quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Eros e Thanatos outra vez

Lembro-me muito bem do dia 15 de Agosto de 1978. Andava nas nuvens da paixão e cantava a todo o tempo, o que então passava na rádio e me interessava: O LP London Town, de Paul McCartney e os Wings e ainda City to City de Gerry Rafferty, dois excelentes discos que ainda hoje se ouvem com todo o prazer do momento.

Nas leituras, era na Rolling Stone que repousava os olhos ávidos pelas novidades musicais de lá de fora , da América.

No dia 15 de Agosto de 1978, feriado da Senhora da Assunção, já em casa e precisamente a esta hora ( tinha passado a noite em passeio, em grupo e com a minha amada, numa experiência de romaria a uma festa minhota), provavelmente lia esta notícia, um obituário de Sandy Denny, uma das cantoras que mais aprecio e cujos discos, são todos imprescindíveis, principalmente o primeiro a solo e que contém uma versão inultrapassável de um título de Bob Dylan: Tomorrow is a long Time. O tema, é a perfeita transposição, no tempo, dos sentimentos de paixão que me separam de mulheres diferentes, num espaço de vinte anos. Fantástico. E com uma singularidade: foram as maiores paixões, as mais duradouras e provavelmente definitivas.

Quando Sandy Denny morreu ( num acidente doméstico, caiu de uma escada), senti uma tristeza pelo desaparecimento de uma voz única, como sinto sempre pelo desaparecimento dos artistas que felizmente, são muito, muito poucos.

No caso dela, porém, ficaram os discos. Passados uns meses, em Janeiro de 1979, experimentei o maior sofrimento da minha vida, associado à perda daqueles que amamos. Nem imaginava, ao ler em Agosto de 1978, a notícia da morte de Sandy Denny, que dali a um tempo, experimentaria o maior pesadelo que alguém pode ter, naquela idade: perder para sempre aquela que se ama.

É em sua memória que deixo aqui este postal. Como deixo um poema de António Feijó ( poeta de Ponte de Lima, 1859-1917) que li sempre acompanhado, com as mencionadas e com uma profunda tristeza, porque é um poema tragicamente realista. Romântico. Porque a essência do escrito, sendo verdade, é iludível pela vontade de contrariar o veredicto antecipado do Tempo. Só tarde demais nos apercebemos do conteúdo terrível da profecia que encerra. É notoriamente uma alegoria de Thanatos.

Pela montanha alcantilada
Todos quatro em alegre companhia,
O Amor, o Tempo, a minha Amada
E eu subíamos um dia.

Da minha Amada no gentil semblante
Já se viam indícios de cansaço;
O Amor passava-nos adiante
E o Tempo acelerava o passo.

_ " Amor! Amor! Mais devagar!
Não corras tanto assim, que tão ligeira
Não pode com certeza caminhar
A minha doce companheira!"

Súbito, o Amor e o Tempo, combinados,
Abrem as asas trémulas ao vento...
_ " Porque voais assim tão apressados?
Onde vos dirigis?" _ Nesse momento,

Volta-se o Amor e diz com azedume:
_ " Tende paciência, amigos meus!
Eu sempre tive este costume
De fugir com o Tempo...Adeus! Adeus!"

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Eros e Thanatos

Num tempo- anos sessenta- em que a tv (de todo o mundo e não só por cá) censurava imagens mais arrojadas de nudez e se recatava a sexualidade a um recanto da intimidade própria a cada um ( como sempre aconteceu, aliás, porque nos filmes mostram-se apenas as aparências da realidade), havia um nicho por onde se espreitavam as formas femininas: as revistas e jornais.
Toda a imprensa, em Portugal como noutros lados, sempre explorou a beleza das mulheres como meio de vender exemplares, suscitando a curiosidade de voyeur natural que todos somos, em maior ou menor grau, sempre que se mostra o que normalmente anda escondido.
As revistas de "gajas nuas", não existiam em Portugal, nos anos sessenta, mas havia arremedos disso que perduraram na década seguinte.
Nos anos setenta, a Plateia e o "Cara Alegre", esta, uma revista de anedotas brejeiras e imagens contidas mas provocantes e uma página do Diário Popular que publicava fotos dignas da página 3 do Sun, acolhiam os olhares concupiscentes de adolescentes em fase de descoberta.
Em 1970, a revista Mundo Moderno, aparecida em 1968, dava um ar de graça, em Portugal, ao mundo descoberto pela Playboy americana, aparecida em meados dos anos cinquenta.
Não obstante, a nudez frontal, publicada a cores e em papel lustroso, só depois de Abril de 1974 chegou livremente por cá, com uma onda de publicações até aí proibidas.




















