sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Rolling Stone

Como é que me lembro da descoberta da revista Rolling Stone, na primeira metado dos setenta?
Lembro-me de a ver colocada, como os livros, na banca da livraria Bertrand, da cidade em que vivia. Era uma banca de entrada, onde se expunham revistas, maioritariamente estrangeiras, ainda antes de 25 de Abril de 1974.
Francesas, como a Paris Match, CinéRevue e Nouvel Observateur, L´Express ou a Rock & Folk, também de música. Alemãs, como a Der Spiegel, Stern, Pop ou outras de imagens apelativas, principalmente no Verão, de nomes breves como Quick e ainda a Der Spiegel ou a Stern, de formato grande. Brasileiras também, como a Realidade, a Manchete ou a História ou ainda a versão das Selecções do Reader´s Digest. Sobre música popular ainda havia o jornal Melody Maker e também o New Musical Express, ingleses de boa cepa, dos quais ainda se aguenta nas vendas o segundo, agora transformado em revista. Depois do 25 de Abril de 1974, nas mesmas bancas, mas um pouco mais recatadas, a aparição das capas de revistas até aí proibidas pela censura, como as americanas Playboy, Penthouse ou Oui, ou as inglesas mais especiosas e escondidas e ainda as capitosas francesas, Lui ( com fabulosos desenhos de Aslan) e Absolu, que cativavam a atenção adolescente de modo irreprimível.

A primeira vez que dei atenção suficiente à revista Rolling Stone, para folhear e comprar ( e nem era tão cara como outras, pois na altura, ano de 1974-75, custava 37$50, contra os 50$00 da Rock & Folk) foi em Abril de 1975, por causa de uma capa e de um artigo. A capa era sobre o actor e detective de série televisiva, Columbo, então um sucesso, seguido religiosamente todas as semanas e o artigo era sobre o assassinato de Kennedy.

As fotos de Annie Leibowitz, sobre Columbo/Peter Falk, misturavam-se com o filme amador de Zapruder, sobre os últimos instantes de Kennedy, em Dallas.

A parte fotográfica era dirigida por Annie Leibowitz e o enquadramento das rubricas, em colunas de quarto e meia página, com ilustração inovadora e as crónicas de discos na parte final, assinadas por Dave Marsh, Bud Scoppa, Paul Nelson, Greil Marcus e outros.

Durante o ano de 1975, as sucessivas referências na revista Rock & Folk, na secção Boogie Woogie, assinada por Patrice Blanc Francard, criaram uma curiosidade que cedo enviesou para a obsessão em encontrar os números quinzenais da revista que entretanto desapareceu das bancas da Bertrand, provavelmente em curso de mudança de direcção, com as vicissitudes da época revolucionária que Portugal atravessava.

Não obstante, em Setembro de 1975, em Lisboa, na Bertrand ou noutros locais de venda de revistas estrangeiras, no Rossio, por exemplo, não consegui encontrar o exemplar já então buscado com obsessão compulsiva. Acabei por encontrar a capa e contracapa, do número 195 de 11 Setembro 1975, consagrada à figura de Mick Jagger e uma chamada de atenção sobre o reggae, fenómeno musical recente e em ascensão. A revista, abandonada, por um qualquer turista em trânsito, num parque de campismo, por trás do Estádio Universitário, onde ocasionalmente me encontrava, foi recolhida, apenas com a capa, amarrotada, e serviu de alimento à compulsão, durante longos meses. Guardei-a e ainda tenho e exemplar. Quanto à revista de Abril de 1975, com a capa de Columbo, acabei por as adquirir posteriormente, há uns anos atrás, tal como o fiz em relação a outros números dos anos de 73, 74 e 75.

Assim, o interesse na Rolling Stone, partiu da leitura da rubrica Boogie Woogie, da Rock & Folk, em que se dava conta, numa página geralmente, das entrevistas passadas nas Rolling Stone anteriores. Essas pequenas passagens transcritas, alimentavam a curiosidade em encontrar o número da quinzena, vendo no entanto o sítio do costume, sempre ausente, numa frustração constante que durava meses e até anos.

Só um mês de dois números depois ( a revista era quinzenal), consegui comprar o primeiro número da revista, a 198, de 22 de Outubro, num kiosque de Coimbra, no local onde também funcionava um cinema, junto à estação de comboios.

O kiosque tornou-se, a par da livraria Bertrand da cidade, o meu fornecedor habitual da Rolling Stone. Infelizmente, passados dois números, essa novidade quinzenal deixou também de aparecer, não obstante as minhas interrogações acerca da chegada desejada. O interregno de jejum de leitura da RS, durou longos meses, até que em Julho de 1976, por especial favor de um amigo que se deslocou a Paris, voltei a por os olhos, no número 216, trazido da cidade-luz. Para trás ficaram mais de uma quinzena de números, uma boa parte deles recuperada posteriormente. Depois desse número de Julho de 1976, só em Setembro do mesmo ano voltei a ler a revista, com um artigo sobre Rock e Politics e um outro sobre Stills & Young, nessa altura em duo.

Atendendo às falhas na distribuição da revista, por essa altura chegaram à Bertrand de Coimbra, uma série de números atrasados. De uma só vez, apareceram os números 222, sobre Neil Diamond e um suplemente sobre alta fidelidade; o 223, com uma entrevista a Elton John ( aquela onde revelava pela primeira vez a homosexualidade), e ainda um número todo dedicado às fotos de família de Richard Avedon e ainda um outro( 225) sobre Brian Wilson e os Beach Boys. Perante a oferta custosa, sendo preciso escolher, ficaram duas, a 222 e a 225, ficando para trás a entrevista a Elton e o número sobre Avedon que nunca mais recuperei.
A partir dali, no entanto, durante 16 números, até ao 241 de Junho de 1977, não falhei um só. E só falhei os seguintes 20, até Abril 1978, porque voltou a acontecer o corte no abastecimento regular. Depois disso e até finais do século, tirando um ou outro número, nunca mais deixei de coleccionar a Rolling Stone, até que um dia, farto de comprar e nem sequer ler, abandonei o vício, como quem larga de fumar: de uma vez só e sem remorso.

No entanto, os números antigos que comprei depois para completar a colecção valem pela qualidade gráfica, mesmo em papel de jornal e pela reminiscência do tempo passado e maravilhoso da descoberta de quase tudo, na música e nas artes e até na literatura. O único número que ainda não consegui coleccionar, é um de 26 de Janeiro de 1978 que trazia uma capa com uma foto de Bob Dylan e no miolo uma entrevista com Jonathan Cott, o intelectual da revista. O número, mítico, foi meses depois imitado pela Rock & Folk, com um desenho de capa de Jean Solé e um artigo acerca dos concertos do cantor, em Santa Monica, da autoria de Philippe Garnier, grande repórter da revista destacado na California, numa altura em que Bob Dylan pouco mais tinha a dizer musicalmente. Não obstante, foi exactamente por essa altura que renasceu o interesse em voltar a ouvir velhos discos de Dylan, como Blonde on Blonde, um dos seus melhores álbuns.


Cada número da Rolling Stone, exposto em escaparate, atingia-me com um fascínio inefável e que ainda hoje não consigo explicar. O logótipo da revista, desenhado logo para o primeiro número pelo americano Rick Griffin, autor de posters e capas de discos de inúmeros artistas, na cena musical sul californiana, na altura do flower power psicadélico, é simplesmente genial, na evocação. Para mim, é o melhor título alguma vez desenhado para uma revista, de todas as que conheço. Nenhuma das que lembro ter visto em escaparate, provocava o fascínio da descoberta como a Rolling Stone então o fazia.

A ficha técnica da revista, dessa altura, dá gosto ler. Como colaboradores, apareciam nomes como David Fricke, Dave Marsh, Greil Marcus ( o autor de Mistery Train, um dos melhores livros escritos, sobre a música rock), David Felton, Jon Landau, Pete Hamil, Jonathan Cott( o entrevistador intelectual) e Cameron Crowe ( que anos mais tarde fará um filme- Quase Famosos- sobre os grupos musicais do sul da California, reflectindo a própria vivência pessoal como repórter da revista).

Para além dos colaboradores, alguns escritores por lá passaram, com destaque para Tom Wolfe ( Bonfire of the Vanities que foi publicado em primeira mão na revista) e ainda Hunter Thomson, o escritor inventor do jornalismo novo, de tipo esgazeado, sobre as campanhas eleitorais americanas e certos eventos de massas.

No capitulo da ilustração, a RS congregou sempre, na melhor tradição americana, as novidades do momento. As ilustrações a aerógrafo de início dos anos setenta, apareceram na capa da revista , logo em Março de 1972 ( nº 104, numa capa dedicada a Bob Dylan) e em Fevereiro de 1973, a capa da revista apareceu pela primeira vez em quadricromia, com Bette Midler e a seguir, Robert Mitchum, ilustrado numa aerografia, técnica usada várias vezes ao longo dos meses seguintes, com destaque para o ilustrador Robert Grossman.

Não obstante a atenção dada a desenhadores como Greg Scott, Milton Glaser, Garry Trudeau, Daniel Maffia, Andy Wharol, Gottfried Helnwein, Elwood Smith e outros, como o permanente Ralph Steadman, o melhor da revista, graficamente, transmite-se nas fotos.

A revista logrou uma das melhores fotógrafas de sempre, chamada Annie Leibowitz que assinou a capa de 22 de Janeiro de 1981, dias depois da morte de John Lennon e que foi considerada na América, há pouco tempo, a melhor capa de sempre, todas as revistas incluídas, mesmo a New Yorker, a Atlantic, a Saturday Evening Post, a Look, a Life, a Playboy e outras Time.

Antes dessa capa memorável tinha assinado outras, como em 26 de Janeiro 1978, sobre Bob Dylan ( e que serviu inegavelmente de inspiração directa, para a capa da Rock & Folk de Julho do mesmo ano, assinada pelo desenhador Jean Solé) e ainda muitas outras de gosto seguro e apelativo.

A Rolling Stone, representa talvez a revista que mais influência teve no meu gosto estético sobre o modo como se escreve, ilustra, desenha, fotografa, compõe e arranjam as páginas para apresentar um artigo sobre um assunto qualquer, inclusive sobre música. E qualquer assunto merecia a atenção da Rolling Stone nos anos 70. Desde a política, de um ponto de vista liberal, de esquerda americana, até aos temas de fait-divers e aos religiosos.

