quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Selecções

Uma das primeiras publicações que li, com o interesse em ler mais, foram as Selecções do Reader´s Digest que então se escrevia Seleções, porque eram redigidas em português do Brasil, pela própria editora que publicava excertos de livros, condensados em poucas páginas e ainda artigos de revistas americanas, como a Life, a Family Weekly, Good Housekeeping, Time, New York Times Magazine, etc etc.
Provavelmente, o primeiro número que comprei, foi em 1969. Com esta capa.

Provavelmente também, foi com esta revista que apanhei a mania das revistas americanas. A exposição ao conteúdo de certos artigos, cativou o interesse em querer saber mais das revistas onde se publicavam originalmente.

Por exemplo, o número de Fevereiro de 1971, de tantas vezes que o li, ainda conserva o perfume desse sentido de primeira experiência com certas sensações.





















Estas duas capas, representam um período longínquo de descobertas, de coisas fantásticas que só mais tarde percebi o verdadeiro significado e que são provavelmente a essência de relacionamentos humanos. Não foram as Seleções que mo ensinaram. Mas mostraram uma primeira via, percorrida depois, como me apercebo agora. As imagens contam, as fantasias ainda mais.





















Também com toda a probabilidade, a incursão num saber diversificado, ligeiro e divertido, atirou-me a atenção para um género de leitura que então comecei a adorar, por causa dos livros em si e por causa dos temas inesgotáveis que abrangiam: os almanaques.
Estes são dois exemplares de época e bem estragados estão pelo manuseio e constantes mudanças de lugar.

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

40 anos de livros

Que livros me impressionaram durante a vida? Que livros mudaram de alguma forma o modo de olhar o mundo e compreender os acontecimentos? Que livros foram importantes durante estes últimos 40 anos, para mim que comecei a lê-los mais ou menos por essa altura?

A resposta não é simples ou linear, embora alguns livros possam indicar-se. Um dos livros mais interessantes que li ultimamente, refere-se aos livros que ninguém lê e diz que lê. Pierre Bayard, refere a história de um personagem de um livro de Musil, ( o Homem sem qualidades) um bibliotecário que nunca lia os livros que recebia e apenas folheava, lendo as badanas e catálogos, fazendo-o precisamente para não se dispersar na floresta de letras de todos os livros e não perder a perspectiva de conjunto.

Muitos livros citados por quem alardeia a sua leitura, não são mesmo lidos mas ainda assim, podem ser citados como tal. Um livro não é só o conteúdo exacto e preciso da sua escrita, mas também o seu contexto, a sua situação e a relação com outros livros e os seus autores. O exemplo de Pierre Bayard, é o Ulisses de James Joyce que poucos leram e muitos citam. O autor confessa que não leu nem precisa de o ler para saber de quem se trata e do que trata, numa visão de conjunto. Umberto Eco também acha que não é preciso pegar num livro para poder falar sobre ele e apresenta como exemplo, um livro perdito, o segundo volume da Poética de Aristóteles que trata o problema do riso e que é um livro proibido e instrumento de morte, nas mãos do seu guardião, o bibliotecário Jorge de Burgos. Apesar de o não ter lido, o monge-detective, sabe de que trata e fala extensamente sobre ele, na obra prima de Umberto Eco, O Nome da Rosa, talvez o romance que mais me afectou em todos os sentidos intelectuais.

Assim, para falar de livros, em princípio não é preciso lê-los, forçosamente e passo a demonstrar em seguida porquê. De resto, há livros que se lêem, livros que se relêem e livros que se folheiam e lendo-se em parte e ainda outros que se lêem por alto, passando páginas. Além disso, o processo de esquecimento, a partir de certa altura da vida, torna-se tão vulgar e frequente que as leituras com mais de vinte anos, ficam por conta da memória recuada e por vezes apagada. Que adianta citar livros que se esqueceram se nem sequer nos influenciaram a memória desse efeito? Ao recordar livros desses, lembramo-nos no contexto em que os lemos, mas não conseguimos sequer abranger toda a matéria e assunto que tratavam.

Assim, a resenha que segue, serve-se da memória e dos seus auxiliares que são os próprios livros e referência aos mesmos.