A curiosidade, forçosamente, levaria à descoberta, porque as revistas se folheavam livremente, nas livrarias...
Contudo, mesmo durante a escassez de imagens explicitamente despidas, havia em circulação livre, no Portugal de costumes conservadores dos anos sessenta, o conceito de "pin up", também adoptado noutras paragens, designadamente americanas.
Uma das imagens, mais intensamente eróticas que me lembro de ter visto, ainda antes da adolescência e portanto de uma inocência apenas perscrutadora, surgiu na capa da revista Mundo Motorizado, dos anos sessenta. Ficou guardada, como imagem de época de inocência e ao mesmo tempo de curiosidade ainda formadora.
Em 1974 surgiu, entre outras ainda mais ousadas na revelação das formas femininas, a revista Playboy. O primeiro número que me lembro de ter folheado e eventualmente comprado, foi um de Novembro de 1974 que não guardei o exemplar ( a não ser a folha que segue), do que me arrependo agora e que tinha esta capa.
O sumário do número seguinte de fim de ano, descreve eloquentemente porque é que a revista nessa altura, era um must que passava muito para além da imagem das duas páginas centrais e fotos adjacentes.


A revista Playboy, foi ao longo dos anos, nomeadamente dos setenta, um viveiro de grafismos e textos de altíssima qualidade, que servia de recheio às figuras das páginas centrais e permitia o álibi intelectual a quem não gostaria de ser apanhado a ler a revista por causa de outra coisa que não os artigos...
Por isso, grandes escritores lá deixaram pequenos contos, textos engraçados e ilustradores de renome, fizeram por lá o seu portfolio. A revista, imaginada por Hugh Hefner como ícone de uma classe média americana de tendência hedonista, simbolizou durante alguns anos o erotismo soft admissível numa sociedade de abertura de costumes e que conduziu à total liberdade que hoje se verifica na internet, com acesso indiscriminado e sem reservas a toda a espécie de imagens, mesmo as mais horrorosas e sem freio de costumes.
A revista comemorativa dos trinta anos, de 1983, trazia um apanhado do melhor que lá fora publicado nessas três décadas. E a conclusão a extrair é que os melhores anos da revista acabaram nos setenta. Como o atestam as duas capas com Farrah Fawcet e com Raquel Welch.

mitificação de imagens

Entre estas duas imagens da mesma pessoa- Françoise Hardy - há décadas de tempo. E uma metáfora sobre a mudança física.
No entanto, este pequeno clip, reconduz a verdade da primeira e refaz a realidade da segunda.

Imagens: a primeira da revista Mojo: a segunda, da net.

Mais imagens míticas

Esta imagem, provém de um filme de 1971- The Last Picture Show - de Peter Bogdanovitch ( e não como antes erradamente indiquei, ser de 1973- American Graffiti -de George Lucas ) e que retrata os anos 50 americanos, com uma banda sonora fantástica ( o American Graffiti, entenda-se). A imagem, publicada no Expresso de 1974, ( e que também se encontra agora disponível na Rede, concitava a atenção pela beleza estética e feminina que transmitia. É uma das imagens míticas da adolescência, porque é exactamente isso: um mito. Nem a actriz, em filmes posteriores, condiz com esta imagem, nem o que ela traduz é passível de repetição, embora seja possível a réplica. Esta imagem é apenas como um quadro. Belíssimo.

As imagens míticas

No começo de 1975, esta imagem de Nico, uma alemã então com pouco mais de trinta anos ( e já falecida em 1988) e que cantava com os Velvet Underground, ficava assim, nas páginas da Rock & Folk e apetecia olhar, definindo uma imagem feminina aperfeiçoada e de sonho.

domingo, 5 de agosto de 2007

Os desenhos dos setenta

Primeiro a beleza pura, a estética e a novidade, logo em 1974. O militar, é um soldado de Abril, nas instalações da RTP, tirada de uma foto de Gageiro ou Caldeira.
A seguir a emoção da velocidade, num objecto japonês, de desejo intenso e design perfeito.
Depois a política consciencializada, sem concessões a aventuras à esquerda dominante. 1975.
Por fim e sempre presente, a música popular, a seguir à redescoberta dos Crosby, Stills, Nash & Young.
E uma reflexão pessoal, sobre as mitologias e a melancolia do Outono, aos vinte anos. "Love lost; such a cost, give me things that don´t get lost. Like a coin that won´t get tossed, rolling home to you" ( Neil Young, tema Old man, do LP Harvest, de 1972)

Um tipo de letra chamado Cooper.

Na América do início do século XX, a necessidade de publicidade, aguçou o engenho de muitos desenhadores de letras para os reclamos de jornal. O movimento de desenhadores de letras, levou mesmo à constituição de uma associação dos American Type Foundation ( ATF) e um dos expoentes, das letras de tipografia, passara a ser o tipo inventado por Oswald Cooper, ( 1879-1940).

