quilómetros mais a norte. Mas deu que falar o ambiente de nova onda, vinda de fora e com reflexo nos costumes. Nessa altura, o sinal mais visível, era o cabelo comprido e a roupa de ganga. Depois, vinha a música. Quase toda de expressão anglo-saxónica e com intérpretes bem narcados, com os Beatles e os Rolling Stones à frente do longo combóio nas mudanças de costumes e algumas mentalidades.
O jornal Disco, voltou a interessar no número 18, porque trazia pela primeira vez uma capa a cores, com Johnny Cash como vedeta e a música country e ainda um poster do artista, como pretexto para um artigo de Hélio de Sousa Dias. Cash, cantava A boy named Sue, já antiga e ainda I walk the line, com as onomatopeias estaladas na guitarra acústica.

Depois disso, em Portugal, a imprensa musical só voltou a ser notícia, em Fevereiro de 1977, com o aparecimento da revista Música & Som, dirigida por António L. Mendonça, escrita por A. Amaral Pais e com colaboradores do tomo de José Niza, Manuel Cadafaz de Matos, João de Menezes Ferreira, João David Nunes e Jaime Fernandes, estes dois últimos, bons apresentadores e locutores de rádio, como jamais houve depois deles. A revista começou com 30 mil exemplares.
O Disco, música & moda, em 1971, não venderia tanto e tinha como curiosidade, o facto de ter como director adjunto, um certo Ruben de Carvalho, actual prócere do PCP, segundo tudo indica.

Jornal Diário Popular de 16.10.1970 e 31.12.1971:










































As páginas 2a 5 do nº 18 ( acima, a 19, com os tops do momento- 15.10.1971) do Disco:





























domingo, 7 de outubro de 2007

A guitarra acústica

No início dos anos setenta, comecei a dar importância à sonoridade acústica das guitarras que escutava nos discos, passados na rádio.

Não recordo que discos, mas sem dúvida que alguns dos Crosby Stills Nash & Young, ou dos seus elementos a solo, particularmente Neil Young e Graham Nash. O Lp Harvest, de Neil Young, de 1972 era uma referência na música acústica, particularmente a sonoridade seca e vibrante de uma particular guitarra cuja marca nem conhecia, mas que era diferente de outras que também se ouviam.

Também a exposição ao género country, passado com frequência nas ondas da Rádio Comercial , por Jaime Fernandes, contribuiu para educar o ouvido na distinção dos sons provindos das cordas metálicas em caixas de madeira.

Em certa altura do ano de 1975, tomei a decisão firme de arranjar uma guitarra, comprando um modelo que me agradasse.

Para isso, passei a pesquisar nos anúncios e fotos de revistas, a guitarra que me interessava.

Até essa altura, em Portugal, eram raras as guitarras acústicas, com formas americanas. Viam-se em espectáculos ao vivo, em Portugal, guitarras de tipo espanhol, com cordas de nylon.

No entanto, as guitarras que se ouvem nos discos dos anos setenta, na música portuguesa, já soam como americanas, ou japonesas, incidentalmente.

A forma particular da guitarra americana, produz um som diverso e mais límpido, por causa das cordas metálicas, em bronze ou aço.

Nessa altura, uma guitarra americana, em Portugal, original ou mesmo uma imitação, era algo que pura e simplesmente não se encontrava à venda, devido às restrições nas importações. Além disso, tirando uma ou outra loja de artigos musicais, não havia mercadorias do género. A Valentim de Carvalho ou a Ruvina do Porto, comercializavam alguns instrumentos, mas guitarras acústicas, desse género, só me lembro de ver as japonesas Yamaha e nem todos os modelos.

Logo, o sítio onde se poderia encontrar algo com interesse, era a…Espanha.