No princípio, os livros que não li, foram os originais com as histórias de Esopo e La Fontaine, mas que eram oralmente contadas, em repetição e pela tradição. Com onze anos, já tinha sido exposto a histórias de Grimm, de Perrault, de mitologia greco-latina, através de filmes na tv, de historietas de banda desenhada e de livros propriamente ditos, de aventuras e de histórias.

Com a visita mensal da biblioteca Gulbenkian, passei a frequentar autores de aventuras e o primeiro deles todos, era um com o herói que dava pelo nome estranho de Pequenu, de quem já não lembrava o autor mas a Internet me ajudou a situar como Dick Laan. Por ser tão pequeno que uma formiga se lhe assemelhava, o efeito da imaginação redutora, foi tão grande que passados anos, o filme Querida, encolhi os miúdos, remetia-me para essas historietas mal contadas mas ilustradas em papel grosso e capa dura de papelão infantil.

Salgari? As aventuras de piratas nos mares das Caraíbas podem contar para este acervo? Talvez. Como contam as histórias de Walter Scott e principalmente Ivanhoe, cuja leitura me conduziu a procurar os outros todos da literatura cavaleiresca medieval, com aventuras de guerra entre senhores feudais e reis longínquos, protegidos por robins dos bosques. As histórias de guerra e de cóbois, das revistinhas em quadradinhos da Agência Portuguesa de Revistas, tinham mais interesse que a Eneida ou a Odisseia, contadas por Adolfo Simões Muller e que também passaram no crivo do interesse.

Uma das mais importantes influências sofridas, para sempre, e sem o contar, foi o contacto primitivo com o latim escolástico. A primeira frase latina que li, foi “Lusitania et Hispania sunt vicinae” E depois: "Avara est formica, et prodiga cicada", com a acentuação fonética devidamente assinalada. Torna-se por isso, óbvio que um dos livros que mais me influenciou nesse tempo e para sempre, foi a Selecta Latina, numa edição de jesuítas e de compêndio de textos literários, curtos, de autores clássicos da cultura romana. A primeira imagem da Selecta é uma ilustração a preto e branco do Fórum romano, em ruínas que só visitei muitos anos mais tarde e que me pareceu fantástico.

Os textos desta Selecta contemplam obras de Cícero ( O Sonho de Cipião), C.J. César( Comentários sobre a guerra gaulesa), Públio Ovídio Nasão ( Metamorfoses). Pode ser lugar-comum que já poucos citam, mas o livro que me impressionou aos 11 anos foi a…Bíblia, particularmente o Antigo Testamento, em versão ilustrada e reduzida, com as histórias todas do Antigo Testamento. Essas histórias, para quem as não ouviu, impressionam de modo definitivo, porque lidam com o transcendente e fantástico real, para quem acredita em Deus.

Para além do Antigo Testamento, um dos melhores livros de histórias que se pode ler, também figura numa das páginas dessa Selecta, um nome- Dostoievski, escrito a vermelho de esferográfica, com um título – O Jogador. O livro é um dos escolhidos, sem dúvida, porque é mesmo um clássico, mas só foi lido depois dessa referência que vinha aí por causa do lançamente, nessa altura, dos livros de bolso da RTP ( em 1971).

Esta colecção permitiu o contacto primeiro com alguns clássicos não lidos e nunca lidos e alguns percebidos. Camões, por exemplo, tinha o poema épico e tinha os sonetos. O poema era a seca da análise morfológico-sintáctica, mas a compreensão do enredo, marcava qualquer um que a ele fosse exposto. A história trágico-marítima e a epopeia dos descobrimentos portugueses, inspirada nos clássicos greco-latinos, é uma das referências de sempre de todos os que por lá passaram. Como não?

Talvez por isso, para regressar à terra bem firme, o Escutismo para Rapazes de Baden Powell, seja um dos livros perdidos e que ensinavam a fazer camas de palhas secas, nas tendas de campanha e a fazer lume com fricção primitiva, ensinando a despistar inimigos em trilhos improváveis.

As histórias de guerra, eram as mais interessantes nessa altura e por isso um dos livros importantes é um livro pequenino de Lutz Koch, uma biografia de Rommel e a História da Segunda Guerra Mundial de André Latreille, da editorial Aster.

Em seguida, por força de coincidências, o Despertar do Mágicos, de Louis Pawels e Jacques Bergier, foi um dos livros lidos e relidos por causa do realismo fantástico de certas passagens.