Em 28 Dezembro de 1978, tratava o assunto do Sudário de Turim, de um modo que nunca mais esqueci e me levou a procurar conhecer mais sobre o caso.
Os artigos de Dave Marsh, na secção American Grandstand, firmaram standards de qualidade crítica.
Os artigos de P.J. O´Rourke ( hoje a escrever na Atlantic), foram sempre uma novidade literária ligeira e de grande qualidade e gozo certo na leitura.
As reportagens sobre acontecimentos mundiais, locais ou intelectuais, fizeram sempre da revista, uma referência para colecção.
Hoje, guardo os principais números das décadas de setenta, oitenta e noventa, como relíquias de algo desaparecido: o jornalismo inovador, no conteúdo como no grafismo.

Em Fevereiro de 1976, descobri no mesmo sítio ( a Bertrand de Coimbra), outra revista americana do mesmo género. A Crawdaddy, a primeira revista sobre música rock, fundada em 1966 por Paul Williams, passou também a ser objecto de colecção, a partir dessa altura e a seguir se dará conta disso.

quarta-feira, 11 de julho de 2007

A história revisitada da descoberta dos sons agradáveis ao ouvido

O ano de 1972, pode ser considerado charneira na tomada de consciência do valor musical do rock elaborado e até progressivo que então ouvia essencialmente pelo rádio, em programas como a Página 1, apresentado então por José Manuel Nunes, salvo o erro.

Às sonoridades festivaleiras e de pendor mais pop, seguiram-se outros sons de intensidade mais frequente, ouvidos no rádio. Cat Stevens, com Wild World, era um hit saído em finais de 1970 e que perdurou até agora. No Carnaval de 1971, até tentei a cantiguinha enquanto manejava as baquetas de uma bateria Yamaha. Para acompanhar a letra, escrevi-a num pequeno papel que colei num dos tontons do kit…

Contudo, o grande grupo da época desses anos, eram os Creedence Clearwater Revival. Proud Mary e Have you ever seen the rain, foram hits que nunca mais se esqueceram.

Até que chegaram os elementos a solo dos Crosby Stills Nash & Young. Em 1972, Stephen Stills publicou Manassas e a música popular, para mim, nunca mais foi a mesma, porque a descoberta da sonoridade acústica misturada com o som híbrido da pedal steel guitar, fez uma combinação de habituação sonora, com efeitos permanentes e duradouros.

Para consolidar a obsessão, Graham Nash juntou-se a David Crosby e ambos lançaram um Lp em 1972 que começava com uma harmónica a arrastar o som de Southbound train, uma das canções de sempre do meu compêndio particular de música popular.

Mais uma vez, a sonoridade fica a dever tudo à harmónica e à guitarra em pedal steel ( tocada, tal como em Déjà vu, por Jerry Garcia dos Grateful Dead) e ainda, claro, à melodia cantada em harmonia vocal pelos dois músicos. O disco, dos primeiros que me lembro de reparar nos escaparates das discotecas com vontade de ter, ( um outro foi Let it Be dos Beatles, em edição de luxo, com caixa de encarte)andou perdido desde esse época, até finais dos anos noventa, quando foi reeditado por ocasião dos 50 anos da etiqueta Atlantic, em 1998.

Com o Lp Harvest, de Neil Young, a revolução interior avançou e chegou a Chicago de Graham Nash, volteando novamente à sonoridade colectiva de Déjà Vu, anterior e pouco escutado. Manassas de Stephen Stills tinha Colorado e What to do, que a Página Um passava incessantemente. Como passava logo a seguir, Convention do mesmo Elton John, e Pare, escute e olhe, de José Jorge Letria ou Fearless dos Pink Floyd ou ainda Pedro Só de Manuel Freire. Era esse, o cardápio musical dos fins de tarde no rádio da época.

E ainda faltavam as cerejas no bolo: primeiro A horse with no name, dos America e depois, acima de todos, American Pie, de Don McLean, saído nesse ano, resumia em poucos minutos, a história codificada da música rock dos primórdios e Vincent, dedicado a Van Gogh, iluminava de cor sonora os dias nostálgicos.

Mas esses pequenos bonbons musicais, eram apenas os aperitivos para dois dos melhores discos de música country rock que apareceram até hoje: Manassas e Harvest, complementados pela música em single do álbum de Nash e Crosby, Southbound Train, uma música fetiche e do meu gosto particular.

O Lp de Neil Young, aparecido nesse mesmo ano, confirmou a tendência mantida ao longo dos anos: se há música preferida para audição prolongada, é o country rock e uma dúzia de Lp´s que contam, quase todos da primeira metade dos setenta.

Ainda não conhecia os Byrds, na plenitude inovadora de Sweetheart of Rodeo, saído em tempo de descoberta restrita, lá nos confins de 1968.Ainda nem conhecia Gram Parsons, Roger McGuinn ou Chris Hillman, menos ainda os Dillards ou Doc Watson, mas o som de Manassas deve-lhes quase tudo e com um intervalo inovador de cinco anos.

Logo nesse ano de 1972, apareceram os Eagles. Embora sem manifesto discográfico, audível em Portugal, a divulgação dos primeiros discos, apesar disso, não passaria a metade da década, ajudada pelo disco mais vendido da história da música popular: Greatest Hits dos Eagles, saído em 1976, e que já terá vendido quase trinta milhões de cópias.

O locutor-apresentador Jaime Fernandes,na Rádio Comercial, encarregar-se-ia de passar no rádio, o som de Desperado, até que em finais de 1976, estourou Hotel California e o som do FM nunca mais se ouviu de igual modo. A New Kid in town, in fact. Junto com os Eagles, apareceram outros: Jackson Browne, Leo Kottke, Hoyt Axton, até mesmo Don Williams e Linda Rondstadt.

Na transição para os anos seguintes a 72, apareceram dois discos ouvidos em discoteca seleccionada e em alta fidelidade: Grand Hotel dos Procol Harum e Seventh Sojourn, dos Moody Blues.

Em 1973, saiu outro LP esquecido e que só merece a audição de uma suite sonora: California saga, dos Beach Boys, em Holland, foi ouvido algumas vezes na rádio e nunca mais foi esquecido durante as décadas que se seguiram. Música de cabeceira e de country rock, com harmonias vocais, de sempre e para sempre. Ainda por cima, sobre a ecologia. Entre esse tema dos Beach Boys e os temas de Dark Side of the moon, dos Pink Floyd, saído nesse mesmo ano, a diferença reside na melodia que ficou em memória residente. Como ficou Angie, dos Rolling Stones.

Mas… falta um dos grandes: Bob Dylan. Em 1973, Bob Dylan publicava um disco de banda sonora, Pat Garret & Billy the Kid, sem história para além do título tema. Porém, foi esse tema que fez retomar um interesse difuso na música de Bob Dylan, já escutada em temas clássicos, com dimensão mitificada, mas ainda sem obsessão pela novidade. Em 1971, Dylan participara num evento no Madison Square Garden, promovido por George Harrison, o Concerto para o Bangladesh, onde tocou uma versão espantosa de Just Like a woman, para além de outros clássicos. Além dessa publicação, foi ainda em 1971 que saiu um single, desgarrado de álbum, intitulado George Jackson e que retomava a antiga canção de protesto à esquerda e contra o sistema de justiça americano.

No entanto, é com a banda sonora daquele filme que me lembro de ter reparado pela primeira vez numa revista, francesa, dedicada à música popular: Rock & Folk, cuja capa de Setembro de 1973, trazia uma imagem de Dylan no filme. A imagem da capa é de antologia e durante décadas, povoou a minha imaginação musical dedicada a Dylan. Ouvir Knocking on heaven´s door, é ver essa capa e a sonoridade ligeiramente country, ligava muito bem com a dos Crosby Stills, Nash & Young, cujo tema de luxo – Teach your children- voltava a ouvir esporadicamente e conduzia a memória para uma sonoridade típica de uma guitarra escorregadia e de som ondulante. No início de 1974, saiu o disco de Graham Nash, Wild tales, cuja audição, a par com outro Lp da mesma altura – Somedays you eat the beer and somedays the beer eats you, do inglês Ian Matthews- reconduziram o gosto musical para o country rock e a música acústica ritmada.

Toda essa música de referência, nesse tempo, continha o instrumento que acima de todos, concitava a minha atenção. Não o sabia ainda na altura, mas esse tipo de guitarra que se toca sentado e com ajuda de uma dedeira metálica, utilizando os pés, para estender o som de modo ondulante, marcou toda a música norte americana de raiz country. A pedal steel guitar, tocada em Teach your children, é de Jerry Garcia, uma primícia deste músico dos Grateful Dead. A pedal steel de Ian Matthews, em Keep on sailing…é de B.J. Coles. A de Manassas, de Stephen Stills, pertence por direito próprio, a Al Perkins e a dos Eagles, também por direito próprio, é da responsabilidade de Bernie Leadon. Falta ainda alguns dos maiores tocadores de pedal steel: Sneaky Pete Kleinow que tocou com os Byrds, Gram Parsons e os Flying Burrito Brothers e ainda os Eagles. E Pete Drake, um veterano que tocou o instrumenro em Rose Garden de Lynn Anderson ( que me conquistou a atenção em 1970) e ainda Lay Lady Lay de Bob Dylan, no LP Nashville Skyline, de 1969 ( e que me conquistou a atenção depois).

O ano de 1974 revelou-se assim como o ano da descoberta de todos esses discos fundamentais que tinham saído e principalmente abriu caminho para gostar dos que viriam a sair durante a década, no género. 1974 é, por isso, o ano de todas as músicas, incluindo a do 25 de Abril.

Bob Dylan, inicou nesse ano uma grande tournée pelos USA ( quase 20 milhões de bilhetes vendidos) , acompanhado pelos The Band e que em meados do ano originou um grande disco ao vivo, Before The Flood, ouvido logo no rádio, na Página Um. O disco é um dos que reconcilia qualquer amador de música popular com as canções de Bob Dylan. A força de interpretação e a personalidade dos músicos de, emprestam uma sonoridade única ao duplo LP.

Além disso, era o LP de Dylan que merecia ser ouvido, depois de vários anos sem produção importante. O disco do ano anterior, Planet Waves, nem sequer foi ouvido. A ideia que restava de Dylan, em 1974, era ainda a de 1971, do concerto do Bangla Desh e do single George Jackson.

Before the Flood foi por isso, uma descoberta do Dylan antigo, de Highway 61 revisited e Blonde on blonde e nunca antes ouvido. Começa logo pelo primeiro tema, com o órgão ondulante de Garth Hudson dos The Band, em Most Likely you go your way e estende-se por quatro faces de vinilo preto, até acabar em Blowin in the wind, com 22 canções para trás. Depois deste disco fiquei preparado para a obra prima do ano seguinte: Blood on the tracks.