A letra redonda e cheia, a negro ou delineadamente vazia, foi um dos tipos de letra mais apelativos, para a minha sensibilidade estética, desde sempre e sem conhecer a história do tipo Cooper, que foi coisa recente e de interesse investigado a preceito em biblioteca, mesmo a virtual.

Assim, no desenho de logotipo de título de revista, o tipo Cooper, serviu às mil maravilhas, para publicitar a francesa Salut les Copains, dos anos sessenta e que acompanhou a evolução da música pop, nesse tempo de misturas entre o rock e a pop, antes de os Beatles, publicarem Rubber Soul e Sgt Peppers e os Rolling Stones, Beggar´s Banquet e inventarem a língua de fora.

A revista Salut les Copains, saiu em primeiro número no ano de 1962, muito a tempo de acompanhar a doçura da voz de Françoise Hardy e dedicar-se, depois dos setenta, às inutilidades do pop francês.

Deixou contudo o tipo de Cooper que foi copiado a seguir, em 1966, pela Rock&Folk e em 1969 pela portuguesa Mundo da Canção e ainda pelo jornal da Madeira, O Comércio do Funchal, onde debutou Vicente Jorge Silva e escreveu o médico Ricardo França Jardim que chegou a assinar umas crónicas estupendas no Público dos noventa.

Serviu ainda, em 1966, para o título da prestigiada revista francesa Magazine Littéraire:











Ainda serviu para logo da Pop, revista alemã de posters e artigos incompreensíveis que saía no início dos anos setenta e se vendia por cá.

É um tipo cheio, apelativo e redondo, aperfeiçoado para a publicidade. E fica assim, nas revistas indicadas:












Com aproximações evidentes ao estilo de Cooper, poderemos ainda ver as seguintes revistas americanas, dos anos setenta: a satírica National Lampoon e a primeira revista de crítica musical, popular, Crawdaddy.





















Não obstante as revistas dos anos sessenta e setenta, ostentarem logotipos, com tipo Cooper, a verdade é que já no início do século, a revista das revistas americanas, onde colaborou Normal Rockwell, apelava ao tipo de Cooper e foi daí que sairam muitas inspirações tipográficas.

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Rolling Stone

Como é que me lembro da descoberta da revista Rolling Stone, na primeira metado dos setenta?
Lembro-me de a ver colocada, como os livros, na banca da livraria Bertrand, da cidade em que vivia. Era uma banca de entrada, onde se expunham revistas, maioritariamente estrangeiras, ainda antes de 25 de Abril de 1974.
Francesas, como a Paris Match, CinéRevue e Nouvel Observateur, L´Express ou a Rock & Folk, também de música. Alemãs, como a Der Spiegel, Stern, Pop ou outras de imagens apelativas, principalmente no Verão, de nomes breves como Quick e ainda a Der Spiegel ou a Stern, de formato grande. Brasileiras também, como a Realidade, a Manchete ou a História ou ainda a versão das Selecções do Reader´s Digest. Sobre música popular ainda havia o jornal Melody Maker e também o New Musical Express, ingleses de boa cepa, dos quais ainda se aguenta nas vendas o segundo, agora transformado em revista. Depois do 25 de Abril de 1974, nas mesmas bancas, mas um pouco mais recatadas, a aparição das capas de revistas até aí proibidas pela censura, como as americanas Playboy, Penthouse ou Oui, ou as inglesas mais especiosas e escondidas e ainda as capitosas francesas, Lui ( com fabulosos desenhos de Aslan) e Absolu, que cativavam a atenção adolescente de modo irreprimível.

A primeira vez que dei atenção suficiente à revista Rolling Stone, para folhear e comprar ( e nem era tão cara como outras, pois na altura, ano de 1974-75, custava 37$50, contra os 50$00 da Rock & Folk) foi em Abril de 1975, por causa de uma capa e de um artigo. A capa era sobre o actor e detective de série televisiva, Columbo, então um sucesso, seguido religiosamente todas as semanas e o artigo era sobre o assassinato de Kennedy.

As fotos de Annie Leibowitz, sobre Columbo/Peter Falk, misturavam-se com o filme amador de Zapruder, sobre os últimos instantes de Kennedy, em Dallas.

A parte fotográfica era dirigida por Annie Leibowitz e o enquadramento das rubricas, em colunas de quarto e meia página, com ilustração inovadora e as crónicas de discos na parte final, assinadas por Dave Marsh, Bud Scoppa, Paul Nelson, Greil Marcus e outros.

Durante o ano de 1975, as sucessivas referências na revista Rock & Folk, na secção Boogie Woogie, assinada por Patrice Blanc Francard, criaram uma curiosidade que cedo enviesou para a obsessão em encontrar os números quinzenais da revista que entretanto desapareceu das bancas da Bertrand, provavelmente em curso de mudança de direcção, com as vicissitudes da época revolucionária que Portugal atravessava.