Pouco depois, em plena adolescência, o interesse em romances de grande fôlego atingiu o paroxismo com a leitura do Monte dos Vendavais de Emily Bronte e a história de amor que é de suster os sentimentos. Mais histórias de amor, há em muitos romances, mas essa é a primeira de todas. A seguir a essa, vieram O Vermelho e o Negro de Stendhal, David Copperfield de Dickens, Alexandre Dumas, Vinte anos depois; Balzac, Flaubert de Madame Bovary e Dostoiewski de Crime e Castigo; os livros de George Simenon e do seu Maigret até chegar ao nirvana de Conan Doyle e todas as aventuras de Sherlock Holmes e ao supra-sumo de Edgar Allan Poe e todas as suas histórias fantásticas, passando por quase todos os romances de Eça, Camilo, Aquilino, Júlio Dinis e Trindade Coelho. A experiência de Camilo é avassaladora por causa das palavras e construção de frases; a de Eça, por causa dos enredos, da ironia e das personagens escolhidas. Aquilino por causa das histórias recentes e do uso especioso da língua e Trindade Coelho das passadas em Coimbra.

Todas essas leituras me prepararam para o romance da minha vida de 40 anos de leitura: O Nome da Rosa, de Umberto Eco, sobre o qual poderia escrever páginas e páginas, porque a obra assim o permite.

É verdade que falhei Goethe que não li, a não ser como o bibliotecário de Musil. Idem para Shakespeare, ou Tolstoi de Guerra e Paz; nem li Céline ou Baudelaire ou mesmo Verlaine, mas ouvi a música com poemas dos ditos e li os contos de Techekov e li Somerset Maughan e principalmente Sinclair Lewis de Babbit e ainda os livros de Tom Sawyer, de Mark Twain . Camus, não me interessou depois de folhear. Sartre idem. Faulkner não fui ainda capaz. Gide nem pensar. Não li Bukowski mas folheei e cheirava a vinho que se fartava. Nem li Burroughs pelos mesmos motivos. Nem li Jorge Amado, mas vi as telenovelas. Herman Hesse escapou-me sempre, mas da próxima oportunidade, não me escapa a leitura de The Glass Bead Game. Kundera? No, sir. Lampedusa, um dia destes, porque já não desprezo Moravia. Philip Dick já experimentei e vou continuar com The Three Stigmata of palmer eldrich. Cervantes é de certeza interessante, mas como conheço a história não me abalanço às centenas de páginas que estão sempre à espera. Tal como a Montanha Mágica que aguarda por melhores dias. Kafka li, mas não apreciei muito.Hemingway, gostei muito de O Velho e o Mar e acho que li Moby Dick, por falar em mar. Proust, só de ver o tempo que perderia, nem quero ler, para não ter de recuperá-lo. Gosto de Borges, do conceito dos livros de Borges e de alguns contos fantásticos.

Assim, ataquei no devido tempo , os autores de historietas policiais e de suspense terrorista dos autores ingleses e americanos que melhor escrevem: Frederick Forsyth; Grisham, Michael Crichton e principalmente John Le Carré de quem devorei toda a trilogia Tinker Soldier Spy que é das referências máximas desta literatura.

Passado o abalo do Nome da Rosa, em meados dos anos oitenta, levei com outra experiência forte, literária, com A Fogueira das Vaidades de Tom Wolfe e de quem alguns dizem que não é autor de literatura. Mas é. Contemporânea e eficaz.

É com este que fico e o elenco é assim:

  1. Clássicos vários dos gregos e dos latinos e respectiva mitologia inesgotável.
  2. Antigo Testamento.
  3. Walter Scott. Ivanhoe
  4. Dostoiewski. O Jogador.
  5. O Monte dos Vendavais, Emily Bronte.
  6. O Despertar dos Mágicos, de Louis Pauwells e Jacques Bergier
  7. O cão dos Baskervilles, de Conan Doyle
  8. A Capital de Eça de Queirós.
  9. Trilogia Tinker, Tailor, Soldier, Spy, de John Le Carré.
  10. O Nome da Rosa, de Umberto Eco

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Mad National Lampoon

A revista americana National Lampoon, satírica e mordaz, numa vertente equilibrada de modo a poder vender ao grande público, aparecida em 1970 pelo génio de Doug Kenney, já falecido, atingiu o máximo da sua circulação em 1974. Mais de um milhão de exemplares.
Em Junho de 1974, por qualquer motivo imponderável, comprei o exemplar, o que voltei a fazer no mês seguinte e ainda depois, mais uma meia dúzia de números até 1976, com a The latest Issue.
A principal atracção da revista, residia no ecletismo temático e gráfico, na publicidade a discos e numa secção especial dedicada aos comics, com papel pardo e monocromático que suportava Gahan Wilson e Vaughn Bode, por exemplo.





















