Que livros me impressionaram durante a vida? Que livros mudaram de alguma forma o modo de olhar o mundo e compreender os acontecimentos? Que livros foram importantes durante estes últimos 40 anos, para mim que comecei a lê-los mais ou menos por essa altura?
A resposta não é simples ou linear, embora alguns livros possam indicar-se. Um dos livros mais interessantes que li ultimamente, refere-se aos livros que ninguém lê e diz que lê. Pierre Bayard, refere a história de um personagem de um livro de Musil, ( o Homem sem qualidades) um bibliotecário que nunca lia os livros que recebia e apenas folheava, lendo as badanas e catálogos, fazendo-o precisamente para não se dispersar na floresta de letras de todos os livros e não perder a perspectiva de conjunto.
Muitos livros citados por quem alardeia a sua leitura, não são mesmo lidos mas ainda assim, podem ser citados como tal. Um livro não é só o conteúdo exacto e preciso da sua escrita, mas também o seu contexto, a sua situação e a relação com outros livros e os seus autores. O exemplo de Pierre Bayard, é o Ulisses de James Joyce que poucos leram e muitos citam. O autor confessa que não leu nem precisa de o ler para saber de quem se trata e do que trata, numa visão de conjunto. Umberto Eco também acha que não é preciso pegar num livro para poder falar sobre ele e apresenta como exemplo, um livro perdito, o segundo volume da Poética de Aristóteles que trata o problema do riso e que é um livro proibido e instrumento de morte, nas mãos do seu guardião, o bibliotecário Jorge de Burgos. Apesar de o não ter lido, o monge-detective, sabe de que trata e fala extensamente sobre ele, na obra prima de Umberto Eco, O Nome da Rosa, talvez o romance que mais me afectou em todos os sentidos intelectuais.
Assim, para falar de livros, em princípio não é preciso lê-los, forçosamente e passo a demonstrar em seguida porquê. De resto, há livros que se lêem, livros que se relêem e livros que se folheiam e lendo-se em parte e ainda outros que se lêem por alto, passando páginas. Além disso, o processo de esquecimento, a partir de certa altura da vida, torna-se tão vulgar e frequente que as leituras com mais de vinte anos, ficam por conta da memória recuada e por vezes apagada. Que adianta citar livros que se esqueceram se nem sequer nos influenciaram a memória desse efeito? Ao recordar livros desses, lembramo-nos no contexto em que os lemos, mas não conseguimos sequer abranger toda a matéria e assunto que tratavam.
Assim, a resenha que segue, serve-se da memória e dos seus auxiliares que são os próprios livros e referência aos mesmos.
No princípio, os livros que não li, foram os originais com as histórias de Esopo e La Fontaine, mas que eram oralmente contadas, em repetição e pela tradição. Com onze anos, já tinha sido exposto a histórias de Grimm, de Perrault, de mitologia greco-latina, através de filmes na tv, de historietas de banda desenhada e de livros propriamente ditos, de aventuras e de histórias.
Com a visita mensal da biblioteca Gulbenkian, passei a frequentar autores de aventuras e o primeiro deles todos, era um com o herói que dava pelo nome estranho de Pequenu, de quem já não lembrava o autor mas a Internet me ajudou a situar como Dick Laan. Por ser tão pequeno que uma formiga se lhe assemelhava, o efeito da imaginação redutora, foi tão grande que passados anos, o filme Querida, encolhi os miúdos, remetia-me para essas historietas mal contadas mas ilustradas em papel grosso e capa dura de papelão infantil.
Salgari? As aventuras de piratas nos mares das Caraíbas podem contar para este acervo? Talvez. Como contam as histórias de Walter Scott e principalmente Ivanhoe, cuja leitura me conduziu a procurar os outros todos da literatura cavaleiresca medieval, com aventuras de guerra entre senhores feudais e reis longínquos, protegidos por robins dos bosques. As histórias de guerra e de cóbois, das revistinhas em quadradinhos da Agência Portuguesa de Revistas, tinham mais interesse que a Eneida ou a Odisseia, contadas por Adolfo Simões Muller e que também passaram no crivo do interesse.
Uma das mais importantes influências sofridas, para sempre, e sem o contar, foi o contacto primitivo com o latim escolástico. A primeira frase latina que li, foi “Lusitania et Hispania sunt vicinae” E depois: "Avara est formica, et prodiga cicada", com a acentuação fonética devidamente assinalada. Torna-se por isso, óbvio que um dos livros que mais me influenciou nesse tempo e para sempre, foi a Selecta Latina, numa edição de jesuítas e de compêndio de textos literários, curtos, de autores clássicos da cultura romana. A primeira imagem da Selecta é uma ilustração a preto e branco do Fórum romano, em ruínas que só visitei muitos anos mais tarde e que me pareceu fantástico.
Os textos desta Selecta contemplam obras de Cícero ( O Sonho de Cipião), C.J. César( Comentários sobre a guerra gaulesa), Públio Ovídio Nasão ( Metamorfoses). Pode ser lugar-comum que já poucos citam, mas o livro que me impressionou aos 11 anos foi a…Bíblia, particularmente o Antigo Testamento, em versão ilustrada e reduzida, com as histórias todas do Antigo Testamento. Essas histórias, para quem as não ouviu, impressionam de modo definitivo, porque lidam com o transcendente e fantástico real, para quem acredita em Deus.