Não obstante, em Setembro de 1975, em Lisboa, na Bertrand ou noutros locais de venda de revistas estrangeiras, no Rossio, por exemplo, não consegui encontrar o exemplar já então buscado com obsessão compulsiva. Acabei por encontrar a capa e contracapa, do número 195 de 11 Setembro 1975, consagrada à figura de Mick Jagger e uma chamada de atenção sobre o reggae, fenómeno musical recente e em ascensão. A revista, abandonada, por um qualquer turista em trânsito, num parque de campismo, por trás do Estádio Universitário, onde ocasionalmente me encontrava, foi recolhida, apenas com a capa, amarrotada, e serviu de alimento à compulsão, durante longos meses. Guardei-a e ainda tenho e exemplar. Quanto à revista de Abril de 1975, com a capa de Columbo, acabei por as adquirir posteriormente, há uns anos atrás, tal como o fiz em relação a outros números dos anos de 73, 74 e 75.

Assim, o interesse na Rolling Stone, partiu da leitura da rubrica Boogie Woogie, da Rock & Folk, em que se dava conta, numa página geralmente, das entrevistas passadas nas Rolling Stone anteriores. Essas pequenas passagens transcritas, alimentavam a curiosidade em encontrar o número da quinzena, vendo no entanto o sítio do costume, sempre ausente, numa frustração constante que durava meses e até anos.

Só um mês de dois números depois ( a revista era quinzenal), consegui comprar o primeiro número da revista, a 198, de 22 de Outubro, num kiosque de Coimbra, no local onde também funcionava um cinema, junto à estação de comboios.

O kiosque tornou-se, a par da livraria Bertrand da cidade, o meu fornecedor habitual da Rolling Stone. Infelizmente, passados dois números, essa novidade quinzenal deixou também de aparecer, não obstante as minhas interrogações acerca da chegada desejada. O interregno de jejum de leitura da RS, durou longos meses, até que em Julho de 1976, por especial favor de um amigo que se deslocou a Paris, voltei a por os olhos, no número 216, trazido da cidade-luz. Para trás ficaram mais de uma quinzena de números, uma boa parte deles recuperada posteriormente. Depois desse número de Julho de 1976, só em Setembro do mesmo ano voltei a ler a revista, com um artigo sobre Rock e Politics e um outro sobre Stills & Young, nessa altura em duo.

Atendendo às falhas na distribuição da revista, por essa altura chegaram à Bertrand de Coimbra, uma série de números atrasados. De uma só vez, apareceram os números 222, sobre Neil Diamond e um suplemente sobre alta fidelidade; o 223, com uma entrevista a Elton John ( aquela onde revelava pela primeira vez a homosexualidade), e ainda um número todo dedicado às fotos de família de Richard Avedon e ainda um outro( 225) sobre Brian Wilson e os Beach Boys. Perante a oferta custosa, sendo preciso escolher, ficaram duas, a 222 e a 225, ficando para trás a entrevista a Elton e o número sobre Avedon que nunca mais recuperei.
A partir dali, no entanto, durante 16 números, até ao 241 de Junho de 1977, não falhei um só. E só falhei os seguintes 20, até Abril 1978, porque voltou a acontecer o corte no abastecimento regular. Depois disso e até finais do século, tirando um ou outro número, nunca mais deixei de coleccionar a Rolling Stone, até que um dia, farto de comprar e nem sequer ler, abandonei o vício, como quem larga de fumar: de uma vez só e sem remorso.

No entanto, os números antigos que comprei depois para completar a colecção valem pela qualidade gráfica, mesmo em papel de jornal e pela reminiscência do tempo passado e maravilhoso da descoberta de quase tudo, na música e nas artes e até na literatura. O único número que ainda não consegui coleccionar, é um de 26 de Janeiro de 1978 que trazia uma capa com uma foto de Bob Dylan e no miolo uma entrevista com Jonathan Cott, o intelectual da revista. O número, mítico, foi meses depois imitado pela Rock & Folk, com um desenho de capa de Jean Solé e um artigo acerca dos concertos do cantor, em Santa Monica, da autoria de Philippe Garnier, grande repórter da revista destacado na California, numa altura em que Bob Dylan pouco mais tinha a dizer musicalmente. Não obstante, foi exactamente por essa altura que renasceu o interesse em voltar a ouvir velhos discos de Dylan, como Blonde on Blonde, um dos seus melhores álbuns.


Cada número da Rolling Stone, exposto em escaparate, atingia-me com um fascínio inefável e que ainda hoje não consigo explicar. O logótipo da revista, desenhado logo para o primeiro número pelo americano Rick Griffin, autor de posters e capas de discos de inúmeros artistas, na cena musical sul californiana, na altura do flower power psicadélico, é simplesmente genial, na evocação. Para mim, é o melhor título alguma vez desenhado para uma revista, de todas as que conheço. Nenhuma das que lembro ter visto em escaparate, provocava o fascínio da descoberta como a Rolling Stone então o fazia.