Esta sequência, de duas páginas, é das melhores que se pode ver.





















Esta, por seu turno, em função das cores vívidas da publicidade ao disco Blues for Allah, dos Grateful Dead, contrastando com a capa anterior em papel pardacento e monocromático, é das melhores, de todas as revistas que conheço.























Uma outra revista humorístico saída na América e que serviu de inspiração humorística a muito desenhador europeu ( incluindo Jean Giraud), foi a MAD que congrevava a sátira em desenho e o humor em cápsulas de actualidade, num modo marxista, vertente groucho e parodiava políticos, artistas e actores. Em Dezembro de 1973 a capa e contracapa eram estas:


quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Os desvios


O ano de 1974, foi importante para a banda desenhada de expressão francesa. Se alguém me pergunta onde estava no 25 de Abril, a resposta é óbvia: a ler banda desenhada francesa, a desenhar, a ler revistas de música, actualidade e de diversa proveniência e a ouvir música. E assim passei todo o PREC, com incursões em reuniões de discussão cívica contra o comunismo e o poder popular de extrema- esquerda que se aprestava para tomar conta de Portugal. Revivendo essa época, custa-me sempre aceitar que houvesse gente com formação cultural já suficiente para perceber onde levaria a aventura comunista se trilhada até às consequências já conhecidas noutros países e ainda assim, assumissem o carácter científico da evolução social como uma invevitabilidade que nos conduziria à "sociedade sem classes". Muitas discussões públicas e em grupo de amigos, nada adiantaram, porque o poder de influência da propaganda de todos os media da época tinha um efeito letal na consciencialização política. Ainda hoje se sentem e sofrem as consequências de tal estado de coisas, generalizado nos anos setenta.

Nessa altura, andava obcecado positivamente com a descoberta do desenho de Giraud, em Blueberry, mas já se adivinhava nas pequenas ilustrações aqui e ali que algo de novo estava para aparecer.

Tal anúncio, aliás, é melhor explicado pelo próprio Jean Giraud, num livro autobiográfico, de 1999 ( Editions 1) , L´Histoire de mon double. Aí, Giraud, conta que a companhia de autores de bd como Tardi, Jean Pierre Cristin e Mézières ( que desenhou os primeiros táxis voadores que serviram de inspiração a Luc Besson para os filmes dos anos noventa) e ainda Nikita Mandryka, Gottlib e Druillet e a experiência dos comics underground americanos ( Crumb e Corben), através da Mad e dos traços de William Elder, o levaram para outras paragens da imaginação criadora, afastadas do imobilismo da revista Pilote e do seu director René Goscinny que continuava a aposta nas historietas para adolescentes.

As discussões que ocorriam semanalmente nas reuniões da Pilote, motivaram, logo no início da década de setenta, a saída para outras experiências gráficas de diversos autores da Pilote e fatalmente conduziram Giraud ao “Desvio” e aqueloutros a revistas como a L´Écho des Savannes.

O Desvio, é aliás, o título de uma pequena história em meia dúzia de páginas, na Pilote de 11.1.1973, com a família do autor e que relata uma viagem iniciática, em fim-de-semana.

É o próprio Giraud quem reconhece que foi esse o ponto de partida para o desvio real operado na sua obra e ainda assinou Gir, por timidez.












Na França de então, havia ainda uma outra revista que explorava os arredores da imaginação anárquica: Actuel, dirigida por Bizot e que se reportava directamente a revistas americanas, como a National Lampoon e os comics underground de Robert Crumb e alguns outros ( Gilbert Shelton) e franceses como Masse. Na imagem à esquerda, em baixo, aparece como colaborador da revista um certo Bernard Kouchner...












