sábado, 8 de dezembro de 2007

Os lá de fora



Nos anos sessenta e até setenta, em Portugal, valorizava-se muito o que vinha lá de fora, culturalmente.
Na música, então, era uma basbaquice completa, sempre que um qualquer grupo ou intérprete de renome mediático na tabela de vendas, aparecia por cá para um concerto desgarrado do habitual circuito internacional. Parece que na antiga União Soviética o fenómeno era pior: disputavam as calças de ganga de quem por lá aparecia, ido do "lado de cá", como bens de requintado luxo exótico.

Em 1970, um grupo belga, Wallace Collection, tinha já um êxito que por cá passou extensivamente na rádio: Daydream e a sucessão do refrão composto em lalalas, acompanhada dos rolamentos intensivos da secção rítmica, convencia de que se ouvia um som único. Na Primavera de 1970, o grupo esteve em Portugal e a revista Mundo da Canção, dedicou-lhe a capa e duas páginas.
A curiosidade da reportagem, assenta num pormenor também citado no blog do ié-ié, a propósito da guitarra portuguesa. Tal como Jimmy Page no final da década de oitenta, o elemento preponderante dos Wallace Collection, Van Holmen, na altura da estadia em Portugal, comprou uma guitarra portuguesa ( "não muito cara") e como comprovam as fotos, pelo menos dedilhou-a na altura...

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Contar a sério, como foi.

A história da música portuguesa dos anos sessenta, aquém e além dos baladeiros, passa necessariamente por Pedro Osório. Ontem, foi com os académicos do Quinteto Académico, de 1967. Na pequena entrevista, Pedro Osório dizia: "Quem toca jazz, como nós, e como nós se preza de não o fazer mal, tem de achar pobre a substância musical do pop, tem de achar repetitivo, fácil."
Não terá sido por isso que o músico dedicou grande parte do seu esforço criativo, nos anos a seguir, a compor cançonetas de festival, uma das poucas formas de sobrevivência para quem se dizia músico.
Nas imagens que seguem, do Século Ilustrado de 9.3.1968, o cantor Carlos Mendes, "estudante de arquitectura e a cumprir o serviço militar", aparece ladeado pelas duas notáveis da época: Simone de Oliveira e Madalena Iglésias.





















As imagens referem-se a uma reportagem por ocasião da transmissão televisiva do V festival da canção, cujo vencedor, Carlos Mendes, com a canção Verão ( música de Pedro Osório), teve de competir com intérpretes como Mirene Cardinalli, Tonicha ( duas canções), Nicolau Breyner, J.M. Tudela, José Cid, Simone ( duas canções) e António Calvário.
Vale a pena ler as legendas das fotos, num ambiente "conta-me como foi". A tv no alto do palanquinho; os olhares oblíquos; a imagem a preto e branco da tv, onde se reconhece o trabalho do apresentador a contar votos expressos, vindos dos distritos do país e um retrato a sépia de espectadores atentos, num qualquer café de bairro, sem faltar o pormenor daquele que munido de apontamento de revista ( seria a Rádio & Televisão?), segue atentamente o evoluir das votações. Há várias pessoas de gravata, num café, à noite e a menção ao café, servido e acompanhado de três "bagaços". Bagaço assim, num café, hoje já não há.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Os reis do Yé, yé, yé!

A história do rock português, dos anos sessenta, prè-baladeiros, anda a ser contada por aqui e aqui e ainda aqui.
Não sendo desse tempo de meados dos anos sessenta, é com prazer que visito esses lugares onde se aprende. Aqui fica a minha pequena contribuição. Amanhã, há mais.




















Os reis do yé-yé? Eram estes. Com o Pedro Osório, à frente. ( curiosamente a falar agora mesmo na RTP2 sobre...cultura). Assina o artigo um tal F.B.S. que só pode ser ...Fernando Brederode dos Santos. Como?!






















sábado, 1 de dezembro de 2007

Creem de la crème

Na América do final dos anos sessenta e em toda a extensão da década seguinte, uma revista de divulgação musical, assumiu-se como a única revista de rock n´roll da América: a Creem.

Saída pela primeira vez em Março de 1969, a revista acabou no final dos anos oitenta.