O mesmo sucedeu com os Crosby Stills Nash & Young que no Outono estiveram em Wembley a tocar ao vivo, juntamente com os…The Band.

E foi novamente numa capa da revista Rock & Folk que tal acontecimento despertou a atenção. Em Novembro de 1974 comecei a comprar a revista, por causa desse concerto e reportagem alargada sobre os CSN&Y, ilustrada com fotos de Jean Pierre Leloir.

E assim começou, para mim, a aventura de Rock & Folk. Como o número anterior, com a capa consagrada a Jerry Garcia, ainda se encontrava à venda ( por 47$50), foi esse o número seguinte e pelos anos fora, até meados da década de oitenta, foi essa revista a guia principal do gosto musical do pop e do rock.

Nessa mesma época, já existia outra imprensa dedicada ao fenómeno da música popular. A seguir se dará conta disso, começando pela Rolling Stone, seguindo pela Crawdaddy e outros New Musical Express e até a Pop alemã.

terça-feira, 10 de julho de 2007

A descoberta da música popular em revista

Esta imagem é da revista francesa Rock & Folk, de Novembro de 1974, a primeira que comprei e por causa desta reportagem de um concerto em Wembley, dos Crosby, Stills, Nash & Young.
A história da descoberta da música do grupo esta contada por aqui, na Portadaloja.

A capa da revista, é esta :


quinta-feira, 14 de junho de 2007

Azul metal


O primeiro anúncio da revista Métal Hurlant, foi publicado na pág. 12 da revista Rock & Folk de Fevereiro 1975, com a capa dedicada aos Led Zeppelin e a atenção interior ao disco Physical Graffiti, publicado pela Atlantic ou pela...Swan Song.


A revista Métal Hurlant, saida em Janeiro de 1975, com tiragem inicial de 50 000 exemplares, da inspiração directa de Jean-Pierre Dionnet e então com periodicidade trimestral, não chegava então a Portugal, tal como outras, aliás.


Assim, só no início do Verão de 1976, através de um amigo que fora a Paris e lá a comprou, logrei folhear pela primeira vez, a revista, já no nº 7, com uma capa fantástica de Etienne Robial, o grande autor do aspecto gráfico da revista. Letras grandes, quase em tipo helvética e barras a traço grosso, verticais, horizontais e mesmo em diagonal, no pequeno raio estilizado. O grafismo da Métal Hurlant é simplesmente extraordinário, nessa época. A revista, impressa em Itália, tinha um cheiro característico no papel que aliás, ainda conserva, passados mais de trinta anos. No interior desse número, os primeiros desenhos de The Long Hello, de Moebius e que prefiguravam o futuro Incal e outros Major Fatal ( nesse número continuava já a história fraccionada de Le Garage Hermetique), para além de inspirar directamente o filme The Blade Runner e o 6º Elemento.
A revista, dedicada primordialmente a temas de ficção científica, com histórias desenhadas por alguns dos maiores autores da bd francesa ( Moebius, Druillet, Denis Sire, Serge Clerc e o malogrado Yves Chaland) publicara as seis capas em anúncio na Rock & Folk, a preto e branco. A curiosidade em vê-las a cores e ao vivo, só alguns anos foi satisfeita. Acabei por assinar a revista nos anos oitenta e comprar depois a colecção quase completa ( faltam os 3 primeiros números).


A imagem da capa do primeiro número é fantástica em vários sentidos: no tema e na composição.
Recentemente, através de um volume intitulado Métal Hurlant, La machine à rever, publicado em França, em 2006, e dedicado a uma história ilustrada da revista que acabou em 1987, descobri que essa primeira capa desenhada por Moebius, teve uma inspiração directa, numa imagem de um quadro de Maxfield Parrish.
Aqui ficam as duas imagens, para comparação e meditação.


segunda-feira, 21 de maio de 2007

Os desenhos primitivos


A primeira vez que li uma aventura de Tintin, foi na versão portuguesa da revista belga Tintin, mais precisamente no número 39 de 19.2.1972. A historieta ia já adiantada e chamava-se Tintin na América, sendo a versão redesenhada em 1946, da original, publicada em 1931.
O ano de 1946, foi também o do aparecimento da revista Tintin, a original, belga.
Em Portugal, as aventuras de Tintin eram já conhecidas desde 1936, precisamente com a historieta As aventuras de Tim-Tim na América do Norte, versão de 1931, publicada na revistinha O Papagaio, em 1936 e 1937, por iniciativa de Adolfo Simões Muller. Este autor e divulgador emérito, tomou conhecimento com a obra de Hergé, autor de Tintin, por intermédio de um padre português, Abel Varzim, estudante de Lovaina, na Bélgica e que conheceu pesssoalmente Hergé, aliás.Georges Remi, nascido em 22 de Maio de 1907.
Hergé, se vivo fosse, faria agora 100 anos.

Antes de ler a primeira aventura no Tintin português de 1972, já tinha conhecido, em 1970-71, uns cromos avulsos, relativos à história Tintin e o Templo do Sol e que serviram como inspiração para os primeiros desenhos que copiei e me deram o gosto da cópia desenhada.
Os desenhos são os que ficam acima.

terça-feira, 15 de maio de 2007

O segundo é triplo



A música dos Nitty Gritty Dirt Band, um grupo americano que passou nos setenta como um cometa pelo country rock, começou por ser apresentada nos programas de rádio de Jaime Fernandes, no Rádio Comercial de meados dos anos setenta.
Em 1976, foi publicado nos USA uma colecânea em LP triplo, intitulada Dirt Silver and Gold.
Até essa altura tinham já saído todos os LP´s mais relvantes da banda que misturava o country com o rock, num estilo que outros anteriormente tinham já ensinado, como os Byrds e os Flying Burrito Brothers.
O que diferenciava os NGDB de outros artistas de country rock, era a maior diversidade e variedade nos temas e respectivo uso dos instrumentos.
No ano de 1975, o LP Symphonion Dream, tinha já servido de mostruário da perfeição técnica do grupo e os temas desse disco são encadeados por pequenas frases e apontamentos musicais que ajudam a passar de um estilo para outro, com a facilidade de um álbum conceptual. O disco, provavelmente, será o melhor do grupo para o meu gosto.
Assim, em 1976, a recolha em triplo LP, de temas dos cinco discos passados, serviu para uma colectânea cujo recheio acertava em cheio no gosto musical da época e por isso o disco é daqueles que é referência imprescindível na minha discoteca particular.
A utilização intensiva de instrumentos acústicos, com predomínio das guitarras secas, de som cristalino em corda de bronze, é um prazer inaudito, inúmeras vezes repetido.
A música dos NGDB atingiu pela primeira vez a atenção, com o tema Mr. Bojangles e a harmónica a dar o tom à voz do cão, cujo leve uivar, em imitação da voz do dono, surge imediatamente antes da entrada dedilhada da guitarra, numa mistura de gravações única na música popular. A canção de Jerry Jeff Walker ganha consistência nova, tal como a de Boudleaux Bryant, All i have to do is dream, no álbum Symphonion Dream, aliás ambas incluídas na colectânea. O tema de Boudleaux Bryant, tem sido interpretado por vários cantores e instrumentistas, ao longo dos tempos, com destaque para os Everly Brothers e Doc Watson, num disco ao vivo de 1979, Live and Kickin´ e ainda Leo Kottke, em 1981, no disco Guitar Music. De todas as versões, a dos NGDB, é a que prefiro, seguida de muito perto pela de Doc Watson.
All i have to do is dream pelos Nitty Gritty Dirt Band, começa com o som da guitarra acústica a que se junta depois o do banjo e da harmónica, antes de os restantes instrumentos acordarem todos com a voz que só entra aos 20 segundos de instrumental maravilhoso, com secção rítmica e guitarra eléctrica, sem nunca deixar o banjo ou a harmónica esmorecerem na mistura do som final. Uma versão perfeita. A de Doc Watson parte com a singeleza das guitarras acústicas a solo, o baixo e a voz em tandem de Doc e do filho Merle. Um pouco menos que perfeita, mas com execução técnica superior.
No triplo LP também se inclui Doc´s Guitar, uma pequena amostra do estilo picking de Doc Watson e o tema Cosmic Cowboy, da autoria de Michael Murphy, um outro epítome deste tipo de música que trata as guitarras acústicas com o som melodioso e fugidio das guitarras de pedal, metalizadas e que atravessam todos os discos de verdadeira música country, com predomínio ainda no country rock.

domingo, 13 de maio de 2007

Over-nite Sensation

O primeiro disco de referência, daqueles que colecciono sempre que sai uma versão melhorada, vem com a oportunidade de escrever sobre uma novidade em dvd.
A editora Eagle Rock Entertainment, que tem produzido algumas obras em dvd musical, numa série intitulada classic álbuns, recupera de catálogos antigos, discos importantes da música popular de expressão anglo-saxónica. Publicou em Abril de 2007, o seu mais recente dvd musical: Apostrophe ( ‘) Over-nite sensation, de Frank Zappa.