Não obstante, em Março de 1974, Giraud ainda desenha um poster para o primeiro número da revista Lucky Luke, dirigida por René Goscinny. O tema é John Wayne e o desenho é copiado de uma foto de Rio Bravo. Segundo Giraud, Goscinny gostou e no segundo número, o caldo entornou-se porque o desenho glosava o filme My Darling Clementine e Henry Fonda ficava atrás do personagem de segundo plano ( que também fazia de coxo em Rio Bravo). Goscinny não gostou, porque o tema saía do mainstream e apelava já ao desconcerto e ao desvio.

A Métal Hurlant surgiu neste caldo de cultura e as duas imagens que seguem são simbólicas dessas duas facetas da banda desenhada da época, a oscilar entre a adolescência e o mundo dos adultos que a retardam.






















As imagens são todas de arquivo, excepto a imagem da Actuel de Março de 1974, tirada da Rede.

terça-feira, 28 de agosto de 2007

A génese

Em 31 Janeiro de 1974, Gir, ainda na revista Pilote, ilustrou uma recensão a um livro de um escritor de ficção científica e autor de Ubik- Philip K.Dick, e o livro era Clans of the Alphane moon, dos anos sessenta. O artigo vinha assinado por Jean-Pierre Dionnet.
No número seguinte da revista, já como Moebius, desenhou uma historieta sem texto, com dez páginas e que intitulou L´homme est-il bon?




















Umas semanas mais tarde, na mesma revista, o autor Phillipe Druillet publicava mais um episódio da série desenhada, de heroic-fantasy, Yragaël. E Moebius, embora assinando Gir, reincidia na ilustração sobre as maravilhas do universo, de um número todo ele dedicado à ficção científica.




















Com esses três nomes, Dionnet, Druillet e Moebius, nascia, meses mais tarde, no final desse ano, de 1974, um outro projecto, da revista mais fantástica de banda desenhada que me foi dado conhecer: a Métal Hurlant cujo primeiro número apareceu em Janeiro de 1975.

Gir e Moebius

A história de Moebius, tem desenvolvimento diverso. Primeiro Gir; antes disso, Jean Giraud, começou também na revista Pilote, com as histórias de Blueberry, publicadas a seu tempo, na revista Tintin, portuguesa.

Na revista Pilote de 5.4.1973, vista em Agosto de 1974 e inserida no volume 66, aparecia uma sequência de seis páginas da historieta do tenente Blueberry, L´Outlaw.

Essas seis páginas ainda assinadas por Gir, pseudónimo de Giraud, marcam uma nova forma de desenhar o western, na sequência de outras histórias anteriores, como Ballade pour un cercueil; Chihuahua Pearl e L´Homme qui valait 500 000 dollars ou ainda Angel Face, a última desta saga. Qualquer uma destas histórias de western, interligadas na intriga, valem um bom filme do género e o desenho, é dos melhores que Giraud jamais produziu.

Gir era Giraud, aliás Moebius. Tal como Numa Sadoul o retratrou num livro de época, de 1976, com desenho de capa de...Tardi. Em 1991, voltava ao tema e recolhia em volume de luxo, várias entrevistas, incluindo as do primeiro volume e ainda desenhos do mestre.


As duas primeiras pranchas de L´Outlaw de Blueberry:



Jacques Tardi, encore

Jacques Tardi, em 1976, iniciava a publicação da saga das aventuras de Adèle Blanc-Sec, uma heroína, nada como as outras e que viu a luz, pela primeira vez e em continuação, no jornal diário Sud Ouest. O primeiro volume da série, Adèle et la Bête ( Adèle e o Monstro), saiu em álbum cartonado, publicado nas edições Casterman, nesse mesmo ano.

Adèle congrega nas historietas, o mesmo ambiente de uma Paris, de início do séc. XX, com personagens estranhos e lugares míticos.

Depois das histórias de Brindavoine e a sua introdução, em 1974, com a historieta A Flor na Espingarda, a mudança afigurava-se auspiciosa. Tardi, disse depois, numa entrevista, que Adèle era o contraponto feminino à personagem de Brindavoine e numa época em que as mulheres na banda desenhada, se apresentavam de preferência despidas, era refrescante para a imaginação, poder olhá-las de outra maneira.

Ainda em 1974, Tardi, publicava a história Le Démon des Glaces, em álbum cartonado na Casterman e a preto e branco, com inspiração saída das ilustrações de Gustave Doré.


