terça-feira, 28 de agosto de 2007

Gir e Moebius

A história de Moebius, tem desenvolvimento diverso. Primeiro Gir; antes disso, Jean Giraud, começou também na revista Pilote, com as histórias de Blueberry, publicadas a seu tempo, na revista Tintin, portuguesa.

Na revista Pilote de 5.4.1973, vista em Agosto de 1974 e inserida no volume 66, aparecia uma sequência de seis páginas da historieta do tenente Blueberry, L´Outlaw.

Essas seis páginas ainda assinadas por Gir, pseudónimo de Giraud, marcam uma nova forma de desenhar o western, na sequência de outras histórias anteriores, como Ballade pour un cercueil; Chihuahua Pearl e L´Homme qui valait 500 000 dollars ou ainda Angel Face, a última desta saga. Qualquer uma destas histórias de western, interligadas na intriga, valem um bom filme do género e o desenho, é dos melhores que Giraud jamais produziu.

Gir era Giraud, aliás Moebius. Tal como Numa Sadoul o retratrou num livro de época, de 1976, com desenho de capa de...Tardi. Em 1991, voltava ao tema e recolhia em volume de luxo, várias entrevistas, incluindo as do primeiro volume e ainda desenhos do mestre.


As duas primeiras pranchas de L´Outlaw de Blueberry:



Jacques Tardi, encore

Jacques Tardi, em 1976, iniciava a publicação da saga das aventuras de Adèle Blanc-Sec, uma heroína, nada como as outras e que viu a luz, pela primeira vez e em continuação, no jornal diário Sud Ouest. O primeiro volume da série, Adèle et la Bête ( Adèle e o Monstro), saiu em álbum cartonado, publicado nas edições Casterman, nesse mesmo ano.

Adèle congrega nas historietas, o mesmo ambiente de uma Paris, de início do séc. XX, com personagens estranhos e lugares míticos.

Depois das histórias de Brindavoine e a sua introdução, em 1974, com a historieta A Flor na Espingarda, a mudança afigurava-se auspiciosa. Tardi, disse depois, numa entrevista, que Adèle era o contraponto feminino à personagem de Brindavoine e numa época em que as mulheres na banda desenhada, se apresentavam de preferência despidas, era refrescante para a imaginação, poder olhá-las de outra maneira.

Ainda em 1974, Tardi, publicava a história Le Démon des Glaces, em álbum cartonado na Casterman e a preto e branco, com inspiração saída das ilustrações de Gustave Doré.


Aqui fica a continuidade da história da Flor na espingarda, de uma poesia literalmente desarmante e que resume quase toda a obra de Tardi.












































Uma flor na espingarda

Jacques Tardi, o autor da capa da primeira ( A Suivre), é um autor francês de Banda Desenhada, nascido em 30 de Agosto de 1946, da craveira dos maiores.

Em Junho de 1974, por ocasião de uma visita à Bertrand de Lisboa, em Junho, havia um filão escondido na secção de banda desenhada da velha livraria da rua Garrett. Uma série de álbuns cartonados que recolhiam vários números da revista Pilote. O primeiro escolhido ( ao preço de 115$00) , com o número 65, abarcava os números 688 a 697, de 11.1.1973 a 15.3.1973.

Em Fevereiro de 1974 ( nº 745) , tinha começado a comprar a revista, semanalmente, porque me interessavam já as novas experiências desenhadas, para além do Tintin- com história na Porta de Loja.

Nesse mesmo mês de Junho de 1974, porém, simultaneamente com a descoberta nos arquivos da Bertrand, a revista passava a periodicidade mensal, e o primeiro número, nesse novo formato, foi uma magnífica surpresa, com a descoberta das primeiras ilustrações de Moebius que começava a largar o espartilho do realismo de Blueberry, para se lançar na ilustração de pequenas histórias de ficção científica.

A Pilote novo formato ( imagem da direita), no entanto, não acompanhava em recheio artístico a anterior experiência que só agora descobria por via dos álbuns de recolha de números antigos que ainda havia disponíveis pelas Bertrands do país. Foi assim que em poucos meses, apareceram mais alguns volumes até ao número 749 de 14.3.1974 e abrangendo já alguns números que comprara em avulso.