O dvd apresenta os dois discos de Zappa, datados de 1974 e 1973, respectivamente, com imagens de alguns temas, tocados em concerto de época, comentados por músicos e familiares.
As imagens dos concertos, apanham alguns temas como Montana, tocado em 1973 e I´m the Slime, tocado em 1976 ( ambos de Over-nite sensation), para além de pequenos excertos de outros temas e a mostra de técnicas de estúdio, apresentadas pelo filho de Zappa, Dweezil, e uma incursão nos célebres arquivos, os “vaults”, de onde têm saído pequenas preciosidades sonoras, após a morte de Frank Zappa, em 1993, com 53 anos.
Zappa é com certeza, o compositor mais interessante de toda a música popular americana. Além da prolixidade das suas obras em disco que ultrapassam a meia centena de originais, os géneros musicais que se podem ouvir, passam todas as variedades de estilo, com destaque para o rock e o jazz, misturados em vocalizações e solos de guitarra sem paralelo no rock.
O disco LP, Over-nite sensation, saído em finais de 1973, foi publicado em Portugal na altura e passava frequentemente no rádio, nos programas nocturno da rádio Comercial, nos meses seguintes.
O disco, é um daqueles que se ouve com toda a facilidade de um clássico da música popular.
O primeiro tema a rolar, é Camarillo Brillo, uma paródia dos hippies, já em desuso, na altura e com uma toada de guitarra que faz lembrar os acordes básicos de Sultans of Swing, dos Dire Straits, uma meia dúzia de anos depois.
A Camarillo Brillo, segue-se I´m the Slime, cujo tema escrito é recorrente na obra de Zappa: a televisão cretinizante. A música compassada e em ritmo que hoje se diria hip-hop, começa com um solo de guitarra, corrido no baixo do braço, a que se junta pouco depois, o trombone e a trompete e os teclados de George Duke, para solidificar a secção rítmica, interceptada logo pelo solo final de guitarra wah-wah.
O tema terceiro, Dirty Love, explora novamente os campos escorregadios do sexo escrito para canções pop e presta-se a mais uma exploração do virtuosismo guitarrístico de Zappa e da sonoridade sottovoce, alcançada por método electrónico, em contraponto aos coros das Ikettes de Tina Turner.
No trecho Fifty-fifty, a voz de Ricky Lancelotti e o violino de Jean Luc Ponty, são as estrelas principais, antes da introdução jazzística de Zomby Woof, uma paródia ao esquisito, com voz de Tina Turner em evidência e teclados de George Duke, num exemplo das variações musicais zappianas.
O rolamento do início do disco, regressa com Dinah-Moe Humm, mais uma paródia de expressão sexual, com rap e ritmo sustentado e música demorada, num dos temas mais fortes do disco.
O último tema, Montana, reúne em si, a essência do disco, com relevo para a participação da vibrafonista Ruth Underwood e o solo de guitarra, longo e em estilo repetido em muitos discos de Zappa, intercala com vocalizações originais, cortadas abuptamente pela intervenção dos metais. A secção rítmica mantém ao longo do tema, o sustento de baixo e bateria que acompanha os restantes instrumentos de sopro e percussão, tornando difícil escrever e traduzir por letras, a sonoridade típica de Zappa, feita de pequenos trechos musicados e ritmados no interior das próprias composições, numa colagem de referências que se repetem de álbum para álbum, numa muito glosada continuidade conceptual.
Ao longo destes mais de trinta anos que ouço Overnite Sensation de Frank Zappa, primeiro no rádio e depois em disco, nunca deixei de pareciar todas as composições do disco.Dá até a impressão que a cada audição, a atenção a este ou aquele pormenor, permite descobrir pequenas sonoridades misturadas no seio do tema principal e pequenas variações de entoação, ritmo ou solo. O dvd recém saído, aliás, só o vem confirmar.

domingo, 29 de abril de 2007

Os sons da Página Um

Imagem do estúdio da Rádio Renascença, em Abril de 1975, por ocasião da greve que aí começou e se estendeu por várias semanas. A imagem é retirada da revista Flama de 7.3.1975, que contém duas páginas sobre o assunto e a opinião de João Alferes Gonçalves.

Com o advento da revolução em 25 de Abril de 1974, um dos sectores que sofreu um abalo de réplica, foi o do ensino. No ano de 1974, quem acabava o então 7º ano do liceu, hoje 11º. não conseguiu prosseguir para as universidades, porque estas tiveram um ano sabático, por efeito da Revolução. De repente e de um ano para o outro, a população estudantil, passou para...o dobro e 27 mil estudantes a quererem entrar para o ensino superior público, causava um engarrafamento monumental que a Revolução não sabia lidar, tendo sido suspensas as matrículas, no final do Verão. Durante esse ano, de vida estudantil nula, o que podia fazer um jovem, enquanto aguardava a matrícula que só viria no ano seguinte? Entre muitas coisas, ouvir música era uma delas.
No capítulo musical, no Portugal de Abril de 74, o meio mais comum e usual de divulgação do que então se produzia em disco, era o rádio em frequência modulada.
Os programas disponíveis, deve dizer-se, eram vários e de muito boa qualidade. A música que então se produzia, seguia a par. Qualquer pessoa atenta, facilmente ouviria por cá o que por lá por fora se produzia, na música popular, ainda que com um intervalo de tempo, às vezes medido em meses, muitas vezes encurtados pelos voluntários que enviavam, “lá de fora”, os discos que por cá ainda não havia. Os correspondentes da BBC, parece que também ajudavam, como era o caso de António Cartaxo, hoje a apresentar música erudita na Antena 2.
Programas como O Espaço 3P (que englobava a Boa Noite em FM, a Banda Sonora e a Perspectiva ) , o Em Órbita 2 e o programa Dois Pontos, no Rádio Clube, eram apresentados por connoisseurs entusiastas. João David Nunes, Fernando Balsinha, Jaime Fernandes e outros, passavam muitas vezes álbuns, LP´s , integralmente, sem interrupção sequer para publicidade, nos seus programas que convidavam a acoplar ao rádio, o gravador de cassetes que então começavam a difundir-se maciçamente.
Álbuns antigos e recentes, passavam as ondas com a facilidade com que viriam lá de fora, da Inglaterra ou dos Estados Unidos, trazidos por carolas amigos dos locutores que muitas vezes os convidavam para apresentarem as raridades ou novidades.
Por mais do que uma vez, foi possível ouvir os Grateful Dead, Leo Kottke, Doc Watson ou Frank Zappa, trazidos por um João Filipe Barbosa ou outro curioso amador que generosamente apresentava a obra prima que ainda não tinha sido ouvida neste lado do Atlântico.
Claro que era sempre possível sintonizar em onda curta o programa da BBC, Top Gear, de John Peel e apanhar numa qualidade sonora menos do que sofrível, os últimos acordes da batida do reggae de Bob Marley que em 1974 ainda eram desconhecidos por cá, a não ser através da interpretação de Eric Clapton em I Shot the sheriff. Quem diz Bob Marley, pode dizer os alemães Can ou o inglês Roy Harper, por cá amplamente divulgado por Jaime Fernandes e João David Nunes, no Dois Pontos.
As novidades apresentadas à noitinha, no Top Gear de John Peel, eram mesmo isso, porque se apresentavam na terra onde eram produzidas.
Por cá, a prática editorial da Rádio Triunfo ou da Valentim de Carvalho demorava meses a produzir sons agradáveis ao ouvido de quem já os conhecia, pela leitura de jornais e revistas de especialidade, como os ingleses New Musical Express e Melody maker, a francesinha Rock & Folk e a americaníssima Rolling Stone.
Além disso, o resultado sonoro, graficamente transcrito em Portugal, saía geralmente um pouco apagado, mesmo nas capas mais desmaiadas e de cartão mais fraco do que o americano de várias camadas e cheiro específico.
O vinil original, importado geralmente de Inglaterra, era mais caro e aparecia mais tarde -quando aparecia. A visita a certos locais de culto, tornava-se obrigatória, para descobrir as peças de colecção. Em Braga, a Sonolar, mostrava discos, trazidos pela Valentim de Carvalho e apresentava nos escaparates, uma edição rara do último disco que os Beatles produziram, Let it Be, com um livreto de explicações das sessões de gravação, com imagens a cor, em fundo preto, inserido numa espécie de caixa em cartão que hoje vale muito mais, em leilões na ebay.
Assim, o rádio era o meio ideal de tomar a novidade dos sons do momento e foi assim que ouvi as melhores bandas do rock progressivo inglês, como os Gentle Giant, os King Crimpson e os Van Der Graaf Generator, nos programas nocturnos de Fernando Balsinha.
De igual modo, a audição atenta e repetida de Apostrophe e Overnite sensation de Frank Zappa ou os Tangerine Dream e outro rock alemão, fixaram preferências para sempre.
O folk-rock inglês também se apresentava com o cuidado dos Fairport Convention e dos Renaissance ou Steeleye Span e a música country americana, tinha honras de primazia, no programa Dois Pontos de Jaime Fernandes, onde se ouviam verdadeiras raridades nos tempos de hoje. Descobri os Nitty Gritty Dirt Band, os Eagles, os Flying Burrito Brothers e todo o country rock que conta, nos programas Dois Pontos e estas audições intensivas, ocorreram em toda a metade dos anos setenta, com entrada ainda nos oitenta.

Porém, o que iniciou toda esta modalidade de audição seguida de gravação ( ainda guardo em cassetes da Basf gravações dessa época, de um mono esplendoroso, mas de dinâmica apagada) foi o programa da Rádio Renascença, Página Um.
O programa que ouvi, no início dos setenta, ainda era apresentado por José Manuel Nunes que foi para a Deutsche Welle, antes do 25 de Abril de 74, segundo julgo.
Em substituição da voz timbrada, mas um pouco nasalada, apareceu outra voz que se identificava como Luís Filipe Martins. O mesmo que agora, apresenta o blog LPM e que durante o ano sabático de 74/75, apresentou o programa por vezes interrompido com greves prolongadas ( De meados de Fevereiro de 1975 até 5 de Abril do mesmo ano, por exemplo) e por ocasião dos desenvolvimentos dramáticos do PREC que foram vários, aliás.
O primeiro programa que guardo vivamente na memória, apresentou Maria Maudaur e um disco desconhecido por cá que trazia Midnight at the oásis, um hit de 1974. O Lp, trazia outras missangas de luxo da música country rock ligeira e apoiado num naipe de músicos de encher os ouvidos de maravilhas sonoras. O solo de guitarra do single, tocado por Amos Garrett, fixava os ouvidos atentos durante dias, quando a música se repetia, o que era timbre do programa e ajudava a formar gosto musical.

