segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Eros e Thanatos

Num tempo- anos sessenta- em que a tv (de todo o mundo e não só por cá) censurava imagens mais arrojadas de nudez e se recatava a sexualidade a um recanto da intimidade própria a cada um ( como sempre aconteceu, aliás, porque nos filmes mostram-se apenas as aparências da realidade), havia um nicho por onde se espreitavam as formas femininas: as revistas e jornais.
Toda a imprensa, em Portugal como noutros lados, sempre explorou a beleza das mulheres como meio de vender exemplares, suscitando a curiosidade de voyeur natural que todos somos, em maior ou menor grau, sempre que se mostra o que normalmente anda escondido.
As revistas de "gajas nuas", não existiam em Portugal, nos anos sessenta, mas havia arremedos disso que perduraram na década seguinte.
Nos anos setenta, a Plateia e o "Cara Alegre", esta, uma revista de anedotas brejeiras e imagens contidas mas provocantes e uma página do Diário Popular que publicava fotos dignas da página 3 do Sun, acolhiam os olhares concupiscentes de adolescentes em fase de descoberta.
Em 1970, a revista Mundo Moderno, aparecida em 1968, dava um ar de graça, em Portugal, ao mundo descoberto pela Playboy americana, aparecida em meados dos anos cinquenta.
Não obstante, a nudez frontal, publicada a cores e em papel lustroso, só depois de Abril de 1974 chegou livremente por cá, com uma onda de publicações até aí proibidas.




















A curiosidade, forçosamente, levaria à descoberta, porque as revistas se folheavam livremente, nas livrarias...
Contudo, mesmo durante a escassez de imagens explicitamente despidas, havia em circulação livre, no Portugal de costumes conservadores dos anos sessenta, o conceito de "pin up", também adoptado noutras paragens, designadamente americanas.
Uma das imagens, mais intensamente eróticas que me lembro de ter visto, ainda antes da adolescência e portanto de uma inocência apenas perscrutadora, surgiu na capa da revista Mundo Motorizado, dos anos sessenta. Ficou guardada, como imagem de época de inocência e ao mesmo tempo de curiosidade ainda formadora.
Em 1974 surgiu, entre outras ainda mais ousadas na revelação das formas femininas, a revista Playboy. O primeiro número que me lembro de ter folheado e eventualmente comprado, foi um de Novembro de 1974 que não guardei o exemplar ( a não ser a folha que segue), do que me arrependo agora e que tinha esta capa.
O sumário do número seguinte de fim de ano, descreve eloquentemente porque é que a revista nessa altura, era um must que passava muito para além da imagem das duas páginas centrais e fotos adjacentes.


A revista Playboy, foi ao longo dos anos, nomeadamente dos setenta, um viveiro de grafismos e textos de altíssima qualidade, que servia de recheio às figuras das páginas centrais e permitia o álibi intelectual a quem não gostaria de ser apanhado a ler a revista por causa de outra coisa que não os artigos...
Por isso, grandes escritores lá deixaram pequenos contos, textos engraçados e ilustradores de renome, fizeram por lá o seu portfolio. A revista, imaginada por Hugh Hefner como ícone de uma classe média americana de tendência hedonista, simbolizou durante alguns anos o erotismo soft admissível numa sociedade de abertura de costumes e que conduziu à total liberdade que hoje se verifica na internet, com acesso indiscriminado e sem reservas a toda a espécie de imagens, mesmo as mais horrorosas e sem freio de costumes.
A revista comemorativa dos trinta anos, de 1983, trazia um apanhado do melhor que lá fora publicado nessas três décadas. E a conclusão a extrair é que os melhores anos da revista acabaram nos setenta. Como o atestam as duas capas com Farrah Fawcet e com Raquel Welch.

mitificação de imagens

Entre estas duas imagens da mesma pessoa- Françoise Hardy - há décadas de tempo. E uma metáfora sobre a mudança física.
No entanto, este pequeno clip, reconduz a verdade da primeira e refaz a realidade da segunda.

Imagens: a primeira da revista Mojo: a segunda, da net.

Mais imagens míticas

Esta imagem, provém de um filme de 1971- The Last Picture Show - de Peter Bogdanovitch ( e não como antes erradamente indiquei, ser de 1973- American Graffiti -de George Lucas ) e que retrata os anos 50 americanos, com uma banda sonora fantástica ( o American Graffiti, entenda-se). A imagem, publicada no Expresso de 1974, ( e que também se encontra agora disponível na Rede, concitava a atenção pela beleza estética e feminina que transmitia. É uma das imagens míticas da adolescência, porque é exactamente isso: um mito. Nem a actriz, em filmes posteriores, condiz com esta imagem, nem o que ela traduz é passível de repetição, embora seja possível a réplica. Esta imagem é apenas como um quadro. Belíssimo.

As imagens míticas

No começo de 1975, esta imagem de Nico, uma alemã então com pouco mais de trinta anos ( e já falecida em 1988) e que cantava com os Velvet Underground, ficava assim, nas páginas da Rock & Folk e apetecia olhar, definindo uma imagem feminina aperfeiçoada e de sonho.

domingo, 5 de agosto de 2007

Os desenhos dos setenta

Primeiro a beleza pura, a estética e a novidade, logo em 1974. O militar, é um soldado de Abril, nas instalações da RTP, tirada de uma foto de Gageiro ou Caldeira.
A seguir a emoção da velocidade, num objecto japonês, de desejo intenso e design perfeito.
Depois a política consciencializada, sem concessões a aventuras à esquerda dominante. 1975.
Por fim e sempre presente, a música popular, a seguir à redescoberta dos Crosby, Stills, Nash & Young.
E uma reflexão pessoal, sobre as mitologias e a melancolia do Outono, aos vinte anos. "Love lost; such a cost, give me things that don´t get lost. Like a coin that won´t get tossed, rolling home to you" ( Neil Young, tema Old man, do LP Harvest, de 1972)

Um tipo de letra chamado Cooper.

Na América do início do século XX, a necessidade de publicidade, aguçou o engenho de muitos desenhadores de letras para os reclamos de jornal. O movimento de desenhadores de letras, levou mesmo à constituição de uma associação dos American Type Foundation ( ATF) e um dos expoentes, das letras de tipografia, passara a ser o tipo inventado por Oswald Cooper, ( 1879-1940).

A letra redonda e cheia, a negro ou delineadamente vazia, foi um dos tipos de letra mais apelativos, para a minha sensibilidade estética, desde sempre e sem conhecer a história do tipo Cooper, que foi coisa recente e de interesse investigado a preceito em biblioteca, mesmo a virtual.

Assim, no desenho de logotipo de título de revista, o tipo Cooper, serviu às mil maravilhas, para publicitar a francesa Salut les Copains, dos anos sessenta e que acompanhou a evolução da música pop, nesse tempo de misturas entre o rock e a pop, antes de os Beatles, publicarem Rubber Soul e Sgt Peppers e os Rolling Stones, Beggar´s Banquet e inventarem a língua de fora.

A revista Salut les Copains, saiu em primeiro número no ano de 1962, muito a tempo de acompanhar a doçura da voz de Françoise Hardy e dedicar-se, depois dos setenta, às inutilidades do pop francês.

Deixou contudo o tipo de Cooper que foi copiado a seguir, em 1966, pela Rock&Folk e em 1969 pela portuguesa Mundo da Canção e ainda pelo jornal da Madeira, O Comércio do Funchal, onde debutou Vicente Jorge Silva e escreveu o médico Ricardo França Jardim que chegou a assinar umas crónicas estupendas no Público dos noventa.

Serviu ainda, em 1966, para o título da prestigiada revista francesa Magazine Littéraire:











Ainda serviu para logo da Pop, revista alemã de posters e artigos incompreensíveis que saía no início dos anos setenta e se vendia por cá.

É um tipo cheio, apelativo e redondo, aperfeiçoado para a publicidade. E fica assim, nas revistas indicadas:












Com aproximações evidentes ao estilo de Cooper, poderemos ainda ver as seguintes revistas americanas, dos anos setenta: a satírica National Lampoon e a primeira revista de crítica musical, popular, Crawdaddy.





















Não obstante as revistas dos anos sessenta e setenta, ostentarem logotipos, com tipo Cooper, a verdade é que já no início do século, a revista das revistas americanas, onde colaborou Normal Rockwell, apelava ao tipo de Cooper e foi daí que sairam muitas inspirações tipográficas.