Foi por isso, com grande expectativa que abalei, num dia de Outubro de 1976, até Vigo à procura do Eldorado em forma de loja de instrumentos musicais e à espera de encontrar uma Epiphone em conta, pela qual ficara apaixonado só de a ver em anúncio ou uma Morris também por conta das imagens de anúncio e que imitava na perfeição a mais perfeita das guitarras: a Martin D-45, no modelo construído nos anos 40, antes da guerra e que era o instrumento preferido dos músicos dos C.S.N& Y.

Sabia exactamente como queria o braço e as mecânicas das cordas; as incrustações que desejava ver; o tipo e desenho específico de tampo e corpo do instrumento, bem como o tamanho exacto da caixa de ressonância e a forma arredondada com as particularidades simétricas do desenho específico, ao milímetro.

Assim, numa das ruas da velha cidade galega, encontrei o sítio da busca: uma loja de instrumentos com várias guitarras expostas num armário de parede, a toda a largura e altura. Os olhos de conhecedor amador, saltaram de modelo para modelo, para encontrar o ideal, para o dinheiro disponível.

Levava na memória a lição aprendida na leitura de um antigo jornal Melody Maker, de 1975. Demorar na escolha; olhar para todos os pormenores, apreciar o som, reparar na distância das cordas ao braço e atender à perfeição da construção. Nenhuma guitarra soa da mesma maneira, porque a madeira não é um material estável, embora o som de alguns modelos seja rapidamente identificado pela sua particular natureza.

Nenhuma daquelas por que ansiava, estava lá, dependurada no armário de vidro. Aliás, nem sequer eram conhecidas, mas encontrei uma que me satisfez e agora, passados trinta anos, sei que foi uma boa escolha.

Havia duas ou três, passíveis de escolha, pelo preço e pelas características. Depois de mirar, remirar, completamente fascinado pelo panorama, dedilhar em modo principiante ainda sem calo nos dedos, ouvir o som demoradamente e mesmo desafinado, a ressoar na caixa de madeira, procurando a imitação mais perfeita do som em disco que costumava ouvir e depois de olhar para os modelos, comparando-os com as referências originais, escolhi: uma Kiso-Suzuki, de fabrico japonês, imitação das americanas da C.F.Martin, a referência máxima nesse tipo de instrumentos. Ainda hoje é uma magnífica guitarra e as referências colhidas na Rede, confirmam junto de outros compradores da mesma época que essa guitarra, foi o resultado de uma produção feliz, dos japoneses, ávidos de entrar no mercado europeu, nos anos setenta, com imitações das guitarras americanas. Como aliás se pode ler, aqui.

Nas imagens que seguem, a história da descoberta de um objecto fantástico que obriga a uma disciplina árdua, para se retirar todo o prazer do seu uso.

Em primeiro lugar, as imagens do fascínio sonoro, através da imagem. A primeira é do duo Crosby and Nash, com uma Martin D-45, dos anos 40.




Duas imagens da revista Rolling Stone, de configuração do tipo de guitarra e da forma exacta pretendida.












O anúncio da Epiphone, publicado numa revista National Lampoon do ano de 1975. Ao lado uma imagem sonora de uma guitarra, do grupo francês Ange, também de 1975 e publicada na revista francesa Best.











Uma Kiso-Suzuki, modelo idêntico ao que comprei em Vigo, da mesma época e com a mesma cor da madeira e o modelo original, da Martin, numa versão de 1976.
























O artigo de referência do Melody Maker, um guia do comprador esclarecido e o preço manuscrito da Epiphone.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Os estrangeiros da música

No final dos anos sessenta, início dos setenta, em Portugal a música ouvida não se resumia a playlists de sonoridades anglo-saxónicas.

Havia música de diversas proveniências na rádio e em discos à venda.

Para além da brasileira que cantava na mesma língua, vinham sons de outros lugares distantes.