Na emissão de 31 de Dezembro de 1974, o programa, à semelhança dos demais, nesse tempo, ocupou a hora e meia disponível, na retrospectiva da música passada durante o ano, com a locução muito sóbria e sustentada, de Luís Filipe Martins ( durante o mês de Agosto, seria Artur Albarran, que me provocava um efeito de estranheza que demorou a habituar).
O alinhamento desse dia, foi o seguinte:
Logo a seguir à introdução batucada do Pop Five, feita apenas de bateria e baixo ( que agora descobri por revelação do apresentador, ser diferente do original que se pode ouvir em disco), imediatamente antes do “Hey” que precede a entrada dos metais, o anúncio do programa- Página Um!- não esperava mais nada e introduzia a música dos Sparks, Amateur Hour, do álbum Kimono my house. Este disco ainda hoje é um dos meus favoritos da música popular, com lugar cativo nos dez mais interessantes de sempre.
Em seguida e com aviso sonoro de que se tratava de um super grupo rotulado como tal por ter elementos dos Free e King Crimpson, entrava Bad Company, para se ouvir The way that i choose, um tema lento do primeiro LP , com a menção à circunstância de ter sido divulgado no programa juntamente com os Sparks, os Cockney Rebel e os Brownville Station ( ou seja alguns expoentes do que se convenciou chamar glam-rock, com David Bowie à cabeça).
Em seguida e sem aviso, a música de Victor Jara, Levantate e mira la montaña e ainda Chunguito Guerrillero ( a música progressista chilena era um must, no programa e por lá passaram nesses meses de brasa política, outros como Claudina e Alberto Gambino e ainda outros nomes da chamada música de intervenção, como Carachu, Soledade Barvo, Quillapaiun, Mercedes Soza e Los Cañas. As editoras deste tipo de música tinham nomes domo Expression Spontanée e Les Chants du monde. Em 1975, no auge do PREC, passavam na Página Um, grupos como Groupement Culturelle Renault, com apelos explícitos às lutas dos trabalhadores daquela fábrica de automóveis francesa e ainda Dominique Grange, uma cantora com temas como “ À bas l´état policier e Nous sommes les nouveaux partisans”, tudo canções “que ficaram de Maio de 1968”. Os espanhóis também se encontravam representados por Juan Manuel Serrat, por exemplo. Na música popular portuguesa, era presença constante, e então bem-vinda, a música do Grupo de Acção Cultural Vozes na Luta, com temas como Alerta; Em vermelho, em multidão; A cantiga é uma arma, etc ).
Depois do espanhol dos chilenos, um instrumental de música celta, de Alain Stivell. Os instrumentais na Página Um, eram uma pequena maravilha de inventividade na escolha. Lembro-me de um do Eumir Deodato ,brasileiro radicado nos EUA e um Santana com o título Promise of a fisherman que ainda ouço do modo como então ouvi, como lembro os do Som Imaginário, também brasileiros e do álbum A matança do porco. Em todos os programas, a meia dúzia de músicas cantadas, seguia-se o instrumental da praxe, sempre muito bem escolhido e que definia um estilo de programa que nunca mais ouvi.
Logo depois, a retoma do disco de Bob Dylan, Planet Waves da etiqueta Asylum ( uma constante do programa era a indicação concreta da etiqueta de gravação original que nessa altura eram muitas e variadas, ao contrário de hoje, poucas e concentradas) que se anunciou como divulgado juntamente com o de Joni Mitchell ( na altura, Court And Spark que contém Help me). Lembro a referência constante à Atlantic, como etiqueta, e a apresentação de um disco colectânea de temas dessa editora, chamado The Age of Atlantic.
A seguir à menção da voz feminina de Joni, surge a de Sandy Denny, num tema estrondoso que nunca mais ouvi do mesmo modo que ouvia na Página Um: Solo, do LP Like an old Fashioned Waltz, da etiqueta Island. A melhor versão que se aproxima desse som original que ficou gravado para sempre, ainda é a última gravação remasterizada do cd, de 2005, mas ainda assim, fico sempre com dúvidas se será melhor do que o som monofónico do meu velho Grundig Melody, que aliás já não se fabrica, mas ainda funciona. A menção obrigatória à divulgação juntamente com Maggie Bell, serve para introduzir mais um estrondo sonoro de alta voltagem impressiva: Rory Gallagher, e o tema Tatto Lady, tirado de um disco ao vivo no festival de Reading ( ainda não consegui esse disco, e de Rory Gallagher tenho quase tudo, incluindo o LP que a Página Um passou depois, Irish Tour´74 e que me impressionou de tal modo que ainda ouço os acordes da Stratocaster eléctrica e da Martin acústica reproduzidos no rádio, sempre que me ouço As the crow flies baby…
A seguir a um Gallagher altamente energético e bluesy, um coutry-rocker estilo inglês, radicado nos EUA: Graham Nash e um tema de um disco fabuloso: Prison Song do LP Wild Tales. O Lp é outro dos que marcam a década, juntamente com os produzidos pelos CSN&Y grupo de que aliás, fazia parte.
A seguir à harmónica de Nash, a voz em português do Brasil, de Maria Betânia e o anúncio da apresentação, durante o ano, de Drama, Terceiro acto, que engata no francês bem pronunciado de Maxime Le Forestier e o tema nostálgico Si tu était née en Mai. O cantor francês, actualmente um completo desconhecido por cá, foi com Serge Reggiani e Georges Moustaki, para não falar em Leo Ferré e Jacques Brel, belga, a voz da língua francesa nas canções do rádio. Hoje, há Carla Bruni e mais ninguém. O tempo de Françoise Hardy já vai longe e já passou, mas as suas canções de sussurro permanecem uma beleza oculta, tanta como a que então a cantora apresentava como pessoa.
E vem depois uma sessão de música portuguesa, de intervenção. Primeiro, Mário Viegas a dizer poemas de um ep. Depois, Sérgio Godinho e um dos seus melhores discos, À queima-roupa e em seguida, José Afonso no Coro dos Tribunais.
Para fechar a cota de música portuguesa sempre presente no programa, e com importância acrescida, o locutor refere que “em Outubro a Página Um assistiu aos ensaios de um grupo português que se viria a tornar a revelação do ano: a Banda do Casaco. Passa o tema Lavados, lavados sim, uma pequena maravilha que me deu a conhecer a grande maravilha da música do grupo, ainda hoje, talvez o melhor de sempre da música popular portuguesa. A Página Um, nos meses a seguir, passou constantemente temas do LP de António Pinho e Nuno Rodrigues.
Para uma mudança completa de ritmo e sentido, o som reggae de Ken Boothe e GTMoore, com Knocking on Heavens Door. O reggae, nessa altura, era uma absoluta novidade em Portugal e até na Europa e só um par de anos mais tarde, com o advento do Punk se começou a dar mais atenção ao estilo jamaicano de tocar. Só no final do ano seguinte, com o espantoso LP ao vido de Bob Marley, At the Lyceum, se começou a ouvir reggae com alguma frequência modulada, em Portugal.
Para seguir, tocou então Gary Chesterton, um australiano que cantava I get a kick out of you como mais ninguém o fez: de orquestra de violino de bolso, numa toada swingante que vale bem a versão de Sinatra. É um disco perdido, mas conservo a gravação, feita anos mais tarde, também da rádio, neste caso espanhola. O Lp, esse, continua a figurar na lista dos mais procurados.
Cat Stevens que nesse ano tinha lançado Budda and the chocolate box, foi então convocado e em seguida outro solo-singer ( expressão várias vezes ouvida no programa), Clifford T. Ward, um cantor que estivera pouco tempo antes em Lisboa, a cantar Jane e cujos álbuns, valem alguns de Cat Stevens, o que não é dizer pouco. Foi na Página Um que ouvi, fixei e ganhei vontade de coleccionar depois, a música do cantor inglês, já desaparecido.
Para findar o programa, Leo Sayer, leve, mas novidade fresca da época, com One man band.

Esta retrospectiva de 1974, permite perceber algumas coisas que faltam na rádio actual:
Canções de qualidade, mistura de géneros, sobriedade na apresentação e total respeito pelo ouvinte e ainda competência e conhecimento do apresentador. O estilo do programa, simples, era de uma eficácia, a meu ver espantosa. O mistério da apresentação da música gravada, nessa época, desconhecida e apresentada como novidade a reter, mantinha-se com o elevado interesse que a própria produção musical da época assegurava.
Durante o ano seguinte, 1975, a Página Um, apresentou alguns dos melhores discos de sempre da música popular de várias expressões, então produzida.
Lembro e destaco, no panorama internacional, o LP dos Led Zeppelin, Physical Grafitti, cuja audição, hoje em dia, da batida forte de Kashmir ou a melodia de In the light, parece-me que nem soam tão a preceito como então as ouvia. O disco passava dia sim, dia sim, com temas variados e fixou o ritmo do programa nos primeiros meses de 1975.
Lembro também a primeira vez que foi apresentado o LP Blood on the tracks, que anotei ter sido em 18 de Fevereiro de 75, com o tema Idiot Wind, um dos que menos gosto, mas seguido de Lily Rosemary and the jack of hearts que ainda hoje evoca o programa, para mim. Lembro Joe Cocker e I can´t stand a little rain, para ouvir Put out the light. Lembro a passagem da banda Sonora de Tommy e os Barclay James Harvest que embora sendo os Moody Blues dos pobrezinhos, encantavam-me com Everyone is everybody else e mais tarde, Titles. O disco ao vivo deste grupo, de constitui uma das referências do programa. De Bob Dylan, passou entretanto, no ano de 75 o LP Before the Flood, com um efeito impressionante na minha visão de Bob Dylan que aguentou até aos dias de hoje, pois o cantor não voltou a fazer melhor música do que nesse ano.
O primeiro single dos Queen, sheer heart attack, não me impressionava tanto como por exemplo, os Sparks de Propaganda, com Thanks but no thanks e principalmente os Roxy Music com Prairie Rose, do LP Country Life. Ainda hoje, o som que procuro nesse disco é a memória desse tempo da Página Um. Como acontece com o tema a solo Somoke gets in your eyes , de Brian Ferry.
Os Supertramp não me impressionaram com a voz de falsete de Crime of the Century, porque preferia ouvir Sloth, dos Fairport Convention, ao vivo.
Em 14 de Fevereiro, João Filipe Barbosa foi ao programa apresentar vários temas de discos dos Génesis que viriam a Portugal nos dias 6 e 7 de Março seguinte. Estes concertos de grupos que nunca por cá apareciam, eram motivo de grandes conversas e passagens de músicas, na rádio desse tempo.
Algumas músicas que então ouvi, continuam por ouvir em cd ou mesmo LP. É o caso de Stage door´s Johnny de Claire Hamill. Mas Michael Murphy e o LP Nobody´s gonna tell me how to play my music, canta por cá em prensagem americana, como deve ser e numa sonoridade muito próxima da memória auditiva.
Ao lembrar-me de Maxime Le Forestier a cantar, Mourir pour une nuit, julgo que nenhuma outra música se aproxima, em intensidade, da minha intimidade, como essa. E foi na Página Um que a ouvi a primeira vez.
Há poucos meses, em Barcelona descobri Jonathan Edwards, um americano que durante estes anos todos me perseguiu a atenção para arranjar a versão que tinha ouvido no programa, em 1975. Quando li, nas notas de contracapa, que o disco Lucky Day, tinha Let the good times roll, de 1974, era ao vivo e fora gravado com a companhia do grupo Orphan, percebi que tinha encontrado uma pepita sonora que julgava perdida para sempre. Tal ainda vai suceder com o LP de Johnny Nash, Celebrate Life, um dia destes, espero. Como espero ouvir os Splinter de Costafine Town. Ou os Snafu de Situation Normal. Ou ainda a colectânea original e esgotadíssima que se chamava The age of Atlantic, com temas dos Yes dos primórdios ou dos Beach Boys, por exemplo, e que nunca se ouvirão da mesma maneira se não for nesse mesmo disco.
A música portuguesa dos cantores de intervenção, também foi principalmente na Página Um que a ouvi como deve ser. Fausto, Pró que der e vier; Luís Cília, José Mário Branco do Soldadinho e até Sérgio Godinho dos dois primeiros LP´s e dos seguintes, foram alguns dos autores cuja audição encontrei no programa e nunca mais deixei de ouvir.