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Rolling Stone

Como é que me lembro da descoberta da revista Rolling Stone, na primeira metado dos setenta?
Lembro-me de a ver colocada, como os livros, na banca da livraria Bertrand, da cidade em que vivia. Era uma banca de entrada, onde se expunham revistas, maioritariamente estrangeiras, ainda antes de 25 de Abril de 1974.
Francesas, como a Paris Match, CinéRevue e Nouvel Observateur, L´Express ou a Rock & Folk, também de música. Alemãs, como a Der Spiegel, Stern, Pop ou outras de imagens apelativas, principalmente no Verão, de nomes breves como Quick e ainda a Der Spiegel ou a Stern, de formato grande. Brasileiras também, como a Realidade, a Manchete ou a História ou ainda a versão das Selecções do Reader´s Digest. Sobre música popular ainda havia o jornal Melody Maker e também o New Musical Express, ingleses de boa cepa, dos quais ainda se aguenta nas vendas o segundo, agora transformado em revista. Depois do 25 de Abril de 1974, nas mesmas bancas, mas um pouco mais recatadas, a aparição das capas de revistas até aí proibidas pela censura, como as americanas Playboy, Penthouse ou Oui, ou as inglesas mais especiosas e escondidas e ainda as capitosas francesas, Lui ( com fabulosos desenhos de Aslan) e Absolu, que cativavam a atenção adolescente de modo irreprimível.

A primeira vez que dei atenção suficiente à revista Rolling Stone, para folhear e comprar ( e nem era tão cara como outras, pois na altura, ano de 1974-75, custava 37$50, contra os 50$00 da Rock & Folk) foi em Abril de 1975, por causa de uma capa e de um artigo. A capa era sobre o actor e detective de série televisiva, Columbo, então um sucesso, seguido religiosamente todas as semanas e o artigo era sobre o assassinato de Kennedy.

As fotos de Annie Leibowitz, sobre Columbo/Peter Falk, misturavam-se com o filme amador de Zapruder, sobre os últimos instantes de Kennedy, em Dallas.

A parte fotográfica era dirigida por Annie Leibowitz e o enquadramento das rubricas, em colunas de quarto e meia página, com ilustração inovadora e as crónicas de discos na parte final, assinadas por Dave Marsh, Bud Scoppa, Paul Nelson, Greil Marcus e outros.

Durante o ano de 1975, as sucessivas referências na revista Rock & Folk, na secção Boogie Woogie, assinada por Patrice Blanc Francard, criaram uma curiosidade que cedo enviesou para a obsessão em encontrar os números quinzenais da revista que entretanto desapareceu das bancas da Bertrand, provavelmente em curso de mudança de direcção, com as vicissitudes da época revolucionária que Portugal atravessava.

Não obstante, em Setembro de 1975, em Lisboa, na Bertrand ou noutros locais de venda de revistas estrangeiras, no Rossio, por exemplo, não consegui encontrar o exemplar já então buscado com obsessão compulsiva. Acabei por encontrar a capa e contracapa, do número 195 de 11 Setembro 1975, consagrada à figura de Mick Jagger e uma chamada de atenção sobre o reggae, fenómeno musical recente e em ascensão. A revista, abandonada, por um qualquer turista em trânsito, num parque de campismo, por trás do Estádio Universitário, onde ocasionalmente me encontrava, foi recolhida, apenas com a capa, amarrotada, e serviu de alimento à compulsão, durante longos meses. Guardei-a e ainda tenho e exemplar. Quanto à revista de Abril de 1975, com a capa de Columbo, acabei por as adquirir posteriormente, há uns anos atrás, tal como o fiz em relação a outros números dos anos de 73, 74 e 75.

Assim, o interesse na Rolling Stone, partiu da leitura da rubrica Boogie Woogie, da Rock & Folk, em que se dava conta, numa página geralmente, das entrevistas passadas nas Rolling Stone anteriores. Essas pequenas passagens transcritas, alimentavam a curiosidade em encontrar o número da quinzena, vendo no entanto o sítio do costume, sempre ausente, numa frustração constante que durava meses e até anos.

Só um mês de dois números depois ( a revista era quinzenal), consegui comprar o primeiro número da revista, a 198, de 22 de Outubro, num kiosque de Coimbra, no local onde também funcionava um cinema, junto à estação de comboios.

O kiosque tornou-se, a par da livraria Bertrand da cidade, o meu fornecedor habitual da Rolling Stone. Infelizmente, passados dois números, essa novidade quinzenal deixou também de aparecer, não obstante as minhas interrogações acerca da chegada desejada. O interregno de jejum de leitura da RS, durou longos meses, até que em Julho de 1976, por especial favor de um amigo que se deslocou a Paris, voltei a por os olhos, no número 216, trazido da cidade-luz. Para trás ficaram mais de uma quinzena de números, uma boa parte deles recuperada posteriormente. Depois desse número de Julho de 1976, só em Setembro do mesmo ano voltei a ler a revista, com um artigo sobre Rock e Politics e um outro sobre Stills & Young, nessa altura em duo.

Atendendo às falhas na distribuição da revista, por essa altura chegaram à Bertrand de Coimbra, uma série de números atrasados. De uma só vez, apareceram os números 222, sobre Neil Diamond e um suplemente sobre alta fidelidade; o 223, com uma entrevista a Elton John ( aquela onde revelava pela primeira vez a homosexualidade), e ainda um número todo dedicado às fotos de família de Richard Avedon e ainda um outro( 225) sobre Brian Wilson e os Beach Boys. Perante a oferta custosa, sendo preciso escolher, ficaram duas, a 222 e a 225, ficando para trás a entrevista a Elton e o número sobre Avedon que nunca mais recuperei.
A partir dali, no entanto, durante 16 números, até ao 241 de Junho de 1977, não falhei um só. E só falhei os seguintes 20, até Abril 1978, porque voltou a acontecer o corte no abastecimento regular. Depois disso e até finais do século, tirando um ou outro número, nunca mais deixei de coleccionar a Rolling Stone, até que um dia, farto de comprar e nem sequer ler, abandonei o vício, como quem larga de fumar: de uma vez só e sem remorso.

No entanto, os números antigos que comprei depois para completar a colecção valem pela qualidade gráfica, mesmo em papel de jornal e pela reminiscência do tempo passado e maravilhoso da descoberta de quase tudo, na música e nas artes e até na literatura. O único número que ainda não consegui coleccionar, é um de 26 de Janeiro de 1978 que trazia uma capa com uma foto de Bob Dylan e no miolo uma entrevista com Jonathan Cott, o intelectual da revista. O número, mítico, foi meses depois imitado pela Rock & Folk, com um desenho de capa de Jean Solé e um artigo acerca dos concertos do cantor, em Santa Monica, da autoria de Philippe Garnier, grande repórter da revista destacado na California, numa altura em que Bob Dylan pouco mais tinha a dizer musicalmente. Não obstante, foi exactamente por essa altura que renasceu o interesse em voltar a ouvir velhos discos de Dylan, como Blonde on Blonde, um dos seus melhores álbuns.


Cada número da Rolling Stone, exposto em escaparate, atingia-me com um fascínio inefável e que ainda hoje não consigo explicar. O logótipo da revista, desenhado logo para o primeiro número pelo americano Rick Griffin, autor de posters e capas de discos de inúmeros artistas, na cena musical sul californiana, na altura do flower power psicadélico, é simplesmente genial, na evocação. Para mim, é o melhor título alguma vez desenhado para uma revista, de todas as que conheço. Nenhuma das que lembro ter visto em escaparate, provocava o fascínio da descoberta como a Rolling Stone então o fazia.

A ficha técnica da revista, dessa altura, dá gosto ler. Como colaboradores, apareciam nomes como David Fricke, Dave Marsh, Greil Marcus ( o autor de Mistery Train, um dos melhores livros escritos, sobre a música rock), David Felton, Jon Landau, Pete Hamil, Jonathan Cott( o entrevistador intelectual) e Cameron Crowe ( que anos mais tarde fará um filme- Quase Famosos- sobre os grupos musicais do sul da California, reflectindo a própria vivência pessoal como repórter da revista).

Para além dos colaboradores, alguns escritores por lá passaram, com destaque para Tom Wolfe ( Bonfire of the Vanities que foi publicado em primeira mão na revista) e ainda Hunter Thomson, o escritor inventor do jornalismo novo, de tipo esgazeado, sobre as campanhas eleitorais americanas e certos eventos de massas.