Aqui fica a continuidade da história da Flor na espingarda, de uma poesia literalmente desarmante e que resume quase toda a obra de Tardi.












































Uma flor na espingarda

Jacques Tardi, o autor da capa da primeira ( A Suivre), é um autor francês de Banda Desenhada, nascido em 30 de Agosto de 1946, da craveira dos maiores.

Em Junho de 1974, por ocasião de uma visita à Bertrand de Lisboa, em Junho, havia um filão escondido na secção de banda desenhada da velha livraria da rua Garrett. Uma série de álbuns cartonados que recolhiam vários números da revista Pilote. O primeiro escolhido ( ao preço de 115$00) , com o número 65, abarcava os números 688 a 697, de 11.1.1973 a 15.3.1973.

Em Fevereiro de 1974 ( nº 745) , tinha começado a comprar a revista, semanalmente, porque me interessavam já as novas experiências desenhadas, para além do Tintin- com história na Porta de Loja.

Nesse mesmo mês de Junho de 1974, porém, simultaneamente com a descoberta nos arquivos da Bertrand, a revista passava a periodicidade mensal, e o primeiro número, nesse novo formato, foi uma magnífica surpresa, com a descoberta das primeiras ilustrações de Moebius que começava a largar o espartilho do realismo de Blueberry, para se lançar na ilustração de pequenas histórias de ficção científica.

A Pilote novo formato ( imagem da direita), no entanto, não acompanhava em recheio artístico a anterior experiência que só agora descobria por via dos álbuns de recolha de números antigos que ainda havia disponíveis pelas Bertrands do país. Foi assim que em poucos meses, apareceram mais alguns volumes até ao número 749 de 14.3.1974 e abrangendo já alguns números que comprara em avulso.















Nessas revistas descobri pela primeira vez, entre outros que ainda não vira no Tintin português , Fred, Solé, Mandryka, F´Murr, Bilal, Druillet e …Tardi, que publicava a primeira historieta – Adieu Brindavoine, precisamente nos números do volume 65, da Pilote.

Porém, no volume 70, no nº 743 ( de 31.1.1974), uma pequena historieta sobre a I Grande Guerra mundial, assinada pelo mesmo Tardi, deixara-me então completamente embasbacado, pela cor, pelo tratamento da imagem e pelo tema desenhado. Ficam aqui as primeiras quatro imagens que continuam, a seguir. Até chegarmos a 1976 e às historietas da Adèle "joli brin de fille" Blanc-Sec.














La Fleur au Fusil













































Imagens: capas do volume 65 da Pilote e do primeiro número da série começada em Junho de 1974. Duas páginas da Rock & Folk de Setembro 1976, sobre Tardi e o começo das aventuras de Adèle Blanc-Sec e quatro da celebrada historieta de Tardi, La Fleur au fusil ( que continua)

sábado, 25 de agosto de 2007

Uma parábola sobre a fantasia


A revista (A Suivre), publicou o primeiro número em Fevereiro de 1978 e foi uma novidade de tomo no universo da banda desenhada franco-belga. Nessa época, ainda a passar uma fase de ouro, com novos autores a aparecerem no panorama de outras publicações como a Métal Hurlant, surgida em 1975 e a Pilote que se aguentava desde os anos sessenta, para não falar do Tintin que sobrevivia desde sempre, a banda desenhada, merecia atenção.

Na (A Suivre), toda a preto e branco, Jean-Paul Mougin, prometia dedicar as páginas ao “récit”, à narrativa, “sous toutes ses formes”. Não existe povo sem narrativas, e estas chamam-se mitos, lendas, história, romance, banda desenhada, escrevia o primeiro chefe de redacção da revista. Que contava com o nome de Etienne Robial, o genial designer gráfico da Métal Hurlant e cultor das letras em forma sólida e ampliada e do traço grosso, a negro, a separar os artigos e o enquadramento das colunas de texto.

O primeiro número da revista trazia o início da historieta de Tardi e Forest, Ici Même e ainda, entre outras, Corto Maltese, de Hugo Pratt, na aventura na Sibéria, onde aparece um certo Rasputine.

O último número da revista, foi em Dezembro de 1997, quase vinte anos depois. Nela se publicam várias historietas curtas de vários autores de bd. Um deles, Moebius,( que desenhava para a Métal Hurlant), desenhou estas oito páginas que seguem e que são uma parábola sobre o mundo pessoal da fantasia. Um mundo, onde um simples gesto muda um universo.