A programa de rádio Página Um dos setenta, apresenta-se para mim, do mesmo modo que a canção de Milton Nascimento, Saudade dos Aviões. Nela, Milton canta que “cerveja que tomo hoje é apenas em memória dos tempos da Pan Air”, e eu canto que uma boa parte da música popular que ouço hoje, é apenas em memória dos tempos da Página Um de outros programas que ma apresentaram em primeiro lugar e toda a gente percebe a beleza que existe nos amores primeiros. De tal modo que no disco Temporada de Verão, de Caetano e Gilberto Gil, ao vivo na Bahia, se cantava no Verão de 74 que “o sonho acabou” e “ felicidade foi embora”.
É isto a nostalgia? Talvez. A nostalgia da qualidade que não se recuperou, em trinta anos, porque os produtores aparentemente perderam a receita.
Ouvi recentemente um disco de Neil Young, gravado em 1971, no auditório Massey Hall no Canadá. O disco é totalmente acústico e tocado numa simplicidade desarmante dos acordes que raramente chegam à meia dúzia, numa viola Martin e por vezes num piano.
O disco deveria ter saído depois de After the gold Rush, um monumento da música popular americana, e antes do disco Harvest, de 1972. A opção de Neil Young, fê-lo republicar o disco apenas agora. A sua audição recupera a beleza da voz de Young e a simplicidade maravilhosa da sua música acústica, mas perde algo substancial que havia nesse tempo: a novidade da descoberta sonora, tornada complexa pelo tempo que se vivia, de juventude e de descoberta de outras realidades, na a vida como ela pode ser vivida.
Será esse o segredo do templo perdido da sabedoria? A ingenuidade e a inocência, trazem-nos felicidade ou preparam-nos apenas para a verdadeira noção do que significa viver?
A experiência musical, seja ela a induzida pelos sons da música popular ou da música mais erudita, sublime e inatingível, ajuda a partilhar momentos de felicidade espiritual e funciona como mecanismo indutor de bem estar, em quem se preparou para tal. Mais do que isso, será pedir ou esperar demais.

Estúdios da Rádio Renascença, com elementos das Forças Armadas, em Abril de 1975, para manter a segurança. Imagem da mesma Flama.

PS. Este postal é uma resposta ao blogger Luís Paixão Martins o apresentador da Página Um, em 1974-75, no período aqui mencionado e que amavelmente manifestou sua vontade em conhecer o "José" do blog Grande Loja do Queijo Limiano. Um dia destes, pode ser.

Aditamento em 1.5.2007, às 22:10:

Luís Paixão Martins, em modo de resposta às perguntas que coloquei no seu blog, e que muito agradeço, esclarece algo interessante para quem sempre quis perceber como funcionava o programa Página Um, que apresentou em 1974-75. Em comentário, explica:

Coisas de que ainda me lembro: 1. Na altura,as rádios privadas tinham os seus horários alugados por vários produtores independentes. O Página 1 pertencia a Homero Cardoso que desempenhava funções comerciais na Revista Flama e veio a ter um papel preponderante na editora Assírio e Alvim. 2. Durante a maior parte do período em que o programa foi emitido o seu realizador e apresentador foi José Manuel Nunes, que veio a ser presidente da RDP nos anos 80/90. 3. O Adelino Gomes foi, também durante alguns anos, o responsável pelas reportagens do programa. 4. Da equipa, como locutores e realizadores, fizeram ainda parte o Fernando de Sousa (hoje na SIC em Bruxelas) e o Artur Albarran (que trabalhou na RTP e TVI), em períodos relativamente curtos (férias e coisas assim). 5. O primeiro realizador do programa, embora por pouco tempo, não foi, no entanto, nenhum destes. Salvo erro ou Jorge Schitzer ou Cândido Mota. 6. José Videira assegurou a operação técnica do programa durante muitos anos e, antes dele, salvo erro o Moreno Pinto. 7. Os discos chegavam em 1ª mão ao Página 1 essencialmente devido à colaboração de Fernando Tenente, um entusiasta musical que vivia no Porto e trabalhava na Marconi. Além disso, como o programa era muito popular (não havia TV e a Rádio de final de tarde era muito ouvida), as editoras discográficas privilegiavam o programa. 8. Não havia “play-lists”. A selecção musical dependia do gosto e do critério dos locutores/realizadores. Sempre houve (eu, antes de trabalhar no programa, fui seu ouvinte) uma mistura de géneros. Muita música de expressão anglo-saxónica e uma selecção de temas rotularíamos hoje de “world music”. Além disso, a música portuguesa de qualidade estava sempre muito presente. Foi o Página 1 quem lançou, por exemplo, Sérgio Godinho, José Mário Branco, Fausto...9. Existe uma razão para tudo isto, mesmo antes do 25 de Abril. Ao contrário das outras emissoras, na Rádio Renascença (por pertencer à Igreja Católica) não havia censura oficial. Podíamos, por isso, trabalhar com muito mais liberdade que os nossos colegas das outras estações. 10. Foram os Pop Five que entregaram a “versão” indicativo do “Page One” da forma como era tocada na Rádio. O registo comercial tem a etiqueta Orfeu. Lpm PS: O 1º LP que tive emm quadrifonia tinha o Mockingbird.

É claro que estas lembranças, suscitam novos comentários que me ocorrem.

Lembro-me de em 1975, logo após o 11 de Março e das nacionalizações, em pleno PREC, alguém no programa questionar vivamente a problemática dos "produtores independentes", como se fora algo de esquisito e a eliminar, no novo país em construção. Lembro-me ainda da intervenção de Fernando Tenente como colaborador e do nome de José Videira, mencionado no programa. Lembro-me de ouvir as intervenções de Adelino Gomes, durante o dia 11 de Março, e de o ver numa reportagem inesquecível e que poucas vezes se viu na RTP.

Lembro ainda de ouvir Sérgio Godinho nos seus primeiros LP´s e principalmente Fausto. Lembro de ouvir Luís Cília "contra a ideia de violência, a violência da ideia", disco perdido da nossa MPP.

Fico a saber a razão da publicidade do programa, nas páginas da Flama, o que sempre me intrigou, porque não a encontrava noutro lado: o produtor do programa era também responsável pelo sector comercial da revista. A revista pertencia à União Gráfica, mas aí trabalhavam os futuros jornalistas do futuro O Jornal, por exemplo.

Assim, fica aqui encerrado ( temporariamente) um capítulo sobre o rádio que ouvia, enquanto jovem adolescente. O meu muito obrigado a Luís Filipe Paixão Martins.

A seguir, os discos de referência, de sempre e em estilos variados.

segunda-feira, 5 de março de 2007

Alta Fidelidade- o disco compacto

Quando a Sony apresentou ao público comprador, o seu primeiro leitor de cd´s, o CDP-101, no início de 1983, várias revistas de alta fidelidade, testaram as suas capacidades inovadoras, apresentadas como uma revolução na tecnologia da reprodução sonora.


Uma dessas revistas, a americana High Fidelity, em Janeiro de 1983, reuniu uma naipe de críticos de música da revista, para audição atenta dos primeiros cd´s aparecidos no mercado, comparando-os com a respectiva versão em LP.
No caso, ouviram, em comparação a/b, os discos de Billy Joel, 52nd Street; Bridge Over troubled water, de Simon & Garfunkel e One on One de Earl Klugh e Bob James. Os discos transpunham para gravação digital, pistas gravadas analogicamente.

Os resultados, ficaram escritos nas imagens que seguem.






As capas da Rolling Stone

Esta é a capa original da revista Rolling Stone, de onde foi retirada a imagem da publicidade ao LP Gaucho, dos Steely Dan. Esta capa, com scanner da original( o scanner A4 não abrange toda a área da capa em formato mais largo), foi a vencedora do lote de 40 capas que em 2005 ganhou a competição sobre as melhores capas de revista dos últimos 40 anos. Fotografada por Annie Leibowitz, autora de muitas fotografias da revista, nos anos oitenta.
Podem ver-se por aqui, as restantes 40 capas e pode ver-se também a diferença de cor entre a imagem acima e a colocada no site em referência, com tonalidade mais escura. Esta última imagem foi retirada, quase de certeza do livro de recolha de imagens das capas da Rolling Stone, publicado em 1998, pela Rolling Stone Press. Aliás, a imagem apresenta as mesmas deficiências de cor, da original, como se nota nos pormenores descoloridos, idênticos aos da imagem publicada no referido livro.

Não obstante a qualidade das escolhas, outras seriam possíveis. Por exemplo, só neste quadro, há várias e do mesmo ano - 1974:

Outras capas, de outras revistas se lhes poderiam juntar. Outras virão, então.

domingo, 4 de março de 2007

Steely Dan - Gaucho em SACD

(...)

Ora bem…o engate do bar acaba em casa, apesar da vontade da visada, convencida a ouvir a nova musiquinha do disco recente e que lembra a música do bar de tal modo que ela nem repara muito bem na mudança de ambiente.
A música afasta-se, vazia e inútil, enquanto se aperta o joelhinho da cúmplice, cada vez mais perto, e com a orelhinha lentamente, lentamente, cada vez mais próxima da mordidela, quando…
“Acabou!” Diz ela, a contemplar o copo cheio, onde marina um cubo de gelo prisioneiro, e com um recuo, admirado…Ah, sim! O disco! Rápido, voo para o prato cromado, e um saxofone de gritos lança o tema de “Gaucho”…Os malandros atacam! Ei-la de novo bem desperta, atenta…Mas não, as palavras embalam-na e, em langor, de cabeça apoiada neste ombro, distraída do movimento que lhe descobre as coxas bronzeadas a cantarolar o refrão com o coro, da-du-didididadaaaaa, pensamos então que Steely Dan é um grande grupo e que os seus detractores…P´eraí! Tocaram! A esta hora? Não…quem é que poderá ser? Ah! Ah! Era apenas Donald Fagen a tactear as persussões! Aaaaaaaahh! Quando o órgão manhoso de “My Rival” se lança na luta corpo a corpo com a sonoridade viva e brincalhona da guitarra, retiramos numa toada muito reggae, a minúscula peça de roupa interior que cai até aos tornozelos finos da donzela…e para o fim de “Third World man”, não haverá muito mais a fazer…virar o disco e tocar o mesmo ou tocar o disco e virar ao mesmo, tudo sendo de novo possível! Obrigado, Walter Becker, obrigado Donald Fagen. Álbuns assim, deste classe, e deste calibre utilitário, gostaríamos de ouvir e comprar mais vezes.E quando isto digo, sei que os velhos cotas rezingam. Mas as moças compreendem.