Nessas revistas descobri pela primeira vez, entre outros que ainda não vira no Tintin português , Fred, Solé, Mandryka, F´Murr, Bilal, Druillet e …Tardi, que publicava a primeira historieta – Adieu Brindavoine, precisamente nos números do volume 65, da Pilote.

Porém, no volume 70, no nº 743 ( de 31.1.1974), uma pequena historieta sobre a I Grande Guerra mundial, assinada pelo mesmo Tardi, deixara-me então completamente embasbacado, pela cor, pelo tratamento da imagem e pelo tema desenhado. Ficam aqui as primeiras quatro imagens que continuam, a seguir. Até chegarmos a 1976 e às historietas da Adèle "joli brin de fille" Blanc-Sec.














La Fleur au Fusil













































Imagens: capas do volume 65 da Pilote e do primeiro número da série começada em Junho de 1974. Duas páginas da Rock & Folk de Setembro 1976, sobre Tardi e o começo das aventuras de Adèle Blanc-Sec e quatro da celebrada historieta de Tardi, La Fleur au fusil ( que continua)

sábado, 25 de agosto de 2007

Uma parábola sobre a fantasia


A revista (A Suivre), publicou o primeiro número em Fevereiro de 1978 e foi uma novidade de tomo no universo da banda desenhada franco-belga. Nessa época, ainda a passar uma fase de ouro, com novos autores a aparecerem no panorama de outras publicações como a Métal Hurlant, surgida em 1975 e a Pilote que se aguentava desde os anos sessenta, para não falar do Tintin que sobrevivia desde sempre, a banda desenhada, merecia atenção.

Na (A Suivre), toda a preto e branco, Jean-Paul Mougin, prometia dedicar as páginas ao “récit”, à narrativa, “sous toutes ses formes”. Não existe povo sem narrativas, e estas chamam-se mitos, lendas, história, romance, banda desenhada, escrevia o primeiro chefe de redacção da revista. Que contava com o nome de Etienne Robial, o genial designer gráfico da Métal Hurlant e cultor das letras em forma sólida e ampliada e do traço grosso, a negro, a separar os artigos e o enquadramento das colunas de texto.

O primeiro número da revista trazia o início da historieta de Tardi e Forest, Ici Même e ainda, entre outras, Corto Maltese, de Hugo Pratt, na aventura na Sibéria, onde aparece um certo Rasputine.

O último número da revista, foi em Dezembro de 1997, quase vinte anos depois. Nela se publicam várias historietas curtas de vários autores de bd. Um deles, Moebius,( que desenhava para a Métal Hurlant), desenhou estas oito páginas que seguem e que são uma parábola sobre o mundo pessoal da fantasia. Um mundo, onde um simples gesto muda um universo.




































































sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Coleccionadores

Um dos coleccionadores que mais admiro, no campo musical, é o inglês Colin Larkin.

A sua colecção de publicações dedicadas à música popular, não tem paralelo conhecido, a não ser nos leilões da ebay.

Colin Larkin, vive com a família na região de Suffolk, e colecciona desde 1961, todas as publicações musicais e ainda discos e livros.

A sua colecção particular de discos, atinge as dezenas de milhar e mesmo assim, muito atrás de tipos como Bob Harris que durante anos apresentou na BBC o programa The Old Grey Whistle Test ( con três dvd disponíveis e imprescindíveis para todo o amador de música popular) e John Peel, já falecido e o maior dj inglês de sempre, descobridor de talentos musicais e que animou nos primórdios dos sessenta, a rádio Caroline, pirata e antecessora das emissoras modernas dedicadas à música popular.

Colin guarda 3000 LP´s; 2000 singles em vinil; 30 000 cd´s; 4000 livros sobre a música popular e ainda comics ( não deve ter nada da bd franco-belga…), suplementos dominicais do Observer e do Sunday TImes, apanhando os anos sessenta e setenta e, cerejas reais no topo deste bolo fabuloso: colecções completas ou quase, de todas as publicações dedicadas à música, desde 1961: cerca de 15 000, com títulos míticos como Sounds, Zig-Zag, Disc and Musica Echo, Record Mirror, Beatles Monthly e os mais correntes New Musical Express, Melody Maker e Rolling Stone. Faltam-lhe, claro, as francesinha Rock & Folk e Best e ainda as alemãs PoP e Musikal Express ( o que não é garantido, porque Larkin, começou a escrever sobre música para uma revista alemã...) e também não li nada sobre a Crawdaddy americana, a primeira revista a sair a público, em 1966, sobre a música popular, (não contando como os jornalinhos que já então saíam periodicamente, num e noutro lado do Atlântico, como Billboard e Melody Maker).