A ficha técnica da revista, dessa altura, dá gosto ler. Como colaboradores, apareciam nomes como David Fricke, Dave Marsh, Greil Marcus ( o autor de Mistery Train, um dos melhores livros escritos, sobre a música rock), David Felton, Jon Landau, Pete Hamil, Jonathan Cott( o entrevistador intelectual) e Cameron Crowe ( que anos mais tarde fará um filme- Quase Famosos- sobre os grupos musicais do sul da California, reflectindo a própria vivência pessoal como repórter da revista).

Para além dos colaboradores, alguns escritores por lá passaram, com destaque para Tom Wolfe ( Bonfire of the Vanities que foi publicado em primeira mão na revista) e ainda Hunter Thomson, o escritor inventor do jornalismo novo, de tipo esgazeado, sobre as campanhas eleitorais americanas e certos eventos de massas.

No capitulo da ilustração, a RS congregou sempre, na melhor tradição americana, as novidades do momento. As ilustrações a aerógrafo de início dos anos setenta, apareceram na capa da revista , logo em Março de 1972 ( nº 104, numa capa dedicada a Bob Dylan) e em Fevereiro de 1973, a capa da revista apareceu pela primeira vez em quadricromia, com Bette Midler e a seguir, Robert Mitchum, ilustrado numa aerografia, técnica usada várias vezes ao longo dos meses seguintes, com destaque para o ilustrador Robert Grossman.

Não obstante a atenção dada a desenhadores como Greg Scott, Milton Glaser, Garry Trudeau, Daniel Maffia, Andy Wharol, Gottfried Helnwein, Elwood Smith e outros, como o permanente Ralph Steadman, o melhor da revista, graficamente, transmite-se nas fotos.

A revista logrou uma das melhores fotógrafas de sempre, chamada Annie Leibowitz que assinou a capa de 22 de Janeiro de 1981, dias depois da morte de John Lennon e que foi considerada na América, há pouco tempo, a melhor capa de sempre, todas as revistas incluídas, mesmo a New Yorker, a Atlantic, a Saturday Evening Post, a Look, a Life, a Playboy e outras Time.

Antes dessa capa memorável tinha assinado outras, como em 26 de Janeiro 1978, sobre Bob Dylan ( e que serviu inegavelmente de inspiração directa, para a capa da Rock & Folk de Julho do mesmo ano, assinada pelo desenhador Jean Solé) e ainda muitas outras de gosto seguro e apelativo.

A Rolling Stone, representa talvez a revista que mais influência teve no meu gosto estético sobre o modo como se escreve, ilustra, desenha, fotografa, compõe e arranjam as páginas para apresentar um artigo sobre um assunto qualquer, inclusive sobre música. E qualquer assunto merecia a atenção da Rolling Stone nos anos 70. Desde a política, de um ponto de vista liberal, de esquerda americana, até aos temas de fait-divers e aos religiosos.

Em 28 Dezembro de 1978, tratava o assunto do Sudário de Turim, de um modo que nunca mais esqueci e me levou a procurar conhecer mais sobre o caso.
Os artigos de Dave Marsh, na secção American Grandstand, firmaram standards de qualidade crítica.
Os artigos de P.J. O´Rourke ( hoje a escrever na Atlantic), foram sempre uma novidade literária ligeira e de grande qualidade e gozo certo na leitura.
As reportagens sobre acontecimentos mundiais, locais ou intelectuais, fizeram sempre da revista, uma referência para colecção.
Hoje, guardo os principais números das décadas de setenta, oitenta e noventa, como relíquias de algo desaparecido: o jornalismo inovador, no conteúdo como no grafismo.

Em Fevereiro de 1976, descobri no mesmo sítio ( a Bertrand de Coimbra), outra revista americana do mesmo género. A Crawdaddy, a primeira revista sobre música rock, fundada em 1966 por Paul Williams, passou também a ser objecto de colecção, a partir dessa altura e a seguir se dará conta disso.

quarta-feira, 11 de julho de 2007

A história revisitada da descoberta dos sons agradáveis ao ouvido

O ano de 1972, pode ser considerado charneira na tomada de consciência do valor musical do rock elaborado e até progressivo que então ouvia essencialmente pelo rádio, em programas como a Página 1, apresentado então por José Manuel Nunes, salvo o erro.

Às sonoridades festivaleiras e de pendor mais pop, seguiram-se outros sons de intensidade mais frequente, ouvidos no rádio. Cat Stevens, com Wild World, era um hit saído em finais de 1970 e que perdurou até agora. No Carnaval de 1971, até tentei a cantiguinha enquanto manejava as baquetas de uma bateria Yamaha. Para acompanhar a letra, escrevi-a num pequeno papel que colei num dos tontons do kit…

Contudo, o grande grupo da época desses anos, eram os Creedence Clearwater Revival. Proud Mary e Have you ever seen the rain, foram hits que nunca mais se esqueceram.