Este excerto da crónica de discos, assinada por Phillipe Manoeuvre, na Rock & Folk, de Janeiro de 1981, segue um estilo de escrita que pouco ou nada tem de musical e resvala nos esteiros de outras leiras. Contudo, foi essa crónica que me ficou na memória, como exemplo do modo original de criticar discos de música popular. No caso, Gaucho, dos Steely Dan
Este disco de Steely Dan, Gaucho, saído no final de 1980, na mesma altura do assassinato de John Lennon, marcou a continuidade do disco anterior Aja, gravado em 1977.
A música dos Steely Dan, começou a interessar-me no final dos setenta, com a audição repetida de Do it again, do LP de 1972, Can´t buy a thrill ou eventualmente Bodhisattva, do Lp seguinte, Countdown to ecstasy, de 1973. As canções, eram temas obrigatórios de recolhas como o Greatest Hits saído em 1978. Como aliás o era o tema Reeling in the years, do mesmo primeiro LP que lembro de passar na rádio em 1979 e lembro como o tema que me relançou o interesse antigo mas presente na música do Dan.
A canção Reeling in the years, um corridinho sobre o tempo que passa sem apelo nem agravo, contém um solo de guitarra que fixa a atenção que quem ouve solos de sempre, de Hendrix, passando por Townshend e Clapton, até chegar a Eddie Van Halen.
Durante uns segundos breves, a guitarra soa e sincopada e nessa altura nem sabia quem a fizera assim soar, mas o nome de Elliot Randall, não tinha eco no coro dos guitarristas conhecidos, apesar de mercenário das sessões de gravação em estúdio.
Foi com o eco desse solo que me despertei para a sonoridade que aparecia logo em 1979, ao ouvir Aja, gravado dois anos antes. O disco de capa preta e fita vermelha e branca, deixa entrever o som de gravação de luxo, digna do rádio FM e foi aí que passei a ouvir os primeiros acordes de piano, vibrafone e baixo ronronante da canção que afinava com sininhos a voz de Donald Fagen a falar em angular banjos, rematada com um solo de sax de Wayne Shorter. Descobri mais tarde que só guitarristas eram sete: Larry Carlton, Walter Becker, Denny Dias, Jay Graydon, Steve Khan, Dean Parks, Lee Ritenour. Ainda mais recentemente, através de um dvd, descobri o modo de gravação e a técnica de perfeccionismo da dupla, com os depoimentos dos músicos.
A repetição sonora desse tipo de experiências, aliado à vontade de ouvir sonoridades bem gravadas, mesmo em rádio FM, levou-me à curiosidade em descobrir o som que se seguiu. Animado pela releitura de um artigo assinado pelo grande Philipe Garnier, quando saiu Gaucho, o LP que me traz a este texto, já estava conquistado para a sonoridade dos Steely Dan. Foi sem surpresa que ouvi o tema do título, puxado logo a saxofone swingante que passava com frequência na rádio da época.
Contudo, o tema fetiche, ouvido repetidas vezes, só meses depois se tornou a gravação preferida: Third World man é o último tema do último disco dos Steely Dan na década de oitenta e foi com alguma ânsia musical que esperei a repetição da sonoridade do tema que trata do pequeno drama do rapaz pequeno burguês urbano, convertido às delícias do delírio romântico da revolução terceiro-mundista. A musicalidade do tema, no entanto, com predominância de teclados cheios de som, intercala pequenos solos de guitarra que sendo da autoria de Larry Carlton, também misturam sonoridades que soube depois, tratar-se da Strato de Mark Knopfler, obrigado a repetir vezes sem conta, em estúdio, pequenos fraseados que passam despercebidos ao ouvido desatento e sem significado no disco, com excepção para Time out of mind.
A musiquita fixou amarras no ouvido e só obteve algum lenitivo quando descobriu uma emulação anterior e publicada no LP de 1978, Greatest Hits. O tema Here at the Western World, composto em meados dos setenta, na altura de Katy Lied, Royal Scam ou mesmo Pretzel Logic (74), só saiu nesse disco, ficando escondido dos ouvidos até aos primeiros anos dos oitenta. Contudo, aparece na minha lista curta de músicas dos Steely Dan que apesar disso comporta ainda mais de uma dúzia.
Na sequência dessas descobertas, acabei por ouvir toda a discografia, com destaque para o LP Pretzel Logic, de 1974, acústico qb e com belíssimas canções que nunca passaram de moda na minha juke box particular. Rikki don´t lose that number, Any major dude will tell you, Barrytown e East st. Louis toodle-oo, com um solo de guitarra de imitação de trompete com surdina ( a composição é de Louis Armstrong e a guitarra procura a imitação perfeita do solo de trompete), Pretzel Logic rodou horas e horas no prato do gira discos, na rodela de prensagem espanhola, tal como os demais, aliás, porque as esdições nacionais há muito se tinham esgotado e o cd só apareceu como novidade, na segunda metade dos oitenta, e em força, verdadeiramente, já nos noventa.
O LP Gaucho foi assim subsistindo na discoteca, em formato sucessivo e em acumulação.
Primeiro no LP da prensagem espanhola, de 1980, da Ariola-Euridisc, sem as letras das canções; depois, o LP na reedição alemã, da Record Service GmbH, já com letras impressas na capa interior.
A seguir, no CD primitivo de 1984, a que se juntou a colectânea de finais de 1993, Citizen Steely Dan, em CD e ainda o CD dourado da Mobile Fidelity. Finalmente, em tempos mais recentes, a verdadeira obra de arte da reprodução sonora que é a prensagem em SACD, do disco original, para audição em multicanal, mas com aproveitamento para o stereo tradicional. A audição desta última versão do disco, recoloca a memória sonora do que deve ser um disco como Gaucho de Steely Dan. Ou Aja, também.
Estes dois discos, produzidos pelo engenheiro de som Roger Nichols , figuraram sempre como referências da arte de gravar sons e foi por isso que sempre actualizei os formatos, até chegar a este último, em SACD ou em DVD-Audio que representam o actual nec plus ultra, da tecnologia.
A experiência em ouvir Gaucho, mesmo em stereo, em SACD, é semelhante à de ouvir novamente Harvest de Neil Young em DVD-Audio ou Hotel California dos Eagles, também em DVD-Audio: é a recuperação da memória sonora original, com a menor perda possível do sinal sonoro óptimo, para ouvidos exigentes, longe do som comprimido do mp3. A comparação de sonoridades, entre o LP original, o cd inicial, mesmo o cd da Mobile Fidelity, dourado e gravado a a partir de masters originais, ficam a dever algo a esta versão em SACD que não cansa ouvir.
A polémica sobre a qualidade sonora dos diversos suportes, comparativa, foi exercício que desde cedo se praticou.
A revista americana High Fidelity, logo que foi anunciado o cd como última maravilha da reprodução sonora, efectuou um teste comparativo, entre o cd e o disco de vinil, utilizando discos de referência. A conclusão a que então chegaram os elementos do "painel", foi aquela que perdura: a sonoridade dos LP´s é mais suave e menos cansativa, na longa duração. O cd tem uma sonoridade mais "dura", projectada e de impacto imediato, mais espectacular, mas ainda assim, com reflexos no espectro sonoro. O som do LP, num gira-discos, com boa aparelhagem associada, ainda supera a sonoridade do cd.
Actualmente, com o advento do DVD-Audio e do SACD, tal asserção não é já evidente.
Comparando os sons de vinil do álbum de Neil Young, Harvest (1972); Hotel California, dos Eagles ( 1976) e este, dos Steely Dan, a conclusão a que se pode chegar é a de que para o LP chegar à sonoridade pacata e precisa do SACD, tem que juntar muitos milhares de euros em componentes esotéricos que passam pelas cabeças de leitura Koetsu, pratos da Linn Sondek, com o respectivo braço e amplificadores com prévios e demais ademanes custosos.
Não obstante, os discos em SACD e os DVD-Audio, não foram acolhidos como a salvação da indústria, numa época em que reina o mp3, subproduto áudio, com implantação segura nas camadas jovens que já nem compra música em disco, mas apenas faz downloads. Em mp3, por suposto e com taxas de compressão elevadas que retiram ao som a maravilha dos transitórios e da suavidade subtil das frequências altas misturadas com as mais baixas em tom audível e naturalmente separado.




Em finais de 1982, Donald Fagen, publicou o disco The Nightfly. A leitura das críticas positivas, ainda acompanhadas da audição dos discos ainda recentes dos Steely Dan, motivaram a compra do disco em LP, outra vez em edição espanhola, da Ariola, muito cuidada graficamente.

A música de The Nightfly, aparece diferente da dos LP´s do Dan, embora tocada por um naipe de músicos de estúdio e de jazz rock que nunca mais foram reunidos em disco pelo músico. Os discos seguintes, Kamakiriad, de 1993 e o último, Morph the Cat, de 2006, conservam um elo comum, no entanto: a alta qualidade da gravação e a sonoridade exemplar. State of the art. Mas...pouco mais.

Ao contrário, o mais recente opus dos Steely Dan, de 2003, intitulado Everything must go, é um portento sonoro, com músicas interessantes. Em DVD-Audio, pode considerar-se uma maravilha da técnica de gravação, ainda da responsabilidade do engenheiro Roger Nichols. A qualidade das composições deixa um pouco a desejar, relativamente aos álbuns Aja e Gaucho, mas ainda assim conserva uma identidade sonora que não existia no cd de 2000, dos S.Dan, Two against nature.

Imagens:

1.Publicidade ao disco, na Rolling Stone nº 335, de 22 Janeiro de 1981 ( a capa que ganhou o título de melhor capa de revista de sempre, nos USA, nos últimos 40 anos).