No capitulo da ilustração, a RS congregou sempre, na melhor tradição americana, as novidades do momento. As ilustrações a aerógrafo de início dos anos setenta, apareceram na capa da revista , logo em Março de 1972 ( nº 104, numa capa dedicada a Bob Dylan) e em Fevereiro de 1973, a capa da revista apareceu pela primeira vez em quadricromia, com Bette Midler e a seguir, Robert Mitchum, ilustrado numa aerografia, técnica usada várias vezes ao longo dos meses seguintes, com destaque para o ilustrador Robert Grossman.

Não obstante a atenção dada a desenhadores como Greg Scott, Milton Glaser, Garry Trudeau, Daniel Maffia, Andy Wharol, Gottfried Helnwein, Elwood Smith e outros, como o permanente Ralph Steadman, o melhor da revista, graficamente, transmite-se nas fotos.

A revista logrou uma das melhores fotógrafas de sempre, chamada Annie Leibowitz que assinou a capa de 22 de Janeiro de 1981, dias depois da morte de John Lennon e que foi considerada na América, há pouco tempo, a melhor capa de sempre, todas as revistas incluídas, mesmo a New Yorker, a Atlantic, a Saturday Evening Post, a Look, a Life, a Playboy e outras Time.

Antes dessa capa memorável tinha assinado outras, como em 26 de Janeiro 1978, sobre Bob Dylan ( e que serviu inegavelmente de inspiração directa, para a capa da Rock & Folk de Julho do mesmo ano, assinada pelo desenhador Jean Solé) e ainda muitas outras de gosto seguro e apelativo.

A Rolling Stone, representa talvez a revista que mais influência teve no meu gosto estético sobre o modo como se escreve, ilustra, desenha, fotografa, compõe e arranjam as páginas para apresentar um artigo sobre um assunto qualquer, inclusive sobre música. E qualquer assunto merecia a atenção da Rolling Stone nos anos 70. Desde a política, de um ponto de vista liberal, de esquerda americana, até aos temas de fait-divers e aos religiosos.

Em 28 Dezembro de 1978, tratava o assunto do Sudário de Turim, de um modo que nunca mais esqueci e me levou a procurar conhecer mais sobre o caso.
Os artigos de Dave Marsh, na secção American Grandstand, firmaram standards de qualidade crítica.
Os artigos de P.J. O´Rourke ( hoje a escrever na Atlantic), foram sempre uma novidade literária ligeira e de grande qualidade e gozo certo na leitura.
As reportagens sobre acontecimentos mundiais, locais ou intelectuais, fizeram sempre da revista, uma referência para colecção.
Hoje, guardo os principais números das décadas de setenta, oitenta e noventa, como relíquias de algo desaparecido: o jornalismo inovador, no conteúdo como no grafismo.

Em Fevereiro de 1976, descobri no mesmo sítio ( a Bertrand de Coimbra), outra revista americana do mesmo género. A Crawdaddy, a primeira revista sobre música rock, fundada em 1966 por Paul Williams, passou também a ser objecto de colecção, a partir dessa altura e a seguir se dará conta disso.

quarta-feira, 11 de julho de 2007

A história revisitada da descoberta dos sons agradáveis ao ouvido

O ano de 1972, pode ser considerado charneira na tomada de consciência do valor musical do rock elaborado e até progressivo que então ouvia essencialmente pelo rádio, em programas como a Página 1, apresentado então por José Manuel Nunes, salvo o erro.

Às sonoridades festivaleiras e de pendor mais pop, seguiram-se outros sons de intensidade mais frequente, ouvidos no rádio. Cat Stevens, com Wild World, era um hit saído em finais de 1970 e que perdurou até agora. No Carnaval de 1971, até tentei a cantiguinha enquanto manejava as baquetas de uma bateria Yamaha. Para acompanhar a letra, escrevi-a num pequeno papel que colei num dos tontons do kit…

Contudo, o grande grupo da época desses anos, eram os Creedence Clearwater Revival. Proud Mary e Have you ever seen the rain, foram hits que nunca mais se esqueceram.

Até que chegaram os elementos a solo dos Crosby Stills Nash & Young. Em 1972, Stephen Stills publicou Manassas e a música popular, para mim, nunca mais foi a mesma, porque a descoberta da sonoridade acústica misturada com o som híbrido da pedal steel guitar, fez uma combinação de habituação sonora, com efeitos permanentes e duradouros.

Para consolidar a obsessão, Graham Nash juntou-se a David Crosby e ambos lançaram um Lp em 1972 que começava com uma harmónica a arrastar o som de Southbound train, uma das canções de sempre do meu compêndio particular de música popular.

Mais uma vez, a sonoridade fica a dever tudo à harmónica e à guitarra em pedal steel ( tocada, tal como em Déjà vu, por Jerry Garcia dos Grateful Dead) e ainda, claro, à melodia cantada em harmonia vocal pelos dois músicos. O disco, dos primeiros que me lembro de reparar nos escaparates das discotecas com vontade de ter, ( um outro foi Let it Be dos Beatles, em edição de luxo, com caixa de encarte)andou perdido desde esse época, até finais dos anos noventa, quando foi reeditado por ocasião dos 50 anos da etiqueta Atlantic, em 1998.

Com o Lp Harvest, de Neil Young, a revolução interior avançou e chegou a Chicago de Graham Nash, volteando novamente à sonoridade colectiva de Déjà Vu, anterior e pouco escutado. Manassas de Stephen Stills tinha Colorado e What to do, que a Página Um passava incessantemente. Como passava logo a seguir, Convention do mesmo Elton John, e Pare, escute e olhe, de José Jorge Letria ou Fearless dos Pink Floyd ou ainda Pedro Só de Manuel Freire. Era esse, o cardápio musical dos fins de tarde no rádio da época.

E ainda faltavam as cerejas no bolo: primeiro A horse with no name, dos America e depois, acima de todos, American Pie, de Don McLean, saído nesse ano, resumia em poucos minutos, a história codificada da música rock dos primórdios e Vincent, dedicado a Van Gogh, iluminava de cor sonora os dias nostálgicos.

Mas esses pequenos bonbons musicais, eram apenas os aperitivos para dois dos melhores discos de música country rock que apareceram até hoje: Manassas e Harvest, complementados pela música em single do álbum de Nash e Crosby, Southbound Train, uma música fetiche e do meu gosto particular.

O Lp de Neil Young, aparecido nesse mesmo ano, confirmou a tendência mantida ao longo dos anos: se há música preferida para audição prolongada, é o country rock e uma dúzia de Lp´s que contam, quase todos da primeira metade dos setenta.

Ainda não conhecia os Byrds, na plenitude inovadora de Sweetheart of Rodeo, saído em tempo de descoberta restrita, lá nos confins de 1968.Ainda nem conhecia Gram Parsons, Roger McGuinn ou Chris Hillman, menos ainda os Dillards ou Doc Watson, mas o som de Manassas deve-lhes quase tudo e com um intervalo inovador de cinco anos.

Logo nesse ano de 1972, apareceram os Eagles. Embora sem manifesto discográfico, audível em Portugal, a divulgação dos primeiros discos, apesar disso, não passaria a metade da década, ajudada pelo disco mais vendido da história da música popular: Greatest Hits dos Eagles, saído em 1976, e que já terá vendido quase trinta milhões de cópias.

O locutor-apresentador Jaime Fernandes,na Rádio Comercial, encarregar-se-ia de passar no rádio, o som de Desperado, até que em finais de 1976, estourou Hotel California e o som do FM nunca mais se ouviu de igual modo. A New Kid in town, in fact. Junto com os Eagles, apareceram outros: Jackson Browne, Leo Kottke, Hoyt Axton, até mesmo Don Williams e Linda Rondstadt.

Na transição para os anos seguintes a 72, apareceram dois discos ouvidos em discoteca seleccionada e em alta fidelidade: Grand Hotel dos Procol Harum e Seventh Sojourn, dos Moody Blues.

Em 1973, saiu outro LP esquecido e que só merece a audição de uma suite sonora: California saga, dos Beach Boys, em Holland, foi ouvido algumas vezes na rádio e nunca mais foi esquecido durante as décadas que se seguiram. Música de cabeceira e de country rock, com harmonias vocais, de sempre e para sempre. Ainda por cima, sobre a ecologia. Entre esse tema dos Beach Boys e os temas de Dark Side of the moon, dos Pink Floyd, saído nesse mesmo ano, a diferença reside na melodia que ficou em memória residente. Como ficou Angie, dos Rolling Stones.