Esta colecção de Colin Larkin é o sonho de qualquer amador de música popular e das imagens e textos associados.

Para quem começou a coleccionar em 1969 e apenas a partir dos anos setenta, logrou apanhar nas bancas, em escrita de Shakespeare, umas Rolling Stone, uns Melody Maker e New Musical Express ou um ou outro Disc & Music Echo, a comparação só satisfaz porque garante que existem pessoas ainda mais maníacas do que outras e ainda por cima, sabem cozinhar ao Sábado à noite para a família ( como Larkin afirma). Ou seja, parecem minimanente normais, o que é sumamente tranquilizante.

A caracterísitica típica de coleccionador de Colin Larkin, revela-se quando afirma que anda à procura de um disco de Captain Beefheart, Strictly Personal. Não, o disco, mesmo em LP, não está esgotado ou desaparecido de circulação como outros. O que Colin pretende, no entanto, é mais raro de obter: um exemplar novo, original e de prensagem americana, ainda fechado no envólucro de celofane que os americanos usavam para embalar os LP´s nos anos setenta. Sei como é, porque tenho discos desses ( por exemplo, Doc Watson, Live & Pickin´de 1979 e ainda Doc and the Boys, de 1981, ambos embalados no cartão pardo e pesado da manufactura tipicamente americana e sem comparação com a europeia e ainda cheiroso da celulose, com o envólucro decorado com o logotipo da Liberty records). E alguns, conservam a fina película de celofane, que obrigam a esforço de cuidados redobrados sempre que são manuseados.

Colin Larkin, colabora em publicações musicais e já escreveu livros sobre o assunto. Não admira nada que tenha sido o autor de uma Enciclopédia da música popular, publicada pela Virgin, em 10 suculentos ( 27 000 entradas) e caros volumes ( à volta de mil euros). Parece que vai tornar-se aberta a consulta pública e online, grátis.

Colin Larkin, além do mais, não gosta de ouvir Elvis Presley, apesar de ter escrito um dos maiores artigos sobre o "king", na sua enciclopédia. Também não gosto. Prefiro, Buddy Holly. Well allright.

Quando a revista Record Collector lhe perguntou, no número de Setembro de 2005, qual era o seu disco preferido de todo o sempre, respondeu: If I Could only remember my name, de David Crosby, do ano de 1971. Eu não saberia responder tão rapidamente e é por isso que vou escrevendo estas coisas, para chegar a alguma conclusão acerca do comportamente. Conhece-te a ti mesmo, dizia o outro…














Imagens: revista Record Collector de Setembro 2005

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Sonhos empedernidos

Em 1973, Guy Peellaert, e o jornalista inglês Nick Cohn, publicaram um livro com ilustrações de figuras da música popular e chamaram-lhe Rock Dreams. O livro, segundo um artigo na revista Crawdaddy de Julho de 1974, é uma recolha de centena e meia de quadros originais, organizados como montagens fotográficas, com tratamento a aerógrafo, publicados de modo avulso em publicações alemãs e que foram recolhidas em livro pela editora francesa Albin Michel, em 1973. A edição inglesa foi noticiada nos primeiros meses de 1974.

A imagem supra, do original de 1973 ( versão inglesa ou americana, provavelmente), foi retirada daqui.

Quase todas as imagens do livro, foram realizadas a areógrafo. Algumas delas, foram sendo republicadas nas revistas de música, como a Rock & Folk, francesa, que em Outubro de 1982, por ocasião da reedição do volume ( pela mesma editora Albin Michel) , esgotado há muito, dedicou oito páginas ao assunto, o que aliás já tinha feito com a edição original, no número de Novembro de 1973, a que até dedicou a capa.
Aqui ficam algumas imagens desse livro, tiradas da revista Rock & Folk de 1982:




















As imagens de Peellaert que ilustrou ainda capas de discos ( David Bowie e o LP Diamond Dogs, de 1975, além do apontado dos Stones), levaram a que o livro esgotasse, tendo sido novamente reeditado, em 2003, por ocasião da efeméride dos trinta anos, pelas edições Taschen.
As duas imagens seguintes, retratando alguns ícones do rock, incluindo o grupo Crosby Stills Nash & Young, ficam melhor aqui ( ou na revista de onde foram tiradas) do que no livro de Peellaert. A razão, tem a ver com a dimensão. No livro, a dimensão maior, retiram-lhe paradoxalmente, o efeito do pormenor e de enquadramento num fundo negro que é onde assentam bem.