Em Dezembro de 1976, comprei um dos números, não sei bem porquê. Eventualmente, pelo aspecto gráfico que tinha o seu quê de interessante e pelas publicidades aos discos que iam saindo. Não foi certamente pelos escritos de Lester Bangs, um dos melhores críticos rock e não foi pelo conteúdo, acentuadamente rock, com tudo o que este conceito, abarcava: sex, drugs, and rock n´roll, principalmente. E carros, com páginas dedicadas aos "carros das estrelas". A Rolling Stone, na mesma época, mostrava de vez em quando, as "aparelhagens sonoras das estrelas", numa variação muito mais interessante, mas seguramente menos espectacular. Alice Cooper, em Novembro de 1975, apresentava o seu Chevy Bel Air, colheita de 57. Três anos depois, os Ramones apresentavam a sua máquina: um Ford Pinto, todo escaqueirado. George Clinton, o campeão do funk, na época de 1978, posou ao lado de um camião...de recolha de lixo.

Nessa altura, a minha revista preferida, sobre música, era a Rolling Stone, seguida pela Rock & Folk.

A Creem, vinha de Detroit, a cidade dos carros. Tal como a Rolling Stone, que era de S. Francisco e dava atenção primordial aos grupos musicais da zona, como os Jefferson Airplane e Grateful Dead, assim a Creem, abria as suas páginas aos MC5 e aos Stooges, acabando por influenciar a crítica europeia, da Rock & Folk. Alguns críticos desta revista, como Phillipe Manoeuvre, deliravam com os escritos de Bangs. Este, acabou por recolher, em 2003, as prosas dos setenta, dispersas por várias publicações americanas, em Mainlines, Blood Feasts, and Bad Taste ( Anchor Books).

















Na foto da esquerda, em baixo, o grupo Aerosmith, afina as poses de palco, tendo pousado um exemplar de outro jornal de referência, novaiorquino, o Village Voice, criado , além do mais, por Norman Mailer. Ao lado, um artigo assinado por Lester Bangs, um dos mitos da crítica rock, reverenciado por Cameron Crowe, no filme Quase Famosos, sobre este período da música popular norte-americana. Um filme primoroso, com uma banda sonora de luxo e um argumento adequado.




domingo, 25 de novembro de 2007

Publicidade em movimento

Nos anúncios de revista dos anos setenta, em determinada altura começaram a aparecer anúncios mexidos, dando a impressão do movimento acelerado e esteticamente elaborado, para configurar um determinado cenário. Algumas dessas publicidades começaram com fotos para discos. Como o X dos Chicago, o que contém If you leave me now...ficando aqui a foto da dupla capa interior.



Nos anúncios a produtos como os primeiros computadores, ou a calçado de qualidade, em revistas como a Playboy.





















Ou nos anúncios da New Yorker, a televisões japonesas ou ainda a peças de teatro.























E a aparelhagem de som ou imagem. O conceito é o mesmo: movimento sugerido e virtual.


Pop alemã

Já os alemães, na mesma altura, publicavam posters e compravam os artigos ao Melody Maker inglês. Os posters eram bons. O papel de qualidade lustrosa e apelativa. Os artigos, ilegíveis. Como estes. Da Pop, da primeira metade da década de setenta.




















Boas Vibrações

Nos anos setenta, enquanto em Portugal se publicava o Disco, música & moda, a Mundo da Canção e mais tarde, a Música & Som,na vizinha Espanha, onde a peseta custava menos de metade de um escudo, publicava-se uma revista de música popular a sério e comparável com as europeias e até americanas: a Vibraciones.


sábado, 24 de novembro de 2007

The Best

Entre as revistas de música popular, da década de setenta, publicadas em França, havia a referência Rock & Folk e ainda a Best. Esta, mais centrada em ilustrações de página inteira, ficava uns bons pontos abaixo daquela, no que respeitava à qualidade de escrita e no aspecto gráfico. Ainda assim, alguns artigos justificavam a compra. Por exemplo, destes números.

Um, com as imagens da tournée dos Rolling Stones, pelos USA, em 1975 e outro com um historial dos Led Zeppelin, de 1976, por altura da saída do LP Presence.






