Mas… falta um dos grandes: Bob Dylan. Em 1973, Bob Dylan publicava um disco de banda sonora, Pat Garret & Billy the Kid, sem história para além do título tema. Porém, foi esse tema que fez retomar um interesse difuso na música de Bob Dylan, já escutada em temas clássicos, com dimensão mitificada, mas ainda sem obsessão pela novidade. Em 1971, Dylan participara num evento no Madison Square Garden, promovido por George Harrison, o Concerto para o Bangladesh, onde tocou uma versão espantosa de Just Like a woman, para além de outros clássicos. Além dessa publicação, foi ainda em 1971 que saiu um single, desgarrado de álbum, intitulado George Jackson e que retomava a antiga canção de protesto à esquerda e contra o sistema de justiça americano.

No entanto, é com a banda sonora daquele filme que me lembro de ter reparado pela primeira vez numa revista, francesa, dedicada à música popular: Rock & Folk, cuja capa de Setembro de 1973, trazia uma imagem de Dylan no filme. A imagem da capa é de antologia e durante décadas, povoou a minha imaginação musical dedicada a Dylan. Ouvir Knocking on heaven´s door, é ver essa capa e a sonoridade ligeiramente country, ligava muito bem com a dos Crosby Stills, Nash & Young, cujo tema de luxo – Teach your children- voltava a ouvir esporadicamente e conduzia a memória para uma sonoridade típica de uma guitarra escorregadia e de som ondulante. No início de 1974, saiu o disco de Graham Nash, Wild tales, cuja audição, a par com outro Lp da mesma altura – Somedays you eat the beer and somedays the beer eats you, do inglês Ian Matthews- reconduziram o gosto musical para o country rock e a música acústica ritmada.

Toda essa música de referência, nesse tempo, continha o instrumento que acima de todos, concitava a minha atenção. Não o sabia ainda na altura, mas esse tipo de guitarra que se toca sentado e com ajuda de uma dedeira metálica, utilizando os pés, para estender o som de modo ondulante, marcou toda a música norte americana de raiz country. A pedal steel guitar, tocada em Teach your children, é de Jerry Garcia, uma primícia deste músico dos Grateful Dead. A pedal steel de Ian Matthews, em Keep on sailing…é de B.J. Coles. A de Manassas, de Stephen Stills, pertence por direito próprio, a Al Perkins e a dos Eagles, também por direito próprio, é da responsabilidade de Bernie Leadon. Falta ainda alguns dos maiores tocadores de pedal steel: Sneaky Pete Kleinow que tocou com os Byrds, Gram Parsons e os Flying Burrito Brothers e ainda os Eagles. E Pete Drake, um veterano que tocou o instrumenro em Rose Garden de Lynn Anderson ( que me conquistou a atenção em 1970) e ainda Lay Lady Lay de Bob Dylan, no LP Nashville Skyline, de 1969 ( e que me conquistou a atenção depois).

O ano de 1974 revelou-se assim como o ano da descoberta de todos esses discos fundamentais que tinham saído e principalmente abriu caminho para gostar dos que viriam a sair durante a década, no género. 1974 é, por isso, o ano de todas as músicas, incluindo a do 25 de Abril.

Bob Dylan, inicou nesse ano uma grande tournée pelos USA ( quase 20 milhões de bilhetes vendidos) , acompanhado pelos The Band e que em meados do ano originou um grande disco ao vivo, Before The Flood, ouvido logo no rádio, na Página Um. O disco é um dos que reconcilia qualquer amador de música popular com as canções de Bob Dylan. A força de interpretação e a personalidade dos músicos de, emprestam uma sonoridade única ao duplo LP.

Além disso, era o LP de Dylan que merecia ser ouvido, depois de vários anos sem produção importante. O disco do ano anterior, Planet Waves, nem sequer foi ouvido. A ideia que restava de Dylan, em 1974, era ainda a de 1971, do concerto do Bangla Desh e do single George Jackson.

Before the Flood foi por isso, uma descoberta do Dylan antigo, de Highway 61 revisited e Blonde on blonde e nunca antes ouvido. Começa logo pelo primeiro tema, com o órgão ondulante de Garth Hudson dos The Band, em Most Likely you go your way e estende-se por quatro faces de vinilo preto, até acabar em Blowin in the wind, com 22 canções para trás. Depois deste disco fiquei preparado para a obra prima do ano seguinte: Blood on the tracks.

O mesmo sucedeu com os Crosby Stills Nash & Young que no Outono estiveram em Wembley a tocar ao vivo, juntamente com os…The Band.

E foi novamente numa capa da revista Rock & Folk que tal acontecimento despertou a atenção. Em Novembro de 1974 comecei a comprar a revista, por causa desse concerto e reportagem alargada sobre os CSN&Y, ilustrada com fotos de Jean Pierre Leloir.

E assim começou, para mim, a aventura de Rock & Folk. Como o número anterior, com a capa consagrada a Jerry Garcia, ainda se encontrava à venda ( por 47$50), foi esse o número seguinte e pelos anos fora, até meados da década de oitenta, foi essa revista a guia principal do gosto musical do pop e do rock.

Nessa mesma época, já existia outra imprensa dedicada ao fenómeno da música popular. A seguir se dará conta disso, começando pela Rolling Stone, seguindo pela Crawdaddy e outros New Musical Express e até a Pop alemã.

terça-feira, 10 de julho de 2007

A descoberta da música popular em revista

Esta imagem é da revista francesa Rock & Folk, de Novembro de 1974, a primeira que comprei e por causa desta reportagem de um concerto em Wembley, dos Crosby, Stills, Nash & Young.
A história da descoberta da música do grupo esta contada por aqui, na Portadaloja.

A capa da revista, é esta :


quinta-feira, 14 de junho de 2007

Azul metal


O primeiro anúncio da revista Métal Hurlant, foi publicado na pág. 12 da revista Rock & Folk de Fevereiro 1975, com a capa dedicada aos Led Zeppelin e a atenção interior ao disco Physical Graffiti, publicado pela Atlantic ou pela...Swan Song.


A revista Métal Hurlant, saida em Janeiro de 1975, com tiragem inicial de 50 000 exemplares, da inspiração directa de Jean-Pierre Dionnet e então com periodicidade trimestral, não chegava então a Portugal, tal como outras, aliás.


Assim, só no início do Verão de 1976, através de um amigo que fora a Paris e lá a comprou, logrei folhear pela primeira vez, a revista, já no nº 7, com uma capa fantástica de Etienne Robial, o grande autor do aspecto gráfico da revista. Letras grandes, quase em tipo helvética e barras a traço grosso, verticais, horizontais e mesmo em diagonal, no pequeno raio estilizado. O grafismo da Métal Hurlant é simplesmente extraordinário, nessa época. A revista, impressa em Itália, tinha um cheiro característico no papel que aliás, ainda conserva, passados mais de trinta anos. No interior desse número, os primeiros desenhos de The Long Hello, de Moebius e que prefiguravam o futuro Incal e outros Major Fatal ( nesse número continuava já a história fraccionada de Le Garage Hermetique), para além de inspirar directamente o filme The Blade Runner e o 6º Elemento.
A revista, dedicada primordialmente a temas de ficção científica, com histórias desenhadas por alguns dos maiores autores da bd francesa ( Moebius, Druillet, Denis Sire, Serge Clerc e o malogrado Yves Chaland) publicara as seis capas em anúncio na Rock & Folk, a preto e branco. A curiosidade em vê-las a cores e ao vivo, só alguns anos foi satisfeita. Acabei por assinar a revista nos anos oitenta e comprar depois a colecção quase completa ( faltam os 3 primeiros números).


A imagem da capa do primeiro número é fantástica em vários sentidos: no tema e na composição.
Recentemente, através de um volume intitulado Métal Hurlant, La machine à rever, publicado em França, em 2006, e dedicado a uma história ilustrada da revista que acabou em 1987, descobri que essa primeira capa desenhada por Moebius, teve uma inspiração directa, numa imagem de um quadro de Maxfield Parrish.
Aqui ficam as duas imagens, para comparação e meditação.


segunda-feira, 21 de maio de 2007

Os desenhos primitivos


A primeira vez que li uma aventura de Tintin, foi na versão portuguesa da revista belga Tintin, mais precisamente no número 39 de 19.2.1972. A historieta ia já adiantada e chamava-se Tintin na América, sendo a versão redesenhada em 1946, da original, publicada em 1931.
O ano de 1946, foi também o do aparecimento da revista Tintin, a original, belga.
Em Portugal, as aventuras de Tintin eram já conhecidas desde 1936, precisamente com a historieta As aventuras de Tim-Tim na América do Norte, versão de 1931, publicada na revistinha O Papagaio, em 1936 e 1937, por iniciativa de Adolfo Simões Muller. Este autor e divulgador emérito, tomou conhecimento com a obra de Hergé, autor de Tintin, por intermédio de um padre português, Abel Varzim, estudante de Lovaina, na Bélgica e que conheceu pesssoalmente Hergé, aliás.Georges Remi, nascido em 22 de Maio de 1907.
Hergé, se vivo fosse, faria agora 100 anos.