Cantores franceses e francófonos, para além dos reis do disco da época, Adamo, Christophe ( Aline muito antiga, mas presente na memória como se fosse hoje ), o incontornável Je t´aime, moi non plus, de Jane Birkin e Serge Gainsbourg (que foi proibida de divulgação na rádio, mas não na venda do single), Sylvie Vartan, Charles Aznavour, Michel Delpech ( um Wight is Wight memorável e que fixou a minha atenção em Dylan is Dylan), Serge Lama, mas também Françoise Hardy ( fantástica voz sumida e feminina até mais não que cativava todos os interessados da época, como se mostra exuberantemente neste Ce Petit Coeur ou o ainda mais perturbador A quoi ça sert), Gilbert Bécaud, Georges Moustaki (o Meteco com a companhia já conhecida e Avec ma solitude ou mesmo Joseph) , Serge Regianni ( La femme qui est dans mon lit...uma das mais belas canções que conheço... sobre o tempo que passou), Georges Brassens, Leo Ferré e Jacques Brel, ( ne me quitte pas)ouviam-se regularmente. Italianos também, para além das Gigliolas Cinquetis e outros Cláudio Villa, como Sérgio Endrigo. E espanhóis também, sendo as figuras maiores, o catalão Patxi Andión ( Uno dos e tres) e os espanhóis Aguaviva:

Joan Manuel Serrat, Paço Ibañez, Patxi Andión, Waldo de Los Rios ( um Hino à Alegria memorável e que me transporta imediatamente até a essa época, principalmente aqui), até Los Bravos ( black is black) ou Mocedades ( eres tu, na Eurovisão) e principalmente…Aguaviva.

A música dos Aguaviva, hoje em dia muito esquecida, vem de final dos anos sessenta, e sumiu-se bem cedo do interesse público. O primeiro disco, Cada ves mas cerca, é de Janeiro de 1970 e tem dois êxitos certos: Cantaré e Poetas andaluces, tema repetido em 1975 e que dá o título ao disco Poetas andaluces de ahora.

O grupo espanhol de música representada em palco, numa abordagem tipo music-hall, chegou a apresentar-se em Portugal, no início de 1971, no Teatro Villaret.

Em Junho de 1971, a revista Mundo da Canção, publicou Me queda la palabra, do álbum Apocalipsis, segundo do grupo.

Em Setembro de 1972, a mesma revista publicou novo texto sobre o grupo, a propósito do álbum La casa de san jamas, um disco conceptual.

A música de Aguaviva, de Manolo Diaz e José António Muñoz, no início era servida pelos poemas esquerdistas de Rafael Alberti, com pendor geral para esse lado, embora a música estivesse por cima.
A sonoridade do LP de 1975, Poetas andaluces de ahora, é um clássico da música espanhola. Um álbum conceptual e de música classicamente perdurável, de Dos Cuchillos a Pon tu cuerpo a tierra, é um dos discos maiores da música popular espanhola.
























































Do mesmo tempo, estes portugueses, publicavam assim:


















O single de Duarte & Ciríaco e a capa do primeiro LP de Fausto, cortesia de Luís Pinheiro de Almeida.


quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Discos sem tempo esquecidos no tempo

Na música popular portuguesa, há certos discos que por uma razão ou outra nunca foram reeditados, ou perderam a validade para a memória musical do tempo corrente.

No final dos anos sessenta, já havia grupos e cantores de música popular em Portugal, suficientemente capazes de concitar a admiração pela qualidade das músicas e ainda das letras.

Durante muitos anos, a música popular, reduziu-se ao fado e ao folclore, e a grupos que aí se inspiraram. Um dos mais importantes, foi, sem dúvida, o conjunto António Mafra, com uma série de êxitos, saídos directamente da inspiração da música popular de raiz folclórica, das chulas, viras e marchas das festas populares. Se juntarmos o conjunto Maria Albertina a esse lote, ainda podemos associar o Trio Odemira e outros que vendiam singles e cassetes quando elas apareceram em massa, no início dos anos setenta.

Também nessa época, surgiu no panorama musical, outro tipo de grupos e outro tipo de música que se inspirava directamente no que vinha lá de fora da Inglaterra e da América.