Até que chegaram os elementos a solo dos Crosby Stills Nash & Young. Em 1972, Stephen Stills publicou Manassas e a música popular, para mim, nunca mais foi a mesma, porque a descoberta da sonoridade acústica misturada com o som híbrido da pedal steel guitar, fez uma combinação de habituação sonora, com efeitos permanentes e duradouros.

Para consolidar a obsessão, Graham Nash juntou-se a David Crosby e ambos lançaram um Lp em 1972 que começava com uma harmónica a arrastar o som de Southbound train, uma das canções de sempre do meu compêndio particular de música popular.

Mais uma vez, a sonoridade fica a dever tudo à harmónica e à guitarra em pedal steel ( tocada, tal como em Déjà vu, por Jerry Garcia dos Grateful Dead) e ainda, claro, à melodia cantada em harmonia vocal pelos dois músicos. O disco, dos primeiros que me lembro de reparar nos escaparates das discotecas com vontade de ter, ( um outro foi Let it Be dos Beatles, em edição de luxo, com caixa de encarte)andou perdido desde esse época, até finais dos anos noventa, quando foi reeditado por ocasião dos 50 anos da etiqueta Atlantic, em 1998.

Com o Lp Harvest, de Neil Young, a revolução interior avançou e chegou a Chicago de Graham Nash, volteando novamente à sonoridade colectiva de Déjà Vu, anterior e pouco escutado. Manassas de Stephen Stills tinha Colorado e What to do, que a Página Um passava incessantemente. Como passava logo a seguir, Convention do mesmo Elton John, e Pare, escute e olhe, de José Jorge Letria ou Fearless dos Pink Floyd ou ainda Pedro Só de Manuel Freire. Era esse, o cardápio musical dos fins de tarde no rádio da época.

E ainda faltavam as cerejas no bolo: primeiro A horse with no name, dos America e depois, acima de todos, American Pie, de Don McLean, saído nesse ano, resumia em poucos minutos, a história codificada da música rock dos primórdios e Vincent, dedicado a Van Gogh, iluminava de cor sonora os dias nostálgicos.

Mas esses pequenos bonbons musicais, eram apenas os aperitivos para dois dos melhores discos de música country rock que apareceram até hoje: Manassas e Harvest, complementados pela música em single do álbum de Nash e Crosby, Southbound Train, uma música fetiche e do meu gosto particular.

O Lp de Neil Young, aparecido nesse mesmo ano, confirmou a tendência mantida ao longo dos anos: se há música preferida para audição prolongada, é o country rock e uma dúzia de Lp´s que contam, quase todos da primeira metade dos setenta.

Ainda não conhecia os Byrds, na plenitude inovadora de Sweetheart of Rodeo, saído em tempo de descoberta restrita, lá nos confins de 1968.Ainda nem conhecia Gram Parsons, Roger McGuinn ou Chris Hillman, menos ainda os Dillards ou Doc Watson, mas o som de Manassas deve-lhes quase tudo e com um intervalo inovador de cinco anos.

Logo nesse ano de 1972, apareceram os Eagles. Embora sem manifesto discográfico, audível em Portugal, a divulgação dos primeiros discos, apesar disso, não passaria a metade da década, ajudada pelo disco mais vendido da história da música popular: Greatest Hits dos Eagles, saído em 1976, e que já terá vendido quase trinta milhões de cópias.

O locutor-apresentador Jaime Fernandes,na Rádio Comercial, encarregar-se-ia de passar no rádio, o som de Desperado, até que em finais de 1976, estourou Hotel California e o som do FM nunca mais se ouviu de igual modo. A New Kid in town, in fact. Junto com os Eagles, apareceram outros: Jackson Browne, Leo Kottke, Hoyt Axton, até mesmo Don Williams e Linda Rondstadt.

Na transição para os anos seguintes a 72, apareceram dois discos ouvidos em discoteca seleccionada e em alta fidelidade: Grand Hotel dos Procol Harum e Seventh Sojourn, dos Moody Blues.

Em 1973, saiu outro LP esquecido e que só merece a audição de uma suite sonora: California saga, dos Beach Boys, em Holland, foi ouvido algumas vezes na rádio e nunca mais foi esquecido durante as décadas que se seguiram. Música de cabeceira e de country rock, com harmonias vocais, de sempre e para sempre. Ainda por cima, sobre a ecologia. Entre esse tema dos Beach Boys e os temas de Dark Side of the moon, dos Pink Floyd, saído nesse mesmo ano, a diferença reside na melodia que ficou em memória residente. Como ficou Angie, dos Rolling Stones.