Antes de ler a primeira aventura no Tintin português de 1972, já tinha conhecido, em 1970-71, uns cromos avulsos, relativos à história Tintin e o Templo do Sol e que serviram como inspiração para os primeiros desenhos que copiei e me deram o gosto da cópia desenhada.
Os desenhos são os que ficam acima.

terça-feira, 15 de maio de 2007

O segundo é triplo



A música dos Nitty Gritty Dirt Band, um grupo americano que passou nos setenta como um cometa pelo country rock, começou por ser apresentada nos programas de rádio de Jaime Fernandes, no Rádio Comercial de meados dos anos setenta.
Em 1976, foi publicado nos USA uma colecânea em LP triplo, intitulada Dirt Silver and Gold.
Até essa altura tinham já saído todos os LP´s mais relvantes da banda que misturava o country com o rock, num estilo que outros anteriormente tinham já ensinado, como os Byrds e os Flying Burrito Brothers.
O que diferenciava os NGDB de outros artistas de country rock, era a maior diversidade e variedade nos temas e respectivo uso dos instrumentos.
No ano de 1975, o LP Symphonion Dream, tinha já servido de mostruário da perfeição técnica do grupo e os temas desse disco são encadeados por pequenas frases e apontamentos musicais que ajudam a passar de um estilo para outro, com a facilidade de um álbum conceptual. O disco, provavelmente, será o melhor do grupo para o meu gosto.
Assim, em 1976, a recolha em triplo LP, de temas dos cinco discos passados, serviu para uma colectânea cujo recheio acertava em cheio no gosto musical da época e por isso o disco é daqueles que é referência imprescindível na minha discoteca particular.
A utilização intensiva de instrumentos acústicos, com predomínio das guitarras secas, de som cristalino em corda de bronze, é um prazer inaudito, inúmeras vezes repetido.
A música dos NGDB atingiu pela primeira vez a atenção, com o tema Mr. Bojangles e a harmónica a dar o tom à voz do cão, cujo leve uivar, em imitação da voz do dono, surge imediatamente antes da entrada dedilhada da guitarra, numa mistura de gravações única na música popular. A canção de Jerry Jeff Walker ganha consistência nova, tal como a de Boudleaux Bryant, All i have to do is dream, no álbum Symphonion Dream, aliás ambas incluídas na colectânea. O tema de Boudleaux Bryant, tem sido interpretado por vários cantores e instrumentistas, ao longo dos tempos, com destaque para os Everly Brothers e Doc Watson, num disco ao vivo de 1979, Live and Kickin´ e ainda Leo Kottke, em 1981, no disco Guitar Music. De todas as versões, a dos NGDB, é a que prefiro, seguida de muito perto pela de Doc Watson.
All i have to do is dream pelos Nitty Gritty Dirt Band, começa com o som da guitarra acústica a que se junta depois o do banjo e da harmónica, antes de os restantes instrumentos acordarem todos com a voz que só entra aos 20 segundos de instrumental maravilhoso, com secção rítmica e guitarra eléctrica, sem nunca deixar o banjo ou a harmónica esmorecerem na mistura do som final. Uma versão perfeita. A de Doc Watson parte com a singeleza das guitarras acústicas a solo, o baixo e a voz em tandem de Doc e do filho Merle. Um pouco menos que perfeita, mas com execução técnica superior.
No triplo LP também se inclui Doc´s Guitar, uma pequena amostra do estilo picking de Doc Watson e o tema Cosmic Cowboy, da autoria de Michael Murphy, um outro epítome deste tipo de música que trata as guitarras acústicas com o som melodioso e fugidio das guitarras de pedal, metalizadas e que atravessam todos os discos de verdadeira música country, com predomínio ainda no country rock.

domingo, 13 de maio de 2007

Over-nite Sensation

O primeiro disco de referência, daqueles que colecciono sempre que sai uma versão melhorada, vem com a oportunidade de escrever sobre uma novidade em dvd.
A editora Eagle Rock Entertainment, que tem produzido algumas obras em dvd musical, numa série intitulada classic álbuns, recupera de catálogos antigos, discos importantes da música popular de expressão anglo-saxónica. Publicou em Abril de 2007, o seu mais recente dvd musical: Apostrophe ( ‘) Over-nite sensation, de Frank Zappa.

O dvd apresenta os dois discos de Zappa, datados de 1974 e 1973, respectivamente, com imagens de alguns temas, tocados em concerto de época, comentados por músicos e familiares.
As imagens dos concertos, apanham alguns temas como Montana, tocado em 1973 e I´m the Slime, tocado em 1976 ( ambos de Over-nite sensation), para além de pequenos excertos de outros temas e a mostra de técnicas de estúdio, apresentadas pelo filho de Zappa, Dweezil, e uma incursão nos célebres arquivos, os “vaults”, de onde têm saído pequenas preciosidades sonoras, após a morte de Frank Zappa, em 1993, com 53 anos.
Zappa é com certeza, o compositor mais interessante de toda a música popular americana. Além da prolixidade das suas obras em disco que ultrapassam a meia centena de originais, os géneros musicais que se podem ouvir, passam todas as variedades de estilo, com destaque para o rock e o jazz, misturados em vocalizações e solos de guitarra sem paralelo no rock.
O disco LP, Over-nite sensation, saído em finais de 1973, foi publicado em Portugal na altura e passava frequentemente no rádio, nos programas nocturno da rádio Comercial, nos meses seguintes.
O disco, é um daqueles que se ouve com toda a facilidade de um clássico da música popular.
O primeiro tema a rolar, é Camarillo Brillo, uma paródia dos hippies, já em desuso, na altura e com uma toada de guitarra que faz lembrar os acordes básicos de Sultans of Swing, dos Dire Straits, uma meia dúzia de anos depois.
A Camarillo Brillo, segue-se I´m the Slime, cujo tema escrito é recorrente na obra de Zappa: a televisão cretinizante. A música compassada e em ritmo que hoje se diria hip-hop, começa com um solo de guitarra, corrido no baixo do braço, a que se junta pouco depois, o trombone e a trompete e os teclados de George Duke, para solidificar a secção rítmica, interceptada logo pelo solo final de guitarra wah-wah.
O tema terceiro, Dirty Love, explora novamente os campos escorregadios do sexo escrito para canções pop e presta-se a mais uma exploração do virtuosismo guitarrístico de Zappa e da sonoridade sottovoce, alcançada por método electrónico, em contraponto aos coros das Ikettes de Tina Turner.
No trecho Fifty-fifty, a voz de Ricky Lancelotti e o violino de Jean Luc Ponty, são as estrelas principais, antes da introdução jazzística de Zomby Woof, uma paródia ao esquisito, com voz de Tina Turner em evidência e teclados de George Duke, num exemplo das variações musicais zappianas.
O rolamento do início do disco, regressa com Dinah-Moe Humm, mais uma paródia de expressão sexual, com rap e ritmo sustentado e música demorada, num dos temas mais fortes do disco.
O último tema, Montana, reúne em si, a essência do disco, com relevo para a participação da vibrafonista Ruth Underwood e o solo de guitarra, longo e em estilo repetido em muitos discos de Zappa, intercala com vocalizações originais, cortadas abuptamente pela intervenção dos metais. A secção rítmica mantém ao longo do tema, o sustento de baixo e bateria que acompanha os restantes instrumentos de sopro e percussão, tornando difícil escrever e traduzir por letras, a sonoridade típica de Zappa, feita de pequenos trechos musicados e ritmados no interior das próprias composições, numa colagem de referências que se repetem de álbum para álbum, numa muito glosada continuidade conceptual.
Ao longo destes mais de trinta anos que ouço Overnite Sensation de Frank Zappa, primeiro no rádio e depois em disco, nunca deixei de pareciar todas as composições do disco.Dá até a impressão que a cada audição, a atenção a este ou aquele pormenor, permite descobrir pequenas sonoridades misturadas no seio do tema principal e pequenas variações de entoação, ritmo ou solo. O dvd recém saído, aliás, só o vem confirmar.

domingo, 29 de abril de 2007

Os sons da Página Um

Imagem do estúdio da Rádio Renascença, em Abril de 1975, por ocasião da greve que aí começou e se estendeu por várias semanas. A imagem é retirada da revista Flama de 7.3.1975, que contém duas páginas sobre o assunto e a opinião de João Alferes Gonçalves.