O Conjunto Académico João Paulo e o Quarteto 1111 de José Cid, foram grupos inovadores, assim como o foi, a maior revelação de finais dos sessenta, a Filarmónica Fraude, de António Pinho e Luís Linhares.

Nessa altura, apareceram ainda os cantores de intervenção, designados como baladeiros que trouxeram a renovação da qualidade musical ao panorama incipiente dos anos anteriores.

Alguns desses baladeiros, com destaque para Manuel Freire, padre Fanhais, José Barata Moura, etc. marcaram algumas canções emblemáticas dessa época, como também o fizeram José Afonso, José Mário Branco e Fausto.

Algumas músicas, discos e canções ficaram, porém, esquecidas, não tendo saído do tempo em que foram publicadas. Nunca foram reeditadas em cd, nem se apanha traço delas em colectâneas ou recolhas avulsas.

Estão neste caso, os singles de Duarte & Ciríaco, de finais de 1969, com destaque para a canção popular da Beira Alta, Chária. Ninguém mais ouviu tocar e cantar A plaina corre ligeira, Chária, Chária, Chária, oh!

Assim, como nunca mais se ouviu Luís Cília, nas primeiras canções e a canção da Filarmónica Fraude, Animais de estimação, não se encontra facilmente.

Não é possível ouvir as primeiras canções de Fausto, nomeadamente Oh Pastor que choras, com poema de José Gomes Ferreira, ou Chora, amigo, Chora. Como não é possível ouvir as Novas Canções de Nuno Filipe ou Teresa Paula Brito, em Minha Senhora de Mim.












Dentre estas raridades que apenas é possível captar o som, no vinil original, e se for encontrado, destacam-se duas ou três obras fundamentais, inclassificáveis e que permanecem actualíssimas na sua qualidade intrínseca de música popular portuguesa.

A primeira, é um single de António Macedo, de início de 1970, intitulado Erguer a voz e cantar e que apesar de tudo aparece num cd de colectânea chamado Manhã Clara, a palavra e a música de Abril de 74, editado recentemente:

Erguer a voz e cantar

É força de quem é novo

Viver sempre a esperar

Fraqueza de quem é povo.

E a seguir, o estribilho:

Canta, canta amigo canta

Vem cantar a nossa canção

Tu sozinho não és nada

Juntos temos o mundo na mão.

Da mesma data e com relevo impressionante que só espanta em como nunca se recuperou em disco, mesmo cd, existe a música de Luís Rego, em Amor Novo, com letra de Maria Flávia. O single, gravado pela Vogue francesa, justifica-se porque Luís Rego, na época já se encontrava emigrado em França e fazia parte do grupo Les Charlots.
A canção, porém, é das melhores de sempre de toda a música popular portuguesa.












Ainda da mesma época, o single de Fausto Oh pastor que choras, é um lamento que nunca foi escutado em cd. Raridade absoluta, jazia há um par de anos num antiquário de Coimbra, que o vendeu por meia dúzia de euros.

Finalmente, mas não em último lugar no interesse, uma disco LP inteiro, sem excepção em nenhuma música. Nunca foi reeditado e apenas foi dado a conhecer em lugares de culto como este










Em 1970, a etiqueta Zip Zip publicou Homenagem, de José Almada, então com vinte anos.

O disco é de uma sobriedade e riqueza tal, na sua simplicidade, que representa para mim, um dos píncaros da música popular portuguesa. As letras exploram uma faceta da vida social, relacionada com um despojamento total que emparelha muito bem com os temas com que intercala: a morte nua e crua, realidade dos tempos de sempre.

E afinal, venho a saber que José Almada é vimaranense, terá hoje 56 anos e chama-se José de Almada Guedes Machado. No blog da cantiga que foi uma arma, pergunta-se: por onde andas, José?

Imagens: da revista Mundo da Canção e das capas dos singles originais e ainda do blog ratorecords