Para além do Antigo Testamento, um dos melhores livros de histórias que se pode ler, também figura numa das páginas dessa Selecta, um nome- Dostoievski, escrito a vermelho de esferográfica, com um título – O Jogador. O livro é um dos escolhidos, sem dúvida, porque é mesmo um clássico, mas só foi lido depois dessa referência que vinha aí por causa do lançamente, nessa altura, dos livros de bolso da RTP ( em 1971).
Esta colecção permitiu o contacto primeiro com alguns clássicos não lidos e nunca lidos e alguns percebidos. Camões, por exemplo, tinha o poema épico e tinha os sonetos. O poema era a seca da análise morfológico-sintáctica, mas a compreensão do enredo, marcava qualquer um que a ele fosse exposto. A história trágico-marítima e a epopeia dos descobrimentos portugueses, inspirada nos clássicos greco-latinos, é uma das referências de sempre de todos os que por lá passaram. Como não?
Talvez por isso, para regressar à terra bem firme, o Escutismo para Rapazes de Baden Powell, seja um dos livros perdidos e que ensinavam a fazer camas de palhas secas, nas tendas de campanha e a fazer lume com fricção primitiva, ensinando a despistar inimigos em trilhos improváveis.
As histórias de guerra, eram as mais interessantes nessa altura e por isso um dos livros importantes é um livro pequenino de Lutz Koch, uma biografia de Rommel e a História da Segunda Guerra Mundial de André Latreille, da editorial Aster.
Em seguida, por força de coincidências, o Despertar do Mágicos, de Louis Pawels e Jacques Bergier, foi um dos livros lidos e relidos por causa do realismo fantástico de certas passagens.
Pouco depois, em plena adolescência, o interesse em romances de grande fôlego atingiu o paroxismo com a leitura do Monte dos Vendavais de Emily Bronte e a história de amor que é de suster os sentimentos. Mais histórias de amor, há em muitos romances, mas essa é a primeira de todas. A seguir a essa, vieram O Vermelho e o Negro de Stendhal, David Copperfield de Dickens, Alexandre Dumas, Vinte anos depois; Balzac, Flaubert de Madame Bovary e Dostoiewski de Crime e Castigo; os livros de George Simenon e do seu Maigret até chegar ao nirvana de Conan Doyle e todas as aventuras de Sherlock Holmes e ao supra-sumo de Edgar Allan Poe e todas as suas histórias fantásticas, passando por quase todos os romances de Eça, Camilo, Aquilino, Júlio Dinis e Trindade Coelho. A experiência de Camilo é avassaladora por causa das palavras e construção de frases; a de Eça, por causa dos enredos, da ironia e das personagens escolhidas. Aquilino por causa das histórias recentes e do uso especioso da língua e Trindade Coelho das passadas em Coimbra.
Todas essas leituras me prepararam para o romance da minha vida de 40 anos de leitura: O Nome da Rosa, de Umberto Eco, sobre o qual poderia escrever páginas e páginas, porque a obra assim o permite.
É verdade que falhei Goethe que não li, a não ser como o bibliotecário de Musil. Idem para Shakespeare, ou Tolstoi de Guerra e Paz; nem li Céline ou Baudelaire ou mesmo Verlaine, mas ouvi a música com poemas dos ditos e li os contos de Techekov e li Somerset Maughan e principalmente Sinclair Lewis de Babbit e ainda os livros de Tom Sawyer, de Mark Twain . Camus, não me interessou depois de folhear. Sartre idem. Faulkner não fui ainda capaz. Gide nem pensar. Não li Bukowski mas folheei e cheirava a vinho que se fartava. Nem li Burroughs pelos mesmos motivos. Nem li Jorge Amado, mas vi as telenovelas. Herman Hesse escapou-me sempre, mas da próxima oportunidade, não me escapa a leitura de The Glass Bead Game. Kundera? No, sir. Lampedusa, um dia destes, porque já não desprezo Moravia. Philip Dick já experimentei e vou continuar com The Three Stigmata of palmer eldrich. Cervantes é de certeza interessante, mas como conheço a história não me abalanço às centenas de páginas que estão sempre à espera. Tal como a Montanha Mágica que aguarda por melhores dias. Kafka li, mas não apreciei muito.Hemingway, gostei muito de O Velho e o Mar e acho que li Moby Dick, por falar em mar. Proust, só de ver o tempo que perderia, nem quero ler, para não ter de recuperá-lo. Gosto de Borges, do conceito dos livros de Borges e de alguns contos fantásticos.
Assim, ataquei no devido tempo , os autores de historietas policiais e de suspense terrorista dos autores ingleses e americanos que melhor escrevem: Frederick Forsyth; Grisham, Michael Crichton e principalmente John Le Carré de quem devorei toda a trilogia Tinker Soldier Spy que é das referências máximas desta literatura.
Passado o abalo do Nome da Rosa, em meados dos anos oitenta, levei com outra experiência forte, literária, com A Fogueira das Vaidades de Tom Wolfe e de quem alguns dizem que não é autor de literatura. Mas é. Contemporânea e eficaz.
É com este que fico e o elenco é assim:
- Clássicos vários dos gregos e dos latinos e respectiva mitologia inesgotável.
- Antigo Testamento.
- Walter Scott. Ivanhoe
- Dostoiewski. O Jogador.
- O Monte dos Vendavais, Emily Bronte.
- O Despertar dos Mágicos, de Louis Pauwells e Jacques Bergier
- O cão dos Baskervilles, de Conan Doyle
- A Capital de Eça de Queirós.
- Trilogia Tinker, Tailor, Soldier, Spy, de John Le Carré.
- O Nome da Rosa, de Umberto Eco