Com o advento da revolução em 25 de Abril de 1974, um dos sectores que sofreu um abalo de réplica, foi o do ensino. No ano de 1974, quem acabava o então 7º ano do liceu, hoje 11º. não conseguiu prosseguir para as universidades, porque estas tiveram um ano sabático, por efeito da Revolução. De repente e de um ano para o outro, a população estudantil, passou para...o dobro e 27 mil estudantes a quererem entrar para o ensino superior público, causava um engarrafamento monumental que a Revolução não sabia lidar, tendo sido suspensas as matrículas, no final do Verão. Durante esse ano, de vida estudantil nula, o que podia fazer um jovem, enquanto aguardava a matrícula que só viria no ano seguinte? Entre muitas coisas, ouvir música era uma delas.
No capítulo musical, no Portugal de Abril de 74, o meio mais comum e usual de divulgação do que então se produzia em disco, era o rádio em frequência modulada.
Os programas disponíveis, deve dizer-se, eram vários e de muito boa qualidade. A música que então se produzia, seguia a par. Qualquer pessoa atenta, facilmente ouviria por cá o que por lá por fora se produzia, na música popular, ainda que com um intervalo de tempo, às vezes medido em meses, muitas vezes encurtados pelos voluntários que enviavam, “lá de fora”, os discos que por cá ainda não havia. Os correspondentes da BBC, parece que também ajudavam, como era o caso de António Cartaxo, hoje a apresentar música erudita na Antena 2.
Programas como O Espaço 3P (que englobava a Boa Noite em FM, a Banda Sonora e a Perspectiva ) , o Em Órbita 2 e o programa Dois Pontos, no Rádio Clube, eram apresentados por connoisseurs entusiastas. João David Nunes, Fernando Balsinha, Jaime Fernandes e outros, passavam muitas vezes álbuns, LP´s , integralmente, sem interrupção sequer para publicidade, nos seus programas que convidavam a acoplar ao rádio, o gravador de cassetes que então começavam a difundir-se maciçamente.
Álbuns antigos e recentes, passavam as ondas com a facilidade com que viriam lá de fora, da Inglaterra ou dos Estados Unidos, trazidos por carolas amigos dos locutores que muitas vezes os convidavam para apresentarem as raridades ou novidades.
Por mais do que uma vez, foi possível ouvir os Grateful Dead, Leo Kottke, Doc Watson ou Frank Zappa, trazidos por um João Filipe Barbosa ou outro curioso amador que generosamente apresentava a obra prima que ainda não tinha sido ouvida neste lado do Atlântico.
Claro que era sempre possível sintonizar em onda curta o programa da BBC, Top Gear, de John Peel e apanhar numa qualidade sonora menos do que sofrível, os últimos acordes da batida do reggae de Bob Marley que em 1974 ainda eram desconhecidos por cá, a não ser através da interpretação de Eric Clapton em I Shot the sheriff. Quem diz Bob Marley, pode dizer os alemães Can ou o inglês Roy Harper, por cá amplamente divulgado por Jaime Fernandes e João David Nunes, no Dois Pontos.
As novidades apresentadas à noitinha, no Top Gear de John Peel, eram mesmo isso, porque se apresentavam na terra onde eram produzidas.
Por cá, a prática editorial da Rádio Triunfo ou da Valentim de Carvalho demorava meses a produzir sons agradáveis ao ouvido de quem já os conhecia, pela leitura de jornais e revistas de especialidade, como os ingleses New Musical Express e Melody maker, a francesinha Rock & Folk e a americaníssima Rolling Stone.
Além disso, o resultado sonoro, graficamente transcrito em Portugal, saía geralmente um pouco apagado, mesmo nas capas mais desmaiadas e de cartão mais fraco do que o americano de várias camadas e cheiro específico.
O vinil original, importado geralmente de Inglaterra, era mais caro e aparecia mais tarde -quando aparecia. A visita a certos locais de culto, tornava-se obrigatória, para descobrir as peças de colecção. Em Braga, a Sonolar, mostrava discos, trazidos pela Valentim de Carvalho e apresentava nos escaparates, uma edição rara do último disco que os Beatles produziram, Let it Be, com um livreto de explicações das sessões de gravação, com imagens a cor, em fundo preto, inserido numa espécie de caixa em cartão que hoje vale muito mais, em leilões na ebay.
Assim, o rádio era o meio ideal de tomar a novidade dos sons do momento e foi assim que ouvi as melhores bandas do rock progressivo inglês, como os Gentle Giant, os King Crimpson e os Van Der Graaf Generator, nos programas nocturnos de Fernando Balsinha.
De igual modo, a audição atenta e repetida de Apostrophe e Overnite sensation de Frank Zappa ou os Tangerine Dream e outro rock alemão, fixaram preferências para sempre.
O folk-rock inglês também se apresentava com o cuidado dos Fairport Convention e dos Renaissance ou Steeleye Span e a música country americana, tinha honras de primazia, no programa Dois Pontos de Jaime Fernandes, onde se ouviam verdadeiras raridades nos tempos de hoje. Descobri os Nitty Gritty Dirt Band, os Eagles, os Flying Burrito Brothers e todo o country rock que conta, nos programas Dois Pontos e estas audições intensivas, ocorreram em toda a metade dos anos setenta, com entrada ainda nos oitenta.

Porém, o que iniciou toda esta modalidade de audição seguida de gravação ( ainda guardo em cassetes da Basf gravações dessa época, de um mono esplendoroso, mas de dinâmica apagada) foi o programa da Rádio Renascença, Página Um.
O programa que ouvi, no início dos setenta, ainda era apresentado por José Manuel Nunes que foi para a Deutsche Welle, antes do 25 de Abril de 74, segundo julgo.
Em substituição da voz timbrada, mas um pouco nasalada, apareceu outra voz que se identificava como Luís Filipe Martins. O mesmo que agora, apresenta o blog LPM e que durante o ano sabático de 74/75, apresentou o programa por vezes interrompido com greves prolongadas ( De meados de Fevereiro de 1975 até 5 de Abril do mesmo ano, por exemplo) e por ocasião dos desenvolvimentos dramáticos do PREC que foram vários, aliás.
O primeiro programa que guardo vivamente na memória, apresentou Maria Maudaur e um disco desconhecido por cá que trazia Midnight at the oásis, um hit de 1974. O Lp, trazia outras missangas de luxo da música country rock ligeira e apoiado num naipe de músicos de encher os ouvidos de maravilhas sonoras. O solo de guitarra do single, tocado por Amos Garrett, fixava os ouvidos atentos durante dias, quando a música se repetia, o que era timbre do programa e ajudava a formar gosto musical.