Mas… falta um dos grandes: Bob Dylan. Em 1973, Bob Dylan publicava um disco de banda sonora, Pat Garret & Billy the Kid, sem história para além do título tema. Porém, foi esse tema que fez retomar um interesse difuso na música de Bob Dylan, já escutada em temas clássicos, com dimensão mitificada, mas ainda sem obsessão pela novidade. Em 1971, Dylan participara num evento no Madison Square Garden, promovido por George Harrison, o Concerto para o Bangladesh, onde tocou uma versão espantosa de Just Like a woman, para além de outros clássicos. Além dessa publicação, foi ainda em 1971 que saiu um single, desgarrado de álbum, intitulado George Jackson e que retomava a antiga canção de protesto à esquerda e contra o sistema de justiça americano.

No entanto, é com a banda sonora daquele filme que me lembro de ter reparado pela primeira vez numa revista, francesa, dedicada à música popular: Rock & Folk, cuja capa de Setembro de 1973, trazia uma imagem de Dylan no filme. A imagem da capa é de antologia e durante décadas, povoou a minha imaginação musical dedicada a Dylan. Ouvir Knocking on heaven´s door, é ver essa capa e a sonoridade ligeiramente country, ligava muito bem com a dos Crosby Stills, Nash & Young, cujo tema de luxo – Teach your children- voltava a ouvir esporadicamente e conduzia a memória para uma sonoridade típica de uma guitarra escorregadia e de som ondulante. No início de 1974, saiu o disco de Graham Nash, Wild tales, cuja audição, a par com outro Lp da mesma altura – Somedays you eat the beer and somedays the beer eats you, do inglês Ian Matthews- reconduziram o gosto musical para o country rock e a música acústica ritmada.

Toda essa música de referência, nesse tempo, continha o instrumento que acima de todos, concitava a minha atenção. Não o sabia ainda na altura, mas esse tipo de guitarra que se toca sentado e com ajuda de uma dedeira metálica, utilizando os pés, para estender o som de modo ondulante, marcou toda a música norte americana de raiz country. A pedal steel guitar, tocada em Teach your children, é de Jerry Garcia, uma primícia deste músico dos Grateful Dead. A pedal steel de Ian Matthews, em Keep on sailing…é de B.J. Coles. A de Manassas, de Stephen Stills, pertence por direito próprio, a Al Perkins e a dos Eagles, também por direito próprio, é da responsabilidade de Bernie Leadon. Falta ainda alguns dos maiores tocadores de pedal steel: Sneaky Pete Kleinow que tocou com os Byrds, Gram Parsons e os Flying Burrito Brothers e ainda os Eagles. E Pete Drake, um veterano que tocou o instrumenro em Rose Garden de Lynn Anderson ( que me conquistou a atenção em 1970) e ainda Lay Lady Lay de Bob Dylan, no LP Nashville Skyline, de 1969 ( e que me conquistou a atenção depois).

O ano de 1974 revelou-se assim como o ano da descoberta de todos esses discos fundamentais que tinham saído e principalmente abriu caminho para gostar dos que viriam a sair durante a década, no género. 1974 é, por isso, o ano de todas as músicas, incluindo a do 25 de Abril.

Bob Dylan, inicou nesse ano uma grande tournée pelos USA ( quase 20 milhões de bilhetes vendidos) , acompanhado pelos The Band e que em meados do ano originou um grande disco ao vivo, Before The Flood, ouvido logo no rádio, na Página Um. O disco é um dos que reconcilia qualquer amador de música popular com as canções de Bob Dylan. A força de interpretação e a personalidade dos músicos de, emprestam uma sonoridade única ao duplo LP.

Além disso, era o LP de Dylan que merecia ser ouvido, depois de vários anos sem produção importante. O disco do ano anterior, Planet Waves, nem sequer foi ouvido. A ideia que restava de Dylan, em 1974, era ainda a de 1971, do concerto do Bangla Desh e do single George Jackson.

Before the Flood foi por isso, uma descoberta do Dylan antigo, de Highway 61 revisited e Blonde on blonde e nunca antes ouvido. Começa logo pelo primeiro tema, com o órgão ondulante de Garth Hudson dos The Band, em Most Likely you go your way e estende-se por quatro faces de vinilo preto, até acabar em Blowin in the wind, com 22 canções para trás. Depois deste disco fiquei preparado para a obra prima do ano seguinte: Blood on the tracks.

O mesmo sucedeu com os Crosby Stills Nash & Young que no Outono estiveram em Wembley a tocar ao vivo, juntamente com os…The Band.

E foi novamente numa capa da revista Rock & Folk que tal acontecimento despertou a atenção. Em Novembro de 1974 comecei a comprar a revista, por causa desse concerto e reportagem alargada sobre os CSN&Y, ilustrada com fotos de Jean Pierre Leloir.