Na Best de 1976, está publicada uma foto de Jimmy Page, a tocar viola acústica. Uma foto belíssima em que a viola parece soar ao vivo, adivinhando-se o som Martin dedilhado pelo músico. No número de Dezembro de 1975, a par de uma história de David Bowie, apareciam quatro páginas com letras de temas dos Van Der Graaf Generator, um dos grupos que então mais apreciava, o que se manteve ao longo destes anos, aliás. A primeira vez que li a letra de Man-Erg ( Killer, lives inside me...) foi nesse número e em francês. Segundo a tradução do crítico é um hino à esquizofrenia. Um hino, é um modo de dizer em francês...
A foto dos Van Der Graaf, a primeira que me era dado ver do grupo de rock, foi destacada para colecção. Voltou tempos depois, ao lugar original. Este que se mostra.





quinta-feira, 15 de novembro de 2007

A nova ordem da divisão da alegria

O primeiro disco que comprei, com dinheiro ganho por mim, foi escolhido literalmente a dedo. Foi em 1981 e entre as várias escolhas possíveis, foi o LP Movement, dos New Order o que começou a rodar no prato Dual, num som ainda longe da perfeição, mas muito melhor do que qualquer arremedo sonoro, de mp3 actual.

Os New Order de 1981, seguiam-se aos Joy Division, bem publicitados por cá, por um Miguel Esteves Cardoso que sobre eles escrevia, de Manchester, lugar original da banda de Ian Curtis, que se suicidou em Maio de 1980.

O lugar da escrítica era na altura O Jornal, onde na edição de 11.11.1980, foi publicada a crónica crítica sobre o disco Closer, o último da banda, depois de Unknown Pleasures, o primeiro, depois dos singles que marcaram a época, como Love will tear us apart, publicado já depois da morte de Ian Curtis, tal como o LP Closer, aliás.

Em Portugal, nessa época, os Joy Division eram um grupo conhecido, mas ainda pouco divulgado a não ser pelas crónicas ditirâmbicas de MEC. Em 23.10.1981, também no O Jornal, publicitava o álbum duplo, Still, uma recincidência do artigo publicado em 21.10.1981, no Sete, sobre o mesmo disco; em 30.9.1981, no Sete, escrevia sobre os New Order, de Everything is gone green, o primeiro single antes do primeiro álbum; em 11.12.1981, mais um artigo no O Jornal, sobre a música dos Joy Division e a indicação de que Ian Curtis, com 23 anos, gostava de Kafka e Herzog. Curiosamente, também na mesma época, o cineasta alemão era dos meus preferidos, depois de ter visto O Enigma de Kaspar Hauser.

Não há dúvida: se alguém, em Portugal, publicitou a banda de Manchester, foi precisamente Miguel Esteves Cardoso, na altura, emigrado em Manchester.

A sonoridade Joy Division, para dizer a verdade, nunca me passou nos carretos sonoros, com a mesma intensidade da escrita de MEC, na altura. Mesmo assim, o som seco da bateria, acompanhado pela guitarra em fuzz permanente, com a electrónica dos teclados e a voz grave e triste de Ian Curtis, era um eco que então se escutava com alguma atenção. Além do mais, as capas dos discos, eram talhadas ao milímetro por um artista do design, Peter Saville, que associava o novo ao antigo, o clássico à arte contemporânea.

A capa de Movement, o primeiro LP que comprei, foi uma escolha estética também por causa disso, porque o objecto sóbrio e de cores limpas, desenhava um traço já visto noutros lados, mas nunca em disco de música popular.

A música dos New Order, eminentemente electrónica, tornou-se cada vez mais pop e por alturas do Lp, Technique, de 1989, já nem se distinguia de outras aventuras electro pop. Não obstante, o LP Power, Corruption and lies, de 1983, ainda conserva o encanto das descobertas sonoras dos anos oitenta. Das poucas que ainda eram possíveis nessa época.



