Na emissão de 31 de Dezembro de 1974, o programa, à semelhança dos demais, nesse tempo, ocupou a hora e meia disponível, na retrospectiva da música passada durante o ano, com a locução muito sóbria e sustentada, de Luís Filipe Martins ( durante o mês de Agosto, seria Artur Albarran, que me provocava um efeito de estranheza que demorou a habituar).
O alinhamento desse dia, foi o seguinte:
Logo a seguir à introdução batucada do Pop Five, feita apenas de bateria e baixo ( que agora descobri por revelação do apresentador, ser diferente do original que se pode ouvir em disco), imediatamente antes do “Hey” que precede a entrada dos metais, o anúncio do programa- Página Um!- não esperava mais nada e introduzia a música dos Sparks, Amateur Hour, do álbum Kimono my house. Este disco ainda hoje é um dos meus favoritos da música popular, com lugar cativo nos dez mais interessantes de sempre.
Em seguida e com aviso sonoro de que se tratava de um super grupo rotulado como tal por ter elementos dos Free e King Crimpson, entrava Bad Company, para se ouvir The way that i choose, um tema lento do primeiro LP , com a menção à circunstância de ter sido divulgado no programa juntamente com os Sparks, os Cockney Rebel e os Brownville Station ( ou seja alguns expoentes do que se convenciou chamar glam-rock, com David Bowie à cabeça).
Em seguida e sem aviso, a música de Victor Jara, Levantate e mira la montaña e ainda Chunguito Guerrillero ( a música progressista chilena era um must, no programa e por lá passaram nesses meses de brasa política, outros como Claudina e Alberto Gambino e ainda outros nomes da chamada música de intervenção, como Carachu, Soledade Barvo, Quillapaiun, Mercedes Soza e Los Cañas. As editoras deste tipo de música tinham nomes domo Expression Spontanée e Les Chants du monde. Em 1975, no auge do PREC, passavam na Página Um, grupos como Groupement Culturelle Renault, com apelos explícitos às lutas dos trabalhadores daquela fábrica de automóveis francesa e ainda Dominique Grange, uma cantora com temas como “ À bas l´état policier e Nous sommes les nouveaux partisans”, tudo canções “que ficaram de Maio de 1968”. Os espanhóis também se encontravam representados por Juan Manuel Serrat, por exemplo. Na música popular portuguesa, era presença constante, e então bem-vinda, a música do Grupo de Acção Cultural Vozes na Luta, com temas como Alerta; Em vermelho, em multidão; A cantiga é uma arma, etc ).
Depois do espanhol dos chilenos, um instrumental de música celta, de Alain Stivell. Os instrumentais na Página Um, eram uma pequena maravilha de inventividade na escolha. Lembro-me de um do Eumir Deodato ,brasileiro radicado nos EUA e um Santana com o título Promise of a fisherman que ainda ouço do modo como então ouvi, como lembro os do Som Imaginário, também brasileiros e do álbum A matança do porco. Em todos os programas, a meia dúzia de músicas cantadas, seguia-se o instrumental da praxe, sempre muito bem escolhido e que definia um estilo de programa que nunca mais ouvi.
Logo depois, a retoma do disco de Bob Dylan, Planet Waves da etiqueta Asylum ( uma constante do programa era a indicação concreta da etiqueta de gravação original que nessa altura eram muitas e variadas, ao contrário de hoje, poucas e concentradas) que se anunciou como divulgado juntamente com o de Joni Mitchell ( na altura, Court And Spark que contém Help me). Lembro a referência constante à Atlantic, como etiqueta, e a apresentação de um disco colectânea de temas dessa editora, chamado The Age of Atlantic.
A seguir à menção da voz feminina de Joni, surge a de Sandy Denny, num tema estrondoso que nunca mais ouvi do mesmo modo que ouvia na Página Um: Solo, do LP Like an old Fashioned Waltz, da etiqueta Island. A melhor versão que se aproxima desse som original que ficou gravado para sempre, ainda é a última gravação remasterizada do cd, de 2005, mas ainda assim, fico sempre com dúvidas se será melhor do que o som monofónico do meu velho Grundig Melody, que aliás já não se fabrica, mas ainda funciona. A menção obrigatória à divulgação juntamente com Maggie Bell, serve para introduzir mais um estrondo sonoro de alta voltagem impressiva: Rory Gallagher, e o tema Tatto Lady, tirado de um disco ao vivo no festival de Reading ( ainda não consegui esse disco, e de Rory Gallagher tenho quase tudo, incluindo o LP que a Página Um passou depois, Irish Tour´74 e que me impressionou de tal modo que ainda ouço os acordes da Stratocaster eléctrica e da Martin acústica reproduzidos no rádio, sempre que me ouço As the crow flies baby…
A seguir a um Gallagher altamente energético e bluesy, um coutry-rocker estilo inglês, radicado nos EUA: Graham Nash e um tema de um disco fabuloso: Prison Song do LP Wild Tales. O Lp é outro dos que marcam a década, juntamente com os produzidos pelos CSN&Y grupo de que aliás, fazia parte.
A seguir à harmónica de Nash, a voz em português do Brasil, de Maria Betânia e o anúncio da apresentação, durante o ano, de Drama, Terceiro acto, que engata no francês bem pronunciado de Maxime Le Forestier e o tema nostálgico Si tu était née en Mai. O cantor francês, actualmente um completo desconhecido por cá, foi com Serge Reggiani e Georges Moustaki, para não falar em Leo Ferré e Jacques Brel, belga, a voz da língua francesa nas canções do rádio. Hoje, há Carla Bruni e mais ninguém. O tempo de Françoise Hardy já vai longe e já passou, mas as suas canções de sussurro permanecem uma beleza oculta, tanta como a que então a cantora apresentava como pessoa.
E vem depois uma sessão de música portuguesa, de intervenção. Primeiro, Mário Viegas a dizer poemas de um ep. Depois, Sérgio Godinho e um dos seus melhores discos, À queima-roupa e em seguida, José Afonso no Coro dos Tribunais.
Para fechar a cota de música portuguesa sempre presente no programa, e com importância acrescida, o locutor refere que “em Outubro a Página Um assistiu aos ensaios de um grupo português que se viria a tornar a revelação do ano: a Banda do Casaco. Passa o tema Lavados, lavados sim, uma pequena maravilha que me deu a conhecer a grande maravilha da música do grupo, ainda hoje, talvez o melhor de sempre da música popular portuguesa. A Página Um, nos meses a seguir, passou constantemente temas do LP de António Pinho e Nuno Rodrigues.
Para uma mudança completa de ritmo e sentido, o som reggae de Ken Boothe e GTMoore, com Knocking on Heavens Door. O reggae, nessa altura, era uma absoluta novidade em Portugal e até na Europa e só um par de anos mais tarde, com o advento do Punk se começou a dar mais atenção ao estilo jamaicano de tocar. Só no final do ano seguinte, com o espantoso LP ao vido de Bob Marley, At the Lyceum, se começou a ouvir reggae com alguma frequência modulada, em Portugal.
Para seguir, tocou então Gary Chesterton, um australiano que cantava I get a kick out of you como mais ninguém o fez: de orquestra de violino de bolso, numa toada swingante que vale bem a versão de Sinatra. É um disco perdido, mas conservo a gravação, feita anos mais tarde, também da rádio, neste caso espanhola. O Lp, esse, continua a figurar na lista dos mais procurados.
Cat Stevens que nesse ano tinha lançado Budda and the chocolate box, foi então convocado e em seguida outro solo-singer ( expressão várias vezes ouvida no programa), Clifford T. Ward, um cantor que estivera pouco tempo antes em Lisboa, a cantar Jane e cujos álbuns, valem alguns de Cat Stevens, o que não é dizer pouco. Foi na Página Um que ouvi, fixei e ganhei vontade de coleccionar depois, a música do cantor inglês, já desaparecido.
Para findar o programa, Leo Sayer, leve, mas novidade fresca da época, com One man band.

Esta retrospectiva de 1974, permite perceber algumas coisas que faltam na rádio actual:
Canções de qualidade, mistura de géneros, sobriedade na apresentação e total respeito pelo ouvinte e ainda competência e conhecimento do apresentador. O estilo do programa, simples, era de uma eficácia, a meu ver espantosa. O mistério da apresentação da música gravada, nessa época, desconhecida e apresentada como novidade a reter, mantinha-se com o elevado interesse que a própria produção musical da época assegurava.
Durante o ano seguinte, 1975, a Página Um, apresentou alguns dos melhores discos de sempre da música popular de várias expressões, então produzida.
Lembro e destaco, no panorama internacional, o LP dos Led Zeppelin, Physical Grafitti, cuja audição, hoje em dia, da batida forte de Kashmir ou a melodia de In the light, parece-me que nem soam tão a preceito como então as ouvia. O disco passava dia sim, dia sim, com temas variados e fixou o ritmo do programa nos primeiros meses de 1975.
Lembro também a primeira vez que foi apresentado o LP Blood on the tracks, que anotei ter sido em 18 de Fevereiro de 75, com o tema Idiot Wind, um dos que menos gosto, mas seguido de Lily Rosemary and the jack of hearts que ainda hoje evoca o programa, para mim. Lembro Joe Cocker e I can´t stand a little rain, para ouvir Put out the light. Lembro a passagem da banda Sonora de Tommy e os Barclay James Harvest que embora sendo os Moody Blues dos pobrezinhos, encantavam-me com Everyone is everybody else e mais tarde, Titles. O disco ao vivo deste grupo, de constitui uma das referências do programa. De Bob Dylan, passou entretanto, no ano de 75 o LP Before the Flood, com um efeito impressionante na minha visão de Bob Dylan que aguentou até aos dias de hoje, pois o cantor não voltou a fazer melhor música do que nesse ano.
O primeiro single dos Queen, sheer heart attack, não me impressionava tanto como por exemplo, os Sparks de Propaganda, com Thanks but no thanks e principalmente os Roxy Music com Prairie Rose, do LP Country Life. Ainda hoje, o som que procuro nesse disco é a memória desse tempo da Página Um. Como acontece com o tema a solo Somoke gets in your eyes , de Brian Ferry.
Os Supertramp não me impressionaram com a voz de falsete de Crime of the Century, porque preferia ouvir Sloth, dos Fairport Convention, ao vivo.
Em 14 de Fevereiro, João Filipe Barbosa foi ao programa apresentar vários temas de discos dos Génesis que viriam a Portugal nos dias 6 e 7 de Março seguinte. Estes concertos de grupos que nunca por cá apareciam, eram motivo de grandes conversas e passagens de músicas, na rádio desse tempo.
Algumas músicas que então ouvi, continuam por ouvir em cd ou mesmo LP. É o caso de Stage door´s Johnny de Claire Hamill. Mas Michael Murphy e o LP Nobody´s gonna tell me how to play my music, canta por cá em prensagem americana, como deve ser e numa sonoridade muito próxima da memória auditiva.
Ao lembrar-me de Maxime Le Forestier a cantar, Mourir pour une nuit, julgo que nenhuma outra música se aproxima, em intensidade, da minha intimidade, como essa. E foi na Página Um que a ouvi a primeira vez.
Há poucos meses, em Barcelona descobri Jonathan Edwards, um americano que durante estes anos todos me perseguiu a atenção para arranjar a versão que tinha ouvido no programa, em 1975. Quando li, nas notas de contracapa, que o disco Lucky Day, tinha Let the good times roll, de 1974, era ao vivo e fora gravado com a companhia do grupo Orphan, percebi que tinha encontrado uma pepita sonora que julgava perdida para sempre. Tal ainda vai suceder com o LP de Johnny Nash, Celebrate Life, um dia destes, espero. Como espero ouvir os Splinter de Costafine Town. Ou os Snafu de Situation Normal. Ou ainda a colectânea original e esgotadíssima que se chamava The age of Atlantic, com temas dos Yes dos primórdios ou dos Beach Boys, por exemplo, e que nunca se ouvirão da mesma maneira se não for nesse mesmo disco.
A música portuguesa dos cantores de intervenção, também foi principalmente na Página Um que a ouvi como deve ser. Fausto, Pró que der e vier; Luís Cília, José Mário Branco do Soldadinho e até Sérgio Godinho dos dois primeiros LP´s e dos seguintes, foram alguns dos autores cuja audição encontrei no programa e nunca mais deixei de ouvir.