E assim começou, para mim, a aventura de Rock & Folk. Como o número anterior, com a capa consagrada a Jerry Garcia, ainda se encontrava à venda ( por 47$50), foi esse o número seguinte e pelos anos fora, até meados da década de oitenta, foi essa revista a guia principal do gosto musical do pop e do rock.

Nessa mesma época, já existia outra imprensa dedicada ao fenómeno da música popular. A seguir se dará conta disso, começando pela Rolling Stone, seguindo pela Crawdaddy e outros New Musical Express e até a Pop alemã.

terça-feira, 10 de julho de 2007

A descoberta da música popular em revista

Esta imagem é da revista francesa Rock & Folk, de Novembro de 1974, a primeira que comprei e por causa desta reportagem de um concerto em Wembley, dos Crosby, Stills, Nash & Young.
A história da descoberta da música do grupo esta contada por aqui, na Portadaloja.

A capa da revista, é esta :


quinta-feira, 14 de junho de 2007

Azul metal


O primeiro anúncio da revista Métal Hurlant, foi publicado na pág. 12 da revista Rock & Folk de Fevereiro 1975, com a capa dedicada aos Led Zeppelin e a atenção interior ao disco Physical Graffiti, publicado pela Atlantic ou pela...Swan Song.


A revista Métal Hurlant, saida em Janeiro de 1975, com tiragem inicial de 50 000 exemplares, da inspiração directa de Jean-Pierre Dionnet e então com periodicidade trimestral, não chegava então a Portugal, tal como outras, aliás.


Assim, só no início do Verão de 1976, através de um amigo que fora a Paris e lá a comprou, logrei folhear pela primeira vez, a revista, já no nº 7, com uma capa fantástica de Etienne Robial, o grande autor do aspecto gráfico da revista. Letras grandes, quase em tipo helvética e barras a traço grosso, verticais, horizontais e mesmo em diagonal, no pequeno raio estilizado. O grafismo da Métal Hurlant é simplesmente extraordinário, nessa época. A revista, impressa em Itália, tinha um cheiro característico no papel que aliás, ainda conserva, passados mais de trinta anos. No interior desse número, os primeiros desenhos de The Long Hello, de Moebius e que prefiguravam o futuro Incal e outros Major Fatal ( nesse número continuava já a história fraccionada de Le Garage Hermetique), para além de inspirar directamente o filme The Blade Runner e o 6º Elemento.
A revista, dedicada primordialmente a temas de ficção científica, com histórias desenhadas por alguns dos maiores autores da bd francesa ( Moebius, Druillet, Denis Sire, Serge Clerc e o malogrado Yves Chaland) publicara as seis capas em anúncio na Rock & Folk, a preto e branco. A curiosidade em vê-las a cores e ao vivo, só alguns anos foi satisfeita. Acabei por assinar a revista nos anos oitenta e comprar depois a colecção quase completa ( faltam os 3 primeiros números).


A imagem da capa do primeiro número é fantástica em vários sentidos: no tema e na composição.
Recentemente, através de um volume intitulado Métal Hurlant, La machine à rever, publicado em França, em 2006, e dedicado a uma história ilustrada da revista que acabou em 1987, descobri que essa primeira capa desenhada por Moebius, teve uma inspiração directa, numa imagem de um quadro de Maxfield Parrish.
Aqui ficam as duas imagens, para comparação e meditação.


segunda-feira, 21 de maio de 2007

Os desenhos primitivos


A primeira vez que li uma aventura de Tintin, foi na versão portuguesa da revista belga Tintin, mais precisamente no número 39 de 19.2.1972. A historieta ia já adiantada e chamava-se Tintin na América, sendo a versão redesenhada em 1946, da original, publicada em 1931.
O ano de 1946, foi também o do aparecimento da revista Tintin, a original, belga.
Em Portugal, as aventuras de Tintin eram já conhecidas desde 1936, precisamente com a historieta As aventuras de Tim-Tim na América do Norte, versão de 1931, publicada na revistinha O Papagaio, em 1936 e 1937, por iniciativa de Adolfo Simões Muller. Este autor e divulgador emérito, tomou conhecimento com a obra de Hergé, autor de Tintin, por intermédio de um padre português, Abel Varzim, estudante de Lovaina, na Bélgica e que conheceu pesssoalmente Hergé, aliás.Georges Remi, nascido em 22 de Maio de 1907.
Hergé, se vivo fosse, faria agora 100 anos.

Antes de ler a primeira aventura no Tintin português de 1972, já tinha conhecido, em 1970-71, uns cromos avulsos, relativos à história Tintin e o Templo do Sol e que serviram como inspiração para os primeiros desenhos que copiei e me deram o gosto da cópia desenhada.
Os desenhos são os que ficam acima.