As seguintes, de Jerry Lee Lewis e dos Stones, são avulsas e da mesma proveniência:





















A iconografia rock, aliás, permitiu a alguns artistas, a expressão de imagens como estas que seguem, de finais dos anos setenta e usando o mesmo método pictórico.

Ar comprimido de inspiração

As publicações periódicas, com anúncios e ilustrações, sempre foram para mim, a fonte de conhecimento imediato das artes correntes.

Em determinada altura dos anos setenta, dei conta de um modo de ilustrar que superava o realismo fotográfico, com cores mais vivas que o real e pormenores iluminados de modo hiperluzentes.

A luz de um pirilampo no escuro de um noite quente de Verão, apresenta um amarelo hiper-realista, que uma pintura ou foto normal não captam com naturalidade.

A melhor forma de dar luz a um pirilampo numa folha de papel, é com tinta soprada em spray, por um instrumento inventado no final do séc. XIX, na América, o aerógrafo.

Contudo, esta informação, só recentemente a obtive, porque antes disso, as ilustrações de revista e de anúncio em reclamo de produtos, apenas fascinavam pelo aspecto deslumbrante do brilho, sem curiosidade acrescida para saber de onde vinham.

Hoje em dia, a informação disponível na Rede acerca dessa técnica especial, para ilustrar imagens originais ou retocar fotos, é suficiente para se tornar conhecida toda a história da pistolinha de ar comprimido que na América se chama Airbrush ou Aerograph e tem marcas como Paasche, criadas no início do séc XX.

Com esse pequeno instrumento e a habilidade técnica necessária, em conjunto com a sensibilidade suficiente, produzem-se pequenas obras de arte, com efeito visual impressionante.

Foi através dessa impressão inicial que nos anos oitenta procurei saber mais sobre esse tipo de ilustração e quem seriam os seus cultores mais exponenciais.

Através dos anos, descobri que no início dos anos setenta, se verificou um renovado interesse no uso dessa técnica pictográfica para a ilustração de capas de revista, posters de concertos musicais, publicidades variadas e ilustrações diversas.

Os pionieiro nesse revivalismo, no campo musical foram, sem dúvida alguma, os Rolling Stones que nos posters das suas tournées do início dos anos setenta, usaram ilustrações a aerógrafo, bem impressionantes na qualidade técnica.

As capas de discos foram outro campo onde pousaram as sopradelas do ar dos pequenos instrumentos de pintura e durante essa década, há sobejos exemplos dessa arte de fazer capa de disco em LP.

As revistas, particularmente as americanas Rolling Stone, Playboy ( e Oui), National Lampoon, Crawdaddy e Creem, usaram largamente das potencialidades da técnica hiperrealista para apresentar as suas chamadas de capa e de artigos de fundo.

Como exemplos máximos, saídos de várias ilustrações nos anos oitenta, ficam aqui as seguintes:
A primeira imagem que provavelmente me chamou a atenção para a beleza plástica da ilustração em aerógrafo, foi esta capa de disco dos Pretty Things, o Silk Torpedo, de 1974.
Em sequência fotográfica apresentam-se, de cima para baixo e da esquerda para a direita, ilustrações de Vargas, o americano das pin-ups ( concorrente do francês Aslan) extraída de um livro de ilustração e desenho, em espanhol, da editora H. Blume Ediciones, de 1982 e a capa da revista americana Creem de 1974 ; duas imagens da revista Rolling Stone, dos anos setenta; duas capas de discos, dos Rolling Stones ( It´s only Rock n´Roll, de 1974) e Rod Stewart, (Atlantic Crossing de 1975); ainda duas capas de discos de Elton John ( Goodbye Yellow Brick Road, de 1973 e Captain Fantastic, de 1975. Todas as imagens, excepto a da revista Creem, são extraídas de publicações que guardo.
Por último, uma referência ao ilustrador Guy Peellaert, que além de autor da capa do disco dos Rolling Stones, It´s Only Rock n´Roll, publicou em 1973, um livro de recolha de ilustrações em que se destacava esta técnica especial: Rock Dreams.