A programa de rádio Página Um dos setenta, apresenta-se para mim, do mesmo modo que a canção de Milton Nascimento, Saudade dos Aviões. Nela, Milton canta que “cerveja que tomo hoje é apenas em memória dos tempos da Pan Air”, e eu canto que uma boa parte da música popular que ouço hoje, é apenas em memória dos tempos da Página Um de outros programas que ma apresentaram em primeiro lugar e toda a gente percebe a beleza que existe nos amores primeiros. De tal modo que no disco Temporada de Verão, de Caetano e Gilberto Gil, ao vivo na Bahia, se cantava no Verão de 74 que “o sonho acabou” e “ felicidade foi embora”.
É isto a nostalgia? Talvez. A nostalgia da qualidade que não se recuperou, em trinta anos, porque os produtores aparentemente perderam a receita.
Ouvi recentemente um disco de Neil Young, gravado em 1971, no auditório Massey Hall no Canadá. O disco é totalmente acústico e tocado numa simplicidade desarmante dos acordes que raramente chegam à meia dúzia, numa viola Martin e por vezes num piano.
O disco deveria ter saído depois de After the gold Rush, um monumento da música popular americana, e antes do disco Harvest, de 1972. A opção de Neil Young, fê-lo republicar o disco apenas agora. A sua audição recupera a beleza da voz de Young e a simplicidade maravilhosa da sua música acústica, mas perde algo substancial que havia nesse tempo: a novidade da descoberta sonora, tornada complexa pelo tempo que se vivia, de juventude e de descoberta de outras realidades, na a vida como ela pode ser vivida.
Será esse o segredo do templo perdido da sabedoria? A ingenuidade e a inocência, trazem-nos felicidade ou preparam-nos apenas para a verdadeira noção do que significa viver?
A experiência musical, seja ela a induzida pelos sons da música popular ou da música mais erudita, sublime e inatingível, ajuda a partilhar momentos de felicidade espiritual e funciona como mecanismo indutor de bem estar, em quem se preparou para tal. Mais do que isso, será pedir ou esperar demais.

Estúdios da Rádio Renascença, com elementos das Forças Armadas, em Abril de 1975, para manter a segurança. Imagem da mesma Flama.

PS. Este postal é uma resposta ao blogger Luís Paixão Martins o apresentador da Página Um, em 1974-75, no período aqui mencionado e que amavelmente manifestou sua vontade em conhecer o "José" do blog Grande Loja do Queijo Limiano. Um dia destes, pode ser.

Aditamento em 1.5.2007, às 22:10:

Luís Paixão Martins, em modo de resposta às perguntas que coloquei no seu blog, e que muito agradeço, esclarece algo interessante para quem sempre quis perceber como funcionava o programa Página Um, que apresentou em 1974-75. Em comentário, explica:

Coisas de que ainda me lembro: 1. Na altura,as rádios privadas tinham os seus horários alugados por vários produtores independentes. O Página 1 pertencia a Homero Cardoso que desempenhava funções comerciais na Revista Flama e veio a ter um papel preponderante na editora Assírio e Alvim. 2. Durante a maior parte do período em que o programa foi emitido o seu realizador e apresentador foi José Manuel Nunes, que veio a ser presidente da RDP nos anos 80/90. 3. O Adelino Gomes foi, também durante alguns anos, o responsável pelas reportagens do programa. 4. Da equipa, como locutores e realizadores, fizeram ainda parte o Fernando de Sousa (hoje na SIC em Bruxelas) e o Artur Albarran (que trabalhou na RTP e TVI), em períodos relativamente curtos (férias e coisas assim). 5. O primeiro realizador do programa, embora por pouco tempo, não foi, no entanto, nenhum destes. Salvo erro ou Jorge Schitzer ou Cândido Mota. 6. José Videira assegurou a operação técnica do programa durante muitos anos e, antes dele, salvo erro o Moreno Pinto. 7. Os discos chegavam em 1ª mão ao Página 1 essencialmente devido à colaboração de Fernando Tenente, um entusiasta musical que vivia no Porto e trabalhava na Marconi. Além disso, como o programa era muito popular (não havia TV e a Rádio de final de tarde era muito ouvida), as editoras discográficas privilegiavam o programa. 8. Não havia “play-lists”. A selecção musical dependia do gosto e do critério dos locutores/realizadores. Sempre houve (eu, antes de trabalhar no programa, fui seu ouvinte) uma mistura de géneros. Muita música de expressão anglo-saxónica e uma selecção de temas rotularíamos hoje de “world music”. Além disso, a música portuguesa de qualidade estava sempre muito presente. Foi o Página 1 quem lançou, por exemplo, Sérgio Godinho, José Mário Branco, Fausto...9. Existe uma razão para tudo isto, mesmo antes do 25 de Abril. Ao contrário das outras emissoras, na Rádio Renascença (por pertencer à Igreja Católica) não havia censura oficial. Podíamos, por isso, trabalhar com muito mais liberdade que os nossos colegas das outras estações. 10. Foram os Pop Five que entregaram a “versão” indicativo do “Page One” da forma como era tocada na Rádio. O registo comercial tem a etiqueta Orfeu. Lpm PS: O 1º LP que tive emm quadrifonia tinha o Mockingbird.

É claro que estas lembranças, suscitam novos comentários que me ocorrem.

Lembro-me de em 1975, logo após o 11 de Março e das nacionalizações, em pleno PREC, alguém no programa questionar vivamente a problemática dos "produtores independentes", como se fora algo de esquisito e a eliminar, no novo país em construção. Lembro-me ainda da intervenção de Fernando Tenente como colaborador e do nome de José Videira, mencionado no programa. Lembro-me de ouvir as intervenções de Adelino Gomes, durante o dia 11 de Março, e de o ver numa reportagem inesquecível e que poucas vezes se viu na RTP.

Lembro ainda de ouvir Sérgio Godinho nos seus primeiros LP´s e principalmente Fausto. Lembro de ouvir Luís Cília "contra a ideia de violência, a violência da ideia", disco perdido da nossa MPP.

Fico a saber a razão da publicidade do programa, nas páginas da Flama, o que sempre me intrigou, porque não a encontrava noutro lado: o produtor do programa era também responsável pelo sector comercial da revista. A revista pertencia à União Gráfica, mas aí trabalhavam os futuros jornalistas do futuro O Jornal, por exemplo.

Assim, fica aqui encerrado ( temporariamente) um capítulo sobre o rádio que ouvia, enquanto jovem adolescente. O meu muito obrigado a Luís Filipe Paixão Martins.

A seguir, os discos de referência, de sempre e em estilos variados.