2. Capa do SACD, de 2003.

3. Capa de The Nightfly, tirada do site de Donald Fagen.

4. Apreciação crítica da gravação do disco, na revista High Fidelity, de Janeiro 1983.

domingo, 11 de fevereiro de 2007

Leituras jurídicas de bolso

No âmbito das temáticas da Justiça e movido pelo interesse em procurar saber mais um pouco sobre intervenções públicas de nomes conceituados e sabedores das matérias em causa, lembrei-me de consultar publicações antigas.
Deparei com grande número de artigos em revista, alguns deles pequenos ensaios e outros, meras transcrições de intervenções públicas da autoria de nomes conhecidos e outros nem tanto.
A prova recolhida, evidencia a importância que sempre se deu a certos temas da Justiça, em certos meios da magistratura, advocacia e mesmo universitários, com grande défice de intervenção destes últimos.
Assim, como exemplo, transcrevem-se aqui os temas e a localização de artigos para quem estiver interessado, mormente jornalistas apressados e que assim podem reflectir antes de escrever e ainda para todos aqueles que ignorando esta área de intervenção cívica, vão formando ideias pelas letras gordas do papel de jornal, engrossando o caudal de quem anda mal informado. Há muitos anos, uma editora de livros de bolso, lembrou-se de um slogan de propaganda do produto livro: “quem não lê, chapéu!”
Leia-se, então:

1. “Gozam os magistrados do direito à greve?”- pequeno artigo de meia dúzia de páginas, muito bem recheadas e documentadas legalmente, da autoria de Francisco Liberal Fernandes, assistente da Faculdade de Direito de Coimbra, na Revista do Ministério Público( RMP), nº 14, de Abril-Junho 1993.
2. “Corrupção: para uma abordagem jurídica e judiciária”, pequeno estudo de 16 páginas, da autoria de José Souto de Moura, na mesma RMP, de que se transcreve uma pequena frase: “ ver e calar parece ser assim a regra de ouro para quem quer ter uma vida relativamente tranquila”.
3. “Sobre o modelo de hierarquia na organização do MºPº”, 20 páginas densas de referências ( citações de Edgar Morin oblige) da autoria de José Narciso Cunha Rodrigues, na RMP nº 62, de Abril- Junho 1995 e de que também se cita uma pequena frase: “Naquela época,[1978] as tendências de opinião oscilavam, quanto à justiça, entre a imersão nas ideologias e a defesa de um espaço de neutralidade sustentado, algumas vezes, por afirmações cegas ou insensíveis ao processo histórico “. Leram bem : “processo histórico”!
4. “Notas sobre o Conselho Superior da Magistratura”, 10 páginas muito interessantes da autoria de Orlando Afonso ( juiz de direito), no mesmo número da RMP. Posso dizer a frase? Aqui vai: “Durante o regime de Salazar/Caetano, ou seja, durante a vigência da Constituição de 1933, o poder judicial era tido como um dos poderes soberanos do Estado; porém, a sua independência era apenas uma independência formal e material dada a inexistência de intervenção directa a nível de decisão. No entanto a magistratura era orgânica e economicamente dependente do poder executivo”. Não há aqui “fascismo”. Há regime de Salazar/Caetano- e muito bem.
5. “Sobre as decisões interpretativas do Tribunal Constitucional”. Mário Brito ( juiz jubilado do STJ e do TC) escreve 18 páginas de referências legais e jurídicas sobre o âmago da intervenção do TC , nas fiscalização das decisões dos tribunais que recusem a aplicação de normas com fundamento em inconstitucionalidade. A frase neste caso, é para resumir o assunto: “A questão- repete-se- está em saber se, considerada inconstitucional na decisão recorrida uma norma, em determinada interpretação, pode o T.C. julgá-la não inconstitucional noutra interpretação e impor essa interpretação ao tribunal recorrido.
6. “Corporativismo, judicialização da política ea “crise da justiça em Portugal” , 16 páginas sociologicamente puras da autoria de Pedro Coutinho Magalhães, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, in RMP, nº79, de Julho-Setembro de 1999. Frase chave: “Os cientistas enfrentam frequentemente um dilema de difícil resolução. A nossa preocupação com a fiabilidade das descrições e explicações que damos da realidade social afasta-nos por vezes de tratar aquilo que nela é incerto e mutável, ou seja, aquilo que é verdadeiramente interessante”. Indeed!
7. “Divisão de poderes e constitucionalismo:, virtudes e dilemas”, na RMP, nº 73, de Janeiro-Março de 1998, José Eduardo Faria, brasileiro, professor de Direito na Universidade de S. Paulo, apresenta-nos em 9 páginas, três dilemas das sociedades contemporâneas. Um deles:”Quanto mais o direito positivo multiplica as suas normas e leis específicas para intervir “tecnicamente” na dinâmica de uma sociedade heterogénea e complexa, menor seria sua coerência interna e soa organicidade; o que revelaria, com o tempo, sua progressiva incacidade de dar conta das tensões e dos conflitos sociais a partir de um conjunto minimamente articulado de “premissas decisórias”.
8. “ Dignidade da Pessoa e processo judicial”, um artigo de 15 paginas da autoria de Souto de Moura, na RMP nº 70 de Abril-Junho de 1997. Uma passagem, saborosa e actualíssima: “ Não há acesso à verdade sem contraditório e não há justiça sem distanciamento emocional. O tribunal da opinião pública, tal como aliás os tribunais populares, são pouco propensos a assegurarem aquelas condições. A isto acresce que, tantas vezes, a liberdade de informar é escrava duma lógica de mercado.”
9. “Tribunais-poder e responsabilidade”, numa dúzia de páginas da RMP nº 80 de Outubro-Desembro de 1999, Laborinho Lúcio, repisa conceitos já escritos e no mesmo estilo que procura demonstrar que a aplicação das leis é mais do que um silogismo ou até mesmo uma tarefa interpretativa balizada e rígida. A frase escolhida: “Assim, entre as linhas estruturantes do sistema actual a manter, cumpre destacar, como princípio, a independência dos tribunais, e como soluções de estratégia, a pluralidade de justiças, a separação das magistraturas , a hierarquia e a autonomia do ministério Público e o auto-governo das magistraturas.”
10. Do mesmo autor e publicado na Revista portuguesa de Ciência Criminal, dirigida por Jorge Figueiredo Dias, nº2 de Abril-Junho 1991, um artigo sobre a mesmíssima temática e intitulado“Subjectividade e motivação no novo processo penal português”. Em 16 páginas
11. “Neutralidade ou pluralismo na aplicação do Direito? Interpretação judicial e insuficiência do formalismo”, artigo de 24 páginas, publicado na RMP nº 65 de Janeiro-Março 1996, da autoria do magistrado espanhol, Perfecto Andrés Ibáñez. O artigo pretende, “reflectir sobre o tipo ou a qualidade da aproximação que o texto da lei permite hoje ao juiz-intérprete.”
12. Para terminar esta pequena resenha, um artigo de 44 páginas pelo Mestre Figueiredo Dias, publicado no nº 1 da sua Revista Portuguesa de Ciência Criminal, de Janeiro-Março 1991. O tema? “Sobre o estado actual da doutrina do crime- 1ª parte, sobre os fundamentos da doutrina e a construção do tipo de ilícito”. Artigo fundamental e que se consigna à atenção de quem se cuida por estas matérias.

Nesta temática, há mais sítios por onde buscar leituras. A Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, publica um Boletim da FDUC, com edições periódicas. A revista, fundada em 1914 e actualmente dirigida por uma comissão redactora composta de algumas das nossas sumidades em direito ( Almeida Costa, Ehrahardt Soares, Castanheira Neves, Lopes Porto e Faria Costa), chega a nichos de mercado e nem sempre de opinião pública. Tal como as outras, aliás. Por exemplo, a revista da Associação de Estudantes da Faculdade de Direito de Lisboa.

Assim, aqui ficam estas singelas referências, para resumir algo que ao longo de mais de dez anos se produziu em tom teórico e sintético, sobre a aplicação do Direito, pelos tribunais e suas problemáticas complexas.
A teorização destes temas e destes assuntos, assenta primordialmente na qualidade de quem escreve. A temática do direito penal, complexa e estudada pelos teóricos, neste campo, estrangeiros, ensina-se em princípios básicos, que se transmitem de ano para ano e década para década, pelos estudiosos e docentes do Direito.
A compexidade do tema, remete para um compreensivo desinteresse, quem depara com apresentações populares de certas ideias desgarradas e é a esse nível que se poderá compreender a observação de Pedro Soares de Albergaria, num comentário no blog GLQL e que se deixa em nota, abaixo. Como aliás se remete anotação para o comentário de Guilherme, à primeira entrada escrita, neste blog.
A inteligência de quem estuda, ensina e transmite estes assuntos, refere-se a um quadro de ensino que , no dizer de Marcelo Caetano, “ na verdade o importante para a formação do homem de Direito não é tornar-se reportório vivo dos diplomas vigentes, mas possuir os quadros científicos, conhecer os princípios dominantes, ter bem presente uma nomenclatura.”

Nota de PSA:
Caro José, também não tenho resposta certa, mas há algo que é facilmente constatável: o alheamento dos doutrinadores das questões que vêm sendo debatidas em matéria penal não será imputável, apenas (e talvez nem sobretudo), a esses doutrinadores. Um dos problemas que nos aflige (e porventura, ainda, em menor medida do que noutras latitudes) é o da progressiva e autónoma intervenção dos decisores políticos e de organizações representativas da sociedade civil (associações representativas de vítimas, de minorias, etc.) nas soluções legislativas em matéria penal, tudo em prejuízo da influência de jurisconsultos e dos estudiosos, dos verdadeiros estudiosos, destas coisas. Os projectos relativos às leis mais importantes já não são encomendados a grandes especialistas, mas a gabinetes ministeriais de boys e, quando se trata de ouvir quem quer que seja, ouve-se, antes que tudo, aquelas organizações. Ninguém quer saber de teóricos e assumiu-se (erradamente) que nem tudo o que é bom na teoria funciona na prática. Daí o modo errático de legiferar, ao sabor da espuma dos dias, daí a “política criminal à flor da pele”. É natural que os académicos, habituados a uma discussão serena e séria sobre tais assuntos se afastem também cada vez mais. Por isso o alheamento de que fala é biunívoco: os políticos não querem saber dos jurisconsultos e estes não querem participar em discussões que alinham, não raro, por um modo muito superficial de abordar os temas.
Muitos já fizeram o diagnóstico da situação. António de Araújo, por exemplo, identifica o alheamento a que o José se refere como um sintoma de um ambiente populista, que invade o sistema de justiça penal, aqui e lá fora (v. “Do Populismo Penal ao Mistério de Carcavelos”, na revista Atlântico, 2, 2006, p. 22 e ss., interessante artigo de opinião que reproduz, em parte, o que já havia opinado em livro – Abuso Sexual Contra Menores – Entre o Direito Penal e a Constituição, 2005, p. 287 e ss.). Estou de acordo.