Imagens: Capa e contra-capa do Lp Movement, original e prensagem portuguesa da Vimúsica, Lda, de 1981.; NME de 20.4.2002( cinquentenário do semanário inglês de música popular) e O Jornal de 11.11.1980.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

O professor Xavier e outras histórias

A imagem do disco de Manuela Moura Guedes, no blog do Ié-Ié, lembrou-me a existência de um disco gravado em 1983, em duplo single, por um grupo efémero chamado Clube Naval, de uma mítica Fundação Atlântico, orientada por Miguel Esteves Cardoso, até aí escrítico de música no O Jornal, Sete e afins.
O disco é uma gracinha, glosando o tema equívoco das relações professor-aluna, numa época precisamente em que também dava aulas e me dava conta das subtilezas no trato que um professor deve assumir, para não cair em tentações escusadas.
A música é simples, o arranjo também, da autoria de Ricardo Camacho, mas é um tema pop com muita graça e leveza que faz um bom disco, porventura completamente esquecido. Foi gravado em Paço de Arcos, por Tó Pinheiro da Silva.
E serve às mil maravilhas para introduzir os anos oitenta, e as descobertas de então.























domingo, 4 de novembro de 2007

Etiquetas

A pequena história destas duas etiquetas de calças de ganga, do início dos anos setenta, pode ser lida nas Rapsódias do Mundo Moderno.

A roupa e a moda, sempre foram, a par da música popular, um dos motivos de interesse da malta nova. De agora, como dantes. Os símbolos da moda, em todo o lado, marcaram o sucesso efémero de marcas. Algumas continuam, outras acabaram. Outras ainda, apareceram de novo.
A roupa de ganga, particularmente as calças e blusões, foram adquirindo, nas décadas de sessenta e seguintes, do séc XX, um significado cultural que permitiu um nivelamento do gosto na moda do vestuário. A qualidade natural do algodão, aliada ao conforto de uso de vestuário casual, permite um uso generalizado e apetecido.





















Em função dessa generalização do gosto, a publicidade utilizou ainda esses símbolos para dar mensagens de outros produtos, como o tabaco. Este anúncio, dos anos setenta, simboliza o "Marlboro man", tão combatido nos anos noventa, na América de Clinton. Esta imagem, no entanto, mostra a cor da ganga já desbotada pela prè-lavagam industrial.


Os anúncios a tabaco, sempre disputaram a atenção do consumidor, com artifício variados. Para mim, o slogan "I´d walk a mile for a Camel", era perfeito. Em meados dos setenta, procurei este maço particular do tabaco americano, com gosto turco. O anúncio é da mesma época.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Musician para músicos e leigos

No início dos anos oitenta, a curiosidade a propósito de outras revistas de música, levou à descoberta de uma das melhores que nessa altura se publicavam: Musician-player & listener, surgiu em 1980 e acabou no fim do milénio, em 1999.
Ligada à editora da Billboard, órgão oficioso da indústria da música americana, a Musician, de Boulder, no Colorado, durante quase vinte anos, publicou o que a Rolling Stone já não publicava e a Crawdaddy já não podia: o ponto de vista dos músicos, de um modo associado à música, mais do que ao espectáculo. Talvez por isso, alguns escríticos da Rolling Stone, passaram a escrever na Musician. Casos de Timothy White, Charles M. Young e David Fricke.
O primeiro número que chamou à atenção foi o de Fevereiro de 1982, com esta capa e a entrevista com Ringo Starr. O seguinte, trazia Miles Davis, na capa e também Little Feat. Ninguém, nessa altura misturava assim os géneros. Nem a Guitar Player ou a Downbeat
























quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Mais rapsódias

Foram reactivadas as Rapsódias do Mundo Moderno. São essencialmente histórias de revistas da infância e adolescência, para não ficarem esquecidas nos arquivos de papel. Cada revista é um mundo.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

O Record americano

No início dos anos oitenta, por volta de 1982, a revista Rolling Stone, dedicava as suas capas cada vez mais aos assuntos do cinema. Pelo menos metade delas, nesse ano, foram para filmes e artistas dos movies. Talvez por isso, paralelamente, formou-se um jornal, à moda antiga e dobrado na maneira inicial da revista que começou como jornal que se dobrava para mostrar a capa em meia página e a outra meia para a publicidade. O jornal novo, saído das edições Straight Arrow , a editora da RS, tomou o nome de Record.
Durante o ano de 1983 arranjei alguns números, por causa da escrita de Dave Marsh, numa coluna que trouxe da Rolling Stone: Americam Grandstand.
Os números de Junho e Agosto de 1983, tinham estas capas e desdobravam-se também naquele modo particular para assumirem o formato de jornal tablóide: